O amor de Anna

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Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 17 de Dezembro

Morreu Anna Karina, actriz de Godard, protagonista de “Pedro, o Louco”, o mais belo dos filmes. Não há ninguém da minha geração, e das gerações que se seguiram, que não se tenha apaixonado por ela.

Notem, não se morria de amor por ela. Com ela, vivia-se de amor. No cinema, a belíssima Karina de grandes olhos de luz e lágrimas, era o símbolo da liberdade e da aventura. Símbolo também de um tempo em que, ao contrário do actual fanatismo de género, uma mulher e um homem sonhavam o amor juntos, numa fusão poética e utópica de alegria e mágoa. Era um amor em fuga, cheio de perigos, sol, mar e um sopro de eternidade. Como Anna Karina.

Lord Jim

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Este texto foi escrito antes de ser eu o editor de “Lord Jim”, na Guerra e Paz. A minha edição, que tem esta bela capa do Ilídio Vasco, foi traduzida com brilho por João Moita, que é, agora, também, meu autor. Com excepção da primeira citação, e pelas explicativas razões que já vão ler, todas as citações foram roubadas à tradução de João Moita.

Não sei se gostava mais de o ter conhecido antes, depois ou, inteiro, agora. Antes, depois ou agora, para todos os efeitos Lord Jim nasceu em short story, fez-se por episódios em folhetim. Hoje, inteiro e em livro, é uma lenda. Num dia de ócio tive a pretensão de me apropriar dele pondo as minhas palavras portuguesas em cima das inglesas que são o sangue dele. A ousadia caiu desamparada ao fim do segundo parágrafo:

Tinha um metro e noventa, dois ou três centímetros menos, físico imponente, e caminhava direito a nós com balanço ligeiro dos ombros, cabeça para a frente, e um olhar fixo, de baixo para cima, que nos fazia pensar na investida de um touro. A sua voz era funda, sonora, e os modos testemunhavam uma espécie de persistente auto-afirmação que nada tinha de agressiva. Parecia uma necessidade, e era aparentemente dirigida tanto a ele mesmo como a qualquer outra pessoa. Era de uma limpeza sem mancha, trajando num branco imaculado, do chapéu aos sapatos, e era muito popular nos vários portos do Oriente onde ganhava a vida como encarregado de armazéns de provisão de navios.

Um encarregado de armazém não tem de fazer exame em parte nenhuma do mundo, mas deve ter Talento em abstracto e demonstrá-lo na prática. O seu trabalho consistia em bater em corrida, à vela, a vapor ou a remos, os outros encarregados na abordagem de qualquer navio prestes a ancorar, acenando vigorosamente ao seu capitão, forçando-o aceitar um cartão – o cartão de visita do armazenista – e, na sua primeira visita a terra, guiá-lo com firmeza, mas de forma não ostensiva, a um vasta loja, semelhante a uma caverna, cheia das coisas que se comem e bebem a bordo de um navio…”

Fascina essa imagem imaculada, de touro branco. E logo, nessa descrição de Joseph Conrad, que é de Lord Jim o cronista, adivinhamos uma mancha.  O chapéu branco, o alvo linho do casaco e das calças escondem, de irrepreensíveis, um passado. Disse “escondem” e arrependo-me. O linear significado do verbo não faz justiça à complexidade da personagem. O traje imaculado desperta a nossa curiosidade exigindo a procura dum passado que não se esconde, mas também não se revela gratuitamente.

Jim, após um treino de dois anos, embarcou para ser marinheiro. E o seu “ser marinheiro” fazia-o, cumpria-o, com um “um amor sincero”. Convalescente num porto do Oriente, a seguir a um pequeno acidente, embarca como imediato no Patna, um navio decadente, propriedade de um chinês ganancioso e fretado por um árabe para transportar 800 peregrinos muçulmanos a Meca. Começou a viagem: “Uma quietude maravilhosa impregnava o mundo, e as estrelas, juntamente com a serenidade dos seus raios, pareciam derramar sobre a Terra a certeza de uma segurança perpétua.” Na verdade, o universo limitava-se a reflectir a luz, a paz e a segurança de Jim. A outra verdade é que a harmonia do universo é sempre precária: a casca de noz podre que era o Patna sofreu, numa das noites, um brutal tremor, como se lhe tivessem dado uma pancada seca. Ao mesmo tempo, vindo do fundo das águas, rugiu surdo um trovão longínquo e arrepiante. Do embate o carunchoso Patna saiu maltratado, um rombo abaixo da linha de água, e inundação fatal como Jim verificou ao abrir a escotilha do pique de vante. O barco afundar-se-ia em minutos, salva-vidas haveria para menos de metade dos peregrinos que dormiam pacificamente, ignorando o que passava. Não sabiam, mas estavam já mortos. Todos. Não havia tempo e ninguém os poderia salvar – nada os poderia salvar, nem um milagre.

Quando subiu à ponte e o capitão lhe pediu silêncio, Jim sabia ao pormenor, ínfimo, o horror que ia acontecer. E que nada podia fazer. Nem por si. Resignou-se à morte: “Julguei que ia asfixiar antes de me afundar.” Não se impressionou, conhecia os seus deveres. Cumpriria o que tinha a cumprir com amor sincero.

Não era o que o capitão se preparava para fazer. Tão silencioso quanto possível fez descer um dos salva-vidas. Ele e os outros miseráveis tripulantes iam desertar, entregando os peregrinos ao sorvo do oceano e ao nocturno abraço da morte. Na direcção da ré, Jim viu os sinais de uma negra tempestade, do salva-vidas farrapos dos gritos dos outros: “Salte, George! Nós apanhamo-lo! Salte!’ ” Os claros olhos azuis de Jim viram uma vez mais o barco perdido, só uma precária chapa na proa sustendo ainda o afundamento inevitável, a raiva silenciosa do mar, as águas escuríssimas, a chuva a começar a varrer o convés. Segundos depois, Jim sentiu o seu corpo no ar, olhos cerrados até tombar sobre outro corpo no abjecto salva-vidas.

Acabava de se salvar, acabava de se perder. Desejou morrer logo ali: “ Era como se me tivesse atirado para dentro de um poço – para dentro de um buraco sem fundo…

Como não sei se conhecem a história, não quero estragar-vos a leitura Mas foi assim que, no final do século XIX, nasceu Jim, numa short story de culpa e desonra, ainda mais brutalmente exposta pelo salvamento do Patna e dos oitocentos peregrinos perpetrada pela ínvia mão do Omnipotente. Se a história tivesse terminado aqui, Jim teria sido consumido em fogo lento pelas chamas rubras do inferno. Só que Joseph Conrad, instado pelo editor da Maga, a Blackwood’s Magazine, decidiu seguir Jim e o terrível peso da honra perdida.

Em treze números da Maga, o escritor polaco escolheu inverter a narrativa bíblica. Por uma indecidível culpa – ainda hoje estou para saber se por mimética sede do conhecimento divino se por, em Eva, ter entrevisto, mais abaixo, lábios tão beijáveis como beijáveis eram os que acima já conhecia – Adão foi expulso do Paraíso. Na narrativa conradiana, se nalgum lugar, é no Paraíso que Jim pode talvez redimir-se do peso de culpa pior do que a herdade de Adão.

Marlow, o alter ego de Conrad, conduz Jim a Patusan, uma ilha remota onde o fará descobrir lábios, outra Eva e algumas indonésias bem aventuranças de Jardim Celeste. Tudo cercado pelo terrestre rumor da culpa e da indelével memória da fraqueza original e da ignomínia que a acompanha.

Lord Jim fica bem nesta Página Negra. Podemos beber com ele uma cerveja, uma água mineral que refresque a garganta e lhe permita, noite dentro, contar-nos, como contou a Marlow e Marlow a Conrad, a aventura de Patusan e de como, da abjecção, se ergueu a Tuan, Lord, Senhor de um romântico paraíso.

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Prazer proibido

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Há rios de champanhe na vida de Orson Welles. E eu devia ter escrito “champagne”, sem cedências ortográficas, com o mesmo imperativo com que Welles o exigia estupidamente gelado, quando, confessando-se a Deus, disse: “Há três coisas intoleráveis na vida, café frio, champanhe morno e mulheres sobrexcitadas.”

Hoje, uma horda de homens e mulheres sobreexcitados pisa e seca o rio de champanhe de Orson Welles. Arrebatados por um ardor evangélico, de tipo apeado e vegetal, os novos hunos estão possessos do espírito de um Savonarola, prontos a queimar hereges na praça pública.

Queimariam já, em apocalipse e fúria, o anafado Hitchcock, hedonista epidérmico, que exigia à produção dos seus filmes que vestisse as actrizes com a roupinha interior sumptuosamente cara. Reparem, os filmes de Hitchcock eram inexibicionistas, de um pudor que tomariam certas alas do Vaticano.

“Mas, Alfred, ninguém vai ver o raio do sutiã”, gemia o produtor. E logo o pérfido inglês explicava: “Ninguém vê, mas a actriz sente.” Vestia-as de La Perla, digo eu, sutiãs e cuequinhas de seda, um debruado finíssimo fio de ouro, um recôndito diamante. Nos filmes que fizeram com ele, Grace Kelly, Kim Novak, Eva Marie-Saint ou Tippi Heddren provocam ao espectador inomináveis sensações que o espectador sente, sem saber que só as sente pelo que verdadeira e não fingidamente a pele das actrizes sentia.

Hitchcock é o cineasta anti-pessoano por excelência, o que talvez fosse o começo de um belo parágrafo se fosse disso que eu quisesse falar. Não quero. Quero é vingar o hedonismo ofendido. Quero vingar o gosto dos prazeres de boca que se via num Mário Soares ou num François Miterrand, num Ernest Hemingway, nos fálicos havanos que as bocas, não obstante comunistas, de Fidel de Castro ou do mítico Che Guevara chupavam impudicas.

Cantemos a empada de perdiz, a delícia do foie-gras fumado, a lebre com trufas, o húmido e vermelhíssimo tártaro, a delicadeza do cozido à portuguesa, a graça rural da feijoada à transmontana, a fina subtileza de umas iscas, o queijo… e peço perdão, pluralizando penitente, os queijos da Serra e de Serpa, amanteigados ou curados, o Comté, que as vacas francesas Simmental nos prodigalizam, o Brie de Meaux.

Olhos vegan espreitam-nos a cada esquina, tremendas máquinas de olfacto perseguem o aroma de um Partagas série D n.º 4, príncipe dos havanos. São olhos vigilantes: perseguem cada garfada, cada copo ou cálice. Trocaram a velha treta da exploração do homem pelo homem, pela marcação homem a homem. Há um exército de conspícuos e virtuosos especialistas prontos a proibir, prontos a culpar-nos pela boca, narinas, palavras, desejos e mesmo omissões. Estão prontos a pendurar o último hedonista, pela língua, nos pelourinhos da Imprensa e das redes sociais. Em ataque às gorduras, molhos, carnes, aos vinhos que o poeta persa cantou, ouçam essas vozes mansas, todas derretidas em inflexões angélicas, a culparem-nos, prometendo-nos estágios num purgatório de onde só se sai para o inferno. Impele-as o terrorismo de um bárbaro bem-estar.

A darmos ouvidos, melhor será dar ouvidos ao passado. Mesmo o naturalíssimo bom selvagem que talvez houvesse em Rousseau nos avisou: “Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias e a grande reserva à mesa anuncia muitas vezes virtudes fingidas e almas dúplices.” Uma variada mesa à sua frente e nela a estética natureza morta de vinhos, peixe e carne, outro filósofo, um deliciado Voltaire, põe-me estas palavras na boca: “Escolhi ser feliz, porque é bom para a saúde.”

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

África e a excelência

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Bica Curta servida no CM, 5.ª, dia 12 de Dezembro

Mo Ibrahim, ultramilionário sudanês, criou, em 2007, o Prémio de Excelência do Líder Africano. O prémio, de 5 milhões de dólares, é dado a um ex-chefe de Estado eleito em democracia, que cumpra o mandato com distinção e que tenha deixado o poder nos últimos três anos. Em 12 anos, o prémio só foi atribuído 5 vezes. Joaquim Chissano e Pedro Pires são dois dos admiráveis vencedores. Mas houve 7 anos em que nenhum líder cumpriu os critérios.

A África sufoca por dentro. Eis o que alimenta as migrações: a destruição das economias africanas por alguns dos seus líderes, recriando até a escravatura. Pesado fardo para o homem negro.

Livros que respondem à letra

Seis ensaios

Os livros respondem à vida, à História, à sociedade, à política e à espuma e vagas dos dias. Na Guerra e Paz temos particular predilecção pelos ensaios, os livros da chamada não-ficção, e gostamos de livros que nos abalem as convicções e nos criem dilemas. Dos livros que publicámos em 2019, há seis que nos causaram mais funda impressão.

Quem é Fascista, do historiador Emilio Gentile, pela forma como reconstitui rigorosamente a emergência do fascismo, confrontando esse nascimento e solidificação com a vida contemporânea e com os populismos que nela pululam, obriga-nos a rever quer a nossa relação com a História, quer o nosso olhar para os populismos. Um grande livro.

Alterações Climáticas, da climatologista Judith Curry, provocou forte controvérsia. Todos os lugares comuns do catastrofismo e dos alarmes apocalípticos são aqui postos em causa. A autora defende apenas um critério, o da prossecução de uma metodologia científica que lide com as incertezas climáticas e nos evite a tentação dos unanimismos e das soluções ultra-simplistas.

E deixem-me falar de dois livros mais amenos. Vencidos da História, de José Jorge Letria, escolhe um ângulo singular para visitar os grandes heróis e os grandes vilões da História, enquanto o velho filósofo francês, Michel Serres, entretanto falecido, se atira com optimismo à avaliação e resolução das crises económicas e sociais recentes. Tempo de Crises é o título de Serres. Há um traço de humanidade a ligar estes dois belos livros.

Pelo contrario, traumático e convulsivo é o traço que liga São Paulo, Prisão de Luanda, de Carlos Taveira (Piri), a Declarações de Guerra, da autoria de Vasco Luís Curado. São Paulo relata o cativeiro dos presos políticos sob o regime cubano-soviético de Agostinho Neto. Em Declarações de Guerra o psicólogo Vasco Luís Curado recolhe os testemunhos dos soldados portugueses que, mandados pelo regime ditatorial de Salazar e Caetano, vivem ainda hoje os delírios e pesadelos da sua vivência e memória da Guerra Colonial.

Seis livros que eu recomendo vivamente. Seis livros pelos quais valeu a pena a batalha editorial da Guerra e Paz em 2019.

As artes vêm ao papel

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A Guerra e Paz tem uma tradição. A de publicar, ano a ano, beaux-livres que cativem os olhos e o toque de mão dos seus leitores. Que lindos ficaram dois deles. Ora vejam Metamorfoses da Humanidade, livro-catálogo da pintora Graça Morais, visão de uma humanidade nómada, migrante, uma humanidade em silhueta, a cinzas e negro. E vejam, depois, Visita Privada, Ateliés e Artistas,  de Dalila Pinto de Almeida e Manuel Falcão, livro intruso no mais secreto do sentimento e oficina artísticos de catorze grandes artistas plásticos portugueses, de Pedro Cabrita Reis a Julião Sarmento, passando por Ana Jota e Ana Vidigal, entre outros.

Numa edição muito mais sóbria, a conversa próxima, íntima de José Jorge Letria com o romancista Mário de Carvalho, que tem por título  Nem Um Dia Sem Uma Linha, regista para memória futura as vivências e os episódios da vida de um escritor no Portugal das últimas décadas do século XX e as primeiras do nosso.

Estas são escolhas de um editor que acredita em livros felizes

O cheque livro

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É uma proposta para que o Estado devolva anualmente, a cada família portuguesa, 30 euros dos seus impostos e que, de forma livre, cada família possa comprar livros e só livros, nas livrarias portugueses. Isto se acreditamos que o livro é o maior factor de identidade cultural de um povo.

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 11 de Dezembro

O livro perde leitores.

São menos de 10% os livros editados em Portugal que vendem mil exemplares num ano: desastre! E editam-se doze mil títulos por ano. O bolso das nossas famílias é um bolso esmifrado. Pobre, comparado à Europa. Mas se os portugueses não lerem livros, a capacidade de entenderem problemas, de se exprimirem e pensarem entra em déficit e reduz-nos à miséria.

O livro tem de ser um desígnio nacional. É urgente criar já um cheque-livro – 30 euros! – para cada família portuguesa.

É uma bica cheia de mais de cem milhões de euros, mas é o cimento que une a família ao livro, evitando a falência de livrarias e editores.

O prazer de editar em 2019

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Deixem-me falar-vos de prazer. E de uma pontinha de orgulho. 2019 foi um ano difícil para a edição em geral. Não vale a pena mentir, a família está a sofrer as inclemências do digital e da perda de leitores nas novas gerações. Para a Guerra e Paz também.

Mas, por vezes, há ondas de conforto e prazer. Este ano, um dos maiores foi ter publicado, com o Professor Fernando Venâncio, uma maravilhoso livro sobre a história da língua portuguesa, Assim Nasceu Uma Língua. Dá gosto ouvir e ler os louvores: os da Imprensa portuguesas e os que chegam de Espanha, da Galiza, e os que chegam do Brasil. O livro é uma delícia de escrita: que prosa ágil, fluída, cativante! Que prosa tão bem humorada, tão risonha. Tem mesmo a certeza de que conhece a história desta língua que é o mais forte traço da nossa identidade?

E deixem-me falar de um amigo de Fernando Venâncio, o professor Marco Neves, autor também da Guerra e Paz. Este ano, dois livros dele, Palavras que o Português deu ao Mundo, primeiro, e Gramática para Todos, são um exemplo do que deve ser um trabalho de divulgação de alta qualidade, oferecendo aos leitores portugueses um serviço público que a língua portuguesa agradece. O mérito deles é o meu orgulho: dois autores, três livros que nos informam e encantam.

Que outro orgulho podemos também ter que não seja o de abrir as portas à novidade? Na Guerra e Paz arriscámos e publicámos o primeiro romance de dois novos romancistas com estilos nos antípodas um do outro: a prosa e diálogos torrenciais e viscerais de Saturnália, de André Fontes, e o amor minucioso e delicado pelo Alentejo de O Que Rasga o Céu, de Mafalda Damas Revés.

E deixem-me falar de um prazer indulgente. A Guerra e Paz fecha o ano publicando um clássico que nunca tinha sido traduzido para a língua portuguesa. A Fábula de um Barril, de Jonathan Swift. Um dos momentos mais sublimes de utilização literária da língua inglesa. Digo eu? Não, disse Harold Bloom. Como é que poderemos não ler?