Um fogo do inferno

notre dame

Bica Curta servida no CM, 3ª feira, dia 16

Tomo a bica a escaldar. Arde em Paris uma parte do meu mundo. Os portugueses que viveram o salazarismo sabiam que, para lá do policiado quintal lusitano, havia outro mundo, a França. Ou melhor, Paris. Mais do que a Torre Eiffel, Paris era os cinemas de St. Germain e, no meio do Sena, a Catedral de Notre Dame. Fugíamos do Portugal salazarista, para delirarmos com salas de cinema e uma igreja. Num lado a volúpia de cenas profanas, eróticas a 24 imagens por segundo, do outro, o recolhimento das imagens em pedra, uma nave gótica e vitrais a fazer-nos em vida subir ao céu. Dói muito ver a nossa memória arder num fogo do inferno.

Vi-lhes a alma

big little lies

Não podemos ser todos Sócrates, pensou David E. Kelley, o produtor de “Big Little Lies”, pequena mini-série ovo, com clara televisiva e gema cinematográfica protegidas por robusta casquinha social. Não vi melhor este ano.

Sócrates, o da Apologia, recusava falar do que falavam os grandes homens do seu tempo. Pedia-lhes que cuidassem da alma. Imagino-o na ágora, a desviar conversas, a encafifar interlocutores com perguntas risíveis, quando eles queriam falar sobre os grandes temas. Com licença de Eça, naquele tempo havia já Acácios e Pachecos.

Ah, os grandes temas! Os grandes temas são a selva amazónica da nossa ágora, o seu ponto de exclamação. Os grandes homens e mulheres deste tempo peroram sobre os grandes temas. Respeitemos-lhes a grandeza e sejamos de uma homérica injustiça: a ágora, jornais, revistas, rádios e televisão estão sobrepovoados de Acácios e Pachecos. Os próprios grandes temas já são acacianos e pachequianos. O nosso tempo não é socrático, o que algum Sócrates contemporâneo poderá nostalgicamente atestar. Sócrates era o não-especialista: prezava a sua ignorância. Com ironia, digamos. Fazia perguntas a Acácios e Pachecos, mas não os admirava. Hoje, Acácios e Pachecos vingam-se: da boca de nenhum se ouvirá um socrático “como nada sei, estou certo de não saber”.

David E. Kelley sabe que ninguém, neste tempo, pode ser um Sócrates. Fez “Big Little Lies” e enche de pequenas mentiras, em vez de grandes verdades, os sete episódios dessa mini-série casquinha de ovo. Acácios e Pachecos desunhar-se-iam a falar de bullying escolar, de violência doméstica, de controlo parental. Com quatro mulherzinhas troianas, Kelley arranca a vida da selva amazónica, que são os grandes temas, e mostra-a numa mistura de riso suave e doçura intensa. É a grande esmola que a mão direita de “Big Little Lies” nos dá para esconder as grandes tragédias que a mão esquerda camufla.

Bem sei que vi tudo, copo de Quinta São Sebastião Colheita 2014 na mão, mas vi e ouvi a alma de Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley e dos homens delas. E, com ecos de édipos, eléctras e traquínias (com perdão dos gregos), entraram-me em casa o amor e a violação, os filhos e a escola, o sexo e o híper-sexo, as inomináveis boas intenções. O cenário é um cheiro a mar.

 

O chumbo e o livro

Hoje, dia mundial do livro 

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A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos, melhor do que eu, que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, pagina a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

Karina

Talento e sexo

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Bica Curta servida no CM, 5ª feira, dia 12 de Abril

Num dos seu textos polémicos, e são-no quase todos, o escritor Jorge de Sena defendia a prostituição. Com uma ideia perturbante: há quem tenha no uso do corpo para o sexo o seu único talento. É irrecusável que o use.

A Alemanha, leio, é hoje o maior bordel legal da Europa. Quase meio milhão de prostitutas, 700 casas de meninas só em Berlim, negócio de 14,5 mil milhões de euros a pôr de pé o PIB. Os bordéis são legais desde 2002, conferindo estatuto laboral às trabalhadoras do sexo. Mas o sexo não é uma bica curta. Cresce à volta o tráfico humano, o crime e a violência. Perigos e ameaças espreitam a cama onde se afoga o prazer.

Português precisa-se!

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O atarantado Reino Unido precisa, nesta Primavera de 2019, exactamente do que, na Primavera de 1817, precisou a atarantada aldeia de Almondsbury, ali perto de Bristol e do seu canal. Precisa de um português.

A 3 de Abril de 1817, o sapateiro da aldeia dobrou a esquina vespertina e chocou com uma jovem desconhecida, perdida, semi-vestida – ou, derramando um pingo de moral nesta prosa, semi-despida. Quer ajudá-la, mas não entende uma palavra que saia daquela boca, bem linda, por sinal. Chama a mulher, e só duplica a cacofonia. Uma hora depois, está a aldeia inglesa à volta da jovem de 20 anos, como estaria a aldeia de Fátima, se a levitante Nossa Senhora, em vez de pousar no campestre galho de uma azinheira, tivesse, peripatética, caminhado pelo largo central. Ora, Nossa Senhora falava línguas, a jovem de rotos trajos de Almondsbury é que línguas era o diabo.

Embora não fosse dona daquilo tudo, havia uma família rica, os Worrall. Ele era magistrado, a mulher era americana, a governanta, uma descendente de Safo, a que a invejosa aldeia chamava a criada grega. Chamaram esses poliglotas e uma onda babélica varreu as ruas de Almondsbury. Os Worrall levaram a igual sopa que já leva Theresa May. Zero, bola. E a mesma hermética incompreensão que hoje assola o Parlamento britânico instalou-se naquela aldeia pré-Brexit.

A senhora Worrall apalpa então as mãos da jovem. Eram nódulos, palmas e polpas macias como, hoje, as de Kate e Meghan. Mãos de ninfa. Durante dez dias a aldeia percebeu dessa ninfa o que o nosso sistema de ensino leva os estudantes a compreender de hermenêutica textual. Com uma excepção. Mostraram-lhe imagens e eis que ela grita “ananás”, apontando para uma reprodução do dito cujo. Era, pois, uma jovem exógena e exótica.

E chega o português. Intempestivo, como as línguas de fogo do Espírito Santo a descer sobre os apóstolos, em Almondsbury entra Manuel Ennes, marinheiro e experimentado aventureiro nas alegrias e doçuras de Ocidente e Oriente. Falou com a moça. Entenderam-se geringoncialmente como Deus e os anjos: fra­ses cur­tas, risos rápi­dos, total con­cor­dân­cia ges­tual.

Manuel desfez o mis­té­rio. Como as delicadas mãos atestavam, ela era a princesa Cara­boo, da ilha de Javasu, algu­res no Índico. Tinham-na rap­tado os pér­fi­dos pira­tas da pér­fida Albion. Após tor­men­tosa via­gem, à vista de terra, furtou-se à vigi­lân­cia dos pernas-de-pau, lançou-se ao mar, e nadou até à praia.

Diluída a ignorância inglesa, Manuel partiu. A aldeia viveu meses de glória com a princesa, a primeira vegan de Almondsbury, alimentada a frutas, legumes e chá, e autorizada a banhar-se nua no lago. A fama espalhou-se pelo condado, mesmo pela nação, chegando aos ouvidos de uma estalajadeira, que logo reconheceu a moça que hospedara seis meses e tinha o hábito de falar às filhas numa linguagem inventada. Caraboo era uma inglesinha, Mary Willcocks, nascida em Devonshire, pobre a roçar o indigente, de deslumbrada imaginação.

Almondsbury sucumbiu à vergonha. Os Worrall pagaram a Caraboo a viagem para a América, pondo um oceano a separá-los. Corre a lenda que uma tempestade levou o barco a Santa Helena e que Napoleão ficou encantado com ela. Em Filadélfia, montou um espectáculo como Caraboo, mas de modesto sucesso, como modesta foi, no regresso, a aparição como princesa exótica, em Londres, a um xelim por espectador. Casou e viveu, honestamente, a importar e vender sanguessugas a enfermarias e hospitais, honesto destino que espera, pós Brexit, a pátria de tão imaginativa filha.

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Porque hoje é sábado. De ressurreição

vinicius-de-moraes

Não  nos deixemos entalar. Nem encavalar. O mundo está, sempre esteve, perigoso. O mundo é, sempre foi, injusto. A bela democracia grega tinha escravos dentro de casa. Não se deixem impressionar com a contabilidade do passado e com a promessa de amanhãs que cantam. Ninguém tem de ter o Universo às costas. A felicidade é para hoje, é mesmo para agora.

Os piores Pides são os Pides da felicidade. Andam por aí a caçar risos. Andam por aí a a medir prazeres. Trazem debaixo do sovaco causas circunspectas e fracturantes, angústias que fazem da humanidade passada um rolo de carne de maldade e crime. É mentira.

Não se deixem amarrar com o que a boca deles diz, mas os olhos deles nunca viram. Não é preciso adiar nada para ajudarmos o mundo a ficar melhor. Beijem. cantem, bebam, amem. O mundo agradece. E depois trabalhem. Façam o melhor que conseguem fazer. Criem. Riqueza também. Não explorem os miseráveis fazendo deles bandeira. O que ajuda os pobres, desfavorecidos, desiguais, não é o angustiado enlevo das boquinhas em forma de cu. É a riqueza que pode ser repartida.

Porque hoje é sábado, como dizia Vinicius. E é de ressurreição.

Sexta-feira santa

Este é um post para ouvir.
Pri­meiro, uma canó­nica ver­são do coro final (“Des­can­sem em paz, per­nas aben­ço­a­das”) da Pai­xão Segundo São João, de Bach.

Depois, (“Bombé”) o encon­tro de Bach com o encan­ta­tó­rio bater de pal­mas de um ritual fúne­bre afri­cano — fusão mira­cu­losa, meu Deus Nosso Senhor.

Des­cansa sim, des­cansa esses teus ossos peri­pa­té­ti­cos. Far­taste de andar. Da Gali­leia a Jeru­sa­lém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado pas­seio à mais Alta Mon­ta­nha até sobre as águas cami­nhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os mús­cu­los. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me tam­bém a des­can­sar. Fecha na minha cabeça as por­tas do inferno e ensina-me o ama­relo, o dou­rado cami­nho para o paraíso.

Vladimir
Jesus no túmulo, Vla­di­mir Borovikovsky

Vais dizer-me que são teus os anjos da res­sur­rei­ção, que não cho­re­mos nós por ti, por que já basta cho­ra­res tu por nós. Mas ama­nhã, bem sei, vol­ta­rás a par­tir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com len­çóis de uma abso­luta ale­gria, júbilo dos nos­sos olhos, feroz volú­pia dos nos­sos ouvi­dos. Não dizes, mas sabe­mos: é tão fácil che­gar lá. Basta que nos dei­xe­mos crucificar.

E agora ouçam o Mon­te­verdi Choir e os English Baro­que Soloists, diri­gi­dos por John Eliot Gardiner

Comam alfaces

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 foto de Greta Dominaityte

Bica curta servida no CM, 4ª feira, dia 11

Por muito que goste de vinho é a água que vai atormentar o meu já curto futuro. Em 2040, a falta de água em Portugal será aflitiva e há a vaga hipótese de eu ainda estar vivo. Tentar ir a águas a Espanha e Marrocos não ajuda: estarão pior do que nós. Voltaremos a matar-nos à sacholada por um copo de água?

O site waterfootprint.org indica os alimentos cuja produção bebe mais água. Um quilo de chocolate gasta 24 mil litros! O quilo de bife sorve 15500, o de queijo 5000, a carne de porco e as azeitonas vêm a seguir. Bebam cerveja, vinho e comam alfaces: gastam pouca água. A bica curta também, o que é um descanso. Melhor só o chá.