Nunca casou comigo

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Clare Boothe Luce

As duas mulheres levantam-se e dirigem-se à porta. Não é uma porta qualquer. É uma porta que abre para uma rua nova-iorquina dos anos 30. Qual das duas mulheres, Dorothy Parker ou Clare Boothe Luce, sairá primeiro? Qual delas dará prioridade à outra depois de uma primeira conversa que mais parecia uma venenosa batalha de talentos?

Dorothy Parker, escritora judia, educada em escola católica, perfumou de irreverência décadas da vida intelectual americana, de Nova Iorque a Hollywood. E tenho de me vergar à verdade cristã: Dorothy foi expulsa da escola católica. Terá descrito o delicado mistério da Imaculada Concepção como – oh, minha Nossa Senhora! – um fenómeno de “combustão espontânea”, provocando, e isto sou eu a inventar, o tombo e traumatismo craniano da Madre Superiora.

Mas é a tão bela Clare, agora, à porta, que cede a passagem a Dorothy, dizendo-lhe, com voluptuosa inocência: “A idade antes da beleza!” A intrépida e sarcástica Dorothy avança e responde: “As pérolas antes dos porcos!”

Já escritora e dramaturga famosa, Clare dirá que, nessa única vez com Dorothy, estava aterrorizada, tanta era a fama daquela mulher de esquerda, que o macartismo perseguiria, a única a sentar-se à mesa dos escritores machos do Hotel Algonquin, de artigos devastadores na “New Yorker”, onde partilhava com o cronista Robert Benchley um cubículo tão pequeno que, dizia, “menos dois centímetros e seria um caso de adultério”.

Não correu melhor o encontro de Clare com o dramaturgo Bernard Shaw. Admirava-o e sentia-se discípula dele: “Ah, Senhor Shaw, sem si, eu não estaria agora aqui.” E logo Shaw, com uma doçura irlandesa: “Ah, sim? Qual é que era mesmo o nome da sua querida mãe?”

Ora, de sonsice em sonsice, estou é com vergonha de dizer quem era Clare Boothe Luce. Era anti-nazi, antes de mais. Anti-colonialista, mal visitou, na Índia, o Império britânico. Anti-comunista, assim que viu as tropas soviéticas no teatro da II Guerra Mundial. Era, portanto, sensata e conservadora, alinhando-se primeiro com a política de Roosevelt, logo a seguir com os republicanos, causa que serviu, chegando a ser a primeira mulher embaixadora americana. Em Itália, no pós-guerra.

A guerra dela com Dorothy Parker era política, claro. Mas ditada também pela deslealíssima combinação que Clare incarnava: a sua escrita tinha êxito e ela nadava em dinheiro. Clare casou duas vezes e nenhuma delas comigo. Não por eu não ser um partido sedutor e nonchalant: não sou é o multimilionário que cada marido dela foi. Luce, seu apelido, é o do segundo marido e imperial fundador da “Time” e da “Life”. Diz-se que Clare teve a ideia da “Life” e, da sua influência na revista, alguém comentou com Dorothy Parker que a terrível Clare uma coisa tinha, era gentil com os inferiores. “E onde é que ela os descobre?” quis saber Dorothy.

Aforística como uma Agustina que tivesse uma costela de Vasco Pulido Valente, Clare, nos anos 30, tinha uma sumptuária segurança financeira e um êxito estrondoso, com a peça “The Women”, só com mulheres em palco, 40 se contei bem. Convertida ao catolicismo, foi libérrima nos costumes, com uma bela fila de amantes, que lá pelo meio meteu o pai dos Kennedy, e não escondeu as experiências com LSD. Eis o retrato de uma inteligente e combativa mulher de direita a que a esquerda intelectual americana fez fine bouche. Inquieta, depois de ter tido tudo, dinheiro, artes, sexo, política, Clare, vendo a beleza a extinguir-se, tentou três vezes o suicídio, belo pingo trágico para selar uma biografia.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

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