Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Com Mécia de Sena e Maria de Lurdes Belchior à porta do 939, Randolph Road
A esta nossa tormentosa Primavera, chega a mais outonal das notícias: a do falecimento de Dona Mécia de Sena.
Bati à porta de sua casa, em Santa Barbara, Califórnia, no 939 Randolph Road, em 1986. Pela voz e santa paciência de Mécia de Sena, eu, que julgava saber uma ou duas coisas sobre Jorge de Sena, descobri dele o imenso e brilhante lado escondido da lua. Vi a sala onde, cercado de livros, ouvia música, a secretária a que trabalhava, a mesa a que comia. E descobri que Mécia de Sena, a par da feroz guardiã da obra desse homem com quem partilhou o amor e a vida, era também e sobretudo uma finíssima estudiosa e crítica de poesia e romance, senhora de uma cultura variegada e vastíssima. De tudo isso me falava, e de música, e de ópera, enquanto, diligente, fazia um jantar para 10 ou 14 pessoas, como quem passa manteiga numa torrada. O seu ócio era a actividade.
Mécia revelou-me esse arquipélago de correspondência, acções e intervenções de um Sena imparável, mesmo quando as suas dores físicas o constrangiam, mas não vergavam. De Mécia descobri a irradiante luz própria.
E descobri a alegria simples e o riso: com ela, e com Maria de Lurdes Belchior, tive o picnic da minha vida, numa Missão Espanhola, na costa californiana, a bolinhos de bacalhau e uns inesquecíveis ovos verdes, delícia lusíada degustada com os olhos no imenso oceano que é o Pacífico.
Desse encontro resultou, mais do que uma amizade e um carinho mútuos, a minha admirada devoção por Mécia de Sena, pela sua inteligente persistência, pela sua cultura e rigor, pela descoberta da sua escrita cuidada, arrebatada, fluente e discursiva. Nesse remoto 1986 organizámos juntos um livrinho, Sobre Cinema, reunindo todos os textos que sobre filmes Jorge de Sena escrevera. Depois, quando me fiz editor, Mécia confiou-me as Dedicácias, e várias Correspondências de que destaco o belíssimo carteio de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, exemplo de partilha e amor poético e filosófico.
Já com Isabel de Sena, filha de Mécia e de Jorge, e desde que a idade tornara impossível a Mécia continuar a ser a guardiã literária de Sena, publiquei a Correspondência com Eugénio de Andrade e, há poucos dias, a Correspondência Jorge de Sena–João Sarmento Pimentel, na qual Isabel de Sena, que a organizou, incluiu também algumas cartas assinadas por Mécia de Sena. São, essas cartas, o testemunho do seu brilho intelectual, da sua escrita viva e da sua grandeza humana. É um pequenino orgulho poder juntar-me a essa homenagem que a filha Isabel lhe prestou.
Morreu, no dia 28 de Março de 2020, com 100 anos, Mécia de Sena. Digo-lhe adeus certo de que sou apenas um dos que guarda dela a memória de um ser humano grande e combativo, cheio dessa graça que é a vida. Eis o que nunca se apaga.
Na Cinemateca com Mécia de Sena e António M. Costa
Agora vejam o herói. Tem um nórdico metro e cinquenta e dois e ia ganhando a guerra. Mas antes de falar deste finlandês de olhos agudos e mãos camponesas nas quais quase podemos apalpar a ternura com que o indicador direito acaricia o gatilho, deixem-me chamar aqui os canalhas.
Os canalhas são Hitler e Estaline. O nazi e o comunista já estão ao colo um do outro no abominável pacto em que se cevaram e já retalharam a Polónia, toma lá metade, dá cá metade. Cada canalha fareja o canalha que há no outro. Estaline teme que o canalha alemão dê a volta por cima e lhe entre pela porta de serventia meia escandinava que é a Finlândia. Com as boas maneiras insidiosas do antropófago, Estaline diz carinhosamente aos finlandeses que lhes vai comer 25 quilómetros de território ao longo da fronteira para protecção das suas nádegas georgianas. A rouca voz da Finlândia responde com um rotundo e já arquejante “não”. O canalha, socialista e científico, atira com 750 mil homens, uns seis mil tanques e quatro mil aviões para cima da Finlândia.
Os finlandeses deveriam cair numa tarde, num dia. E é aqui que entra o herói. Simo Häyhä estava em sossego camponês, serviço militar cumprido, mas é mobilizado. Traz, presa aos seus 34 anos cambutas, uma velha espingarda, a Mosin-Nagant M28, com anacrónica mira de aço. Veste a imaculada farda branca e vai, sozinho, fundir-se com a floresta de neve finlandesa. Rasteja, procura buracos de raposa, com gestos delicados calca a neve onde vai apoiar a arma para que, ao disparar, não se levante uma nuvem de partículas que o denuncie, mete na boca bolas de neve para matar o bafo quente da respiração e espera, invisível. Os soviéticos hão de vir. E quando vêm, um só tiro, mata o primeiro. Matará 505.
E tenho de voltar ao canalha. Estaline também ajudou a matar estes 505 russos. Na Grande Purga, de 1934 a 1938, o canalha liquidou dois terços dos quadros comunistas e cinco mil oficiais do Exército Vermelho, entre majores e generais. Nunca ninguém matara tantos comunistas como este Führer dos comunistas. Inexperientes, os novos oficiais do exército da URSS na Finlândia aprenderam a comer o pão da guerra com a massa que o diabo amassou. De farda escura os soviéticos eram coelhos vermelhos numa paisagem branca. Simo Häyä em cem dias mata 505. Cinco por dia se acreditarmos nessa história das médias, fora o dia em que matou quarenta. Vejam bem, um tiro, um homem. Na I Grande Guerra foram precisos sete mil tiros para cada baixa. No Vietnam 25 mil.
Os soviéticos chamam a Simo a “Morte Branca”. Num dos combates, Simo e mais 33 fazem recuar 4 mil soldados vermelhos. A artilharia matraqueia a posição onde Simo possa estar. E nada. Vem a aviação fazer terra rasa. E nada. A “Morte Branca” continua a devastar as hostes russas.
E ouçam os versos que cantavam os meus amigos que foram para heróis na guerra da independência de Angola: “Eu vou, eu vou morrer em Angola / Com arma, com arma de guerra na mão / Enterro, enterro será na patrulha, / Granada, granada será meu caixão.”
Sem saber que é isso que canta, a 6 de Março, Simo volta a avançar, rastejante, camuflado. Abate mais um inimigo e há de ser, desse dia, a última coisa de que se lembra. Um sniper soviético dá-lhe a comer do mesmo veneno. A bala estoira-lhe a bochecha e arranca-lhe a mandíbula. Os camaradas resgatam-no. Recupera a consciência no dia em que se assina a paz e há-de viver, com a sua meia cara de herói, uma vida de caçador de alces e criador de cães. Simo morreu em paz aos 96 anos.
A minha crónica semanal publicada no Jornal de Negócios
Estas mini-crónicas, as minhas Bicas Curtas, são publicadas, 3.ª, 4.ª e 5.ª, no CM. São escritas dia a dia e são reacções imediatas à actualidade. Trago-as para aqui, duas semanas depois, com o risco de já estarem ultrapassadas-
O milagre
Agora que a maior viagem que podemos fazer é a viagem em redor do nosso quarto, incapaz de dizer sobre o coronavírus algo que não tenha já sido dito, faço uma sugestão: leiam. Fujam das visões pestíferas com um livro divertido, cheio de personagens boémias, um bando de bons vagabundos, que sabiam o que fazer com o ócio, geniais a arrancar prazer de uma fatia de pobreza e de um ou dois copos de vinho. Também há uma lareira, o doce calor humano, cães e mesmo o milagre de um santo. “O Milagre de São Francisco”, romance de John Steinbeck, reensina-nos a beleza de não fazer nada. Lê-se num fósforo e põe-nos a boca e a alma a rir.
Coração gémeo
Mesmo se nunca acreditou na alma gémea, acredite, agora, no coração gémeo. A pesquisa de universidades belgas, inglesas e americanas desenvolveu um coração digital. Será um coração digital gémeo do seu e do meu. Com esse gémeo poderá monitorizar-se o coração humano e detectar problemas da função cardíaca. Levamos no peito o nosso coração e o médico pode observar no coração digital se caminhamos bem e dormirmos melhor – ainda que o coração gémeo não saiba com quem. Agora que andamos de coração tão aflito, é um belo pingo de esperança ver nascer o coração gémeo que, mais uns anos, não deixará falhar o nosso. Ou o dos nossos filhos.
Os médicos
Uma destas noites, Portugal veio à janela aplaudir médicos, enfermeiros, assistentes, essa mulheres e homens que se esfarrapam à exaustão para salvar vidas e vencer o sórdido vírus. São ainda mais heróis, digo eu, porque se batem por uma causa humilde: arriscam-se a morrer para garantir que depois de amanhã possamos sentar os nossos filhos ao colo e dar-lhes um beijo; para termos a alegria da bica curta numa esplanada; para que venhamos rir-nos para a rua e façamos as asneiras comezinhas sem as quais o raio da vida não é vida. Médicos heróis: sofrem e lutam, hoje, para gozarmos amanhã, sem cuidados, a vida banal de todos os dias
O Escrever é Triste é uma lenda. Escreviam lá 16 ou 17 autores, sei lá. E já levanto um braço para dizer que está mal, qual escreviam, qual quê, desenhavam, fotografavam, diziam poemas. Por ter acabado o Escrever é Triste é que eu criei esta cela solitária, esta monástica Página Negra.
Pois bem o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui e estar tão bonito já é um milagre. Mas o Ricardo Espírito Santos, que eu conheci na SIC, realizador imparável, que fez os mais belos “jornais da Noite”, que deu ao futebol um toque de delicadeza e ambrósia nos muitos jogos que realizou, fez para a RTP um programa, o Novo Mundo Digital, e fez sobre o Escrever é Triste um programa de televisão lindo. Vamos poder vê-lo no dia 4 de Abril, um sábado, às 11 horas da manhã, na RTP 1. Levantem-se dessas camas e mesmo de pijama, e antes do banho recauchutante, deixem-se levar pela câmara e pela narração do Ricardo. Que programa lindo!
Já disse e repito, o Escrever é Triste voltou. Está aqui. Estar aqui, tão vivo, juntando de novo os mesmos autores, ainda mais amigo e solidário, é um milagre anti-pestífero. Uma espécie de antídoto albert-camusiano contra o covid 19. Escrever é Triste e, todavia, tão feliz.
Este foi o video de promoção da estreia. Mas, não se esqueçam, é no sábado, dia 4 de Abril, às 11:00 da manhã, na RTP1.
Peço desculpa aos leitores da Página Negra, mas outros valores e urgências se levantaram. Espero que estejam todos com um valente saúde anti-vírica.
De que cor são os olhos do Papa Francisco? Apesar de já se ter derramados sobre eles a indecifrável cor da velhice, são claros como os do meu avô Brigas, que ofereceu o corpo a cargas contrabandistas, antes de ser emigrante na Argentina. Terá o avô Brigas cruzado em Buenos Aires o menino Bergoglio? Que interessa. O que eu queria dizer é que os olhos de Francisco se iluminam sempre que sorri. Ou seja, iluminam-se muitas vezes.
Os olhos de Francisco também olham algumas vezes para o céu. Já o vi, em fotografias, olhos postos no alto horizonte e parece-me, nessas ocasiões, que afinal são quase azuis os seus olhos claros, reflexo talvez da luz celeste. Adivinho-lhe então nos olhos uma tristeza azul – e o que esta frase ganharia escrita em inglês! Mas logo a fileira branca dos dentes e a doçura da contração do rosto, a que chamamos sorriso, dão cabal desmentido à minha lamentável desconfiança ou a qualquer suspeita de tristeza.
Talvez os olhos deste homem, tão largo e confiante é o seu sorriso, estejam a ver Deus. Afinal, se há no mundo um homem habilitado a ver Deus é ele, o homem da batina branca. Cheguei a pensar que era de ouro e disseram-me que era de prata, a corrente que traz presa ao pescoço e lhe desliza pelo peito sustentando a Cruz Peitoral. O solidéu singelo e a sotaina branca conferem-lhe uma elegância confortável. Se queremos ver a Deus deveríamos vestir-nos assim e calçar, como ele, uns sapatinhos vermelhos.
Lembrei-me, sabe Deus porquê, de um conto de Giovanni Papini, magnífico escritor cujo romance com o fascismo quase o apagou da história da literatura. É a história de um dissimulado apóstata que é eleito Papa. Quando caminha para a varanda que se abre sobre a agora vazia Praça de São Pedro e sobre a multidão que, em fé e pela fé, exulta e reza, esse novo Papa vem pronto para denunciar a fraude, a gigantesca impostura que ele pensa ser a religião. Abrem-se as portas, ele dá o primeiro passo, discurso na ponta da demoníaca língua serpentina, e a esperança e gáudio da multidão entram nele como a luz que lavasse os olhos de um cego. O apóstata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
E se este Francisco de quipá, perdão, de solidéu alvo, se este homem que é talvez o único que pode ver Deus, soubesse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Porque mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajoelha na gigantesca praça dessa Roma que crucificou Pedro de cabeça para baixo, esse Deus patriarcal, a correr de prece para prece, entretido a vingar-se, a acusar, a salvar, castigo numa mão, a misericórdia na outra, nem por milagre pode existir.
Séculos de teologia e Teilhard de Chardin dissiparam essa nuvem, essa luz que cega Paulos. Séculos de teologia e Pierre Teilhard de Chardin foram um tiro na pomba. Este homem sabe e, todavia, na tristeza clara, quase azul, dos olhos que levanta ao céu, nesse seu sorriso que promete mais regresso à vida do que a Vénus de Botticelli nos pode dar, ele acredita.
E que insustentável fragilidade! A tristeza clara, quase azul, de um olhar e um maravilhoso sorriso de conto de fadas sustentam uma civilização, uma imensa e reconfortante forma de ver, sentir e viver o mundo. Bastava que este homem dissesse uma só palavra. Uma palavra e a multidão correria desvairada, em uivos apocalípticos…
Eis como vivemos, eis a civilização que criámos: a uma palavra do caos, a uma palavra de um triunfal niilismo. Que insustentável fragilidade. Que insustentável beleza.
Crónica escrita há 15 dias, publicada há 8, na minha coluna do Jornal de Negócios.
Matemos o general Aupick! Mato-o eu com um punhal florentino ou mata-o o leitor com um limpo tiro de espingarda?
Vejamos, o poeta francês Charles Baudelaire subiu às barricadas, corria a comoção revolucionária de 1848, que invadiu os povos da Europa com a galopante velocidade de um coronavírus. O povo de Paris, a que o presidente Macron não distribuíra ainda os coletes amarelos, desaguou nas praças com os seus músculos pré-lisnave, assaltou armeiros, espingardarias e arsenais e Baudelaire, sacudindo da bela melena o spleen de Paris, já levanta no ar o roubado fuzil de dois canos, uma cartucheira de couro a obliquar-lhe um peito que ferve de metáforas, perífrases e prosopopeias.
Mas eis que a todas as figuras de estilo, se impõe a apóstrofe! Baudelaire, com a magreza a que a sífilis o verga, uma voz que não tem um quinto do estentóreo da voz de Ary dos Santos, cavalga a barricada como se montasse o cavalo mongol de Gengis Khan e grita à tresloucada turbamulta: “Fuzilemos o general Aupick! Vamos matar o general Aupick!”
A multidão está pronta a fuzilar a abstracta burguesia, sonha com a ideia de cem banqueiros estripados, talvez dezassete padres enforcados nos cordões das próprias batinas, mas ouvir-se um nome, mesmo o nome de um general, é uma mancha ultrajantemente concreta para a grandiosa, radiosa, libertadora e utópica revolução.
E quem é o general Aupick? Eis a pergunta que já se desenha no rosto rubro da multidão. Ora Aupick é o padrasto de Baudelaire. É o comandante da escola Politécnica, virá a ser embaixador, e já não faz, por esta altura, mal a uma mosca. Mas Baudelaire, órfão de pai aos sete anos, não lhe perdoa as tentativas de o submeter a uma mais austera educação, não lhe perdoa, entendamo-nos, ter-lhe roubado o exclusivo dos mimos da mãe. Quando Baudelaire brada aos céus e à multidão “Vamos fuzilar o general Aupick!” é a literatura que afirma os seus direitos, cena shakespeariana, um rumor edipiano que o menino Sigmund Freud, então com oito anos, terá escutado em Viena.
E já vasculho no meu passado. O que gritei eu nessa revolucionária independência angolana, quando a febre anarco-maoista me encheu o coração de hipérboles? Lembro-me com carinho desses dias de fragor e fogo e a primeira coisa de que me lembro é que os elevadores deixaram de funcionar. Bem sei que a revolução, na sua voracidade igualitária, não gosta que nada suba e está cansada das coisas que descem. Mas os elevadores fizeram-se para descer e subir, e peço pelas alminhas aos futuros revolucionários que tenham este pormenor em conta: é na imobilidade dos elevadores que a revolução começa a perder o seu encanto.
Gritasse eu o que gritasse, nada do que gritei ombreia com o urro de Baudelaire, a que já voltarei. Houve, não obstante, uma palavra de ordem que ainda hoje me risca o peito de luz. Um camarada comandante, com aquele lindo sotaque Hoji Ya Henda, gritava numa interrogação retórica à multidão, “O colonialismo?” E a multidão, com este puto Manel lá no meio, respondia, musical, mozartiana: “Caiu na lama!”
Na lama da pós-revolução, Baudelaire foi dirigir um jornal republicano bem posto, no círculo de Berry, coração da França. Apresentou a amante como sua mulher. À primeira polémica despediram-no. E o ofendido presidente do jornal, um notário, recriminou-o: “Além do mais a senhora que nos apresentou como sua mulher, é afinal a sua favorita.” Foi aqui, que Baudelaire matou o general Aupick: “Senhor, a favorita de um poeta vale bem a mulher de um notário!”
Agora que a propósito do ubíquo covid19 tanto se fala da dificuldade da Europa se unir e atordoar o vírus com uma bem orquestrada política comum, a mim só me dá para pensar em actrizes. Sonhei, pensei e deixe-me levar pelo enlevo de Jeanne Moreau, contra a qual já o impenitente covid19 nada pode.
O imaginário europeu precisa de ser levado ao colo
Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.
Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, “Jules et Jim”, com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.
Ménage à trois A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.
Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.
Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.
OUçam a história: dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.
Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares. A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?
Turbilhão de vida “Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Não interessa o quê, interessa, sim. Já lá vamos.
No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.
Jim fora, na vida real, Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.
Tinha sido Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão. A negrito.
“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a sua boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.
Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.
Nos dias 3, 4 e 5 de Março, há semana e meia, portanto, quem tomou comigo a Bica Curta, no CM, leu estas prosas, que metem, sono, cama e mais vontade de cura do que de doença. Não há nada a fazer, é o meu feitio.
Cheira bem, cheira! É o que se chama matar a solidão pelo nariz. Os psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica fizeram um estudo de sono com 155 pessoas. Puseram-nas a dormir sozinhas, mas com uma t-shirt na almofada. Numa noite, uma t-shirt impregnada com o cheiro do parceiro com quem viviam. Na outra noite, uma t-shirt igual, sem nenhum cheiro.
Foi trigo limpo, farinha amparo: qual xanax, qual melatonina, dormir com a t-shirt a cheirar à ou ao parceiro melhorou muito o sono, limpando ansiedades e as voltas na cama. Se viajar, leve a t-shirt do seu amor e cole-a ao nariz à noite. Com cheiro de três dias, se faz favor. Ah, eu disse a t-shirt!
Activistas do alarmismo Os activistas do alarmismo têm agora o coronavírus na boca. Verdade, o coronavírus tem o perigo da novidade e, para já, da falta de antídoto. Mas os alarmistas não querem saber da cura, querem é saber da histeria.
Um exemplo recente: o clima e o CO2. Os alarmistas nem querem ouvir falar da energia nuclear, a melhor tecnologia, mais barata, segura, para erradicar o CO2. O nuclear é melhor e mais eficiente mesmo do que as energias eólicas e solares, que são caras e intermitentes. Mas os alarmistas não querem saber de resultados, querem é ter a boca cheia de vírus, cheia de alarme e de fim do mundo. O orgasmo deles é a catástrofe.
Dá-lhe gás, bebé Nasceram mais bebés em 2019. Mas a nossa taxa de fecundidade ainda é a mais baixa da Europa. Não é que os portugueses não se amem e não vá por aí uma valente rebaldaria. Não queremos é fazer filhos. Sim, venham os abençoados imigrantes. Mas não chega!
Em vez de nacionalizar a banca, nacionalize-se a fecundidade: no ano de nascimento do primeiro filho devolva-se ao casal metade do seu IRS; reduza-se a metade os impostos dos pais de dois filhos e isentem-se para a vida os pais de três; remunere-se uma afectiva rede de avós, tios e tias que cuide da guarda das crianças para as mães poderem ir trabalhar. Dê-se gás ao vigor amoroso.