Matem o general Aupick!

Baudelaire

Matemos o general Aupick! Mato-o eu com um punhal florentino ou mata-o o leitor com um limpo tiro de espingarda?

Vejamos, o poeta francês Charles Baudelaire subiu às barricadas, corria a comoção revolucionária de 1848, que invadiu os povos da Europa com a galopante velocidade de um coronavírus. O povo de Paris, a que o presidente Macron não distribuíra ainda os coletes amarelos, desaguou nas praças com os seus músculos pré-lisnave, assaltou armeiros, espingardarias e arsenais e Baudelaire, sacudindo da bela melena o spleen de Paris, já levanta no ar o roubado fuzil de dois canos, uma cartucheira de couro a obliquar-lhe um peito que ferve de metáforas, perífrases e prosopopeias.

Mas eis que a todas as figuras de estilo, se impõe a apóstrofe! Baudelaire, com a magreza a que a sífilis o verga, uma voz que não tem um quinto do estentóreo da voz de Ary dos Santos, cavalga a barricada como se montasse o cavalo mongol de Gengis Khan e grita à tresloucada turbamulta: “Fuzilemos o general Aupick! Vamos matar o general Aupick!”

A multidão está pronta a fuzilar a abstracta burguesia, sonha com a ideia de cem banqueiros estripados, talvez dezassete padres enforcados nos cordões das próprias batinas, mas ouvir-se um nome, mesmo o nome de um general, é uma mancha ultrajantemente concreta para a grandiosa, radiosa, libertadora e utópica revolução.

E quem é o general Aupick? Eis a pergunta que já se desenha no rosto rubro da multidão. Ora Aupick é o padrasto de Baudelaire. É o comandante da escola Politécnica, virá a ser embaixador, e já não faz, por esta altura, mal a uma mosca. Mas Baudelaire, órfão de pai aos sete anos, não lhe perdoa as tentativas de o submeter a uma mais austera educação, não lhe perdoa, entendamo-nos, ter-lhe roubado o exclusivo dos mimos da mãe. Quando Baudelaire brada aos céus e à multidão “Vamos fuzilar o general Aupick!” é a literatura que afirma os seus direitos, cena shakespeariana, um rumor edipiano que o menino Sigmund Freud, então com oito anos, terá escutado em Viena.

E já vasculho no meu passado. O que gritei eu nessa revolucionária independência angolana, quando a febre anarco-maoista me encheu o coração de hipérboles? Lembro-me com carinho desses dias de fragor e fogo e a primeira coisa de que me lembro é que os elevadores deixaram de funcionar. Bem sei que a revolução, na sua voracidade igualitária, não gosta que nada suba e está cansada das coisas que descem. Mas os elevadores fizeram-se para descer e subir, e peço pelas alminhas aos futuros revolucionários que tenham este pormenor em conta: é na imobilidade dos elevadores que a revolução começa a perder o seu encanto.

Gritasse eu o que gritasse, nada do que gritei ombreia com o urro de Baudelaire, a que já voltarei. Houve, não obstante, uma palavra de ordem que ainda hoje me risca o peito de luz. Um camarada comandante, com aquele lindo sotaque Hoji Ya Henda, gritava numa interrogação retórica à multidão, “O colonialismo?” E a multidão, com este puto Manel lá no meio, respondia, musical, mozartiana: “Caiu na lama!”

Na lama da pós-revolução, Baudelaire foi dirigir um jornal republicano bem posto, no círculo de Berry, coração da França. Apresentou a amante como sua mulher. À primeira polémica despediram-no. E o ofendido presidente do jornal, um notário, recriminou-o: “Além do mais a senhora que nos apresentou como sua mulher, é afinal a sua favorita.” Foi aqui, que Baudelaire matou o general Aupick: “Senhor, a favorita de um poeta vale bem a mulher de um notário!”

Gallo rojo

silvia

Quem me dera ter o segredo da rútila e trémula escrita para poder escrever o óbvio. E basta, afinal, ouvir. Silvia Pérez Cruz canta o desencanto, o puro e abraçado desencanto. Talvez só sonhemos adolescentes para depois gritarmos mil ais adultos.

Em cada ai da belíssima boca de Silvia há a cega nostalgia da inalcançável harmonia, da valente revolução perdida, da utopia atacada, da ideal cidade dos homens, perfeita como nem a de Deus. E depois canta el gallo. Gallo Negro. E acaba o dia.