A humanidade demasiado humana de Charlie Chaplin

A 15 de Abril de 1989 escrevi este texto sobre Chaplin, na revista do jornal Semanário, sob a asas de Victor Cunha Rego e João Mendes, a convite do meu falecido amigo Matos Cristovão, num jornal onde também escrevia o Fernando Sobral, para só falar de gente por quem tenho muito carinho. Já passaram mais de 30 anos, já reciclei um ou outro parágrafo para novos artigos, agora reciclo o artigo inteirinho, sem tirar nem pôr. Passaram 30 anos, tinha eu 36, e não mudei assim tanto: é o que penso do genial Chaplin.

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The Gold Rush

Devia ser mau como as cobras. Aos cinco anos, quando o pai morreu, Chaplin seguia no cortejo fúnebre mimando o sofrimento e as expressões de dor da sua mãe. Sidney, o irmão mais velho, não resistiu e desatou à gargalhada. Pode olhar-se com alguma benevolência para o episódio, mas pode também encarar-se como sintomática a atitude de Chaplin.

 É boa altura, em pleno centenário de Chaplin, para vir com esta conversa. Amanhã é dia de fogo-de-artificio e os festejos, hoje, já vão em bom ritmo. Haverá missa cantada e não faltarão responsos para incensar um dos maiores génios do século (que era, de facto), e a louvar a torrencial humanidade de Charlot (que eu não duvido que a seu modo ele tivesse, entenda-se).

Com aquela visão, perde-se, todavia, o essencial. E num centenário comemorado com inteira justiça, também não caem os parentes na lama a ninguém se se disser a verdade, nada mais do que a verdade. Ora, grande parte da verdade é que Charles Chaplin foi muitas vezes mau como as cobras e, como escreveu Thomas Burke num testemunho que o convívio íntimo torna precioso, durante duas horas podia ser a pessoa mais amável com quem já alguma vez se conversara para, sem a mínima razão aparente, se transformar na mais petulante e áspera das pessoas».

Pode objectar-se que «personalidades mercuriais», igualmente capazes deste tipo de variações, existem às centenas e particularmente nos meios artísticos. De acordo! Mas neste ponto ainda a procissão vai no adro. Falta, por exemplo, referir que Chaplin nunca escondeu serem a fama e o dinheiro os fins últimos da sua criação. E falta referir a sua peculiar e brutal relação com as mulheres. Lá chegaremos.

Não se pode passar em branco o sacrossanto argumento «de ordem social» que muitos ilustres comentadores ou biógrafos de Chaplin serão tentados a invocar. É sabido que Chaplin passou uma infância miserável e que, depois da morte do pai, levou vida de cão, internado num orfanato e com a mãe num asilo de alienados. Não é menos verdade que a primeira vez que atiraram com ele para cima de um palco, foi para substituir a mãe, minada pela doença, causando a surpresa do público e provocando uma autêntica chuva de moedas no palco. Chaplin interrompeu o número para apanhar o dinheiro e pediu desculpa ao público dizendo que recomeçaria logo que tivesse deixado as moedas no regaço materno. Ganhou mais risos e mais moedas.

Não sei se acham graça. Eu acho macabro. E creio que Chaplin deve ter achado a mesma exactíssima coisa. A melhor prova do seu ressentimento pode encontrar-se nos seus filmes. Sobretudo nas situações que abordou nos primeiros anos da sua carreira: o trabalho, a vida social e o amor são desenhados de uma forma inumana, brutal e desapiedada. Nos primeiros e nos últimos dos seus filmes, porque de Charlot no Cinema ou Charlot Pianista ou Charlot Boémio a Monsieur Verdoux ou a Um Rei em Nova Iorque a monstruosidade é uma constante, sendo evidente o comprazimento de Chaplin em extrair da mais acabada tragédia ou do mais destemperado ridículo o riso e a comédia.

Trágico foi o mote que ele glosou em A Quimera do Ouro. O filme baseou-se num facto verídico: um grupo de pesquisadores de ouro perde-se durante o mais rigoroso Inverno. Os sobreviventes, acossados pelo frio e pela fome, comem os cadáveres dos que vão perecendo. Foi este o material abominável de partida para A Quimera do Ouro, porventura uma das maiores comédias de todos os tempos.

Mas houve ainda detonadores mais ignóbeis: o primeiro filho de Chaplin nasceu mal­formado e morreu três dias depois. Dez dias mais tarde, Chaplin começou a fazer testes a miúdos para um filme que se haveria de chamar The Kid. O que pode querer dizer (e eu acho que quer) que a crueldade de Chaplin começava nele mesmo, sem qualquer indulgência.

As histórias dos seus casamentos são igualmente reveladoras. Depois de ter acabado o affair com Edna Purviance – um concubinato estável e feliz de três anos – Chaplin encontrou uma rapariguinha de 16 anos numa festa de Samuel Goldwyn. Na altura, Chaplin era o mais belo solteirão de Hollywood, «com os dentes mais brancos que já alguma vez se tinham visto, os mais azuis dos olhos e as mais negras das pestanas», como rezavam as crónicas da época. Mildred Harris, como se chamava a menina, compunha na perfeição o ideal feminino dele. Quando deram por isso ela estava grávida (ou, como veio depois a saber-se, clamava estar). Chaplin não podia arriscar o escândalo e não teve outro remédio se não casar. A chegada dela ao registo ele teve um comentário sibilino: «Sinto um bocadinho de pena dela.» Não era caso para menos. Foi a catástrofe. Primeiro, verificou-se que a gravidez era falso alarme; segundo, Chaplin considerava que o casamento lhe debilitava a inspiração e lhe arruinava a carreira; terceiro, houve o episódio da morte do primeiro filho. Dois anos depois, Mildred divorciava-se acusando-o de crueldade mental. Tinha boas razões para isso, como o próprio Chaplin reconheceu.

Outra faceta – a negação quase absoluta do sentimentalismo em geral atribuído a Charlot – surge com o «coup de foudre» Pola Negri. Foi o encontro entre a Rainha da Tragédia (vinda das mãos de Lubitsch, com quem fizera Madame Dubarry) e o Rei da Comédia. Da celebrada palidez dela dizia-se só ser comparável «à textura cremosa das pétalas de uma camélia». Eram vistos mais agarrados do que a lapa à rocha e, legitimamente, Hollywood preparou-se para o casamento. Que não houve. Ele veio dizer que era demasiado pobre para se casar e que o «meu mundo é o trabalho do dia-a-dia, que me mantém ocupado e me afasta dos clímaxes do sentimento.» Pola Negri tornou ainda mais prosaica a versão dele: «Sou demasiado pobre para casar com Chaplin. Ele precisa de uma mulher rica.»

Ainda o episódio Negri não arrefecera quando começou o tormentoso romance com Lita Grey. Era o «anjo da tentação» de The Kid. Tinha doze anos. Três anos depois voltou a aparecer a Chaplin e, com quinze anos e uns meses, já era uma mulher crescidinha. Fez os testes para leading lady de A Quimera do Ouro, acabou em leading lady de Chaplin. As filmagens começaram e, de repente, outra vez, ela informa-o de que passara ao estado interessante. Segundo as leis da Califórnia, sendo ela menor – e se era – Chaplin arriscava-se a ser acusado de violação, punida com 30 anos de prisão. Antes o casamento que tal sorte. Corria então o escândalo Ince que, por via indirecta, tocava Chaplin. O multimilionário R.W. Hearst abatera o produtor e realizador Thomas Ince, que surpreendera à média luz com Marion Davis, sua mulher. Constava que ela se encontrava com Chaplin e, à média luz, Herst deve ter tomado Ince por Chaplin, tanto mais que tinham estatura semelhante. Chaplin foi ao funeral de Ince e, três dias depois, casou com Lita Grey. Foi o funeral de Lita. Primeiro, perdeu o papel em Gold Rush; segundo, sofreu os vexames de várias infidelidades de Chaplin, envolvendo Marion Davis, Georgia Hale (a nova protagonista de Gold Rush) e até Merna Kennedy, uma amiga sua que seria a protagonista de The Circus. Abandonada num casarão de Beverly Hills, Lita vingou-se pedindo o divórcio num documento histórico, em que acusava Chaplin de tudo, mesmo de práticas sexuais cuja heterodoxia  a lei  californiana  estritamente  interditava.

Vai longo o requisitório contra Charles Chaplin. Poderia acrescentar mais mil pontos a este conto, mas não vejo a utilidade. Além dos aspectos técnicos, da sua espantosa mímica, do seu entendimento do actor como bailarino e da sua concepção perfeccionista do cinema, a genialidade da personagem que criou, Charlot, está na desumanidade de Chaplin. Nunca teve limites. As tragédias próprias ou alheias são o capital cómico dos seus filmes; o seu narcisismo fez com que centrasse em si mesmo os seus filmes; o seu ressentimento contra o mundo impôs às suas sátiras um além de todas as convenções, que nem mesmo Buster Keaton terá cultivado. E só por isso toda a humanidade se revê nos seus filmes. Porque é assim que somos: cruéis, sacanas, perversos, preguiçosos, aldrabões, mesquinhos, avaros, infiéis. Assim somos e assim fazemos. E se alguma coisa esperamos é, ainda e sempre, o anjo da tentação. Alguém disse sentimento? Mas poderá haver mais sentimento do que este?

modern times
Modern Times

Regresso

Regresso de um passeio de barco
Regresso de um passeio de barco, Pierre Auguste Renoir

Nada a dizer do remanso dos dias, do céu limpo, do ritmo incansável das marés. As férias deixam-nos sem assunto.

Sobretudo quando, ao escoarem-se os ansiosos últimos dias, a brisa do fim da tarde nos sopra um dos inconversáveis aforismos de Karl Kraus: “Não gosto de me imiscuir nos meus assuntos privados.” Logo eu que não tenho outros.

Brisa de Schubert soprada por Rostropovich

Uma história de sucesso

Este texto não foi escrito para nenhum jornal, revista, workshop. Foi escrito por puro prazer. Gramei à brava da história e desatei a atacar o teclado, como quem puxa do revólver e desata aos tiros. Com um único objectivo, alegrar à bala os seguidores e pacientes leitores desta Página Negra. Haja festa, corações ao alto.

smith
a última foto de Smith

Tipos de famílias saudáveis e com boa educação dão óptimos gangsters. O avô de Jefferson Randolph Smith II era dono de uma vasta plantação na Geórgia – Coweta County para ser mais preciso. O pai foi advogado, circunstância ou modo que, a algum preconceito, pode já parecer um processo degenerativo. O anjo negro da Guerra civil americana barrou a família com a sua azarada sombra, em movimento inverso à manteiga com que se barra o pão, e os Smith abandonaram o ninho, migrando para o Texas. Mas é ainda debaixo da já ferida asa familiar que o jovem Jeff assiste à morte exemplar de um notório ladrão de comboios, Sam Bass.

Jeff e o primo viviam em Round Rock e, favor à mãe que ainda estava viva, foram à drogaria comprar qualquer coisa ou, para ser mais exacto como convém a escorço biográfico, uma coisa qualquer. Deram de caras com um movimento pouco habitual. O terrível vício do tabaco levou um homem, seguro e cheio de auto-estima, a entrar logo depois deles. O xerife estava à esquerda, encostado ao balcão e reconheceu no desconhecido a testa alta e os olhos brilhantes do mau carácter de Sam Bass. Imperativo, gritou-lhe o “estás preso” do costume. Sam, ainda antes de sorrir, enfiou-lhe um balázio no coração. E é já com o sorriso estampado e o xerife estendido desengraçadamente no chão, que Sam sente entrar-lhe a primeira bala no peito, disparada pelo tímido ranger George Herold. Depois, o que por breves segundos entendeu como uma descortesia, o coice doutro projéctil, saído do colt do obstinado sargento Richard Ware, pôs fim a uma carreira dinâmica e às cogitações metafísicas que, por certo, o vício do tabaco abrigava.

Jeff e o primo assistiram a esta vitória do bem: cada um terá tirado as suas ilações. A boa formação de Jefferson, a que, dois mais dois, se adicionava a qualidade dos seus genes adolescentes, ensinou-lhe que o crime não compensa, a não ser que seja muito bem organizado. Os vinte e dois anos que se seguiram são um exemplo de excelência que, pelos padrões actuais, mereceria um life achievement award. O segundo na dinastia dos Jefferson Randolph Smith converteu-se num “homem de confiança”, alguém que cativa a afectividade e a boa fé de terceiros e se oferece como uma solução para o mais tremendo problema que afecta a personalidade humana: a ambição. Aquela pontinha de inveja que sentimos quando passa por nós um Lamborghini, a surda ganância que se desata ao vermos as vitrinas do Faubourg Saint-Honoré, era mesmo para essas coisas, se já as houvesse, que Smith tinha préstimo. As pessoas confiavam nele e ele, com um bom trabalho de equipa, ficava-lhes com o dinheiro e desaparecia. Jogo, fraude, burla, em tudo Jeff Smith caprichou, rodeando-se de jovens brilhantes e com alto grau de especialização. O talento e a auto-confiança levaram-nos a exercitar os métodos em praça pública e perante ululantes massas. Enganou multidões, cidades inteiras, com os leilões dos famosos soap cakes que lhe deram o cognome real: Soapy Smith.

Em 1879, o que era uma simples start up, conceptual e polivalente, converteu-se num império e os 19 anos de Soapy Smith viram-se reis do submundo de Denver, acompanhados pelo esforço de cem indefectíveis que incluíam o “Reverendo” John Bowers e o “Professor” William Jackson, homens de indisputada santidade e saber. Para sua protecção, o laborioso Smith contratou os melhores pistoleiros da época, alguns como “Texas Jack” Vermillon – não se sabe se através de uma SAD avant la lettre -, emprestados por competidores de primeira liga como era o caso da Wyatt Earp/Tombstone SGPS.

O espírito empreendedor de Smith II só tinha paralelo nas suas competências negociais. Em Denver, estendeu tapetes de entendimento com as autoridades e com os proprietários dos saloons, concedendo-lhes percentagem adequada sobre os resultados líquidos… enfim, com toda a sociedade civil, comprometendo-se a fazer incidir – o foco era essencial – as suas operações sobre visitantes e outras formas de inconfessado turismo, visão proteccionista que denuncia a recusa ideológica do liberalismo.

A visão de Smith, o empreendedorismo auto-regulado e aberto à cumplicidade do Estado (Trump não desdenharia, Obama também não) teve, claro, a sua crise de crescimento. Denver depressa se mostrou insuficiente e o modelo negocial foi franchisado, espalhando-se a cidades como Creede*, no Colorado, e Skagway**, no Alasca. Uma história de sucesso à escala de um continente. Motivo de alguma incompreensão e ressentimento, note-se. Registam-se pelo menos duas tentativas de assassinato de Jeff Smith II. Numa delas, no Idaho, Jeff abateu dois dos furiosos atacantes, mas ainda viu metade do seu cofiado bigode arrancado por uma bala que era tudo menos perdida.

No Alasca, Smith não teve a mesma estrela. A sua fórmula de êxito e generalizado bem-estar frutificou, é certo, mas o aparecimento de um ilegalíssimo Comité dos 101, reunindo vigilantes, num daqueles movimentos de cidadania que só espalha a iracunda cizânia, ser-lhe-ia fatal. Os vigilantes fizeram um meeting e Smith, noite amena de 8 de Julho, decidiu que era seu direito passar por lá, pelo molhe de Juneau, onde impertinentes se reuniam. É certo que levava uma Winchester atravessada no ombro. Um adorno, mais do que uma ameaça até porque mandou os seus homens esperar por ele e avançou sozinho.

Frank Reid, um dos vigilantes, falou-lhe em termos menos próprios: “Halt, you can’t go down there”. Os dois homens trocaram alguns mimos verbais menos elegantes e Smith levantou a Winchester para – e chegados a este ponto permito-me alguma liberdade de linguagem  – acertar uma valente arrochada na cabeça de Reid. O cidadão, reformista e vigilante, travou a Winchester com o braço esquerdo, enquanto na mão direita, miraculosamente, lhe apareceu um revólver. “My God, don’t shoot” foram as derradeiras palavras de Jefferson Randolph Smith II. O rápido dedo de Reid já ia em movimento e ouviu-se o click de uma câmara vazia no tambor. Não houve tiro, mas já nada podia parar o confronto e o fogo encheu a noite. Ao todo cinco buracos sangrentos em dois homens. Reid tombou e é provável, a crer na Imprensa, que Smith, ferido, ainda estivesse de pé e os seus homens tivessem começado a correr para o proteger. Outro vigilante, Jesse Murphy, chegou primeiro, tirou-lhe a Winchester das mãos e disparou-lhe em cheio no coração. Smith II morria barbaramente assassinado.

Que interessa, a Obra estava feita o que a História não nega. Hollywwod filmou-o várias vezes, com Clark Gable (Honky Tonk) e Rod Steiger (Klondike Fever) a comporem-lhe a figura. E há um site com forum, newsletter, blog que o trata com as cores e as asas da lenda.

* It’s day all day in the day time and there is no night in Creede.
** Quando o Klondike Gold Rush lhe ofereceu uma “janela de oportunidade”

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O último tiroteio

Tanta vida, tanta morte

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A vida antes da morte: Virginia a jogar cricket com a irmã

É rara a pessoa que só morre uma vez. Até James Bond nos aconselha a viver duas vezes para podermos morrer outras tantas. Mas ninguém morre tanto como o escritor. O escritor morre em cada personagem, falece-lhe a vida a cada romance que acaba. Machado de Assis morreu em Brás Cuba e foi já a sua finada mão a escrever essas memórias póstumas. Com o fino humor que só quem morreu tem.

“Metáfora, balelas, abóbora”, protesta o rigoroso leitor. E eu, pedindo-lhe humildes desculpas, já o convido a ver Virginia Woolf sair de casa numa manhã inglesa ainda entalada entre Inverno e Primavera. Woolf morrera de ilusão em ilusão, a começar no êxito do seu romance “Mrs. Dalloway” incapaz de apagar os abusos dos irmãos, as crises mentais de juventude, as alucinações de toda a vida.

É uma manhã de 1941 e Virginia leva consigo as mortes que escreveu, um casaco de peles, as impermeáveis botas a que o primeiro duque de Wellington deu o nome. Agora vejam, Virginia Woolf dobra a sua fama, mesmo o modernismo que opunha ao de Joyce, para apanhar pedras do chão. Enche de pedras os vastos bolsos do casaco e entra, passo a passo, nas águas do rio Ouse. Se Virginia fosse Jesus Cristo poderia, talvez, caminhar sobre as águas. Mas ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio, ensinou-nos Heraclito, o que Woolf faz questão em desmentir.Com a persistência que só um escritor tem, caminhou até se afundar. As águas que a afogaram embalaram-na ao longo do rio que passa por York. Vogou nas mesmas fundas águas durante quinze dias.

Que leve que é a persistência de Woolf! Tão leve como a alma do bebé que morre no estado de anjo. Vejam a delicadeza com que apanha cada pedra, a naturalidade, sem estremecimento, com que entra nas frias águas inglesas. Vai ao encontro da morte como ao reencontro da melhor amiga.

A primeira casa que tive com a Antónia, minha mulher, era toda em esconso, umas águas furtadas nos Anjos, partilhada em regime de kibutz com mais dois jovens casais amigos. Na maior parte da casa só se podia andar de gatas. Apenas um terço fora concebida para o homo erectus. E eu ia dizer que nesse tempo, em 1977, foi mesmo assim preciso pagar uns 150 contos, por debaixo do pano, ao ganancioso senhorio para nos fazer o contrato de arrendamento, o que mostra o miserabilismo pré millenial da época. Ia dizer, mas não digo, que isso não interessa nada, e se já disse, peço que esqueçam. Não é a indignação, mas a admiração que me motiva.

Ora, soubemos depois, nessa casa suicidara-se por enforcamento a velhinha só, anterior moradora. Não tinha talvez a serenidade de Virginia Woolf, mas movia-a a mesma titânica vontade: em toda a casa não haveria mais do que um ou dois pontos em que, pendurado do tecto, o ser humano tivesse cinco centímetros a separá-lo do chão. Só um acto de superior vontade superaria a escassez logística que esse pombal dos Anjos, como lhe chamávamos, oferecia.

Não há cá facilidades. A facilidade é como mandar meninos à missa: outro escritor, Graham Greene quis suicidar-se e entregou-se à facilidade de tomar 24 comprimidos com um jarro de whisky. Como uma coisa neutralizou a outra, e continuou vivíssimo. E, se a motivação é risível, pode mesmo cortar-se a garganta e permanecer de boa saúde, como aconteceu a Maupassant, que quis suicidar-se por pensar que o cérebro lhe andava a sair pelas narinas. Volto a Virginia Woolf. Na nota que deixou ao marido derramou, numa letra lindíssima, vinte frases de uma bondade edénica. Sabia o que era a morte, sabia o que era a vida.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Lilly Tchiumba

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Lilly e o irmão

Eu gostava de saber mais. Mas o que sei é mesmo quase nada de Lilly Tchiumba. Sei que andou no Liceu Salvador Correia, como no Liceu andou o seu irmão Eleutério Sanches, cuja vocação artística dormiu com a música e com a pintura. Foram os dois do Orfeão do Salvado Correia no final dos anos 50 e Tchiumba invadiu Lisboa, a RTP e o Festival da Canção, nos anos 60, com essa voz sublime que se ouve e arde branda em Luanda M’Bolo. Merecia ser muito mais ouvida.

 

Do marinheiro Cão ao marinheiro Conrad

porto de luanda
Eu tinha 15 anos adolescentes quando esta fotografia foi tirada. Largo Diogo Cão, o porto de Luanda ao fundo.

Os mais desolados dias da minha linda adolescência passei-os a olhar-lhe enfadadamente a estátua, no largo a que deu o nome. A meio caminho entre o melhor prego no pão do mundo (uma carne que se desfazia, julgo que por lhe juntarem o leite das canas de mamoeiro) e o cais principal do Porto de Luanda onde ia sacar as wrangler, as levis, as revistas americanas e, com o meu pai, nos almoços do Príncipe Perfeito ou do Infante D. Henrique, comer laranjas de casca colorida, que me pareciam doces como o mel, ao contrário das sumarentas, mais mais verdes e amargas laranjas angolanas.

Ele estava ali, erecto, mais orgulhoso e solitário do que imperial, no meio do largo, exposto à maresia e ao que de pombos é muito pior. Olhava-o, desde 29 de Junho de 1959, com a distância composta em partes iguais de cortesia, respeito e leve desdém de ele não ser nem Gama, nem Magalhães.

Hoje, o largo ainda lá está, ele não. Arrumado entre relíquias e franjas rotas de um passado sonolento, deixou de ver o mar e talvez nem saiba que a wikipédia o comemora em efeméride (que creio falsa na data e o que importa!) que me dá vontade lhe fazer vénia. A 6 de Julho de 1484, os olhos de um capitão de mar português, Diogo Cão, encontraram-se com a esplêndida, velocíssima, boca do rio Congo.

Olhos e boca juntaram-se: um odor queimado. Ardia, ali, no passado, o coração do futuro. O capitão de mar Diogo Cão fez o que a História diz que fez. Aventurou-se no Atlântico, escutou a inextricável fala do desconhecido, cumprindo a vontade do Infante e o plano megalómano de uma minúscula Nação. Mas nas veias do capitão de mar Diogo Cão corria um sangue que antecipava outro sangue, um sonho que sonhava outro abstracto sonho.

A 6 de Julho de 1484, o português Diogo Cão aflorou os lábios abertos do Rio Congo sabendo que, mais do que um império, começava a escrever um romance. Diogo Cão beijou a boca, um polaco, Joseph Conrad, chupar-lhe-ia o escuro coração. Primeiro publicado em revista, depois em livro, dava o século XX os primeiros passos, o polaco que cantou a língua inglesa com pureza a rondar a loucura, publicou Coração das Trevas, o romance de um rio cujo mistério passou do marinheiro Cão ao marinheiro Conrad.

Ambos subiram o rio. Diogo Cão só até Matadi. E até Matadi também Conrad, onde chegou em 1890, cinco séculos depois do português. Iria mais longe: o polaco prosseguiu a peregrinação, passando por Kinshasa, numa viagem de febre e horrores que o seu “Diário do Congo” relata.

Sem essas voltas biográficas será que poderíamos algum dia ter lido a história de Kurtz que Marlow, e não Conrad, nos conta até se calar, por já não serem dele os sons que, música espessa e irrespirável de uma noite equatorial, lemos assim:

He cried in a whisper at some image, at some vision—he cried out twice, a cry that was no more than a breath—“The horror! The horror!

Diogo Cão, a julgar que descobria mundos, não podia imaginar que as velas portuguesas e a cruz de Cristo também abriam caminho para o coração das trevas.

3D Book Coracao das Trevas
Adoro esta edição. Tão bem traduzida por Maria João Madeira. Não há nada mais bonito.