Ícaro e Medusa

Bica Curta servida no CM, 3.ª, dia 7 de Agosto

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O voo de Icar, Jacob Peter Gowy

Vi um homem voar como Ícaro e não cair ao mar. Sobrevoou o Canal da Mancha, de pé, em cima de pouco mais do que um tapete. Quando eu era um jovem hippie dançava o Magic Carpet Ride, dos Steppenwolf, sem sonhar que esse tapete mágico seria, hoje, uma realidade. E, bica curta na mão, vi também, um robot flexível e com pele. Não de metal, mas com pele de medusa. Minúsculo, 4 mm, desliza, salta e nada, para levar remédios ao tracto gastro-intestinal ou às coronárias.

Ícaro e Medusa. A ciência, a abençoada ciência capitalista, reencontra o gosto do maravilhoso da mitologia grega. O passado reinventa-se para nos oferecer o futuro.

 

 

Homens e Mulheres: uma lista

Ora isto foi um desafio que me fizeram em tempos. E eu respondi. Pensei actualizar e logo desisti. cassius-clay.jpg

Lista dos homens que gostava que fossem meus irmãos… e das mulheres que nunca Deus permita tal coisa

Dava-me jeito o Bogart como irmão mais velho: hey kid, não tens idade para whisky, mas ensino-te a pescar e a way with girls.

Não me dava jeito nenhum a Bacall como sister mesmo in-law. Nem mesmo em pensamento gostava de sentir coisas que fizessem o meu irmão mais velho corar como um tomate.

O Clooney sim: maninho, o que poupava em café. Ainda melhor, o Rui Nabeiro, que o Delta é o melhor café do mundo.

Dos pais da Keira Knightley nem filho adoptivo aceitava ser. Visita da casa, sim, a roçar-me pelas paredes, torpe, voyeur, na eterna esperança de que pelo menos um daqueles ínvios olhares do “Atonement” se estampasse nos meus olhos.

Escolhia Allan Bloom, professor meu irmão, homossexual as they say, para me educar em Shakespeare, nos dead white male, na beleza do amor hetero, da courtship, do casamento e do compromisso, revolucionário na vida, conservador na cultura. (Com a vantagem de vir lá a casa, de vez em quando, o Saul Bellow.)

Ó, o que eu acredito em temperamentos religiosos. Pela Christina Rossetti, minha prima pré-rafaelita, rejeitava o conforto agnóstico, teria sido devoto High Anglican, e saberia que My heart is gladder than all these / Because my love is come to me.

Andaria, andei pelas ruas de Louisville de mão dada contigo, Cassius Clay, Muhammad Ali, my brother, e aprendi a mexer os pés como um bailarino, a assustar os fortes, o desdém dos camiões de músculos.

Irmã coisa nenhuma: sonho-te minha vizinha do lado. Virgem de brincar aos enfermeiros, quando tivemos, Winona e eu, a idade da inocência.

Nem que fosse só meio-irmão, queria ser, de John Fitzgerald. Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país. Também para ter a Marilyn na festa de anos.

Da Jean Seberg irmão é que não. Sonhei que esbarrava nela, em St. Germain (caíste?), e um quarto esconso, dégueulasse, rue du Bac.

Teria muito orgulho na tua voz profunda, sonora, Lord Jim, senhor, meu irmão. Talvez me tivesses deixado ir ter contigo ao Oriente para conhecer, como tu, a “mágica monotonia da existência entre céu e água”.

Angelina Jolie, querida irmã, totem ou tabu?

O maior dos direitos

Bica Curta servida no CM, 3.ª, dia 6 de Agosto

solidário
O dever de sermos solidários

A indignação, o malabarista direito à indignação, está gordo de sobrevalorizado. A indignação é, tantas vezes, a forma de atribuir aos outros, sejam quem forem, a responsabilidade de todos os males. Pilatos também se indignou e até lavou as mãos. Quando nos indignamos, se ao mesmo tempo não agirmos e não dermos soluções, não estaremos a usar as vítimas como estandartes da nossa boa consciência? O caminho da verdade é melhor do que o da indignação.
Quem vale mais? Quem se indigna ou quem resolve? Só onde se cria saber, riqueza, diversidade e abundância é que diminuem as vítimas. Eis o maior dos nossos direitos: ter deveres.

Lá fora, no meio de mim

Dali
Salvador

Uma frase: mal sei onde a li e desinteressei-me logo do contexto. A frase surpreendeu-me, encantou-me – que é a única coisa de que ando verdadeiramente à procura: “Lá fora, no meio de mim.

Exterior, interior – as coisas não são assim tão simples. O mundo e eu – as coisas não são assim tão simples. Lá fora, no meio de mim, é o único lá fora que existe. Lá fora, não é da janela, da minha varanda, para fora. Lá fora é uma parte do meu cá dentro, no meio dele. Lá fora, no meio de mim.

Mona Lisa

mona lisa

Daniel Arasse, historiador e teórico de arte francês, que morreu em 2003, desafiou-me e desafia-nos, se o lermos, para um exercício que é prova provada de que surpresas, surpresas, as melhores vêm-nos do cemitério.

Já viste a Mona Lisa?”, perguntou-me. Olhei-lhe para o cadáver com superior vivacidade. Não ligou nenhuma e continuou: “Deixa-me descrever-te o quadro e não te admires do monte de coisas que vais admitir que nunca tinhas visto.” Tenho pena que não possam estar a vê-lo e ouvi-lo. Conto eu que não é mesmo a mesma coisa, mas é o que se arranja.

Ele disse-me e percebi logo que era verdade: a Gioconda, Lisa del Giocondo, está sentada numa varanda. Não vemos, mas há uma coluna à esquerda e outra à direita, típicas colunas duma loggia fechada por um murete baixo que no quadro, atrás dela, não distinguimos.

Ela, a Mona Lisa, está sentada num cadeirão (de verga, claro) de braços altos, num dos quais apoia (vejam!) o braço esquerdo. A loggia está num ponto alto – só pode,  porque a perspectiva é a de um fundo distante, difuso, de rochas, terra e água, de difícil legibilidade. Eu, por exemplo, juro que à esquerda da cabeça e do misterioso sorriso da Gioconda vejo uma massa em que se fundem rochas e árvores, enquanto Arasse diz que não senhor, nem uma árvore, só a linha fina de um lago, e nenhuma construção humana, nenhuma presença humana. O que, explica-me o paradoxal Arasse, não é verdade. O olhar de Gioconda denuncia a presença do pintor, de Leonardo Da Vinci? Sim, como o de quase todos os modelos. Mas não há só um olhar, há também um sorriso. (Arasse ensinou-me, mas desconfio da informação, que foi o primeiro sorriso da história da pintura). E o sorriso, digo agora eu, não está dirigido na exacta direcção do olhar.

Lisa Gherardini sorri para Francesco del Giocondo, seu marido, que, de pé, três passos atrás de Leonardo, a contempla, orgulhoso dela e dos dois filhos varões que ela lhe deu. Estão lá os dois, Leonardo no olhar, Francesco no sorriso. Nos dedos longos, os da mão direita entreabertos de acariciar a seda da manga, no peito que, depois de sofregamente beijado por Francesco, já amamentou, na alta testa, na pele ainda tão fresca, perpassa a felicidade de uma mulher que se cumpriu e que sabe que é modelo de uma pintura que vai colocar no novo palácio que Francesco comprou. Não sabe ainda, não pode adivinhar, que Da Vinci, vizinho deles, nunca lhe irá entregar o quadro.

Burn, baby, burn

abraxas

Num qualquer dia de 2020 fará 50 anos que Carlos Santana tocou pela primeira vez o “Samba Pa Ti”. A canção, do álbum Abraxas, inflamou a Luanda colonial com dissolução e farras. Todos os sábados à noite a cidade ardia logo aos primeiros acordes e o desvairado fogo era o nosso paraíso. Foi a canção que os meus 17 anos mais dançaram, sem quase me mexer que é o melhor que se pode fazer no meio de um incêndio.

SANTANA

Descobri que mesmo um inglês, o atípico anglo-saxónico Nick Hornby, para além de lhe chamar um fósforo, também disse que “Samba Pa Ti” é  “a classic slow-burning, seductive piece”.

Experimentem agora arder um bocadinho.

Alice no país das maravilhas

alice, Tiago Albuquerque
Ilustração: Tiago Albuquerque

Não acho nada exaltante que despejem metáforas sexuais sobre a Alice de Lewis Carrol. É como dizerem que um avião é um símbolo fálico. Já andei em vários aviões, os velhos Dakota, os amplos Boeings, os confortáveis Airbus e posso garantir que, lá dentro, os aviões têm cadeiras, as pessoas sentam-se, comem, bebem, até dormem, ao mesmo tempo que os funcionais aparelhos voam, por cima ou por baixo das nuvens, às vezes pelo coração delas, até chegar a um qualquer destino. Um avião, se me permitem, é um lindo meio de transporte, como já se dizia no meu livrinho da 3ª classe quando a escola era primária. A Alice também. Salvo seja, claro: a Alice não é um meio de transporte. A Alice é um livro infantil.

Se a Alice, em vez da simples e natural história de uma menina que se deixa escorregar para o fundo do buraco dum coelho, tivesse a natureza sexual de um milhão das ensonadas interpretações que me dizem existir, seria uma seca moralizante. A Alice, escrita por um pastor anglicano que gostava de ser muito amável com meninas muito novinhas, é a história dum grande trambolhão protagonizado por uma menina, de facto novinha, mas muito valente: “…depois dum tombo como este, já não me incomoda cair por uma escada abaixo. Lá em casa hão-de ficar a saber que valente que eu sou!” disse ela mesma de si mesma.

A Alice apesar de ir “caindo, caindo, caindo” não se magoa nada, o que já não aconteceria se a história dela fosse sexual. Comparar a história que Alice não é com a história infantil que de facto é, faz-me pensar na zangada gritaria que a menina valente tem com o Chapeleiro quando este parvamente se põe a dizer que um corvo se parece com uma escrivaninha: “Eu digo o que quero dizer… pelo menos quero dizer o que digo…” explicaria a Alice.

Por outras palavras, Alice é um convite à confiança na letra e a algum voluntariado: se uma garrafa tem escrito BEBE-ME não faz mal nenhum bebê-la, se um bolo tem escrito COME-ME não faz mal nenhum comê-lo.

Também não gosto lá muito que se diga: Alice é uma história infantil amoral. Essa é a forma de falar de quem não sabe se deve ou não deitar-se de barriga para baixo, “como os três jardineiros”, quando passa o cortejo de soldados, cortesãos, meninos reais, o Coelho Branco e nele vêm, a fechar, o Rei e a Rainha de Copas. Descortês e mal-criada, Alice fica de pé: “… para que é que se serviam os cortejos, se todos tivessem que se deitar de barriga para baixo, de maneira a não poderem ver nada da procissão?” De si para si, assim pensando, Alice, que estava em pé, em pé ficou, e onde estava, para irritação da Rainha com tanta má-criação.

Mal criada, cheia de zangas e irritações absurdas, com uma Rainha que corta cabeças quando lhe apetece, Alice é a história de crianças a falar (em língua inglesa), mesmo ou sobretudo quando essas crianças são a Lagarta, o Dodo, o Gato de Cheshire. Falam lindamente, como se a língua fosse matemática e andássemos sempre e em cada palavra à procura do resultado certo. Foi o que disse a cabeça do poeta W.H. Auden. Lembrou também, com a cabeça em cima do corpo, que Alice e os companheiros passam o tempo em jogos e que os jogos são a maneira mais simples, e a primeira, de uma pessoa se organizar contra a anarquia e a incompetência.

Se eu pudesse, e se conseguisse arranjar o nome de um menino muito corajoso, defenderia Alice de todas as interpretações. Atacaria a indústria analítica que se põe a dizer tanta coisa mal intencionada que já cansa. Lembraria que Alice é uma história de pontualidade ou da falta dela: se o Coelho Branco não estivesse atrasado nunca teria passado à velocidade que passou pela Alice de Carroll. E sobretudo havia de discutir com todos os professores o mais divertido e sensato dos ensinamentos do pastor protestante que escreveu esta história sem cães (só um cachorro que não fala) por ter medo de cães, sem rapazes (os meninos reais não contam, pois não?) porque “boys are not in my line, i think they are a mistake.” Aprendemos com Alice que, por mais que gostemos do nosso gato, não devemos passar o tempo a impingi-lo a outros. Não se trata apenas de ser cansativo ou de enfastiarmos terceiros – o que acontece é que acabamos por ofendê-los.

Texto publicado há uns 10 anos, numa revista online, Alice, entretanto extinta. A Alice, por culpa da Maria João Freitas  era a coisa mais inovadora e bonita, mesmo bonita, que o palato do net já saboreou.