Uma história de sucesso

Este texto não foi escrito para nenhum jornal, revista, workshop. Foi escrito por puro prazer. Gramei à brava da história e desatei a atacar o teclado, como quem puxa do revólver e desata aos tiros. Com um único objectivo, alegrar à bala os seguidores e pacientes leitores desta Página Negra. Haja festa, corações ao alto.

smith
a última foto de Smith

Tipos de famílias saudáveis e com boa educação dão óptimos gangsters. O avô de Jefferson Randolph Smith II era dono de uma vasta plantação na Geórgia – Coweta County para ser mais preciso. O pai foi advogado, circunstância ou modo que, a algum preconceito, pode já parecer um processo degenerativo. O anjo negro da Guerra civil americana barrou a família com a sua azarada sombra, em movimento inverso à manteiga com que se barra o pão, e os Smith abandonaram o ninho, migrando para o Texas. Mas é ainda debaixo da já ferida asa familiar que o jovem Jeff assiste à morte exemplar de um notório ladrão de comboios, Sam Bass.

Jeff e o primo viviam em Round Rock e, favor à mãe que ainda estava viva, foram à drogaria comprar qualquer coisa ou, para ser mais exacto como convém a escorço biográfico, uma coisa qualquer. Deram de caras com um movimento pouco habitual. O terrível vício do tabaco levou um homem, seguro e cheio de auto-estima, a entrar logo depois deles. O xerife estava à esquerda, encostado ao balcão e reconheceu no desconhecido a testa alta e os olhos brilhantes do mau carácter de Sam Bass. Imperativo, gritou-lhe o “estás preso” do costume. Sam, ainda antes de sorrir, enfiou-lhe um balázio no coração. E é já com o sorriso estampado e o xerife estendido desengraçadamente no chão, que Sam sente entrar-lhe a primeira bala no peito, disparada pelo tímido ranger George Herold. Depois, o que por breves segundos entendeu como uma descortesia, o coice doutro projéctil, saído do colt do obstinado sargento Richard Ware, pôs fim a uma carreira dinâmica e às cogitações metafísicas que, por certo, o vício do tabaco abrigava.

Jeff e o primo assistiram a esta vitória do bem: cada um terá tirado as suas ilações. A boa formação de Jefferson, a que, dois mais dois, se adicionava a qualidade dos seus genes adolescentes, ensinou-lhe que o crime não compensa, a não ser que seja muito bem organizado. Os vinte e dois anos que se seguiram são um exemplo de excelência que, pelos padrões actuais, mereceria um life achievement award. O segundo na dinastia dos Jefferson Randolph Smith converteu-se num “homem de confiança”, alguém que cativa a afectividade e a boa fé de terceiros e se oferece como uma solução para o mais tremendo problema que afecta a personalidade humana: a ambição. Aquela pontinha de inveja que sentimos quando passa por nós um Lamborghini, a surda ganância que se desata ao vermos as vitrinas do Faubourg Saint-Honoré, era mesmo para essas coisas, se já as houvesse, que Smith tinha préstimo. As pessoas confiavam nele e ele, com um bom trabalho de equipa, ficava-lhes com o dinheiro e desaparecia. Jogo, fraude, burla, em tudo Jeff Smith caprichou, rodeando-se de jovens brilhantes e com alto grau de especialização. O talento e a auto-confiança levaram-nos a exercitar os métodos em praça pública e perante ululantes massas. Enganou multidões, cidades inteiras, com os leilões dos famosos soap cakes que lhe deram o cognome real: Soapy Smith.

Em 1879, o que era uma simples start up, conceptual e polivalente, converteu-se num império e os 19 anos de Soapy Smith viram-se reis do submundo de Denver, acompanhados pelo esforço de cem indefectíveis que incluíam o “Reverendo” John Bowers e o “Professor” William Jackson, homens de indisputada santidade e saber. Para sua protecção, o laborioso Smith contratou os melhores pistoleiros da época, alguns como “Texas Jack” Vermillon – não se sabe se através de uma SAD avant la lettre -, emprestados por competidores de primeira liga como era o caso da Wyatt Earp/Tombstone SGPS.

O espírito empreendedor de Smith II só tinha paralelo nas suas competências negociais. Em Denver, estendeu tapetes de entendimento com as autoridades e com os proprietários dos saloons, concedendo-lhes percentagem adequada sobre os resultados líquidos… enfim, com toda a sociedade civil, comprometendo-se a fazer incidir – o foco era essencial – as suas operações sobre visitantes e outras formas de inconfessado turismo, visão proteccionista que denuncia a recusa ideológica do liberalismo.

A visão de Smith, o empreendedorismo auto-regulado e aberto à cumplicidade do Estado (Trump não desdenharia, Obama também não) teve, claro, a sua crise de crescimento. Denver depressa se mostrou insuficiente e o modelo negocial foi franchisado, espalhando-se a cidades como Creede*, no Colorado, e Skagway**, no Alasca. Uma história de sucesso à escala de um continente. Motivo de alguma incompreensão e ressentimento, note-se. Registam-se pelo menos duas tentativas de assassinato de Jeff Smith II. Numa delas, no Idaho, Jeff abateu dois dos furiosos atacantes, mas ainda viu metade do seu cofiado bigode arrancado por uma bala que era tudo menos perdida.

No Alasca, Smith não teve a mesma estrela. A sua fórmula de êxito e generalizado bem-estar frutificou, é certo, mas o aparecimento de um ilegalíssimo Comité dos 101, reunindo vigilantes, num daqueles movimentos de cidadania que só espalha a iracunda cizânia, ser-lhe-ia fatal. Os vigilantes fizeram um meeting e Smith, noite amena de 8 de Julho, decidiu que era seu direito passar por lá, pelo molhe de Juneau, onde impertinentes se reuniam. É certo que levava uma Winchester atravessada no ombro. Um adorno, mais do que uma ameaça até porque mandou os seus homens esperar por ele e avançou sozinho.

Frank Reid, um dos vigilantes, falou-lhe em termos menos próprios: “Halt, you can’t go down there”. Os dois homens trocaram alguns mimos verbais menos elegantes e Smith levantou a Winchester para – e chegados a este ponto permito-me alguma liberdade de linguagem  – acertar uma valente arrochada na cabeça de Reid. O cidadão, reformista e vigilante, travou a Winchester com o braço esquerdo, enquanto na mão direita, miraculosamente, lhe apareceu um revólver. “My God, don’t shoot” foram as derradeiras palavras de Jefferson Randolph Smith II. O rápido dedo de Reid já ia em movimento e ouviu-se o click de uma câmara vazia no tambor. Não houve tiro, mas já nada podia parar o confronto e o fogo encheu a noite. Ao todo cinco buracos sangrentos em dois homens. Reid tombou e é provável, a crer na Imprensa, que Smith, ferido, ainda estivesse de pé e os seus homens tivessem começado a correr para o proteger. Outro vigilante, Jesse Murphy, chegou primeiro, tirou-lhe a Winchester das mãos e disparou-lhe em cheio no coração. Smith II morria barbaramente assassinado.

Que interessa, a Obra estava feita o que a História não nega. Hollywwod filmou-o várias vezes, com Clark Gable (Honky Tonk) e Rod Steiger (Klondike Fever) a comporem-lhe a figura. E há um site com forum, newsletter, blog que o trata com as cores e as asas da lenda.

* It’s day all day in the day time and there is no night in Creede.
** Quando o Klondike Gold Rush lhe ofereceu uma “janela de oportunidade”

tiroteio
O último tiroteio