Os olhos dos mortos

 

prazeres
Ficam-nos as cinzas nestas gavetas como um livro numa estante. Voltarão a ler-nos?

Gosto tanto do Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.

O Eduardo, como foi hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos nestes túmulos do que amigos aqui fora.”

Não sou muito de me agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25 de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H. Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.

Eu já podia fazer um rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no Lincoln Center.

Os meus mortos. Tu, Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês, entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram  os vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers, que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.

Não sei o que diga aos meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II, que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu tenho deles.

Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.

cemiterio
Abram bem esses olhos de luz e não nos vejam

2 thoughts on “Os olhos dos mortos”

  1. Calma, a luz não vê, esgota-se a ser luz. E assim os mortos com seus olhos luzentes.
    Curiosamente, penso que eles não têm saudade nossa, andam sempre próximos. Não acho que sejam cegos, mas os olhos do amor não ajuízam, só acompanham.
    Uma crónica genuína

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