Onze mil vergas

_les_onze_mille_verges

Bica Curta bebida no CM, no passado dia 28 de Março

Jogar Dyego de Sousa na selecção deixa enxofrados os puristas do patriotismo, que logo gritam “vai para a tua terra” a quem tenha sotaque ou uma corzinha.

Uma glória das letras francesas foi Guillaume Apollinaire. Mãe polaca, pai italiano, nascido em Roma. Adoptou a França que, primeiro, lhe recusou naturalização. Apollinaire bateu-se na I Guerra e deram-lha a nacionalidade dias antes de ser ferido na cabeça, em combate. Morreu por uma pátria que foi sua só 32 meses. Isto sim, é patriotismo. Tomo a bica a ler “Onze Mil Vergas”, obra erótica dele. Aconselho-a aos patrioteiros. Senão as onze mil vergas, vá lá, levem ao menos uma.

Libertação e atraso

colonialismo

Bica Curta servida no CM, no passado dia 27 de Março

Em 1975, estava eu em Luanda, de bica cheia com o povo que conquistava a independência, libertando-se do jugo colonial.

Fechava-se em Angola o ciclo iniciado nos anos 60, na Argélia, ciclo de um certo modelo revolucionário de libertação dos povos colonizados, com indisfarçável apoio soviético. A Argélia quer agora sair da estagnação, do cemitério assombrado onde se enterrou há 60 anos. Muito se culpou o colonialismo por esse atraso. É preciso dizer, hoje, que o modelo de libertação, mescla de marxismo e Frantz Fanon, foi também, da Argélia a Angola, um passaporte para o desastre. Não tinha um pingo, uma ideia de desenvolvimento.

A bomba atómica

Hitch

Talvez explodisse a uma fulgurantíssima terça-feira. Ou a um domingo, apanhando a família a comer caranguejos, na casinha colonial que tínhamos em pleno musseque Sambizanga. Estava para explodir a bomba atómica que apagaria da face da terra a afrodisíaca insatisfação da humanidade. A bomba atómica foi-me apresentada em 1959, mal comecei a ler. A apocalíptica bomba vadiava nos jornais, mesmo na revistinha “Missões e Missionários”, que por caridade e devoção a minha mãe assinava. Do porto de Luanda, traficado num barco conradiano, o meu pai trazia-me esse baluarte americano que era o “Reader’s Digest”. Nele aprendi a soletrar atomic bomb, antes do exagero optimista de qualquer good morning.

Todos sabemos que a bomba atómica foi inventada por Hitchcock. Havia uma cave repleta de urânio numa improvável casa do Rio de Janeiro, insidioso pretexto hitchcockiano para meter Ingrid Bergman na cama de quem ela não amava, de resto a única forma que Hitchcock supunha ser a de meter uma mulher na cama. O filme, “Notorious”, revelou o segredo da bomba atómica e urdiu o beijo na boca de dois minutos e meio.

Um código de mau hálito proibia no cinema beijos com mais de três segundos. A proibição excitou o anafado espírito de contradição de Hitchcock e eis que ele inventa o longuíssimo beijo pré-adúltero, pondo Cary Grant e Ingrid Bergman a colarem e descolarem as bocas a cada três segundos, num erotismo delicado e sôfrego, servido, sem cortes, em plano sequência. São os mais humedecidos e sussurrados dois minutos e meio da história do cinema.

E não é de sussurros, mas de um épico estrondo que quero falar. Claude Rains é um nazi filho da mãe, casa à força com a democrática beleza de Ingrid Bergman e tem garrafas de urânio escondidas ao pé de báquicos Premier Cru de Bourgogne. Foi antes da fatídica Hiroshima que o filme começou a ser preparado e ninguém sabia o que era esse pó de urânio, a não ser o então omnisciente FBI. Hitchcock esteve para ser preso e, fosse ou não pela mão dos nazis amigos do Claude Rains de “Notorious”, o urânio chegou à impenetrável Cortina de Ferro.

A bomba trouxe um medo absoluto de fim do mundo a um mundo dividido ao meio. Traria depois o riso absoluto de outro filme, “Dr. Strangelove”. Felicidade atómica: nada é mais inspirador do que o medo e o riso.

 

Os meus micróbios

EscherichiaColi_NIAID
Parece que não, mas somos nós a pensar. Imagem dos laboratórios Rocky Mountain

Bica Curta bebida no CM, na 3ª feira, dia 26 de Março

Não volto a tomar a bica curta sem antes perguntar aos meus micróbios intestinais. Temos uns cem mil milhões no aparelho digestivo. Dizem que essas bactérias fazem dos intestinos o nosso segundo cérebro, condicionando pensamento e acções. A ciência não jura, mas garante que o intestino é o “grande timoneiro” do nosso equilíbrio e saúde. Temos diferentes perfis microbianos: as bactérias de cada um comem, e gostam, se assim se pode dizer, de coisas diferentes. Por 500 €, um laboratório, o my.microbes.eu, analisa esse perfil.

E se ensinassem Trump, Maduro, Putin, Kim Jong-il a tratar melhor as respectivas bactérias intestinais?

A bailarina adormecida

Se pensam que escrevi agora este artigo, desenganem-se. Publiquei-o no Semanário,  a 18 de Novembro de 1989. A RTP 2 ia exibir Party Girl, filme de Nicholas Ray cuja raison d’être era, da cabeça aos pés, passando pelas pernas, uma mulher, Cyd Charisse. Fora bailarina, Nicholas Ray sabia que ela era uma actriz.

partygirl

A bailarina adormecida

As pernas de Cyd Charisse pediam seda. De Gene Kelly a Vicente Minnelli, não houve cineasta que o não soubesse. Em Party Girl, chamado em português, com relativo despropósito, A Rapariga Daquela Noite, Nicholas Ray não o ignora, mas põe-se a pensar noutra coisa, ainda que os espectadores fiquem sempre, de olhos arregalados, a pensar na mesma coisa.

Cyd Charisse nasceu em Singin’ in the Rain. Há outros títulos antes, mas quem é que quer saber deles! Não chovia quando pela primeira vez ela aparecia no filme. Nem sabemos se é bem ela, se é um favor dos deuses aquela perna longuíssima que a câmara de Gene Kelly e Stanley Donen percorre lentamente, em êxtase e reverência. Collants de seda negra a rasgar o vestido verde. Com essa imagem, e como reincarnada Loulou, Charisse dança o «Broadway Ballet». Vamp para o consolo de gangsters. E voltou a ser vamp entre gangsters, ao lado de Fred Astaire noutro famoso bailado («Girl Hunt») de outro famoso filme Bandwagon de Minnelli.

Só falta falar de mais três filmes, para citar os cinco musicais que fizeram dela a única rival de saias de Fred Astaire e Gene Kelly: Brigadoon, It’s Always Fair Weather e Silk Stockings. No primeiro, vinha do fundo do tempo e da lenda, belíssima e irreal como nos contos de fadas. Entrava aos beijos em Fair Wheather e tão depressa punha Gene Kelly K.O., como, de blusa e saia verde (a cor dela), atirava ao tapete um ginásio cheio de pugilistas. Em Silk Stockings, era a mesma «camarada Ninotchka» que Greta Garbo fora para Lubitsch. E onde pela primeira vez na tela se vira Garbo a rir, víamos outra, outra e outra vez Charisse dançar. De meias de seda, que vestia depois de tapar os olhos ao retrato de Lenine.

Em Party Girl, reparem como essas anteriores imagens de Cyd Charisse constituem o fundo da personalidade da sua personagem no filme. Num filme de ouro e púrpura, Charisse foi o que Nick Ray acreditava que ela podia ser: bailarina pelo passado, actriz trágica em cada plano. Chamou-lhe Vicki Gaye, bailarina adormecida, corpo cansado de mulher, sempre a deixar a cair aos pés a pele de um casaco.

party girl

Nunca saí do liceu

catcher

 

Se a vida fizesse sentido, não havia filmes. Nem livros. Não sabemos onde moramos e, por vezes, um filme ou um livro dão-nos a impressão de estarmos em casa. Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa.

É fácil achar que a humanidade é estúpida. Uma coisa é dizê-lo com doçura e inclusão, outra coisa é dizê-lo com ressentimento e misantropia. O mais misantropo dos escritores, J. D. Salinger, escondeu-se do mundo literário na adorável pasmaceira de Cornish, na Nova Inglaterra. Autor de “The Catcher in the Rye”, fez o que Holden Caulfield, herói desse livro, prometera: foi para uma “pequena cabana com a massa que ganhei, viver lá o resto da vida”, para não ser obrigado a ter “a treta de conversas estúpidas com ninguém”. E nem é verdade: Salinger falava com os vizinhos, ia ao supermercado e os estudantes de Cornish vinham a sua casa ver filmes que ele projectava em 16 mm.

Alguns dos melhores espíritos de Hollywood tentaram seduzi-lo. O produtor David O. Selznick e Billy Wilder queriam fazer de “Catcher” um filme. A imoralidade juvenil do herói do romance e a sua descarada rejeição da vida adulta cairiam como mel nessa sopa dos anos 50 de que Nick Ray tirou o “Rebel Without a Cause” e Elia Kazan o “East of Eden”.

Aliás, Elia Kazan também falou com ele. Disse-lhe que o “Catcher” era romance para um filme e, já sou eu a inventar, que James Dean daria um estarrecedor Holden Caulfield, o herói do livro. Salinger respondeu que nem era bem por ele: “Receio é que Holden não vá gostar.” E lembrou a Kazan a tirada ululante de Holden, logo no começo do romance: “Se há alguma coisa que eu odeio, são os filmes.”

Salinger tinha as suas razões, a começar pela adaptação em que Hollywood enterrara viva uma história sua, mas escondeu-se atrás de Holden Caulfield. Talvez para dar razão à futura boutade de Norman Mailer: “Estarei sozinho a achar Salinger o nosso maior espírito que ficou para sempre no liceu?”

Também o melhor cinema dos anos 50 nunca saiu do liceu – ficar-lhe-iam bem as histórias de Salinger, cheias de palavras da rua e personagens que pisam com desconforto um mundo que não é o seu. Já vivo da nostalgia do que nunca aconteceu: que pasmoso Holden Caulfield não tirou Kazan de James Dean!

A angústia da despedida

lost-in-translation

Ninguém se despediu como Sócrates. Condenado pelos juízes, feito o discurso de adeus aos amigos, já a rude taça de cicuta à espera dos seus lábios, as últimas palavras de Sócrates rompem entre a vida e a morte: “Agora é tempo de partir. Eu para morrer, vós para viver. Quem vai para melhor nenhum de nós o sabe, sabem-no talvez os deuses.»

Poucas coisas são tão belas como a angústia da despedida. Foi o que pensei ao ouvir as vozes das Sopa de Pedra. Cantavam “Adeus, ó serra da Lapa. Ó minha terra, ó minha enxada, não faço gosto em voltar.” E não é verdade, faremos sempre gosto em voltar. A invectiva da despedida é quase sempre raiva de nos despedirmos cedo demais.

Para esse fulgurante segundo da despedida, o cinema inventa cenas que “são os olhos de uma rosa, parecem os do meu bem”. É mesmo dessa lassa e estremecida inclinação melodramática que eu gosto no cinema. E nas outras artes também. “Além daquela janela dois olhos me estão matando, matem-me devagarinho.”

Lembro cenas de filmes em que, devagarinho, me deixei morrer. “Teremos sempre Paris.” O excesso de nobreza que leva ao colo esta réplica de “Casablanca” é a mentira com que Bogart desiste do amor e entrega a estóica Ingrid Bergman à desgraçada virtude de Paul Henreid.

O aroma de “Stand By Me” é de adeus. Despede-se do que se despede, como eu me despedi do meu bairro de Luanda, como eu, copiando Richard Dreyfuss, me despedi da inocência e da infância: “Nunca mais tive amigos como os que tive aos 12 anos. Mas, oh meu Deus, alguém os voltou a ter?”

Toda a despedida é um sussurro. No meio da multidão em Tóquio, Bill Murray murmura ao ouvido de Scarlett Johansson uma frase, um rumor ininteligível: “Lost in Translation” e ainda bem.

Junto o adeus europeu ao adeus americano: em “La Dolce Vita”, Mastroianni despede-se da tão luminosa rapariga que lhe faz adeus na praia. Que estará ela a gritar? “Não se ouve”, diz ele, escolhendo o vazio. E só se ouve o mar. Em “The Searchers” na mais pungente das despedidas, John Wayne vira as costas à casa da família e avança para o deserto. Só se ouve o vento.

Cedo ou tarde, todos nos despedimos. Se um dia, e há-de ser um dia ou uma noite, se acabar esta crónica de cinema e vida, lembrem-me para dizer adeus com este verso: “Dou-te o meu lenço bordado quando de ti me apartar.”

O irretocável desejo de Primavera

jambes

A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas, nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

Gosto:

  1. Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.
  2. Do teu decote.
  3. Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.
  4. De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.
  5. Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.
  6. De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.
  7. Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.
  8. De um dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.
  9. Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.
  10. De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.
  11. Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.
  12. De risos e beijos.
  13. Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.
  14. Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.