Ainda Brian Jones estava vivo. Pôs Keith Richards a ouvir um álbum. “Quem é este gajo?” “Robert Johnson”, respondeu Brian. Keith insistiu: “Yeah, mas e o gajo que está a tocar com ele”. E Keith explica que estava a ouvir dois guitarristas “e precisei de um bom bocado para perceber que o tipo fazia aquilo tudo sozinho”.
Está apresentado Robert Johnson (Um génio! Pura lenda segundo Marty Scorsese). Agora ouçam-no.
Este blues, sublime, junta a dor da perda e a dor do reencontro. Ela foi-se embora com o melhor amigo dele e não voltará. Nunca mais. Mas depois, a tanta angústia, junta-se a muito maior aflição da recolha da “woman in trouble” que o inverno abandonou à porta de casa.
Quem será? A que “babe” é que Johnson diz, plangente, “you better come on in my kitchen, it’s goin’ to be rainin’ outdoors”? Blues de infidelidade ou de aceitação? Dor de corno ou amor redentor? Decidam.
E, sobretudo, gostem muito deste mais famoso entre os mais famosos Delta Blues Singers. Johnson terá vendido a alma ao diabo para aprender a tocar guitarra – aprendeu de um dia para o outro, a uma velocidade impossível! – e tinha um catarata num olho, o seu “evil eye”, prova definitiva das suas relações luciferinas. Tinha 27 anos quando o Mestre das Trevas o veio buscar, no escrupuloso cumprimento do Faustiano acordo. Dizem que uivou à lua na noite em que morreu.
Há também um pessoal mais prosaico que explica tantos mistérios com o simples facto de Johnson ser um tipo excepcionalmente tímido, o que terá alimentado todas as lendas. Na sua campa funerária pode ler-se: “When I leave this town, I’m ‘on” bid you fare… farewell. When I return again you’ll have a great long story to tell.”
Os Rolling Stones gravaram, dele, pelo menos e assim de cor, “Love in Vain”, no album Let It Bleed. E o Mick Jaegger cantava o primeiro verso deste “Come On In…” no filme “Performance” de Nicholas Roeg.
As duas mulheres levantam-se e dirigem-se à porta. Não é uma porta qualquer. É uma porta que abre para uma rua nova-iorquina dos anos 30. Qual das duas mulheres, Dorothy Parker ou Clare Boothe Luce, sairá primeiro? Qual delas dará prioridade à outra depois de uma primeira conversa que mais parecia uma venenosa batalha de talentos?
Dorothy Parker, escritora judia, educada em escola católica, perfumou de irreverência décadas da vida intelectual americana, de Nova Iorque a Hollywood. E tenho de me vergar à verdade cristã: Dorothy foi expulsa da escola católica. Terá descrito o delicado mistério da Imaculada Concepção como – oh, minha Nossa Senhora! – um fenómeno de “combustão espontânea”, provocando, e isto sou eu a inventar, o tombo e traumatismo craniano da Madre Superiora.
Mas é a tão bela Clare, agora, à porta, que cede a passagem a Dorothy, dizendo-lhe, com voluptuosa inocência: “A idade antes da beleza!” A intrépida e sarcástica Dorothy avança e responde: “As pérolas antes dos porcos!”
Já escritora e dramaturga famosa, Clare dirá que, nessa única vez com Dorothy, estava aterrorizada, tanta era a fama daquela mulher de esquerda, que o macartismo perseguiria, a única a sentar-se à mesa dos escritores machos do Hotel Algonquin, de artigos devastadores na “New Yorker”, onde partilhava com o cronista Robert Benchley um cubículo tão pequeno que, dizia, “menos dois centímetros e seria um caso de adultério”.
Não correu melhor o encontro de Clare com o dramaturgo Bernard Shaw. Admirava-o e sentia-se discípula dele: “Ah, Senhor Shaw, sem si, eu não estaria agora aqui.” E logo Shaw, com uma doçura irlandesa: “Ah, sim? Qual é que era mesmo o nome da sua querida mãe?”
Ora, de sonsice em sonsice, estou é com vergonha de dizer quem era Clare Boothe Luce. Era anti-nazi, antes de mais. Anti-colonialista, mal visitou, na Índia, o Império britânico. Anti-comunista, assim que viu as tropas soviéticas no teatro da II Guerra Mundial. Era, portanto, sensata e conservadora, alinhando-se primeiro com a política de Roosevelt, logo a seguir com os republicanos, causa que serviu, chegando a ser a primeira mulher embaixadora americana. Em Itália, no pós-guerra.
A guerra dela com Dorothy Parker era política, claro. Mas ditada também pela deslealíssima combinação que Clare incarnava: a sua escrita tinha êxito e ela nadava em dinheiro. Clare casou duas vezes e nenhuma delas comigo. Não por eu não ser um partido sedutor e nonchalant: não sou é o multimilionário que cada marido dela foi. Luce, seu apelido, é o do segundo marido e imperial fundador da “Time” e da “Life”. Diz-se que Clare teve a ideia da “Life” e, da sua influência na revista, alguém comentou com Dorothy Parker que a terrível Clare uma coisa tinha, era gentil com os inferiores. “E onde é que ela os descobre?” quis saber Dorothy.
Aforística como uma Agustina que tivesse uma costela de Vasco Pulido Valente, Clare, nos anos 30, tinha uma sumptuária segurança financeira e um êxito estrondoso, com a peça “The Women”, só com mulheres em palco, 40 se contei bem. Convertida ao catolicismo, foi libérrima nos costumes, com uma bela fila de amantes, que lá pelo meio meteu o pai dos Kennedy, e não escondeu as experiências com LSD. Eis o retrato de uma inteligente e combativa mulher de direita a que a esquerda intelectual americana fez fine bouche. Inquieta, depois de ter tido tudo, dinheiro, artes, sexo, política, Clare, vendo a beleza a extinguir-se, tentou três vezes o suicídio, belo pingo trágico para selar uma biografia.
Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios
A indignação, o malabarista direito à indignação, está gordo de sobrevalorizado. A indignação é, tantas vezes, a forma de atribuir aos outros, sejam quem forem, a responsabilidade de todos os males. Pilatos também se indignou e até lavou as mãos. Quando nos indignamos, se ao mesmo tempo não agirmos e não dermos soluções, não estaremos a usar as vítimas como estandartes da nossa boa consciência? O caminho da verdade é melhor do que o da indignação.
Quem vale mais? Quem se indigna ou quem resolve? Só onde se cria saber, riqueza, diversidade e abundância é que diminuem as vítimas. Eis o maior dos nossos direitos: ter deveres.
Às 23:58 de hoje, quinta-feira, dia 8 de Agosto, na RTP 2, sou eu que dou o corpo às balas. No 6.º episódio do programa Mil Palavras Não Fazem uma Árvore, a Eugénia de Vasconcellos, autora e apresentadora do programa, entrevista-me. Dela todos esperamos o melhor. De mim, já se sabe que sou e farei fraca figura. Mas lá que gostei da conversa, isso juro-vos que gostei. Mérito de quem nos guia e põe à vontade.
De tão pleno, essencial, indedicável e inescutável rumor, o poema é o mais esplendidamente inútil de todos os gestos. Dos que conheço, pelo menos. O poema aparta a tua mão da minha, mas também, a noite, a alba, o dia…
De Jorge Luis Borges
La Víspera
Millares de partículas de arena,
Ríos que ignoran el reposo, nieve
Más delicada que una sombra, leve
Sombra de una hoja, la serena
Margen del mar, la momentánea espuma,
Los antiguos caminos del bisonte
Y de la flecha fiel, un horizonte
Y otro, los tabacales y la bruma,
La cumbre, los tranquilos minerales,
El Orinoco, el intrincado juego
Que urden la tierra, el agua, el aire, el fuego,
Las leguas de sumisos animales,
Apartarán tu mano de la mía,
Pero también la noche, el alba, el d
Véspera
Milhares de partículas de areia,
Rios que ignoram o repouso, neve
Mais delicada que uma sombra, leve
Sombra de uma folha, a serena
Margem do mar, a momentânea espuma,
Os antigos caminhos do bisonte
E da flecha fiel, um horizonte
E outro, os tabacais e a bruma,
O cume, os tranquilos minerais,
O Orinoco, o intrincado jogo
Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo,
As léguas de submissos animais,
Apartaram a tua mão da minha,
Mas também a noite, a alba, o dia…
Carl Beech foi violado pelo seu padrasto, um militar, conluiado com outras altas figuras da finança e da política britânicas. Alguns jornalistas e a polícia levaram-no ao colo. Beech arrasou reputações de gente da alta, acusou até um ex-primeiro-ministro e as suas emotivas aparições levaram os ingleses às lágrimas.
Descobriu-se agora que da boca do justiceiro Beech só saíram mentiras descaradas: o tribunal provou que não foi vítima coisa nenhuma e condenou-o a 18 anos de prisão. Assustador é, hoje, ser o estatuto de vítima a dar os famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol. Terrível para a justiça e para as vítimas verdadeiras.
Não sei se, com os seus protestados e sinceros votos de pobreza, o papa Francesco tem o nosso rei D. Manuel I em boa conta. Espero que sim. Porque se algum dia o Castelo de Sant’Angelo viveu um momento de alegria e glória ao nosso rei o deve.
Não vou gabar a virtude de D. Manuel, o Felicíssimo, rei surpresa por obra e graça da mortandade em que uma certa idiossincrasia conspirativa mergulhou D. João II. Com razão ou sem, D. João II viu fantasmas em todos os recantos, sobretudo no seio, pelos vistos insidioso, da família, tendo exilado ou assassinado, em casos extremos pela sua mão, os herdeiros directos do trono. Sobrou-lhe este primo direito, D. Manuel, que D. João II fez questão de nomear herdeiro legítimo da coroa.
Escolha acertada. No reinado deste soberano quase por acaso, o Gama fez, pela primeira vez na história da humanidade, o caminho marítimo que levava de Lisboa à Índia e Pedro Álvares Cabral, premeditada ou ocasionalmente, chegou ao Brasil, por mais que, agora, um município brasileiro tenha escolhido para seu descobridor um virginal andaluz saleroso, um tipo de Palos de la Frontera, logo ali ao lado dessa Huelva de tão bom jámon.
D. Manuel I, e ainda não é disto que venho falar, foi Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia, o que significa que tinha os cofres bem mais recheados do que agora o nosso rigoroso ministro Centeno. Talvez nunca tenhamos sido tão ricos, tão imperiais e expansionistas, tudo afagado pelo tempero absolutista (mas iluminado) com que esta coroada cabeça planeou e cumpriu o seu reinado.
o menino e as guloseimas
Cheguei então onde queria. Em 1514, com pompa e circunstância, com luxo e exotismo, D. Manuel esmagou Roma com a embaixada que enviou ao Papa Leão X. O cortejo de riquezas, de pedras finas e jóias, de tecidos ultrajantemente macios (falam-me de seda lavrada e matizada), de brocados e filigranas, bastaria para que os olhinhos de Leão X brilhassem de muito material alegria (isenta de alienação marxista).
D. Manuel caprichou como nenhum português poderia hoje caprichar. O nobre Tristão da Cunha que dirigia a sumptuosa embaixada – acompanhado por tão ínclitas figuras como Diogo de Pacheco e Garcia de Resende – levava consigo mais esplêndidos e lúdicos presentes. Um cavalo persa montado por um caçador de Ormuz, uma pantera domesticada, o escandaloso multicolorido de papagaios e araras, o indisciplinado equilibrismo de macacos foram a mais exótica expressão do poder e da riqueza com que D. Manuel quis, manifestando a obediência de fiel servo, cativar o Papa para os fins políticos que tinha em vista, os do reconhecimento das descobertas e conquistas dos territórios que constituíam o império, esse nosso império que, então, com as asas do sol se media.
a tromba no balde
Terminei? Falta às pérolas e ouro o toque sumptuário: Leão X que era sensível às coisas do mundo (o que Lutero, o austero e seco Lutero, muito lhe censurou) viu o desfile de tanta tão rica surpresa como um menino a receber guloseimas. E o momento mais insuportavelmente açucarado teve lugar no fecho da parada, quando surgiu um elefante.
Hanno, o elefante branco, foi o modo que o nosso venturoso rei encontrou para cumular de gozo o brando espírito papal. Hanno, o branco elefante, quando viu o Papa, ajoelhou três vezes e, conta o Padre Manuel Bernardes, logo meteu a tromba num balde de água (de rosas, claro) que um servo ao lado trazia, borrifando com ela o séquito cardinalício e, a seguir, o espaventado povo romano que assistia. Hanno, com as suas guarnições de ouro maciço, tocou o coração venal de Leão X, que o conservou como sua mascote. Vitimado por uma angina, morreria, na corte pontifícia a 8 de Junho de 1516.
Ainda hoje, na linguagem popular italiana há um ingrato e equívoco resquício de tanta gala e ostentação. Chama-se portughese aos borlistas, às pessoas que tentam infiltrar-se sem pagar em espectáculos ou festas e afins. Há quem pense que isso se deve à condição humilde e vagamente manhosa dos portugueses contemporâneos, entre os quais me conto. Mas não. O que aconteceu, em 1514, foi que, deslumbrados pelo espectáculo que lhe oferecêramos, nas festividades que se seguiram, os romanos, quando apareciam os portughese, mesmo sem convite, davam-lhes entrada imediata e gratuita. Era uma honra ter nas festas esta gente que invadira Roma a tigres, papagaios e um elefante.
A economia americana está em ciclo de expansão há 121 meses. É o mais longo período de crescimento desde a segunda metade do século XIX, sólido argumento eleitoral para Trump. Se o chinês Xi Jinping precisasse de argumentos eleitorais, podia também dizer que a China já leva 30 anos sem recessão económica.
Curioso é que a fixação da teoria dos ciclos económicos é de um economista soviético, Nicolai Kondratiev. Estaline é que não esteve pelos ajustes: caminhada triunfal para o paraíso, a economia comunista não tinha cá ciclos. Ouviu Kondratiev e logo o despachou para a Sibéria. Depois, por via das dúvidas, mandou fuzilá-lo.