Não

Nicholson

Queres…
– Não.
– Mas eu ainda não disse o que…
– Não.
– Deixa-me ao menos…
– Não! Não e não. Já disse. E seja o que for, é não!

Desiludam-se os que pensam que noutra língua – seja o grego ou o alemão -, este diálogo jamais poderia ter lugar. Não há o trovão de uma língua no mundo, uma linguazinha, um dialecto, uma sumida e surrada soma de sons sistematizada, que não se gabe, orgulhe, vanglorie da sua inequívoca capacidade de negar.

Mas assim ladrada, ão, ão, ão, só mesmo em português…”, sugerem-me, esperançados, os estetas deste blog. Não sou especialista, mas garantem-me os que têm a filologia debaixo da pele que NÃO é bem assim. Para negar, nenhuma língua tem a vergonha do Pedro que três vezes negou antes que o galo cantasse. Para negar, qualquer língua, toda a língua, abre bem a boca, redonda, sonora, evitando que restem dúvidas entre locutor e auditor: NÃO. Ouviste? Não. Não é não. Quer dizer, não é sim, é NÃO.

Um NÃO que seja tomado pelo seu contrário é o princípio da macacada e o fim da picada. Ser plena e categoricamente negativo é o grito de Ipiranga de qualquer língua. Há cambiantes, nuances, mariquices e outras grandessíssimas chatices quando se trata (só) de afirmar. Entendidos, subentendidos, mal-entendidos é a selva afrodisíaca da afirmação.

Mas negar é NÃO, é um ponto final, uma recusa, uma falta de tusa. Os franceses, insuportáveis cartesianos, para evitar falhas no sistema, ao non, que como nós herdaram do latim, acrescentaram uma espécie de apostas múltiplas, na linha do euromilhões, desdobrando o irrefutável monossílabo num ne qualquer coisa pas. “Querias, não querias, filho? Pois bem, ouves o ne e já sabes que estás a ir de patins, mas quando te der com o pas é como se um tijolo te tivesse caído em cima!

As línguas evoluem. Para afirmar arranjam-se circunlóquios, solilóquios, e outras equívocas formas que matizem o dito e dêem uso à hermenêutica. Para negar, todas as línguas se juntam no mais obsceno dos partouze para reforçar o NÃO, NON, NE qualquer coisa PAS.

Vigoroso e audível: NEIN! NOT AT ALL! ÜBERHAUPT NICHT. NON…MICA. Melhor só o chinês BÌNGBÚ que não só é não, como é não e um veemente “não, contrariamente ao que Vossa Excelência na sua retorcida mente pensa, e limpe-se lá a esta toalha que não o quero envergonhar.

Porque, sim, há línguas que levam o negacionismo à perfeição. Em português, por mais que tente não arranco um verbo que seja o contrário de “ser”. Tenho de recorrer à muleta, ao redondinho advérbio “não” para dizer o “não-ser”. Húngaros, coreanos, árabes, indonésios e turcos – e deve haver mais – ao NÃO gritado somam a invenção de verbos originais que são a negação de verbos como ser e haver. Em Istambul deģil é “não-ser”, enquanto dir é o shakespeareano “to be”. Um luxo asiático.

Estando perfeitamente a par das discussões que desarvoradamente correm por este mundo sobre passado, presente e futuro e a respectiva ontologia e extensão, há línguas que se armaram de verdadeiros varapaus negativos, negacionistas ou o lá o que seja, distinguindo entre o não ao passado e o não ao futuro. Lan é uma partícula de negação que os árabes reservam para o futuro, do mesmo modo que os chineses negam o passado com méi e o futuro-presente com .

Acho mesmo muito bem: o presente, o futuro? Bú.

Mãozinha chinesa

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 4 de Agosto

livros

Debrucemo-nos sobre o passado e espreitemos o século XII. Vejam como a escrita sai dos mosteiros, da mão dos monges, e passa devagar para a mão do povo. E agora viremo-nos para a China: um século depois, o XIII, veio de lá o papel. Foi esse casamento, ler, escrever e ter papel, que fez a parte gloriosa da nossa civilização. Hoje, os ecrãs americanos e chineses, Apple e Huwaei, tomaram conta das nossas vidas e das dos nossos filhos.

Dádiva chinesa, o papel morre e com ele morre também uma forma de vida, os jornais e o livro. A China tira-nos com a mão esquerda, mãozinha digital, o que há oito séculos nos deu com a mão direita.

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Manifesto – Pelo Que Nos Resta

Este texto não é meu. Escreveu-o André Fontes, muito jovem autor de Saturnália, o seu primeiro romance. Um romance convulso, carnal, inquieto. Neste Manifesto, André Fontes fala aos seus contemporâneos. Há alguém nesta imensa sala que não o queira ouvir?

«Temos preferência por candidatos licenciados em Turismo», li num anúncio de recrutamento para o McDonald’s.
São estes os meus tempos. Não são o melhor desfecho para duas décadas de estudo, mas são tão reais quanto confusos.
Faço parte de uma juventude formada para o sucesso.
Sou o resultado de uma educação genuinamente democrática, na qual não me educaram para falhar.
Nunca um professor me falou da probabilidade de vir a grelhar hambúrgueres para um patrão mais velho e menos educado do que eu. A faculdade não me ofereceu mais do que uma preparação para a vida académica. Por lá, propagou-se uma ideia simples: depois da licenciatura, o mestrado, seguido do doutoramento, findando numa carreira de investigador com a regalia de um generoso ordenado.
Numa sala com mais de 20 alunos, a maioria deles medíocres, a expectativa do mais alto sucesso foi a única a ser transmitida. Isto das poucas vezes em que nos falaram do futuro – tema que os professores universitários evitam a todo o custo. O truque é não falar no assunto e deixar que os licenciados partam para a vida, numa sucessão de trabalhos precários de pagamento mínimo, e que preencham um questionário acerca da empregabilidade pós-universitária. Desses questionários infere-se o seguinte: a maioria dos cursos resulta na empregabilidade dos seus formados; o ensino, nas mais diversas áreas, resulta.
E lá seguimos nós, rumo aos 30, saltitando de trabalho em trabalho, financeiramente impotentes para nos divorciarmos dos nossos pais. Moralmente falidos, também.
Restam-nos as ajudas de custo para que dividamos um apartamento com estranhos e as ninharias que vamos acumulando para ficarmos bêbados ou pedrados nas noites de sexta e de sábado, ou para apanharmos um voo low-cost para uma capital europeia e lá ficarmos durante cinco dias, ou para enchermos a cabeça de MDMA num festival de Verão e festejarmos as adolescências prolongadas que tanto condenamos.
Acreditamos que, com a nossa idade, os nossos pais estavam melhor. Aos 25, tinham eles uma casa, um carro, um casamento e um filho, e sustentavam-se com um emprego que lhes prometia uma carreira, por mais aborrecida que fosse, rumando aos 30, planeando um outro filho. Muitos deles divorciaram-se antes dos 40.
Hoje, o modo de vida dos nossos pais só a eles pertence, e está-nos tão selado quanto um regresso ao passado.
É complicada a nossa relação com o passado. Por um lado, e por incentivo escolar, reconhecemos nele uma série de horrores e injustiças para com o homem comum; de modo que facilmente nos deixamos seduzir pela ideia de que a história tem sido, e que deve ser, um progresso material e moral. Por outro, deixamo-nos encantar pela sua aparente simplicidade. Isto acontece especialmente com o passado menos distante, ao qual facilmente acedemos pelo YouTube: são tão simples aqueles tempos capturados por uma lente de oito milímetros, e tão melhores as bandas sonoras desses tempos que, ao contrário dos nossos, parecem ter sido o palco de grandiosos eventos e da construção
de um classicismo.
Tivéssemos nós a sorte de termos um Woodstock, ou de sermos realmente revolucionários como os hippies ou como os punks, ou tão perigosos como os primeiros rappers, que ostentaram réplicas de metralhadoras em entrevistas de horário nobre. Mas não, não temos essa sorte.
Pior do que isso: herdámos as revoltas dos nossos pais. Revoltas por liberdades que já temos.  Podemos ter sexo com quem quisermos e consumir as mais variadas drogas pelo nariz, pelo rabo, ou tacteando um comando wireless enquanto comandamos o destino de algo que só vive num ecrã.
Todos sabemos ler, praticamente. Pelo que não nos resta lutar pelo direito à educação.
Entre nós, poucos são os que não têm um computador ou um telemóvel que acede a um universo de informação mais rico do que a Biblioteca de Alexandria.
Tampouco nos resta lutar pela liberdade de politizarmos a nossa insatisfação. Crescemos em democracias cimentadas e podemos queixar-nos do que quer que seja, culpando tudo, para além de nós próprios, pela dor de viver.
Não há muito por que lutar quando crescemos com o direito de confundir qualquer privilégio com um direito. A nossa luta, a única que nos resta, é pela felicidade contínua.
Mas olhemos para o passado. Olhemos para o mais longínquo passado, para a pré-história, sigamos
o curso da evolução até aos nossos dias e testemunhemos que a narrativa da nossa espécie tem sido a de uma luta pela condição que nos perturba: a condição de quem já não teme a fome, mas a insignificância.
E que não nos escape o facto de que toda a vida neste planeta tem sido uma luta por condições estáveis, como esta, e que sair vitorioso dessa luta é a maior vitória de uma espécie.
Contrariamente aos milhões de organismos que vão simplesmente desaparecendo, nós, seres humanos, continuamos a prosperar.
Apesar do nosso horizonte de conhecimento, apesar de conhecermos mais línguas, mais lugares, mais formas de pensamento e de comunicação do que os nossos predecessores, apesar de sermos abastados de comodidades e abençoados por tecnologias que nos servem melhor do que escravos, escapa-nos, ainda assim, o simples facto de que o Universo não torce pela nossa vitória e de que nada, absolutamente nada, nos é devido.
Esse facto foi-nos ocultado pela educação que recebemos. Tendo-nos sido ensinado de boa-fé que a história é um progresso, pareceu-nos lógico que, se os nossos pais tiveram um emprego de escritório e uma casa confortável, nós deveríamos ser importantes cientistas, ou empresários de sucesso, ou artistas revolucionários, ou celebridades de qualquer tipo a habitar casas maiores do que as dos nossos pais, na companhia de belíssimos e excitantes parceiros, com os quais geraríamos filhos melhores do que nós.
E porque acreditámos nisso, o resultado da nossa educação é o fracasso.
Assim sendo, o que nos resta?
Muita coisa.
Resta-nos não aceitarmos ser representados por modelos pedagógicos que se proclamam bem-sucedidos.
Resta-nos denunciar as tensões do ensino obrigatório e superior.
Resta-nos redefinir o que significa ter 20 ou 30 anos.
Resta-nos usar o nosso fácil acesso ao conhecimento para nos resignarmos ao facto de que o animal humano foi feito para perseguir a felicidade, não para a encontrar.
Resta-nos romantizar o passado, consciencializados de que não podemos fazer dele o presente.
Resta-nos colher do passado o que mais gostamos, e com isso construir um futuro.
Resta-nos assumir as nossas prolongadas juventudes e cometer os erros que os nossos pais tanto quiseram cometer.
Resta-nos fritar hambúrgueres, para depois abastecermos as prateleiras de um supermercado, para depois servirmos à mesa, para que, no fim do dia, não seja o nosso emprego que nos define e para que nos livremos da ideia de que uma carreira pode satisfazer as condições de uma vida consumada.
Restam-nos o Tinder e um extenso leque de oportunidades para conhecermos novas pessoas e para nos comprazermos de diferentes formas, evitando os custos dos compromissos vitalícios que, por tendência, falham, traumatizando quem vem ao mundo por causa de um amor juvenil.
Resta-nos perseguir a promiscuidade até que só o amor faça sentido.
Resta-nos experimentar os conceitos de família e de comunidade com o que temos à mão, seja os nossos amigos, os nossos pais ou um conjunto de estranhos com os quais comunicamos através de telemóveis.
Resta-nos representar artisticamente os nossos tempos, trazendo ao mundo os seus novos clássicos do cinema, da literatura, do teatro ou da música, sem o medo de usarmos a nossa linguagem e as paisagens que nos circundam.
Resta-nos afirmar o caos e a beleza dos nossos tempos, não esquecendo, sobretudo, a beleza.
Resta-nos estar atentos aos nossos festivais e pequenas festas, que superam qualquer Woodstock em expressão artística e liberdades – poucos foram os que se sentiram num epicentro cultural quando o
Jimi Hendrix subiu a um palco de madeira para tocar o hino americano; a maioria dos festivaleiros que a isso assistiu estava pedrada com ácidos e a pensar no que fazer a seguir, tal como tu no último Super Bock.
Resta-nos, sobretudo, apreciar as possibilidades do presente e não nos convencermos de que o passado é intrinsecamente melhor porque já passou.
E resta-nos bem mais do que isto.
Uma vez, por volta da meia-noite, a Rua Cor-de-Rosa revelou-se-me a última grande consequência da nossa história. Enquanto a percorria com os meus amigos, passando uma ganza de trás para a frente, despreocupadamente, contemplando as filas para entrar nos sítios onde ritmos se misturam com gritos, dei-me conta de que a minha Lisboa não é a mesma que a dos meus pais.
A minha Lisboa está repleta de internacionalismo, de contrastes sonoros e visuais, e de uma promíscua variedade de possibilidades.
Os brandos costumes ficaram para trás. E depois de a Rua Cor-de-Rosa ter ficado também ela para trás, de termos cortado à direita, de frente para o Cais, de termos entrado na 24 de Julho em busca do meu carro, que ficou em Santos por causa da falta de lugares, e de me ter dado conta de que a nossa conversa se tinha prolongado por mais de um quilómetro, tendo-se centrando na indecisão entre irmos ao Lux, a um clube de sexo nos Anjos ou para casa fumar mais umas e ver o que acontece, apercebi-me de que o nosso maior problema é escolher.
Ninguém nos preparou para as consequências destas escolhas.
A vida para a qual nos educaram não existe.

André Fontes

A esquizofrenia

Bica Curta servida no CM; 3.ª feira, dia 3 de Agosto

Dansgelegenheid Balajo

Em política, intelectuais e certas camadas ilustradas pensam melhor com o corpo do que com a mente. Lembro as escolhas dos intelectuais europeus no século XX: preferiram defender o comunismo soviético, apesar da repressão pidesca, fome e flagrantes carências, atacando as vergonhas do capitalismo. Escusado é dizer que para o corpinho deles, para os seus mimos e forma de viver queriam era aconchegar-se no capitalismo que condenavam.

A farsa repete-se. Levantam-se bandeiras alternativas, igualitarismos, fogo no rabo do mercado, mas é na segura abundância de países de mercado aberto que sabe bem viver. Corpo e mente não se entendem.

Saturnália, um romance

Se não fosse imoral não queríamos! Mas o primeiro romance de André Fontes, «Saturnália», é imoralíssimo e é também o primeiro romance millennial da literatura portuguesa.
O romance? Somos nós, é o nosso retrato: bem-vindos a esta Saturnália moderna, carregada de erotismo, boémia e angústias de uma nova geração num mundo igualmente novo. Precária em erário mas abundante em avidez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 17 nas livrarias, dia 27 no Anjos 70, em Lisboa. Um livro e uma festa para os quais ninguém está realmente preparado

Enigmas e haikus

 

Bebedor Nocturno

 

Por pudor ou liber­dade, Her­berto Hel­der diz na capa que são poe­mas muda­dos para por­tu­guês. O livro chama-se, uma ima­gem feli­cís­sima, “O Bebe­dor Noc­turno”. Nele se reu­nem poe­mas mexi­ca­nos e can­ções indo­né­sias, enig­mas maias e hai­kus japo­ne­ses. Em todos per­passa a lín­gua por­tu­guesa naquela forma única que ganha quando Her­berto a escreve ou diz. É um livro que paira num lugar inlo­ca­li­zá­vel: está acima da cul­tura, da lite­ra­tura, da aca­de­mia, situando-se na nómada curva da alegria.

Volto a lê-lo, em meias-horas de volú­pia silen­ci­osa, tão dife­rente e tão igual ao riso com que, no pri­meiro ano da década de 70, entre Luanda e a barra do Kwanza, o lia aos gri­tos na areia a fer­ver das praias do km 36 ou, Jesus Cristo sobre as ondas, no kayak a des­li­zar sozi­nho pelas águas quase rasas dos mangais.

Por exem­plo, tão bonito este enigma asteca:

– Uma coisa que vai pelos vales fora, batendo as pal­mas das mãos como uma
mulher que faz tor­ti­lhas?
– A bor­bo­leta voando.

Ou então este haiku:

Libé­lula ver­me­lha.
Tira-lhe as asas:
Um pimen­tão.

Foi o que, cor­ri­gindo a natu­reza, escre­veu Kikaku. Mas logo o sábio Bashô lhe cor­ri­giu a correcção:

Pimen­tão ver­me­lho.
Põe-lhe umas asas:
Libé­lula.

E é Bus­son que, pela mão, põe a minha feli­ci­dade de lei­tor na sua ver­da­deira casa:

Ah, o pas­sado.
O tempo onde se acu­mu­la­ram
os dias lentos.

O mais belo conto de Herberto Helder

Faço-vos um desa­fio.
Com­prem “
Os Pas­sos em Volta”, de Her­berto Hel­der. É um livro de con­tos. Incur­são rara do poeta na prosa nar­ra­tiva. O mais pró­ximo que ele terá estado de um romance.
Já compraram? Óptimo, leiam agora, de “
Os Pas­sos em Volta”,
um conto, o mais belo de todos os con­tos, leiam “
Polí­cia”. Conta-o um por­tu­guês, clandestino, em Bru­xe­las, na imi­nên­cia de ser, por­ven­tura, expulso.
E agora, que já com­pra­ram “
Os Pas­sos em Volta” e já leram “Polícia, podem ler, embora não pre­ci­sem, a pie­dosa e devota prosa que se segue.

Passos

Eu era então muito novo. Aprendi a sole­trar o amor nos onze pará­gra­fos das cinco páginas de um conto cha­mado “Polí­cia”. O amor ficou-me para sem­pre assim, a mulher nua dei­tada sobre um cober­tor, gotas de chuva a des­li­zar nos vidros da janela.

Em fra­ses cur­tas, que uma pequena e amá­vel iro­nia ace­lera, o conto des­creve Bru­xe­las, o papel ambí­guo de um pro­tec­tor petit Mon­si­eur Leclercq, antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e funcionário  do par­tido comu­nista, a penú­ria do pro­ta­go­nista que alguns bis­ca­tes mal iludem.

É um clan­des­tino que fala. Tem uma voz serena, objec­tiva. Con­fia, percebe-se, no movimento que os tem­pos ver­bais dão às fra­ses: “Eu dese­java tra­ba­lho, ape­nas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu pro­tec­tor, um fla­mengo que amava a cer­veja forte, pertencera  à Resis­tên­cia.” Dese­jar, amar e per­ten­cer são os dína­mos de fra­ses humil­des, manu­ais dir-se-ia. As fra­ses vão por onde os ver­bos as mandam.

É um por­tu­guês e deam­bula pela cidade, perto da esta­ção, entre as luzes das ruas e o ruído dos com­boios de mer­ca­do­rias. Tal­vez por­que ter dinheiro no bolso seja tão acidental, o nar­ra­dor clan­des­tino poupa nos adjec­ti­vos. Escas­sez na vida que reper­cute na lumi­nosa escas­sez da prosa. Ainda assim, diver­tido ou ino­cente, autoriza-se (uma vez ape­nas, no pri­meiro longo pará­grafo de 42 linhas) um aceno con­tido de trans­cen­dên­cia: “Às vezes eu fazia com estes ele­men­tos estran­gei­ros um lirismo vaga­bundo e puro.

Eu era então muito novo e ao ler “Polí­cia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos tra­ba­lhos tem­po­rá­rios, beber cer­veja, dan­çar num bar da Chaus­sée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobre­tudo pela abso­luta cons­ci­ên­cia de si deste clan­des­tino a quem le petit Mon­si­eur Leclercq acon­se­lha a fugir para a França, Ale­ma­nha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.

Con­ge­ni­ta­mente ide­a­lista, “Polí­cia” é um conto em que os con­tor­nos da cidade, a espessura dos vul­tos que pas­sam, das abun­dan­tes pros­ti­tu­tas, só ganham con­cre­ção dentro da lin­gua­gem e da soli­dão do herói clan­des­tino. Quase ouço o nar­ra­dor responder-me: “Tam­bém me sen­tia absur­da­mente entu­si­as­mado com a soli­dão.” Tal­vez le petit Mon­si­eur Leclercq não saiba, mas se o clan­des­tino par­tir, a cidade desa­pa­rece. E não, não me parece que Mon­si­eur Leclercq o saiba: antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, o monismo ide­a­lista é-lhe estranho.

Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incon­des­cen­dente cons­ci­ên­cia de si. Mais abis­mado fiquei ao ver, no segundo pará­grafo, o herói clan­des­tino criar uma segunda cons­ci­ên­cia, desen­can­tado comen­tá­rio de si mesmo. É uma manhã de Dezem­bro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela pri­meira vez sur­gir, entre parên­te­sis, a segunda camada de cons­ci­ên­cia de si, filo­só­fica, quase sem­pre inter­ro­ga­tiva. Uma segunda consciência  que é, por­ven­tura, mais o resul­tado de uma ele­gante dis­cri­ção, quase timidez, do que um arti­fi­cio lite­rá­rio. Leio e pergunto-me se o herói clan­des­tino não terá cri­ado esta segunda vaga da cons­ci­ên­cia de si como pre­texto para intro­du­zir Anne­ma­rie. É Dezem­bro e chove, diz ele, para logo deri­var, auto-comentando-se “(eu fala­ria depois a Anne­ma­rie da chuva lenta, paté­tica)”. E deixa-a ali, sus­pensa, mis­te­ri­osa, para só vol­tar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.

Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Anne­ma­rie, fran­cesa de Lyon, tão clan­des­tina como o nar­ra­dor por­tu­guês: “Anne­ma­rie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas abso­lu­tas cons­ci­ên­cias de si, irre­du­tí­veis, sen­ta­das ao bal­cão de um bar de Bru­xe­las, em frente a dois “belos copos de cer­veja fria”. Bebem na soli­dão um do outro.

Eu era então muito novo e pareceu-me peri­goso e sub­ver­sivo este clan­des­tino encon­tro de cons­ci­ên­cias num chu­voso fim de tarde estran­geiro. Seria absurdo que a polí­cia não os per­se­guisse. A polí­cia, esse dese­já­vel escru­tí­nio da ile­ga­li­dade, é a única forma de os dois clan­des­ti­nos terem a cer­teza que arris­cam a liber­dade. A única certeza.

“Polí­cia” começa numa deli­ques­cente manhã de Dezem­bro, em Bru­xe­las. Ter­mina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor incon­ce­bí­vel” nesse quarto onde duas soli­dões falam “lon­ga­mente da chuva, do amor e das leis.

Em dois demo­ra­dos pará­gra­fos ini­ci­ais e nove mais cur­tos, poé­ti­cos, pará­gra­fos finais, “Polí­cia” é um lapi­da­dís­simo dia­mante nar­ra­tivo. O ritmo do fra­se­ado, a pre­ci­são lexi­cal, o dis­creto bri­lho meto­ní­mico, a fru­gal suges­tão ima­gé­tica estão inven­ci­vel­mente acima da tan­tas vezes pas­tosa nar­ra­tiva por­tu­guesa. É só lite­ra­tura, dir-me-ão aque­les que razoa­vel­mente pen­sam ser a lite­ra­tura coisa pouca. Que inte­ressa? Eu era então muito novo e “Anne­ma­rie puxou-me para den­tro e amámo-nos sobre o cober­tor até de manhã.

Neste meu comentário, reporto-me à versão original do conto, publi­cada pela Portugália  Edi­tora, em Março de 1963,  a 1ª edi­ção do livro. A que eu tenho e cuja capa está fotografada lá em cima.

Chuva
Chuva numa janela, de Ani­mesh Ray

How are you this morning, Mr. Mitchum?

O meu anti-herói favorito também canta. Vamos já ouvi-lo. Primeiro, como se fosse preciso, apresento-o, até por tê-lo conhecido em Tróia, aquela península ali mesmo à frente de Setúbal – como o Setúbal, o meu velho kamba, António Gutierres, atestará no primeiro tribunal ou juízo de Deus a que nos convoquem.

Bob Mitchum, um rio tranquilo. Talvez, por isso, podia beber sem limites. Sidney Pollack, que o dirigiu, diz que bebia o dia todo sem que o nível de consciência e de comportamento se alterassem.

MItchum_child
nasceu cansado

Menino bem nascido, nasceu cansado. E era esse o segredo das suas personagens: homens robustos, sólidos como armários, mas cansados, cansados demais para esconder que havia muitas outras coisas para além do que as suas palavras lentas e os gestos quase inexistentes deixavam transparecer.

Percebe-se, de Out of the Past a Angel Face, que a emoção de Robert Mitchum é uma emoção ferida. Se lhe dissessem que era inexpressivo não negaria, mas auto-explicava-se com uma teoria mais zen: “Look, I have three expressions, looking left, looking right, looking straight ahead”.

Mitchum
looking straight ahead

Tinha um metro e oitenta de falsa timidez, cabelos escuros e olhos azuis. Não ia ter com as mulheres porque as mulheres vinham ter com ele, mas casou um casamento de 57 anos com a namorada de juventude. Em Farewell my lovely, o personagem dele engata uma incendiária Charlotte Rampling:
– “My place?”, diz ele.
– “What for? You got everything we need with you”, sossega-o ela.
Dois anos antes de morrer, em 1995, Jim Jarmusch dirigiu-o em Dead Man. Deram-se bem. Jarmusch conta 123 histórias dele, mas a favorita é uma blague. De manhã, quando se encontravam no estúdio era sempre assim:
– “How are you this morning Mr. Mitchum?”
– “Worse.”