As negras escolhas musicais da página negra

Começa aqui a primeira secção específica da Página Negra. Tem o interminável título “As negras escolhas musicais da página negra”. Registará as negras escolhas musicais do dono disto tudo, esse tal Manuel S. Fonseca.

 

Isto é muito bom. Primeiro, porque Wynton Marsalis é muito bom. Segundo, porque Dave Brubeck era muito bom. Terceiro, porque é muito bom ver gente a bater tão bem palmas. Quarto, porque ouve-se e parece que é domingo. E não é que é mesmo domingo!

As 10 cenas mais marcantes do cinema

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O evento chama-se O Gosto dos Outros. A anfitriã é a Fundação Gulbenkian e o conceito e organização são de Nuno Artur Silva. Em várias salas, num estilo maratona, várias figuras de diferentes áreas artísticas tornam público o seus gosto e partilham com os variados auditórios listas com 10 (é o número mágico) escolhas. Também vou a jogo. Pediram-me, e fi-lo com gosto, que escolhesse as 10 cenas mais marcantes da História do Cinema. É um absurdo, bem sei, mas arrisquei-me e cometi o crime. Escolhi estas, sabendo com toda a certeza que amanhã já escolheria outras 10 e depois de amanhã, ainda outras 10:

Way Down East (20), de D. W. Griffith – a cena das placas de gelo e o salvamento de Lilian Gish;
Steamboat Bill Jr (28), de Buster Keaton, a queda da casa sobre Keaton, no meio do ciclone;
La Passion de Jeanne d’Arc (28), de C. T. Dreyer – a cena do corte de cabelo da Falconetti;
Singin’ n the Rain (52), de Stanley Donen, Gene Kelly, a cena de Gene Kelly a dançar o Singin’n the Rain
Seven Year Itch (55), de Billy Wilder, a saia de Marilyn levantada pelo vento que vem do Metro;
The Searchers (56), de John Ford, a cena do resgate de Natalie Wood por John Wayne;
Psycho (60), de Alfred Hitchcock, a cena do chuveiro;
Le Mépris (63), de J. L. Godard, abertura com Bardot nua, na cama, e em diálogo com Piccoli sobre o corpo dela;
Persona (66), de Ingmar Bergman, a cena em que Bibi Anderson conta a tarde de sexo com uma amiga e dois rapazes de ocasião;
Jaws (75), Steven Spielberg , a cena dos três “caçadores” do tubarão a compararem cicatrizes no barco.

É amanhã, às 17:30, no Auditório 3 da Fundação Gulbenkian. A Inês Lopes Gonçalves vai lá estar, em diálogo comigo. Apareçam. Vão poupar um dinheirão: as entradas são gratuitas.

Lista de ódios

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Faço a lista dos  meus pequeninos ódios. Ódio é, talvez, um termo excessivo, mas é verdade que detesto:

  1. Que digam “eles”. Na política, nas empresas, no quotidiano, quando alguém diz “eles”, cheira-me a fraqueza e a irracional auto-exclusão desculpabilizante.
  2. Que alguém se arrogue o “amor do cinema” ou o “amor da literatura” ou o “amor da pintura” para garantir uma qualquer forma de autoridade ao que tem a dizer sobre um filme, um livro, seja o que for.
  3. O discurso anti-religioso apocalíptico. Sendo eu ateu (ou serei só agnóstico?), entendo como menoridade intelectual a incompreensão dos valores éticos e estéticos que estão associados às representações religiosas;
  4. O puritanismo incapaz de se divertir, um bocadinho que seja, com o sexo, com os pecadilhos (e vá lá, de vez em quando, um pecadão) que com ele – o precioso sexo – fazem procissão.
  5. A seriedade nata. Sabem como é, aquela que recusa o humor. Gente de fronte alçada que, para ser solene, tem de apresentar-se sempre com ar de dia de Finados.
  6. A insensibilidade social. Aflige-me que, por superficialidade, pura tolice ou por cadavérico enquistamento, alguém perca o mais decente dos sentimentos, o da compaixão pelos seres humanos que caprichosa ou raivosamente a vida maltratou.

E detesto descobrir que, por mais implacável lucidez de que me reclame, não posso afinal dizer que “desta água nunca bebi ou beberei”. Fico aqui quietinho, contando que sejam mais magnânimos e misericordiosos do que eu.

Os olhos dos mortos

 

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Ficam-nos as cinzas nestas gavetas como um livro numa estante. Voltarão a ler-nos?

Gosto tanto do Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.

O Eduardo, como foi hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos nestes túmulos do que amigos aqui fora.”

Não sou muito de me agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25 de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H. Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.

Eu já podia fazer um rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no Lincoln Center.

Os meus mortos. Tu, Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês, entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram  os vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers, que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.

Não sei o que diga aos meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II, que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu tenho deles.

Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.

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Abram bem esses olhos de luz e não nos vejam

os pântanos do Lousiana

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Estes dois dão-se intei­ros e físi­cos ao manifesto

True Detec­tive foi a bon­dade que a tele­vi­são ame­ri­cana nos deu no já remoto 2014. Vi os oito epi­só­dios segui­dos em três dias. Matthew McCo­naughey e Woody Har­rel­son são pro­di­gi­o­sos. Nic Piz­zo­latto escreveu-lhes falas assom­bro­sas de boas, mas eles — a cara e o olhar fecha­dos de McCo­naughey, o corpo a abandalhar-se de Har­rel­son — dão-se intei­ros e físi­cos ao mani­festo. São dois polí­cias a ten­tar des­co­brir um serial kil­ler. Mas num Lou­si­ana de ritu­ais bizar­ros, natu­reza sinis­tra, escu­ri­dão nii­lista, nos pân­ta­nos do Lou­si­ana um crime não é só um crime, um serial kil­ler não é só um serial kil­ler.

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Uma via­gem impi­e­dosa, uma escu­ri­dão niilista

Sim, é uma via­gem impi­e­dosa ao mais fundo da pobreza e degra­da­ção huma­nas, mas com uma, diga­mos, “fór­mula” admi­rá­vel, muito bem cal­cu­lada: é uma via­gem de 17 anos para se des­co­brir um crime que são mui­tos cri­mes, uma via­gem que corre em duas linhas para­le­las, a linha de um pre­sente cínico, em que os dois detec­ti­ves brancos são sis­te­ma­ti­ca­mente inter­ro­ga­dos por dois ines­cru­tá­veis detec­ti­ves negros, e a linha de um pas­sado activo, de inves­ti­ga­ção enér­gica, hard-boiled, cheia de surpresas.

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Dois ines­cru­tá­veis interrogadores

True Detec­tive é uma série que fala bem, com o bri­lho de um dema­gogo ate­ni­ense (porra, estou a falar de Demós­te­nes). True Detec­tive é uma série que filma quase tão bem como fala, com um ner­vo­zi­nho e plano-sequência que fazem sus­pi­rar um Scor­sese, if you know what I mean.

True Detec­tive canta tão bem que me ale­gra: não é só a can­ção do gené­rico que toda gente já canta nos auto­car­ros e no metro de Lis­boa (estão a dizer-me que não can­tam, que não ouvi­ram? Devem estar a brin­car comigo!), são tam­bém as outras can­ções da banda sonora. Por exem­plo, aqui em baixo esta “Train Song” (vêem como se canta no metro e em toda a linha de Cas­cais!) que fecha o segundo epi­só­dio, ou ali em cima, aquele “Angry River” que me inunda o vazio que não con­fesso, a fechar o oitavo e último epi­só­dio desta pri­meira temporada, que devia ter sido a última. Terem depois feito uma sem Matthew e sem Woody, mais valia que tivessem ficado quietos.

Um slow de sábado à noite

 

Eu tive os meus anos Steppenwolf. Eram – serão sempre – os Steppenwolf. Tinham o som único, ácido, de The Pusher ou Born To Be Wild. Mas podiam ser estranhamente líricos como é aqui o caso. Eram cantados pela voz bluish de John Kay, magnífica, cheia, que de vez em quando se chegava à boca da noite e nos cantava assim, arrastando-nos e arrastando-me para slows de oh, meu Deus, é que nem me quero lembrar.

Ardíamos tão devagar nos slows de sábado à noite.

Corrina, Corrina, em boa verdade, não era uma canção deles. Roubaram-na a Bob Dylan. Mas, de a cantarem como a cantaram, é na deles que o meu pobre corpo se lembra e ressuscita.

Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
I been worr’in’ ’bout you, baby,
Baby, please come home.

I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
But I ain’ a-got Corrina,
Life don’t mean a thing.
Corrina, Corrina,
Gal, you’re on my mind.
Corrina, Corrina,
Gal, you’re on my mind.
I’m a-thinkin’ ’bout you, baby,
I just can’t keep from crying.

Cheirei, inalei, ou eu não fosse já eu

Ah, bom Deus, a nostalgia que se me atravessou. Foi há uns quatro ou cinco anos, estava a ver o Tree of Life, do Malick, e não é que no Texas, na small town onde também o filme se passa, irrompe um magnífica carro a despejar nas ruas o DDT da minha infância. Ah, Malick de um raio, que subiste cem metros na minha já tão alta consideração. Explico tudo já a seguir. 

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Eis o bicho que deitava fumo

Eu já dizia eu. E cor­ria como o Man­tor­ras, essa nos­tál­gica gazela de Catete. Eu cor­ria, ruas de Luanda, entre a Fer­nando Pes­soa, a Alberto Cor­reia e a Almeida Gar­rett. Às vezes, a per­der o fôlego, até ao Largo Cesá­rio Verde. A topo­ní­mia é mais men­tirosa do que a lua e esses nomes euro­peus eram nomes de ruas de São Paulo da Assump­ção de Loanda, cidade afri­cana que a esqua­dra bra­si­leira de Sal­vador Cor­rêa de Sá e Bene­v­ides reti­rou à mão pirata e holan­desa para a devol­ver à restau­rada nacional­i­dade por­tuguesa, quando Angola não tinha, ou se jul­gava que não tinha, nenhuma.

Quando o eu que já era eu cor­ria, eram tam­bém out­ros os fumos do tempo, mas ainda não eram esses os que me faziam cor­rer. Não obs­tante, o já meu peque­nino eu era mesmo pelo fumo que cor­ria. Por nuvens dele como vão ver.

Aqui há atra­sado, descobriram-se 750 novos insec­tos em todo o mundo. Julgo que, naque­les ale­gres dias dos anos 60, se imag­i­nava exi­s­tirem alguns 4 mil­hões de espé­cies. É, para qual­quer espí­rito decente, uma obs­cena e múlti­pla ame­aça. Mos­cas e mos­qui­tos eram sinón­imo de doen­ças, febres altas e palúdi­cas, malá­ria, tifo, o diabo e delí­rios a qua­tro e a mato. Qua­tro mil­hões de espé­cies é muitís­sima espé­cie e, se não se podiam exter­mi­nar todas, era legí­timo exter­mi­nar algu­mas. Em Luanda, para epi­fâ­nica ale­gria do meu tão peque­nino eu, exterminava-se a mos­qui­tada com DDT. O DDT, acho que nem seria pre­ciso dizê-lo, é o napalm dos insec­tos, o cheiro a vitó­ria das man­hãs da minha infância.

O DDT vinha num carro que entrava pelos dias de sol incan­des­cente, sem Valquí­rias impe­ri­ais nos alti­falantes. Um carro só, com bizarro depó­sito atrás, anun­ci­ado pelos gri­tos das sen­tinelas do bairro que nós éra­mos: “Carro do fumo, carro do fumo!” E o DDT, indis­cu­tido pes­ti­cida, saía espesso, em nuvens glo­riosas, imac­u­ladas. Enquanto as mães, já arma­das em classe média, cor­riam a fechar as chei­ro­sas casas de ale­crim e alfa­zema, nós, mais lum­pen do que peque­nino bur­gue­ses, tirá­va­mos as cami­sas e mer­gul­há­va­mos naquele algo­dão doce. Bebía­mos DDT, respirá­va­mos DDT. O Dicloro-Difenil-Tricloroetano entrava-nos pelos poros, nari­nas, robus­tos pul­mões, enquanto à nossa volta os inimi­gos, não sei quan­tas espé­cies de insec­tos voa­do­res, ras­te­jan­tes, tom­ba­vam sem remis­são. Mor­riam. Massacre.

A vitó­ria era certa. Tería­mos dado cabo deles, da mosca tsé-tsé, da barata repe­lente, do mos­quito rai­voso, se não tives­sem, claro, proi­bido o DDT, o cloroben­zeno que valeu o Pré­mio Nobel da Med­i­c­ina ao suiço que lhe desco­briu as letais qualidades.

Cada mês que passa, inven­tariam-se (ups!) 750 novos insec­tos. Calcula-se que daqui a 445 anos esteja fechada e rig­orosa­mente selada a cat­a­lo­gação de todos as espé­cies inven­tadas ou por inven­tar. Serão vários mil milhões de espé­cies e domi­na­rão o mundo. Proi­bido o DDT, nada pode deter o tri­unfo sibi­lino dos artró­po­des. Mas nem o que a con­venção de Esto­colmo proi­biu, nem tão pouco 445 anos de insen­sata cat­a­lo­gação não insec­ti­cida, me podem negar ou rou­bar o que o “eu que já era eu” exper­i­men­tou na Luanda de guer­ras pes­ti­ci­das: eu ina­lei, eu chei­rei! E tinha o suave e doce cheiro da vitória.

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A festa

A porta do paraíso

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Se aos 20 anos, no escuro do cinema, quisesse deslizar a mão acima do joelho, por baixo da tua saia, não te levaria a ver, de Terrence Malick, “Tree of Life”.

É um filme complicado e simples. Filma a infância de três miúdos, pai e mãe, no Texas dos anos 50. Filma-lhes o medo e a alegria, vida e morte. Nos filmes habituámo-nos a que a vida faça sentido. Neste, o sentido das personagens não cabe nem se resolve na vida deles. Mas é um filme belo e simples como a mão sobre a redonda doçura de um joelho.

“Tree of Life” tem sede e fome de sentido: sede cósmica; fome metafísica. Não lhe basta filmar uma família. Filma – como o Kubrick de “2001”, dirão e mentem – a origem delirante de céu e terra, a luz bruxuleante, quase nada, onde começámos (que é o nada? o que é começar?) até à obscena explosão de vida a que chamamos natureza. É um turbilhão exaltante, mas já não é tão simples: tiro a mão, retrais o joelho.

Repito: a matéria de “Tree of Life” é o sentido. A de “Apocalypse Now”, lembram-se, era o rio; a de “Eyes Wide Shut” a impotência. Malick filma o infilmável: o sentido da vida, da dor, da felicidade. Aceitemos a ilusão de que o centro do filme é Jack, o irmão mais velho. Jack diz palavras terríveis à ausência de sentido. Trata-a por Tu maiúsculo e, quando procura a graça, sufocado de fé como Job na Bíblia, diz-lhe “Quem somos nós para Ti?” Mas o que deveria perguntar é “Sem Ti, o que é que nós somos para nós?” O silêncio desse invisível Tu, Deus talvez, é pavoroso e o vazio deste “pedaço” de filme é de uma espantada complicação.

“Tree of Life” não conta uma história. Malick começa a filmar as suas personagens onde “East of Eden” ou “Rebel Without a Cause” as deixaram nos anos 50. Elia Kazan e Nicholas Ray já tinham contado as histórias de amor e ódio ao pai, desejo da mãe, mortais ciúmes de um irmão. Malick filma sobre as ruínas e fragmentos desses “clássicos”: exibe o cruel tiro dum irmão no dedo doutro irmão, mostra o nariz do rapaz que cheira e acaricia e lingerie da vizinha. Filma o perplexo Sean Penn como se o presente dele fosse uma mão e o passado lhe escorresse pelos dedos entreabertos. Presente que o passado infecta de sentido.

“Tree of Life” precisa da cara amargurada do pretensioso Sean Penn para nela desaguarem as cenas familiares dos anos 50, troços de home movie em que até a felicidade é filmada com a aura da infelicidade. Mas glória de “Tree of Life” é a cara de Brad Pitt, pasmosa criação de pai abraâmico, e é a cara de Hunter McCraken, o miúdo que, no belíssimo desenho da infância de Jack, desenha a nostalgia da inocência e a patética vontade do paraíso. Ou não fosse a porta do cinema a porta do paraíso a que se acolhe uma mão, a lisa pele de um joelho.

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