Os heterónimos foram ao cinema

Agora, que não se pode ir ao cinema, os heterónimos deu-lhes para a nostalgia e desataram a relembrar uma conversa que tinham tido no tempo em que ainda se podia tomar uma bica e outras amenidades de boca na Brasileira. Gravei-lhes a conversa e transcrevi, ipsis verbis, o que livremente quiseram dizer. Faltou Alberto Caeiro que, creio, nunca entrou numa sala de cinema.

heterónimos

“Ó Fernando, com tanta angústia patriótica a saltar-lhe da mão esquerda para a direita, você nem a bica consegue tomar.”

Foi o que o engenheiro disse, fazendo rir a mesa heteronímica a que se sentam. São três: Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mortos, descontraídos e invisíveis para os turistas de 2019 da Brasileira.

Pessoa lamentou-se: “Sabe, engenheiro, é a mágoa de um presente infeliz. Somos o pingo de tinta seca de quem escreveu Impérios na geografia do mundo.”

Reis, mal o deixou acabar: “Lá vem você com o Quinto Império. Basta-nos o mito ou, para que as actuais gerações compreendam, um milagre como no cinema. Ainda ontem voltei a ver, de mão dada com a Lídia, o “It’s a Wonderful Life” do Capra.”

“Nem Portugal é o Jimmy Stewart, nem a Senhora Merkel tem a bonomia do anjo Clarence,” riu-se o desbocado Campos.

Pessoa interrompeu-o: “Bem dito, engenheiro. Onde anda o português que, com a universalidade das Descobertas, salvou a Europa de ser só mediterrânica? Voltou o português à antiga – bom católico, toureiro, estúpido como uma porta de cofre-forte.”

Campos insiste: “Como não está cá o Mestre Caeiro para se zangar comigo e já que o Dr. Reis gosta de filmes, diria que nos falta um optimismo fordiano.”

Logo Pessoa: “O Álvaro confunde optimismo com o que em Ford é só pura crença e europeia. Porque o americano Ford era artisticamente europeu e universal. O cinema dele era uma poesia ajudada: reflecte nos filmes o que a alma não tem.”

Reis interrompe-os: “Pois a Portugal até o direito a ser europeu escapa. Somos só serventuários da França e lacaios da Alemanha.”

O engenheiro abana a cabeça: “Quando fazemos uma revolução é para implantar uma coisa igual à que já estava. Olhe para os nosso políticos, e já nem digo o Marcelo, o Costa, mas mesmo o Passos, parecia tão liberal e indisciplinador? Mas acabou por cair na disciplina por uma fatalidade ancestral.”

Pessoa dá um salto na cadeira: “Álvaro, não está a sugerir que os portugueses se ponham a ver “O Couraçado de Potemkin” ou o “Ivan o Terrível?”

Álvaro ofende-se: “Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. Encontre-me antes, no cinema, um criador de anarquias.”

Reis afasta o cálice de absinto: “Um Syberberg, um Herzog? Cuidado com o cinema alemão. Olhem a Merkel: uma asceta. Como é perigoso o asceta que se casa com o poder e se amanceba com a vontade de domínio.”

Pessoa concorda: “A Alemanha é na paz o que sempre foi na guerra: uma organização cruel. O sacro império romano é o que cada Alemanha ocultamente quer ser.”

Campos volta à carga:”Prefiro o cinema que seja uma mentira artística, o americano. Intruja? Mas um país sem grandes intrujões é um país perdido. Quem não intruja não come. A grande civilização é a superior organização da artificialidade, isto é, da intrujice.”

Levantam-se, exuberantes, e saem sem pagar a conta.

Origem e Viagens da Língua Portuguesa

Eu não sei se posso, como editor, desatar a fazer confissões. Não sei se posso, de olhos em bico, desatar a fazer envios estéticos. Não sei se posso, de lágrimas nos olhos, desfazer-me em lamechices. Possa ou não possa, e enquanto venhamos e vejamos, já estes três livros me arrebatam aos céus como o carro alado de Apolo.

Venhamos, pois, e entremos no livro de Fernando Venâncio, Assim Nasceu uma Língua. Saudaram-no tanto os especialistas, como os epicuristas do Governo Sombra, levantando-o bem alto, como a um estandarte, as mãos esquerdistas de Ricardo Araújo Pereira, ou mesmo, num movimento mais ascético, as de Francisco Louçã. Da Galiza ao Brasil, os encómios derramaram-se sobre este livro como mirra, incenso e ouro sobre o menino ou o cordeiro de Deus. De que fala este livro? Da origem e da evolução da língua portuguesa. Mas a questão não é essa, não é do que, mas como. Como fala este livro? Este livro fala com uma linguagem parecida como um rio alegre e suave em dia de Primavera. É essa alegria fresca que faz o sedutor encanto de Assim Nasceu uma Língua. O que se só o consegue quem tenha o saber desprendido e quase anti-académico de Fernando Venâncio. Que pena eu tenho de quem gosta de ler e saber e ainda não tem este livro.

E agora, desçam, faz favor, desse pedestal, ponham o pé se precisarem na minha mão e subam ao duplo pedestal que Marco Neves, linguista também, nos oferece com o Almanaque da Língua Portuguesa e com o Palavras que o Português deu ao Mundo. No primeiro desses livros, o Almanaque, a língua portuguesa entra em regime de turismo interno. Descobre com a mão direita os segredos que a esquerdas escondia. Mas que estranhos e insólitos territórios Marco Neves nos revela no que pensávamos ser só um país uniforme. E, a seguir, transformado o linguista num industrial do turismo, Marco Neves leva-nos de viagem pelo mundo. Palavra a palavra, como quem se mete num avião ou num barco, batemos oceanos, enseadas, ilhas e cidades, sempre pela mão do mesmo guia, a língua portuguesa. Eu disse que Fernando Venâncio era quase um anti-académico? Fiquei assim sem saber o que dizer de Marco Neves, da simplicidade narrativa, da doçura das histórias e episódios, da sua arte ficcionista. Os livros de Marco Neves são livros de ler, e quem gosta de ler, sabe o que eu quero dizer. Já estão em sua casa, na mesinha de cabeceira? Também na minha.

Sylvia levou Joyce ao colo

Sylvia & Joyce
Sylvia Beach e James Joyce à porta da Shakespeare & Company

Toda a lésbica tem em si uma missionária. E peço já que não me crucifiquem, que a Páscoa já passou deixando a ressurreição pela hora da morte. A missionária que toda a lésbica acrisola não é tese minha, mas sim de Diana Souhami, tese vertida no seu livro “No Modernism Without Lesbians”. E já eu, pressuroso a mostrar serviço, me encavalito nos ombros de Diana e juro pelas alminhas que, sem as lésbicas da parisiense margem esquerda, nem a garbosa França, nem a ex-imperial Europa teriam conhecido as delícias e os escândalos do modernismo, a terra devastada de T.S. Eliot, o esquinado cubismo de Picasso.

Mas se há ombros a que devamos subir é aos ombros de Sylvia Beach. Neta de missionários protestantes que deambularam pela India, arrebatando almas ao hinduísmo, longe de adivinharem que os trinetos acabariam em melopeias de hare-krishna-hare-hare, esta americana de corpo magro, com uma tensão e nervo de corda de violino, ali por volta dos 30 anos declarou-se parisiense. Apaixonou-se, com descrição ensurdecedora por outra mulher, Adrienne Monnier, dona da livraria Les Amants du Livre. Adrienne tinha a mesma prazeirosa e redonda gordura de Gertrude Stein, patrona das artes. Adrienne e Sylvia rivalizaram com o casal que formavam Gertrude e Alice B.Toklas, esta magra e nervosa como Sylvia. Levaram no regaço escritores e pintores, os expatriados da Lost Generation, os trânsfugas de espírito macerado pela agulha do sublime.

E eis que dou com James Joyce a meter o ombro neste parágrafo, e a entrar-me na crónica. Sylvia era a dona da Shakespeare & Company, livraria mesmo em frente à da amada Adrienne, e chega Joyce, a Paris. Traz num braço a mulher, Nora, no outro, um impublicável “Ulysses”. A livraria dava a Sylvia para os alfinetes, se Sylvia cuidasse de alfinetes. Conheceu Joyce num jantar que o poeta, e futuro fascista, Ezra Pound, lhe organizou. Os franceses enchiam os copos para um brinde tinto, mas Joyce tapou o dele: jamais bebia antes das oito da noite.

Fascinada, Sylvia descobriu nele o mais sensível dos irlandeses: à falta de vista, Joyce juntava um infantil medo aos cães, ao vasto oceano, às alturas que Hitchcock filmou em “Vertigo”, um insólito medo aos cavalos e às máquinas e um inenarrável medo às trovoadas.

E deixa, agora, de haver lugar para mim aos ombros de Sylvia: na linha de um popular “nem, nem”, descartando a primeira adversativa, Joyce nunca mais saiu de cima da missionária que havia em Sylvia.

Ela viu em Joyce a porta de entrada para a imortalidade. Leu “Ulysses” e cheirou na priápica e iconoclasta prosa de Joyce não o hediondo, mas o perfume do delírio estético. Juntou as envergonhadas poupanças e publicou, em inglês, em França, o livro de Joyce. Afinal já viviam em Paris, nesse ano de 1922, 30 mil americanos e outros 400 mil vinham por ano em turismo. E depois secretariou, vasculhou e cuidou do espólio dele. Joyce, que tanto lhe devia, nada lhe pagou. Dez anos depois entregou “Ulysses” a um editor americano e quase levou Sylvia à falência, o que, lapidar, ela resumiu assim: “Com Joyce, o prazer foi sempre meu – um prazer infinito –, os lucros, todos dele.”

Agora vejam, a Paris das artes, com André Gide de rédeas na boca, cavalgou em defesa de Sylvia. Enchiam-lhe a livraria, faziam sessões, com Hemingway sempre de copo cheio. Fizeram da Shakespeare & Company a mais lendária das livrarias. Fechou-a a pata nazi. Hemingway, fardado, viria libertá-la, em 1944, mas Sylvia, que escondera todos os livros num apartamento, já não quis abri-la.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Feira da Língua Portuguesa. É oficial. Está aberta

Oferecemos-lhe, caro leitor, outra Feira do Livro, a Feira da Língua Portuguesa. Começa hoje, agora mesmo e vai até dia 5 de Maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa. Está aberta esta feira que comemora essa pátria que é a língua portuguesa, como lhe chamou Pessoa ou, por ele, o ajudante de guarda-livros Bernardo Soares.

A língua portuguesa é a nossa pátria por ser ela que estrutura o nosso pensamento – não há pensamento sem língua – a nossa comunicação de todos os dias, as ternuras que dizemos a quem amamos, mesmo os insultos que dirigimos a quem nos ataca ou ofende.

Há livros maravilhoso escritos sobre a nossa língua. Alguns foram publicados pela Guerra e Paz editores. Sobre a origem e evolução da língua portuguesa, sobre as suas normas, dois grandes autores, os professores Fernando Venâncio e Marco Neves, escreveram livros como o Assim Nasceu uma Língua, o Dicionário dos Erros Falsos e Mitos do Português e outros títulos magníficos. São professores, sim, mas escrevem com uma leveza e um humor que parece que estão sentados à mesa connosco. Puxe da sua bica e sente-se também. Há livros de insultos, há livros de ortografia, há um livro caluanda e até palavras cruzadas lhe oferecemos. E não poupamos o malfadado Acordo Ortográfico que nesse mau ano de 1990 enfiaram pela boca da língua abaixo.

Está aberta a feira! Entre agora mesmo e faça já um selfie com este nosso cartaz. Mande-a para comunicacao@guerraepaz.pt. Nós vamos eleger a mais criativa e bem humorada – a que melhor servir e se servir da língua – e ofereceremos dois livros, a Gramática para Todos e o Pequeno Livro dos Grandes Insultos, aos autores das duas melhores selfies.

Um conselho. Leve os livros que quer numa só compra. Se atingir um valor de 30€ a 49€ de compras, oferecemos-lhe as Memórias Póstumas de Brás Cubas, do grande Machado de Assis, o que é um magnífico bónus. Se os seus livros atingirem o valor de 50€, oferecemos-lhe a edição de luxo da Tabacaria, em cinco línguas e caixa de madeira, o Rolls-Royce das edições da Guerra & Paz.

Todos os dias são Dia do Livro

Esta foi a Bica Curta que servi no CM, no dia 23 de Abril. Era Dia Mundial do Livro. Mas não são todos os dias, dias do livro? 

best-vintage-photography-reading-is-sexy
Sophia Loren, a ler, claro.

Dia Mundial do Livro

Nasci em Vale de Madeira, aldeia ao lado de Pinhel. Menino, vivi no Sambilas, musseque de Luanda. O livro salvou-me a vida. Por ser conhecimento, o livro dá a quem o lê uma vida mais rica.  É científico: a neurobiologia atesta o efeito da leitura no cérebro. Ler romances, ler poesia dá conhecimento. E enche-nos de prazer: o livro oferece aventura, empatia humana, expande o imaginário, erotiza a vida. Ganhamos experiência, visitamos mundos que existem e mundos que ainda hão de vir. O livro faz do leitor um deus e dá-lhe delícias que rivalizam com prazeres de mesa e cama juntas. Tenha piedade do seu espírito: compre e leia livros.

Um menino de 6 anos

Outras Bicas Curtas que tinham ficado para aqui esquecidas. Acolheu-as o CM e eu, hoje, uma semana e meia depois, trago-as aqui para a conversa.

Sleeping Woman With a Cat by Władysław Ślewiński
mulher a dormir, com gato, de Władysław Ślewiński

Um menino de 6 anos

Confiança. Puxei pela memória e era essa, quando tinha 6 anos, a palavra-passe para enfrentar o mundo. Eu tinha confiança no que o meu pai me dizia. Em Maio, teremos de sair de casa com confiança, vencendo o medo, como um menino de 6 anos.

Confiança para os pais deixarem os filhos à escola e voltarem ao trabalho. Confiança num Governo que reconheça que esta primeira refrega foi um hercúleo esforço para evitar a ruptura de um SNS tão heróico como debilitado. Confiança num Governo que tenha a coragem de nos dizer que teremos de coabitar com um vírus vagabundo, a um passo da infecção, por vezes da morte, e que a isso se chama vida.

A  herança

Com 30 anos de idade, a minha filha já me está a dar uma abada: 4 a 1 em traumas. Eu, aos 20, vivi e participei na independência de Angola, o que pôs de pantanas todo um mundo e um modo de vida. Mas a minha filha já soma quatro traumas, em idade juvenil: o 11 de Setembro, que pintou os nossos dias com a sombra do terrorismo; a crise do subprime, com a sua bolha imobiliária a arrastar a banca pela rua da amargura; a crise das dívidas soberanas que pôs Portugal de joelhos; e agora este vírus vadio.

Quatro crises, tantas sombras, muitos sonhos adiados.  A geração da minha filha, dos nossos filhos, merecia ter recebido outra herança.

Coisas da China

Estas foram Bicas Curta que eu escrevi no CM há uma eternidade, quase três semanas. Já o mundo mudou todo. 

china

A China engole tudo

Margrethe Vestager, vice-presidente da Comissão Europeia, soltou o grito: travem a China, não a deixem engolir empresas estratégicas. Como engoliu a ONU, digo eu.  Engoliu a agricultura e alimentação (FAO), o desenvolvimento industrial (ONUDI), as telecomunicações (UIT), a aviação (OACI), quatro agências presididas por chineses, para não falar da saúde (OMS), presidida pelo seu candidato, o etíope Tedros Ghebreyesus.

Nenhum outro país tem, na ONU, sequer um terço da influência chinesa. É muito perigosa a hegemonia de uma ditadura totalitária, com raízes históricas bem mais agressivas do que a propalada e mítica paciência chinesa.

Para trás?

Vaticínios em cima de trauma dão besteira. O coronavírus é um trauma brutal. Vamos a caminho dos 130 mil mortos. Prognóstico: o caos. Mas tivemos massacres recentes mais devastadores. Em 1957, a gripe asiática matou dois milhões. E em 1968, a gripe de Hong Kong matou um milhão de pessoas. A humanidade saiu dessas catástrofes, criando sempre um mundo mais desenvolvido, com mais ciência, mais direitos humanos, mais bem-estar. Diz o povo: para trás mija a burra. Como em 57 e 68, temos de lutar por um mundo novo: que concilie liberdade e segurança, ciência e comércio. Com muito mais democracia, a começar pelo gigante que é a China.

Adagio para Nova Iorque

cab

Destruir Nova Iorque é como apagar o “Cântico dos Cânticos” da Bíblia. Nova Iorque transmite ao mundo uma energia tão sublime como “os beijos da tua boca, amor melhor do que o vinho”, que o amado e a amada reciprocamente louvam no “Cântico”. Lembro-me da minha primeira vez, antes desses aviões-bomba que pulverizaram as Torres Gémeas, muito antes deste vírus que agora enterra nova-iorquinos em valas comuns.

Foi, primeiro, um toca-e-foge, em 1986. O avião bateu no JFK e eu, em trân­sito, vim espreitar a rua, cinco minu­tos de cá fora, antes de entrar nou­tro por­tão e apa­nhar o vôo para Los Angeles. Encos­ta­dos ao interminável pas­seio, esta­vam ali, num ama­relo de Van Gogh, os táxis de Nova Ior­que, o ino­cente, inso­lente e impas­sí­vel yel­low cab. Olhei e, milagre do cinema, vi que havia um oci­oso Robert Mit­chum, mesmo um ner­voso De Niro, encos­ta­dos às por­tas dos car­ros, à espera. Três meses depois, vol­tei. Estava Dezem­bro com um pé na chuva e outro na neve e fal­ta­riam três renas para o Natal, se assim se pode dizer.

Apascentava o ar a pomba, a alegria das corças que inspirou a Salomão o seu “Cântico”, e o braço direito do amor apertava os humanos contra si. E eu entrei, pela primeira vez, no yellow cab de Nova Iorque. O taxista arran­jou maneira de enfiar qua­tro estra­nhos no seu táxi. Lembro-me que, banco de trás, entrei em Nova Ior­que com a fria manta das sete e meia da manhã aos ombros, a coxa direita encos­tada à esquerda de uma morena, a esquerda à direita de uma loira – há van­ta­gens em ser-se por­tá­til e encaixarmo-nos bem na doçura e aconchego juve­nis de um táxi que invade Manhattan.

Não se entra em nenhuma cidade como se entra, pela pri­meira vez, em Nova Ior­que: fundem-se a gran­deza e o por­me­nor, a sofis­ti­ca­ção e o tri­vial, o arranha-céus e o esgoto, o céu e o fumo do chão. Em Nova Ior­que temos a cer­teza de que a rein­car­na­ção é a única expli­ca­ção para a vida humana. É a pri­meira vez e reco­nhe­ce­mos cada cara negra, branca, porto-riquenha, eslava ou chi­nesa que passa. Dizem-nos “honey” como se sempre tivéssemos fumado qualquer coisinha juntos. Já os vimos, mesmo sem saber­mos onde os vimos.  Todas as ruas por onde pas­sa­mos nos fazem sol­tar o ah! de espanto de quem, nos­tál­gico, se exalta com o regresso às ruas da sua infân­cia, mesmo que tenhamos vivido a infância num musseque de Luanda, como eu vivi a minha. Já vive­mos ali, sem saber­mos que outra vida pos­sa­mos ter vivido que não seja essa vida que lem­bra­mos, cruzando-a de táxi, espantados por a termos esquecido.

A cidade que acorda, os outros car­ros, as bici­cle­tas, as jovens mulhe­res que cor­rem, os homens agi­ta­dos parecem ser uma inven­ção da nossa mente, uma liberté de espírito, um sonho ou o filme que a nossa cabeça dirige. É o nosso olhar, olhar que espreita pelas jane­las molha­das de um táxi (há pou­cas coi­sas molha­das de que se goste tanto como das molha­das jane­las de um yellow cab!), é o nosso olhar, dizia, que inventa, cere­bral, Nova Iorque.

A Nova Iorque vivida atrás do vidro molhado de um táxi é indestrutível. No bolso, a chave (ainda havia chaves) do pri­meiro hotel de que já me esqueci do nome, em Gram­mercy Park. Talvez tenha sido só um sonho, como o do poeta inglês Coleridge, que visita o paraíso e lá colhe uma flor, mas ao acordar percebe, num sobressalto, que tem na mão a flor. Talvez Nova Iorque seja como o paraíso desse sonhador. Por via das dúvidas, enquanto escrevo, seguro na mão a chave do quarto de um hotel dessa cidade com sabor a maçãs, que nenhum terror, bombas ou vírus, há de desfazer.

Crónica publicada no Jornal de Negócios