Voltou o Escrever é Triste

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O Escrever é Triste é uma lenda. Escreviam lá 16 ou 17 autores, sei lá. E já levanto um braço para dizer que está mal, qual escreviam, qual quê, desenhavam, fotografavam, diziam poemas. Por ter acabado o Escrever é Triste é que eu criei esta cela solitária, esta monástica Página Negra.

Pois bem o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui e estar tão bonito já é um milagre. Mas o Ricardo Espírito Santos, que eu conheci na SIC, realizador imparável, que fez os mais belos “jornais da Noite”, que deu ao futebol um toque de delicadeza e ambrósia nos muitos jogos que realizou, fez para a RTP um programa, o Novo Mundo Digital, e fez sobre o Escrever é Triste um programa de televisão lindo. Vamos poder vê-lo no dia 4 de Abril, um sábado, às 11 horas da manhã, na RTP 1. Levantem-se dessas camas e mesmo de pijama, e antes do banho recauchutante, deixem-se levar pela câmara e pela narração do Ricardo. Que programa lindo!

Já disse e repito, o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui, tão vivo, juntando de novo os mesmos autores, ainda mais amigo e solidário, é um milagre anti-pestífero. Uma espécie de antídoto albert-camusiano contra o covid 19. Escrever é Triste e, todavia, tão feliz.

Este foi o video de promoção da estreia. Mas, não se esqueçam, é no sábado, dia 4 de Abril, às 11:00 da manhã, na RTP1.

O papa apóstata

Peço desculpa aos leitores da Página Negra, mas outros valores e urgências se levantaram. Espero que estejam todos com um valente saúde anti-vírica.

São Pedro

De que cor são os olhos do Papa Francisco? Apesar de já se ter derramados sobre eles a indecifrável cor da velhice, são claros como os do meu avô Brigas, que ofereceu o corpo a cargas contrabandistas, antes de ser emigrante na Argentina. Terá o avô Brigas cruzado em Buenos Aires o menino Bergoglio? Que interessa. O que eu queria dizer é que os olhos de Francisco se iluminam sempre que sorri. Ou seja, iluminam-se muitas vezes.

Os olhos de Francisco também olham algumas vezes para o céu.  Já o vi, em fotografias, olhos postos no alto horizonte e parece-me, nessas ocasiões, que afinal são quase azuis os seus olhos claros, reflexo talvez da luz celeste. Adivinho-lhe então nos olhos uma tris­teza azul – e o que esta frase ganharia escrita em inglês! Mas logo a fileira branca dos den­tes e a doçura da con­tração do rosto, a que cha­ma­mos sorriso, dão cabal des­men­tido à minha lamentável desconfiança ou a qualquer sus­peita de tristeza.

Tal­vez os olhos deste homem, tão largo e con­fi­ante é o seu sor­riso, este­jam a ver Deus. Afi­nal, se há no mundo um homem habi­li­tado a ver Deus é ele, o homem da batina branca. Che­guei a pen­sar que era de ouro e disseram-me que era de prata, a cor­rente que traz presa ao pes­coço e lhe des­liza pelo peito sus­ten­tando a Cruz Pei­to­ral. O soli­déu sin­gelo e a sotaina branca conferem-lhe uma ele­gân­cia con­for­tá­vel. Se que­re­mos ver a Deus deveríamos vestir-nos assim e calçar, como ele, uns sapa­tinhos vermelhos.

Lembrei-me, sabe Deus porquê, de um conto de Gio­vanni Papini, magnífico escritor cujo romance com o fascismo quase o apagou da história da literatura. É a his­tó­ria de um dis­si­mu­lado após­tata que é eleito Papa. Quando cami­nha para a varanda que se abre sobre a agora vazia Praça de São Pedro e sobre a mul­ti­dão que, em fé e pela fé, exulta e reza, esse novo Papa vem pronto para denunciar a fraude, a gigan­tesca impos­tura que ele pensa ser a reli­gião. Abrem-se as por­tas, ele dá o primeiro passo, dis­curso na ponta da demoníaca lín­gua ser­pen­tina, e a esperança e gáu­dio da mul­ti­dão entram nele como a luz que lavasse os olhos de um cego. O após­tata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espí­rito Santo.

E se este Francisco de quipá, per­dão, de soli­déu alvo, se este homem que é tal­vez o único que pode ver Deus, sou­besse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Por­que mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajo­e­lha na gigan­tesca praça dessa Roma que crucificou Pedro de cabeça para baixo, esse Deus patri­ar­cal, a cor­rer de prece para prece, entre­tido a vingar-se, a acu­sar, a sal­var, cas­tigo numa mão, a mise­ri­cór­dia na outra, nem por mila­gre pode exis­tir.

Sécu­los de teo­lo­gia e Tei­lhard de Char­din dis­si­pa­ram essa nuvem, essa luz que cega Pau­los. Sécu­los de teo­lo­gia e Pierre Tei­lhard de Char­din foram um tiro na pomba. Este homem sabe e, toda­via, na tris­teza clara, quase azul, dos olhos que levanta ao céu, nesse seu sorriso que pro­mete mais regresso à vida do que a Vénus de Bot­ti­celli nos pode dar, ele acredita.

E que insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade! A tris­teza clara, quase azul, de um olhar e um mara­vi­lhoso sor­riso de conto de fadas sus­ten­tam uma civi­li­za­ção, uma imensa e recon­for­tante forma de ver, sen­tir e viver o mundo. Bas­tava que este homem dis­sesse uma só pala­vra. Uma pala­vra e a mul­ti­dão cor­re­ria des­vai­rada, em uivos apocalípticos…

Eis como vivemos, eis a civilização que criámos: a uma pala­vra do caos, a uma palavra de um triun­fal niilismo. Que insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade. Que insustentável beleza.

Crónica escrita há 15 dias, publicada há 8, na minha coluna do Jornal de Negócios. 

Matem o general Aupick!

Baudelaire

Matemos o general Aupick! Mato-o eu com um punhal florentino ou mata-o o leitor com um limpo tiro de espingarda?

Vejamos, o poeta francês Charles Baudelaire subiu às barricadas, corria a comoção revolucionária de 1848, que invadiu os povos da Europa com a galopante velocidade de um coronavírus. O povo de Paris, a que o presidente Macron não distribuíra ainda os coletes amarelos, desaguou nas praças com os seus músculos pré-lisnave, assaltou armeiros, espingardarias e arsenais e Baudelaire, sacudindo da bela melena o spleen de Paris, já levanta no ar o roubado fuzil de dois canos, uma cartucheira de couro a obliquar-lhe um peito que ferve de metáforas, perífrases e prosopopeias.

Mas eis que a todas as figuras de estilo, se impõe a apóstrofe! Baudelaire, com a magreza a que a sífilis o verga, uma voz que não tem um quinto do estentóreo da voz de Ary dos Santos, cavalga a barricada como se montasse o cavalo mongol de Gengis Khan e grita à tresloucada turbamulta: “Fuzilemos o general Aupick! Vamos matar o general Aupick!”

A multidão está pronta a fuzilar a abstracta burguesia, sonha com a ideia de cem banqueiros estripados, talvez dezassete padres enforcados nos cordões das próprias batinas, mas ouvir-se um nome, mesmo o nome de um general, é uma mancha ultrajantemente concreta para a grandiosa, radiosa, libertadora e utópica revolução.

E quem é o general Aupick? Eis a pergunta que já se desenha no rosto rubro da multidão. Ora Aupick é o padrasto de Baudelaire. É o comandante da escola Politécnica, virá a ser embaixador, e já não faz, por esta altura, mal a uma mosca. Mas Baudelaire, órfão de pai aos sete anos, não lhe perdoa as tentativas de o submeter a uma mais austera educação, não lhe perdoa, entendamo-nos, ter-lhe roubado o exclusivo dos mimos da mãe. Quando Baudelaire brada aos céus e à multidão “Vamos fuzilar o general Aupick!” é a literatura que afirma os seus direitos, cena shakespeariana, um rumor edipiano que o menino Sigmund Freud, então com oito anos, terá escutado em Viena.

E já vasculho no meu passado. O que gritei eu nessa revolucionária independência angolana, quando a febre anarco-maoista me encheu o coração de hipérboles? Lembro-me com carinho desses dias de fragor e fogo e a primeira coisa de que me lembro é que os elevadores deixaram de funcionar. Bem sei que a revolução, na sua voracidade igualitária, não gosta que nada suba e está cansada das coisas que descem. Mas os elevadores fizeram-se para descer e subir, e peço pelas alminhas aos futuros revolucionários que tenham este pormenor em conta: é na imobilidade dos elevadores que a revolução começa a perder o seu encanto.

Gritasse eu o que gritasse, nada do que gritei ombreia com o urro de Baudelaire, a que já voltarei. Houve, não obstante, uma palavra de ordem que ainda hoje me risca o peito de luz. Um camarada comandante, com aquele lindo sotaque Hoji Ya Henda, gritava numa interrogação retórica à multidão, “O colonialismo?” E a multidão, com este puto Manel lá no meio, respondia, musical, mozartiana: “Caiu na lama!”

Na lama da pós-revolução, Baudelaire foi dirigir um jornal republicano bem posto, no círculo de Berry, coração da França. Apresentou a amante como sua mulher. À primeira polémica despediram-no. E o ofendido presidente do jornal, um notário, recriminou-o: “Além do mais a senhora que nos apresentou como sua mulher, é afinal a sua favorita.” Foi aqui, que Baudelaire matou o general Aupick: “Senhor, a favorita de um poeta vale bem a mulher de um notário!”

Jeanne Moreau

Agora que a propósito do ubíquo covid19 tanto se fala da dificuldade da Europa se unir e atordoar o vírus com uma bem orquestrada política comum, a mim só me dá para pensar em actrizes. Sonhei, pensei e deixe-me levar pelo enlevo de Jeanne Moreau, contra a qual já o impenitente covid19 nada pode.

Jeanne Moreau
O imaginário europeu precisa de ser levado ao colo

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, “Jules et Jim”, com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.

Ménage à trois
A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

OUçam a história: dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares. A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

Turbilhão de vida
“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Não interessa o quê, interessa, sim. Já lá vamos.

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

Jim fora, na vida real, Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

Tinha sido Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão. A negrito.

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a sua boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

Nariz de nariz tão perto

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Um nariz de outro nariz tão perto

Nos dias 3, 4 e 5 de Março, há semana e meia, portanto, quem tomou comigo a Bica Curta, no CM, leu estas prosas, que metem, sono, cama e mais vontade de cura do que de doença. Não há nada a fazer, é o meu feitio. 

Cheira bem, cheira!
É o que se chama matar a solidão pelo nariz. Os psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica fizeram um estudo de sono com 155 pessoas. Puseram-nas a dormir sozinhas, mas com uma t-shirt na almofada. Numa noite, uma t-shirt impregnada com o cheiro do parceiro com quem viviam. Na outra noite, uma t-shirt igual, sem nenhum cheiro.

Foi trigo limpo, farinha amparo: qual xanax, qual melatonina, dormir com a t-shirt a cheirar à ou ao parceiro melhorou muito o sono, limpando ansiedades e as voltas na cama. Se viajar, leve a t-shirt do seu amor e cole-a ao nariz à noite. Com cheiro de três dias, se faz favor. Ah, eu disse a t-shirt!

Activistas do alarmismo
Os activistas do alarmismo têm agora o coronavírus na boca. Verdade, o coronavírus tem o perigo da novidade e, para já, da falta de antídoto. Mas os alarmistas não querem saber da cura, querem é saber da histeria.

Um exemplo recente: o clima e o CO2. Os alarmistas nem querem ouvir falar da energia nuclear, a melhor tecnologia, mais barata, segura, para erradicar o CO2. O nuclear é melhor e mais eficiente mesmo do que as energias eólicas e solares, que são caras e intermitentes. Mas os alarmistas não querem saber de resultados, querem é ter a boca cheia de vírus, cheia de alarme e de fim do mundo. O orgasmo deles é a catástrofe.

Dá-lhe gás, bebé
Nasceram mais bebés em 2019. Mas a nossa taxa de fecundidade ainda é a mais baixa da Europa. Não é que os portugueses não se amem e não vá por aí uma valente rebaldaria. Não queremos é fazer filhos. Sim, venham os abençoados imigrantes. Mas não chega!

Em vez de nacionalizar a banca, nacionalize-se a fecundidade: no ano de nascimento do primeiro filho devolva-se ao casal metade do seu IRS; reduza-se a metade os impostos dos pais de dois filhos e isentem-se para a vida os pais de três; remunere-se uma afectiva rede de avós, tios e tias que cuide da guarda das crianças para as mães poderem ir trabalhar. Dê-se gás ao vigor amoroso.

Um cadáver ainda quente

Juliette
Juliette vista por Charles Emile Callande de Champmartin.

Era o tempo em que maridos e mulheres se enganavam. Mais uns do que outros. E já estou a dar duas estaladas a mim mesmo, a ver se acordo do erro histórico. Corrijo: era o tempo em que maridos e mulheres se traíam. Mas Victor Hugo, o respeitável Victor Hugo, que eu imagino com a voz plena e sonora de um Manuel Alegre, ainda não traíra Adèle, mãe dos seus cinco filhos.

Há dez anos fora a noite de núpcias. Esqueçam lá Ilíadas e Odisseias e tudo o que a antiga musa canta. Poderoso, priápico, Hugo dera a Adèle, nessa noite, nove êxtases celestiais, teresíacos, qualificativo que o mais humilde dos leitores logo liga à mística carnalidade da santíssima Teresa de Ávila. A seguir deu-lhe cinco filhos principescos, a que se sucedeu um real vazio do tálamo.

E ouçam o que acaba de saber o grande Victor: Adèle buscou consolo no seu melhor amigo, Sainte Beuve, que, embora putativo poeta, exerce a medíocre actividade de crítico literário. Não podia haver maior opróbrio para o vate de França: ser traído por um crítico. Não sem vantagens para Adèle: Sainte Beuve teria um má formação genital hermafrodita, Adèle chamava-lhe até Charlotte, e aquilo não fazia mal nenhum à menina, como de uma pila pequenina se dizia num filme de João César Monteiro.

 Mas eis que na leitura de uma das suas peças teatrais, o recém traído Hugo encontra a actriz Juliette Drouet. Coup de foudre. Ele tinha 32, ela 26 anos e combinaram ir juntos ao baile de terça-feira de carnaval. Foi em Fevereiro de 1833 e ele foi buscá-la a casa da senhora K. É que nem chegaram a sair. Da noite de 17 para 18, ao longo das wee hours que o solitário Frank Sinatra canta aflito e de membro caído, o quartinho de Juliette ardeu de desejo, fogosa e feliz consumação. Oito horas!

Juliette tinha um conde russo que lhe pagava as generosas contas, era mais assediada do que vinte actrizes de Hollywood, tivera vários casos, mas depois dessa noite foi, só e sempre, a obstinada e obsessiva amante de Victor Hugo, deixando mesmo o teatro. Vivia num apartamento de que só saía quando ele a vinha buscar. No resto do tempo escrevia-lhe cartas, duas por dia, 20 mil ao todo.

Nunca saía? O que faz então Juliette, já passa da meia-noite, a 4 de Dezembro de 1851, correndo, em estrangulada excitação, colada às noctívagas e abandonadas ruas de Paris? Passa agora por uma barricada, pisa um cadáver ainda quente, vira outros, naquele frio medo de em algum reconhecer a cara do seu amado Hugo. Vindo do ângulo dos Grands Boulevards, um clamor entra-lhe nos ouvidos e arrasta-a pelos cabelos: vai descobrir Victor Hugo em cima das barricadas orando às massas sem a gaguez de Demóstenes. Ela grita-lhe que o golpe de Luis Napoleão Bonaparte triunfou e que ou foge ou o matam.

Fogem os dois. E volto a pedir perdão, agora pela má aritmética: fogem os três, Hugo, Adèle e Juliette. Vão viver, numa ilha britânica da Mancha, um civilizado e refinado exílio à trois. Debaixo de dois distintos tectos, que Hugo não é nenhum miserável Lenine.

Como os leitores sabem, felizmente esta coisa do amor acabou e vivemos numa sociedade asséptica e com esplêndidos expedientes jurídicos. Ninguém, com recurso a uma alimentação sem glúten e atento à pegada ambiental, passaria pelo pesadelo de escrever este pedaço de prosa mórbida, como a bela Juliette o fez a Victor Hugo: “O laço que nos liga é o que me liga à vida. Se não tivesse sido tua amante, queria ter sido tua amiga. Se me recusasses a tua amizade, pediria de joelhos para ser o teu cão, o teu escravo.” Eis o aviltante, feérico amor.

Publicada em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios

Ganha o Prémio Nacional de Literatura

Desculpa, estou a falar contigo. Tu sabes bem que é contigo, não olhes para o lado. Quantas vezes já me disseste que estavas a escrever esse romance, o romance dos romances? Mil ou só cento e setenta e oito vezes? Da última vez, disseste-me que o tinhas fechado na gaveta. Quando o acabaste, tiveste medo dele e escondeste-o. Que era perturbante e que tinha de passar tempo para que não embatesse com violência nas esquinas deste tempo. Ouvi-te. Ouve-me agora: tira o romance da gaveta. Não mo queres mostrar a mim, bem sei: mostra-o ao júri do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal.

Mas não penses que te desafio só a ti, que me tens refém há anos. O desafio é para todos os leitores da Página Negra que escrevem romances e que têm um romance inédito pronto. Ainda têm uma semana para concorrer e ganhar. Basta irem aqui ver o Regulamento e concorrer. Podem muito bem acontecer três coisas:

  1. Ser o romance que candidatarem a Obra vencedora.
  2. Ganharem, como consequência directa, o ternurento prémio pecuniário de 2500€.
  3. Verem, necessariamente, a sua Obra publicada pela Guerra e Paz

lions

Tudo isso é tão verdade como foi verdade, e a foto mostra, a presidente do Distrito Múltiplo 115 do Lions, Isabel Moreira, e o presidente da Fundação Lions de Portugal, Vítor de Melo terem assinado comigo e com a Guerra e Paz o protocolo que nos liga nos próximos anos.

Mas eis o que interessa, e já estou outra vez a falar contigo, tens até ao próximo dia 15 para candidatar o teu romance. Faz isso este fim de semana. Quero, ainda este ano, ter a capa do teu livro com o logo do Lions ao lado e com o título Vencedor do Prémio Nacional de Literatura a toda a largura do livro, tal qual a imagem que aqui está do Vidas Por fios, de José Martinho Gaspar.

vidas por fios

Felicidade e vida limpa

Eis as bicas curtas que fui servindo no CM, a 25, 26 e 27 de Fevereiro

A felicidade
Um estudo sobre a felicidade no Estados Unidos mostra uma tendência convergente entre brancos e negros, homens e mulheres. Comecemos pelas mulheres. As brancas, cuja vantagem era significativa, tiveram nas últimas décadas uma persistente queda nos seus padrões de felicidade. Exactamente o oposto das mulheres negras que melhoraram os seus índices de forma consistente e progressiva. Os homens negros melhoraram dos anos 70 aos 90 e estagnaram com Obama. Já os brancos, após a crise do subprime, tiveram um declínio a pique, baixando largamente a sua tradicional vantagem sobre os outros grupos. Começou aqui o ressentimento trumpiano?

Uma casa portuguesa
Já no fim dos meus tempos de punhinho no ar havia uma canção da Sérgio Godinho que levantava como bandeiras a paz, o pão, a habitação. Por causa da habitação, devíamos voltar a cantá-la. Não é só o equilíbrio do rosto das nossas cidades, e sobretudo de Lisboa e Porto, que está em risco, com a louca subida de preços e arrendamentos.

O fosso social começa e resolve-se na habitação. Expulsos para periferias, o casais e os jovens ficam longe dos melhores empregos, os filhos deles perdem acesso às melhores escolas. Na longa distância entre casa e emprego esvai-se a felicidade, o tempo do prazer e da partilha: começa a desigualdade.

O estigma da direita
A palavra “direita” ainda é, em política, um estigma. Todavia, se além do PS, achamos que a esquerda inclui o BE e o PCP, nada no mais razoável senso comum confere superioridade moral ou prática à esquerda. O horror que foi a PIDE e a repressão em muito pior foi também uma prática das PIDES dos regimes comunistas, ditos de esquerda. E se o que nos move é o bem-estar económico e uma vida digna dos portugueses, o melhor modelo que temos são países com governos de direita ou centristas, que o PS e PSD não enjeitariam, com prósperas economias de mercado, que geram riqueza para distribuir. Essa direita é, afinal, liberdade e progresso.