Sexta-feira santa

Este é um post para ouvir.
Pri­meiro, uma canó­nica ver­são do coro final (“Des­can­sem em paz, per­nas aben­ço­a­das”) da Pai­xão Segundo São João, de Bach.

Depois, (“Bombé”) o encon­tro de Bach com o encan­ta­tó­rio bater de pal­mas de um ritual fúne­bre afri­cano — fusão mira­cu­losa, meu Deus Nosso Senhor.

Des­cansa sim, des­cansa esses teus ossos peri­pa­té­ti­cos. Far­taste de andar. Da Gali­leia a Jeru­sa­lém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado pas­seio à mais Alta Mon­ta­nha até sobre as águas cami­nhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os mús­cu­los. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me tam­bém a des­can­sar. Fecha na minha cabeça as por­tas do inferno e ensina-me o ama­relo, o dou­rado cami­nho para o paraíso.

Vladimir
Jesus no túmulo, Vla­di­mir Borovikovsky

Vais dizer-me que são teus os anjos da res­sur­rei­ção, que não cho­re­mos nós por ti, por que já basta cho­ra­res tu por nós. Mas ama­nhã, bem sei, vol­ta­rás a par­tir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com len­çóis de uma abso­luta ale­gria, júbilo dos nos­sos olhos, feroz volú­pia dos nos­sos ouvi­dos. Não dizes, mas sabe­mos: é tão fácil che­gar lá. Basta que nos dei­xe­mos crucificar.

E agora ouçam o Mon­te­verdi Choir e os English Baro­que Soloists, diri­gi­dos por John Eliot Gardiner