Já está nas livrarias a revista Granta. A convite de Pedro Mexia, escrevi um texto sobre a experiência da sala de cinema. A escrever um texto teórico preferi servir-me da minha realíssima e concreta experiência e escrevi um texto autobiográfico. Deixo aqui um pequeno excerto.
Façam o favor de comprar a revista para eu não ficar mal visto…
Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.
Nesse tempo ainda se ia à pesca. Foi há menos de um século, começo dos anos 30, que o escritor William Faulkner e o realizador Howard Hawks foram à pesca. Levaram o actor Clark Gable. Gable não sabia que Faulkner era um escritor, mas cheirou-lhe a intelectual e perguntou quem eram os melhores escritores. “Hemingway, Willa Cather, Thomas Mann, John dos Passos e eu” respondeu Faulkner, incluindo-se, sem falsa modéstia. Gable ficou de boca aberta: “Você escreve, Mr. Faulkner?” “Sim, Mr. Gable. E o senhor o que faz?”
Antes de conhecer Faulkner, Hawks lera um livro dele, “Soldier’s Pay”, e proclamou em Hollywood que descobrira o mais talentoso escritor daquela geração. Quem conhecia a sua inclinação para reconhecer talentos, levou-o a sério e correu às livrarias. Já Faulkner publicara um novo romance, “O Som e a Fúria”, obra-prima que confirmava tudo. O nome do escritor começou a encher mais bocas do que as braised short ribs of beef do velho Musso & Frank Grill, o Gambrinus da Hollywood da época. E logo essa insaciável Hollywood o convidou. Aceitou e as vestais da literatura hão de sempre chorar a vil traição e achar que foi um desperdício, uma imoralidade.
Outro escritor, Raymond Chandler, a quem quase tudo correu mal em Hollywood, se calhar por ter investido mais nos dry-martinis do que nas short ribs of beef, parece confirmar o tremor e temor dos moralistas: “Se os meus livros tivessem sido só um bocadinho piores eu nunca teria sido convidado para Hollywood. Se tivessem sido só um bocadinho melhores não teria precisado mesmo de vir.”
Não peçam arrependimento e ranger de dentes a Faulkner. Com o diáfano sentido prático de quem monta uma geringonça, Faulkner garantiu que “escrever por dinheiro não é propriamente prostituir o talento, mas apenas encurtar as frases.”
Voltemos à pesca. A amizade de Hawks e Faulkner foi mais longa e bela do que a de Bogart e Claude Rains, em “Casablanca”. Não obstante, a colaboração deles não escapa a alguma artística ambiguidade. Faulkner queria escrever com a técnica do cinema europeu experimental e vanguardista dos anos 20. Muita montagem, flash-backs, justaposição de realidade e fantasia. Mas Hawks explicou-lhe que talvez não valesse a pena o esforço, tendo em conta a tortura que ia dar, como realizador, ao que Faulkner escrevesse: “Espremo-te a história que é a primeira coisa que quero. A seguir, quero personagens. Depois passo por cima de tudo o que tu pensas que tem interesse.”
Faulkner foi o escritor que mais bem resistiu a Hollywood. Em Fevereiro de 1949, a MGM pagou-lhe o que era então a milionária fortuna de 50 mil dólares pelos direitos de “Intruder in the Dust”. O livro só tinha saído há um mês. Faulkner desatou a correr pela Sunset Street: “Tenho direito a embebedar-me e a dançar descalço.”
E falta-me falar, nesta crónica de pesca à linha, de outro pescador, Hemingway. Era também amigo de Hawks. Hemingway riu-se quando Hawks lhe disse que faria um bom filme do pior livro dele. “Qual é o meu pior livro?”, perguntou. E Hawks: “Aquele pedaço de lixo chamado ‘To Have and Have Not’.” Hemingway concordou e apostou: “Ninguém consegue tirar um filme daquilo”. “OK – disse Hawks – arranjo o Faulkner para o reescrever. Seja como for, ele escreve melhor do que tu.”
O que terá sentido Hemingway? Ciúme ou lisonja? Ele e Faulkner admiravam-se e temiam-se. Aposta feita, nasceu o filme. “To Have and Have Not”, obra-prima, é o filme pedaço de céu em que nasceu, de um assobio, o amor de Lauren Bacall e Humprey Bogart.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios
Tenho andando numa azáfama do caneco. Sabe-me a vulcão em erupção. Mas não sei se é bom para a minha idade. Assim como assim, deixei esfriar as bicas de há duas semanas. Aqui estão elas.
Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 15 de Outubro
A Natureza
Por falar de natureza. O meu pai sabia coisas pelo vento, sol e nuvens, se ia chover, se era meia-noite ou meio-dia. Sou de uma geração que soube tudo pelos livros. Muitos livros que li amavam o ar alto que roça o céu, a fímbria do mar, o capim do mato. Num livro do Oeste Selvagem, “Desert Gold” de Zane Grey, literatura de terceira classe, havia um índio yaqui que se fundia com a noite, com o rumor de um rio, com os cactos do deserto, num panteísmo de aventura e risco. Falhei a vida: eu nunca quis nem quero ser nenhum livro. Eu queria ser o índio – e hoje sei que nunca o serei.
E pronto, já falei de natureza – e do meu pai.
Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 16 de Outubro
Umas estátuas
E se o debate político bebesse um jarro de detox? Ou, à ordem dos meus avós Isaura e Brigas, fizesse uma purga? Queixamo-nos da língua grossa de André Ventura. Mas mesmo a linguagem do debate entre esquerda e direita democráticas é um estrugido de populismo.
Vítor Gaspar e Mário Centeno mereciam duas estátuas pela restauração das nossas finanças. Passos Coelho e Costa mereciam outra, a de Passos dois dedos maior do que a de Costa: tiraram-nos da bancarrota. Começar por saudar o óbvio no campo democrático talvez ajudasse a estancar a avassaladora suspeita de café, táxi e facebook de que os políticos são só e apenas corruptos.
Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 17 de Outubro
Qual fogo, qual nada
Apetece ir tomar a bica à universidade de Stanford nos Estados Unidos. Cientistas e engenheiros desenvolveram uma espécie de gel, à base de fosfato de amónio, que pode ser facilmente pulverizado em vastas áreas de floresta sujeitas a alto risco de incêndio, impedindo o aparecimento de fogos. Mesmo que venham chuvadas malucas o gel resiste e não deixa que o fogo se propague. Este gel dá beijinhos a Mário Centeno: é barato e fácil de aplicar. E dá beijinhos ao ambiente: não é tóxico, feito de produtos da indústria alimentar e médica. Basta pulverizar zonas de risco e a sua acção é garantida por meses. Nunca o fogo viu nada assim.
Esta tem dedicatória: ao meu amigo Victor, em lembrança de um almoço confessional
Tiananmen é uma criação platónica do meu amigo Victor. A vagarosa humanidade abriu os olhos, espantada, em 1989, para os protestos na poética Praça da Paz Celestial, em Pequim. E abateu-se sobre as nossas almas o silêncio frio que precede a tragédia, quando um solitário cidadão chinês, singela camisa e calça, opôs a sua humilde fragilidade tolentina ao poder dos explicativos tanques que o comité central mandou para dissuasiva conversa com o povo da rua. Dancin’ in the street, o mundo assistiu então ao bailado de um homem e um tanque, pas de deux de canhão apontado, que tornou obnóxia e risível a velha arte de Fred Astaire, Gene Kelly e Cyd Charisse.
Ontem, num desses almoços em que só se serve o húmido empadão do passado, mousse de nostalgia à sobremesa, soube que, antes de Tiananmen, a matriz dessa arriscada e épica dança nascera em Luanda, no dia 27 de Maio de 1977. Dançou-a o Victor, meu amigo, kamba, irmão de várias fés.
O que nos juntou, no final dos anos 60 hippies, make love not war, foi Jesus Cristo, bailarino de cruz e espinhos. Jurámos por ele e fomos, de musseque em musseque, pelo método Paulo Freire alfabetizar o povo de Luanda, para que um dia pudesse recitar poemas nas suas praças de Tiananmen. E se alguém disser que não foi isso o que objectivamente fizemos, direi que foi com essa subjectiva intenção piedosa que o quisemos fazer. Resumindo, foi com o coração a gotejar de alegria e a alma a entoar hossanas que recebemos a independência de Angola, a nossa dipanda. E descruzámo-nos, eu e o meu Victor. Eu de esqueleto e músculos oferecidos ao monástico maoismo e bando dos quatro, o Victor encantado com a sufocante vodka soviética e o fidelizado charuto havano.
E agora vejam como dançava o Victor, com o seu branco corpo trangalhadanças nascido em Portugal e a sua bem negra alma angolana. Um dia, na turbulenta Luanda pós-independência, roubaram-lhe um táxi que ele comprara e pintara de preto, um daqueles rijos Mercedes que duravam os quarenta anos de uma ditadura. Vai ele já noutro carro e vê o Mercedes gloriosamente guiado por um soldado das Faplas, ou seja, um John Wayne caluanda. O Victor ultrapassou-o, guinou para a direita e chocou contra ele. O cow-boy saiu de AK na mão. “E agora quem vai pagar o arranjo?”, lhe reclamou o fapla. O Victor disse: “Eu pago o arranjo dos carros. São os dois meus!” O faplinha apontou-lhe a AK, aqui para nós a Scarlett Johansson das metralhadoras. “Dispara já então, camarada, ou foge a pé. Vou chamar o comando, acuso-te de ladrão e não vai ficar bom para ti.” E eis como o Victor ficou com dois carros, numa avenida de Luanda, tendo de explicar como ia a conduzir os dois e chocou contra si mesmo.
Não sabia, ainda, que este fora só um ensaio. O 27 de Maio de 1977 foi dia de golpe de Estado, Nito contra Neto, um banho de sangue. A amada do Victor estava a trabalhar no velho Hospital Maria Pia e sussurram-lhe um “foge, que estás aqui a correr perigo”. O Victor foi em velocidade buscá-la. Mas na volta, já os dois, no cruzamento que leva ao palácio do presidente, cortam-lhe a passagem. Um tanque avança para o carro, o canhão move-se e visa-o. O Victor sai e a equipagem do tanque ameaça: “Ninguém passa. Recua já camarada!” O Victor, o seu carro obstinado como o heróico chinês de Tiananmen, respondeu: “Passo, sim, camarada. Vou para casa. Ou tens de me matar aqui!” Do nada, mandado por algum génio da lâmpada, surge um comandante: “Deixa passar o homem.” E o tanque, pernas de Fred Astaire, amochou e recuou.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Por razões que não vêm ao caso e se vão manter, há uns bons dez dias que não vinha à Página Negra. Aqui vão as minhas três bicas curtas de há duas semanas,a primeira logo na ressaca eleitoral.
os nossos homens
Bica Eleitoral servida no CM na 3.ª, dia 8 de Outubro
Tomo a bica eleitoral e saem-me 5 questões:
Em que futuro populismo desaguarão os votos do populismo científico do falecido PCP?
Estão os 77 deputados do PSD reduzidos à irrelevância de, com a sua abstenção, aprovarem alguma medida mais à direita de Centeno?
Com o galope do Parlamento para a esquerda, a única direita com que Costa tem de dirimir é a Europa e os credores?
A falta de comparência da direita ditará o fim da geringonça, a menos que um Passos Coelho vestido de Joker irrompa na primeira esquina?
A hotelaria já não é o que era: raio de empregados que não perceberam que Costa tinha pedido bica cheia.
A vítima de ouro servida no CM na 4.ª, dia 9 de Outubro
Criado nos anos 60, bebi em cada bica a utopia do prazer. Era “proibido, proibir” e o orgasmo, intelectual, sentimental ou sexual, atacava 24 sobre 24 horas. Acabou. O manto da proibição está de volta. Proíbe-se o consumo, o avião, o bife com ovo a cavalo. Do gozo do prazer passou-se, num salto de fé, ao gozo da vitimização. Os filhos da classe média idolatram a vítima de ouro e nada se compara à glória de exibir, com um pingo de êxtase, a discriminação de que se reclama ter-se sido alvo. O frémito obscurantista do apocalipse galvaniza a nova multidão. Medo e irracionalismo ressuscitam o milenaríssimo culto da morte.
Os nossos homens servida no CM na 5.ª, dia 9 de Outubro
Não é só deixar os nossos homens para trás. É consentir que se matem os homens que deixámos para trás. Os nossos homens. É o que Trump está a fazer, estendendo um miserável tapete ao ataque do populista Erdogan aos curdos. Os curdos lutaram com bravura contra os terroristas do Daesh, ao lado das tropas americanas. À custa de sangue, suor e lágrimas, venceram a hidra islamista. Agora, desdenhando a bica curta, Trump mandou retirar os seus soldados e deixou os combatentes curdos, homens e mulheres, à mercê de um inimigo cujo desígnio é a política de extermínio. É cobardia dar à morte os nossos homens e mulheres.
Esta é a primeira parte do documentário. Parte 2 e 3 estão também livres online
Bret Weinstein tem a cara porreira e barbuda de esquerda que a esquerda tinha quando eu era de esquerda. Sejamos claros, Bret, professor de biologia na universidade americana de Evergreen, é de esquerda. Apoiou Bernie Sanders, fez músculo pelos ocupas de Wall Street. Fê-lo em nome da razão e da justiça social. Olha-se para a cara de Bret e apetece ir beber copos com ele.
E eis o que devo dizer, o reitor de Evergreen, George Bridges, precipitou na universidade uma radicalização que poria os nervos em brasa até ao nosso saudoso MRPP. Os estudantes radicais abriram as pastas de ódio, com os translúcidos papéis de racismo e género, e assaltaram o campus.
Podia ser uma lenda, fake news ou outra forma de canalhice reaccionária. Não é: há vídeos de tudo. Num exercício de auto-mortificação que envergonharia penitentes monges medievais, os professores passaram a apresentar-se aos alunos declinando a vergonhosa raça, origem e privilégios, esses cilícios que vêm colados à identidade. E dou exemplos reais: “Eu tenho uma data de altos privilégios, os maiores dos quais, que influenciam o meu ensino, são o ser branca e ser cisgénero”; “Sou mulher, cisgénero, hétero, sou imigrante e ter recebido o visto de residência dá-me muitos privilégios”; “Sou branca, cisgénero, lésbica, a primeira pessoa de família a fazer estudos, de classe média, não sou deficiente, e sou gorda.”
Não julguem que me esqueci da cara barbuda e porreira de Bret Weinstein. Numa universidade dominada por jovens alunos radicais, que hasteiam incendiárias bandeiras de ultra-defesa das minorias rácicas ou de género, Bret disse um dia que não! Bang, bang, foi a morte do artista.
A universidade tinha um chamado “Dia de Ausência”. Nesse dia, por escolha dos próprios, estudantes e professores negros não vinham, demonstrando, assim, a falta que faziam à diversidade da escola. Mas, em 2017, os radicais decretaram que o “Dia de Ausência” fosse ao contrário e que os brancos fossem obrigados a não ir à escola. Salto de fé, passou-se de uma escolha a uma imposição. Bret disse que não e foi dar aulas. Cercaram-no, impediram-no de entrar no edifício e a segurança da escola não se responsabilizou pela sua segurança. Quis debater com os radicais e invocou a razão. Disseram-lhe que a razão e a lógica são instrumentos de privilégio para perpetuar o pensamento opressor branco. Deu a aula ao ar livre.
E se a sua vida se transformou num inferno, mais o ficou quando o reitor, que num exercício de auto-sevícia, vê em si mesmo um fundo de supremacista branco, apoiou os alunos, negando o direito de opinião ao seu privilegiado professor de biologia. Expulsou-o de Evergreen.
O vídeo de uma reunião dos alunos com o reitor mostra o bando de radicais a humilhá-lo, proibindo-o de mexer mãos e braços enquanto lhes dirige a palavra: é ameaçador, dizem, rindo-se como uns alarves. E o penitente reitor, na sua missão de expiação dos privilégios, submete-se com a resignação do cordeiro que está a lavar os pecados do mundo.
A escola, num exercício de auto-culpabilização, estende o tapete à auto-censura, trocando a sua missão, a gloriosa caminhada pela verdade e conhecimento, por uma dantesca ideia de justiça social. Entregues ao pior de si mesmo, os alunos radicais soltam o Pol-Pot que há neles, numa ululante e desumanizada entrega ao ódio e ao sadismo, humilhando até à violência professores. Vejam os vídeos e não me digam que é só caricato: isto é perigoso. O que está às escâncaras em Evergreen, está em surdina no mundo. Aqui também.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Há cerca de dez anos inventei um alter-ego. Era (ou é?) o meu melhor amigo angolano. Chamei-lhe “o herói”. O herói andava envolvido em negócios de petróleo e viajava por tudo o mundo. De cada cidade por onde passava, cidades onde nunca fui, esse meu “outro eu” escrevia-me uma carta e contava-me episódios delirantes, descrevendo-me com rigor os locais, os ambiente e certos episódios.
Resumindo, estes são textos, em forma de carta, que inventei sobre locais onde nunca fui e situações que nunca vivi. Mas tenho tanta pena, que já não tenho a certeza de não ter, afinal, lá estado e tudo ter vivido. Venham comigo, hoje, à capital da Mongólia.
Vêem sonhos, sonham sonhos
Que saiba, não há nada parecido em nenhum lugar deste mundo. Mongóis, os três. Sonhadores. Não faço é ideia de como vou explicar a factura que tive de lhes pagar.
O céu é azul e nunca acaba por cima de Ulan-Bator, a capital da Mongólia. Não vim às compras, apesar da camisa Zegna listrada com que saí dos 20 ultra andares de Louis Vuitton, Nokia e Prada da Central Tower. Verdade: nos últimos anos, a cidade sofisticou. Oyou, o meu anfitrião, não se resigna e jura, no conforto dos estofos branquinhos de um Bentley, que há-de fazer um grupo tão grande como o líder Chinggis. Quer vender tudo. Pode produzir tudo.
O que sei é que, por todo o lado, vou rubbing shoulders com russos e chineses, de vez em quando sul-coreanos, um discreto francês. Não andam por cá os meus amigos da Sinopec*, apostados em fazer-nos a cama lá nos trópicos. Não lhes cheira a petróleo. A mim cheira-me. Aqui, tudo o que se vende, vende-se do fundo do poço.
Não é petróleo? Pois não. É carvão e é cobre. Nem me digam que os mongóis são ou foram cavaleiros. Vejo, e vejo que nasceram para ser mineiros. Furam a terra por todo o lado e sonham. Vendem sonhos e têm o melhor cobre do mundo. (Compra acções, muadié!)**
Estou-te a dizer, meu: amanhã, urânio. Vão ficar podres de ricos. Lembras-te das Zundaps*** a zunir na Alberto Correia****? A riqueza destes tipos vai zunir 10, 20 vezes mais. O velho casco da cidade, a pulular de novidades, já ostenta. E tu sabes como o meu lado africano aprecia o luxo, uma certa banga***** que se atreva a ostentar. À volta da Ulan-Bator, que os monges tibetanos inventaram há 300 anos, um cinturão de miséria. 250 mil almas em transumância. Fogem do leste gélido e da estepe madrasta. Amontoam-se nas gher, as tendas de pano que cercam de paliçadas para cortar a inclemência do vento. Olham pobres e perplexos o dourado das luzes e das vitrinas. Vêem sonhos, sonham sonhos.
A mim, venderam-me um. No hotel, duas mulheres e um homem. Sonhadores profissionais. Recebem numa moderada suite. Cada um especializado num género de sonhos. Ele só sonha pesadelos. Uma das mulheres os sonhos de desejo, a outra sonhos de completa quietude. Sonham para outros os sonhos de que os outros precisam. Uma hora, um sonho. Com pesadelos resolvem conflitos. Satisfazem vontades com sonhos de desejo. Com os de quietude oferecem o sublime, nirvana, a quem queira tentar a fuga de puro espírito. O cliente escolhe o género e deita-se ao lado do sonhador. Adormece. A mão do sonhador sobre o braço.
Negociei num inglês rude, de pau. Pedi o sonho de desejo, a pensar: não acredito e se houver sonho vai sair tudo em mongol e retalhos de mau inglês. Dormi. Dormi fundo, meu irmão. Quando acordei, a mongol tinha-me sonhado em português. Sonhou o que pedi. Podia confessar, contar tudo. Não digo. Nunca imaginei viver tão nítido o que não sei se sonhava eu ou, com precisão matemática e música obscura, sonhavam por mim. Depois, sentada, a mulher tinha um ar banal – criada de hotel, dir-se-ia. Dera-me a mais arrepiante aventura da vida. Não sei se sonharam dentro de mim. Não sei se saí de mim para ir sonhar em corpo alheio. Comprei o meu sonho. No bolso, os dedos tocam no papel rugoso da factura. Estremeço.
paisagem de almas em transumância com zundap à direita
Glossário: *Sinopec – companhia petrolífera do Estado chinês. Tem fundadas pretensões tentaculares. **A conselhos de Herói não se olha o dente ***Zundap – marca de estridentes veículos motorizados de duas rodas a que devo parte apreciável da minha perda auditiva. ****Alberto Correia – rua de bairro de que eu guardo memórias enternecidas. Foi casa dos Negoleiros do Ritmo e deu pelo menos um embaixador ao Vaticano. *****Banga – estilo, um estilo de que é legítimo ter-se uma certa vaidade. Por exemplo, o Brad Pitt tem banga e não lhe fica nada mal.
Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 2 de Outubro
António Araújo, intelectual estimado e excelente assessor da Presidência da República, contestou com elegância e vigor a minha bica curta de 3.ª feira sobre o clima, e em particular esta frase, “Agir sem informação é demagogia”. E pergunta se eu não reconheço o consenso científico. Respondo: o que não reconheço é o pensamento único. A revista ‘Nature’ publicou, há um mês, um artigo da Universidade da Califórnia, Merced, em que se pedia que fossem banidos e silenciados 400 cientistas e comentadores por não seguirem o consenso.
Ciência soviética? Tenho a certeza de que António Araújo, como eu, não toma a bica com esta forma de consenso.