Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Há uns anos tive o prazer de subir esta escadaria: UCLA
Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 16 de Julho
O novo PREC, Polémica Racial Em Curso, tem um mérito: pôs a nu o medo na universidade. Num artigo veemente e frontal, o sociólogo Gabriel Mithá Ribeiro acusou a universidade de ostracizar quem não pensa pela cartilha de esquerda nas chamadas ciências humanas.
Mas o medo de falar – essa velha insídia salazarista – já passou da universidade à vida social. O espectro de décadas de pensamento unidimensional, a que a esquerda se rendeu, assombra cada conversa, cada bica curta. Há uma ameaça de censura e de exclusão, que não honram a liberdade de pensamento e a vontade de saber que esquerda e direita não extremistas têm de partilhar.
Hoje a minha mãe faria 93 anos, não tivesse ido a enterrar há 6 anos. Tanto se pode ir a enterrar no passado como a ir enterrar no futuro. Nesta canção vai-se a enterrar no presente. Ouvi-a esta manhã. Não sei se é belíssima, se é terrível. Passou por mim o vento de saudade de um tempo menos pesado: When we all fall asleep, where do we go?
Norman Mailer está nu e morto há quase 12 anos, desde Novembro de 2007. Li nestas curtíssimas férias, o livro que escreveu sobre o célebre combate de Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa. Chama-se, sem mais, “O Combate”. Escrita directa, cada frase um gancho, às vezes de direita, às vezes de esquerda. Uma paixão sem freio por Ali.
Sobre Mailer, e sem punhos de renda, escreveram-se, pouco depois da sua morte, dois livros. Um é da sua mulher, Norris Church Mailer. O outro, da sua amante, Carole Mallory, que ele amou, e ela a ele, durante nove anos. “A Ticket to the Circus” chama-se um, “Loving Mailer” o outro.
Coincidem em vários pontos, relatando as lendárias antipatias do escritor, a raiva que tinha a certos advérbios e, por razões menos gramaticais, a certos contraceptivos. Tem piada, ambas lhe agradecem a forma como, mentor, as animava a escrever. Ambas se lembram da escandaleira que foi a primeira noite de sexo: “Take off your panties, I want to experience your soul” lembra-se Carole de ele lhe ter dito.
Ambas suavizam a ideia de que Mailer tenha sido – pelo menos com elas – um tipo violento, e Norris até confessa que foi ela quem lhe acertou um murro no queixo, numa discussão. Ambas tiveram outras aventuras, Norris com Bill Clinton, antes de Mailer a conhecer, Carole uma longa lista de Oscarizados, incluindo Robert De Niro, Clint Eastwood e Warren Beatty. A chave, a verdadeira chave da paixão, confessam Norris e Carole, foi a mesma.
Norris fala do peito peludo dele que lhe servia de almofada, mas sobretudo do “splendid cock” que ele possuía.
Para Carole, Mailer parecia o Humpty Dumpty, quase ridículo, mas com um trunfo apreciável: “if his penis weren’t so beautiful, I would have left.”
Nenhuma o deixou o que não é certamente a pior homenagem que se pode prestar a um escritor.
Um olho perdido na Bastilha… mas este é Sade ou é Camões?
Agora que os meus olhos, que nunca foram grande coisa, já não são o que eram e ameaçam ficar piores, lembrei-me de que as artes e as letras até não se dão mal com a cegueira. O diabo é a exigência de um talento desmedido. Que é que querem, não se pode ter tudo… mas posso, ao menos, e para não cansar a vista, ir buscar esta velha lista de ceguinhos. E não lhe acrescento, injusto, António Feliciano de Castilho.
***
Se Camões não tivesse perdido um olho teria escrito a exacta obra que nos deixou? E a Homero, quem o cegou? A lança de um troiano?
Jorge Luis Borges, poeta de ouro e tigres, era cego e viajante impenitente. Viajou muito, de cidade em cidade. Há imagens dele de Paris, Cairo, Roma, Creta, Istambul, Filadelfia, Genebra ou Buenos Aires. Quero acreditar que haverá uma de Lisboa. São imagens paradoxais das viagens de um escritor cego que nelas se obstinava em cumprir o imperativo do acaso. Diz Maria Kodama, companheira do poeta, que escolhiam os destinos das suas viagens abrindo o atlas e deixando que “las yemas de los dedos adivinaran lo imposible: la aspereza de las montañas, la tesura del mar o la mágica protección de las islas”.
Por improvável que a associação pareça, cegueira e escritores são estrelas que cintilam juntas, há séculos, em noites de tormenta. Para além de Borges, que escreveu parte substancial da sua obra, “prisionero de un tiempo soñolientò / Que no marca su aurora ni su ocaso”, evoco a empobrecida visão de Wordsworth que, na matura idade, não conseguia ler mais do que 15 minutos de cada vez:
Though absent long, These forms of beauty have not been to me, As is a landscape to a blind man’s eye
Do divino e sádico Marquês diz-se que, como o luso poeta, terá perdido um olho quando esteve na cadeia – e que importava, naquela Bastilha, perder-se um olho guardando-se a alma, a quem tão bem sabia que toda a felicidade reside na imaginação.
Também os olhos russos de Dostoiveski, mais castigado um do que outro, sofreram com os ataques de epilepsia que não o pouparam desde os 20 anos.
Um ataque de glaucoma obrigou Joyce à tortura de sucessivas operações que explicam a pala que usava sobre o olho esquerdo. Nem por isso amou menos a Nora, escrevendo-lhe cartas que dão vista a qualquer cego.
Aos 46 anos, Milton, já cego, escreveu Paradise Lost com a ajuda das suas três filhas.
Aldous Huxley só não seguiu a carreira científica (não lhe teria ficado mal) por ter ficado virtualmente cego e (o que me terá dado para juntar os dois!) Gabrielle d’ Annunzio perdeu o aventureiro olho esquerdo quando foi atingido por bala inimiga, num voo durante a Primeira Grande Guerra,
Não conto nem falo dos que, no fim da vida, como Jean-Paul Sartre, tombaram no poço de trevas que rouba as formas dos rostos e das rosas, ficando obrigados a só escrever ditando.
Definitivamente a escrita não é uma arte da visão, mas só cosa mentale de personagens berkeleyanos.
“… and your eyes more bright
Than stars that twinkle in a winter’s night.” John Dryden (1631−1700) The Conquest of Granada.
A epilepsia de Dostoievski ou o torturado olho de Joyce? É que cada vez estou a ver pior.
Se ainda bate um coração no peito dos leitores do Jornal de Negócios, bebam-me estas lágrimas. São as lágrimas da mãe de Joseph Cyr. É um dia de Outono de 1951 e que mãe não choraria ao ver o nome do seu filho desenhado num jornal, a letras generosas, contando como ele, Joseph Cyr, cirurgião, na insidiosa guerra da Coreia, a bordo de um destroyer canadiano, em pleno deck e o céu por testemunha, operara três norte-coreanos, um deles com uma bala a tricotar-lhe o coração, salvando-os da nefanda morte. Essa é a mais franciscana das nobrezas: salvar o próprio inimigo.
E eis que uma das lágrimas volta atrás e logo o olho maternal a engole. Um sobressalto exaspera a mãe de Cyr. O filho é cirurgião num hospital de Grand Falls. Que ela saiba o filho não tem o dom da ubiquidade, o que um urgente telefonema confirma. O Estado Maior canadiano alarma-se: tem um impostor a bordo. O comandante do destroyer recebe o telegrama acusatório: lê-o, amarfanha-o, deita-o para o lixo. Que repugnante mentira!
Joseph Cyr, mal chegara ao destroyer, tivera de extrair um dente cariado ao comandante, o que fez com perdulária dose de anestésico e a contento da autoridade máxima. Ficaram amigos. Discreto embora, o doutor Cyr era admirado por todos. Dava larga margem de manobra à equipa de enfermagem no tratamento dos ferimentos ligeiros, usava com liberalidade a penicilina se a complicação era mais funda e de tromba feia. Não seria por ele que o imperialista destroyer canadiano não navegaria, a atazanar o vermelho social-fascismo emergente na costa asiática.
É verdade: descia aos seus dignos aposentos e fechava-se, por suados e sufocados minutos, antes das cirurgias mais bárbaras. Assim fora com a cárie do almirante, assim foi com os estripados guerrilheiros coreanos que tentaram assaltar o navio. A tripulação, na descida do cirurgião aos seus infernos, via uma angustiazinha de Deus, imperiosa necessidade de concentração.
A realidade é como a mais crua das troikas e revelou haver em Cyr um insustentável déficit de verdade: o Dr. Cyr nem era doutor, nem era Joseph Cyr. Revestido de uma não excessiva e por isso simpática gordura, Ferdinand Waldo Demara era um adorável impostor e roubara as suas credenciais ao verdadeiro Dr. Cyr, tão vigilantemente amado por sua mãe.
W. Demara não tinha estudos médicos, mas tinha a mesma vocação heteronímica de Fernando Pessoa, fingindo deveras o que na verdade quisesse sentir. Fora, por umas semanas, varredor num hospital americano, vira o que vira: era esse o seu curriculum. Confiou na penicilina, na juventude e aptidão física dos pacientes e na pasmosa capacidade da sua memória visual, que era o que o levava a descer ao camarote para ler à velocidade de Usain Bolt os manuais clínicos de que se munira para a aventura. Depois valeu-lhe a audácia e uma divina dose de sorte.
A vida do impostor Demara é um rosário infindável de máscaras: era capaz de ser engenheiro como Álvaro de Campos, empregado de escritório como Bernardo Soares. Nasceu em 1921, foi várias vezes monge – trapista, uma vez, beneditino a outra –, psicólogo, engenheiro civil, adjunto de xerife, advogado, editor, desaparecido em combate, suicida com êxito, investigador do cancro. Tudo isto fingiu, tudo fez com mil nomes e credenciais forjadas, mas irrepreensíveis. Sempre que o descobriam e ia preso, corriam lágrimas. Deixava atrás de si amigos, admiradores convictos, pela competência e maravilhosos resultados com que exercera os cargos. Faltam-nos impostores com esta excelência.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 11 de Julho
Não digo que candura e inocência caiam dos ceús aos trambolhões, mas o mundo também não é só sangue, suor e lágrimas. Exemplo: tenho uma amiga que vive com um sorriso de Madre Teresa e a leveza de seda de um vestido de Cinderela.
Entrou no metro. Um quase atleta sorriu-lhe. Inexcedível de gentileza, ela retribuiu. Trocaram duas palavras. De repente, entre dentes, ele sussurrou “dá-me o teu telemóvel”, encostando com força a mão metida numa toalha ao braço dela. “Ah, não dou, não – respondeu ela – ora essa, ainda agora nos conhecemos.”
Ao ver em casa a nódoa negra no braço, descobriu que a inocência a livrara de um assalto.
O que faríamos de Edvard Munch se “O Grito” tivesse sido definitivamente roubado? (E sim, as duas versões que Munch pintou foram ambas roubadas. Depois, felizmente, recuperadas.) Deixaríamos de o admirar e venerar como pintor?
Haverá menos angústia nesta “Separação” em que desapareces silenciosa e branca e me deixas de atormentados olhos cegos? A mão, a minha mão, segura o quê, o peito cavo, o queimado coração?
E mesmo que “O Grito” tivesse sido estropiado, retalhado, não tremeríamos com a mesma ansiedade perante a intimidade desta “Maddona” tão serena e consentida a oferecer-se à Luz que do alto desce a nimbar-lhe as eróticas formas para que, feita senhor a tua vontade, hajas tu menino jesus?