As noites líricas da STASI

O que diria Oscar Wilde, que já se abespinhava com a facilidade com que floresciam poetas de todos os canteiros, se soubesse que a STASI, a odiosa polícia política alemã, também cultivava o género?

A STASI obrigava os seus presos a virem reconstituir a própria prisão para registo futuro

Quem sabe se um dia não virá à luz um “Círculo de Poesia Vladimir Putin” ou mesmo um “Círculo Poético Experimental T. S. Eliot do Chega”? O doloroso prazer da poesia penetra até no negrume da mais cerrada noite. Pergunto: querem mais cerrada noite do que as noites da STASI, a PIDE da sombria e extinta República Democrática Alemã? Insisto: se foi longa a noite da PIDE, mais cerrada foi a noite da STASI, que fechou Berlim dentro de um muro e matava quem o quisesse saltar.

Ora, não obstante, a fulminante poesia alastrou pelos corredores e gabinetes, pelas duras cadeiras em que se interrogavam cidadãos prevaricadores, inimigos do bom povo guiado pelo profético Honecker. Logo nos anos 60, e vejam a diferença com a lamentável PIDE, a STASI criou um Círculo de Trabalho de Escrita Checkista, convocando simbolicamente o nome da mais sinistra política soviética, a Checka, fundadora de todas as Pides. Metáfora ou não, os diligentes informadores e agentes, torturadores incluídos, liam poemas em noites líricas, aquecendo o gélido bairro da Adlershof, onde estava sediado o Adamastor que eram as suas instalações.

Mas foi em 1982, e limpem-se a esta toalha os cursos de escrita criativa que por aí pululam, que a STASI mostrou a sua fácies vanguardista. Chamou um poeta, Uwe Berger, e confiou-lhe uma missão: elevar a consciência dos chupa-galhetas da STASI (para não estar sempre a chamar-lhes bufos ou sequazes) aos mais altos píncaros artísticos. Era preciso compreender os subterrâneos da expressão artística e detectar mesmo os mais ténues segundos sentidos, a filigrana subliminar que os intelectuais dessa Alemanha do Leste vertiam em herméticas prosas ou no nonsense de poemas.

Uwe Berger não era bem um poeta. Nem precisava de pertencer ao partido para ser com ele unha e carne unívoca. Era, em muito pior, farinha desse saco, como de algum forma o foi o tão cantado Bertolt Brecht. Adiante! Uwe caprichou e os arquivos da STASI estão hoje repletos de poemas dactilografados revelando o domínio da rima interna, externa e cruzada, de tercetos ou quintilhas, uma ou outra estrofe irregular. O soneto camoniano não foi ignorado e, por amor a Shakespeare, cultivou-se até o pentâmetro iâmbico.

O PIDE Rosa Casaco não tinha um quarto de alma de fotógrafo? Façam o favor de acreditar: descobriram-se vocações na STASI. Uma foi a do bufo Gerd Knauer. Talvez fosse ele um dos bufos de um poeta alemão, Gert Neumann, que a STASI fez vigiar primeiro pela própria mãe, depois pela mulher. E o que quero dizer é que a inspiração poética arrebanhou o bufo Knauer. Apareceu na STASI com um poema de 52 páginas. Título, “O Estrondo”. Era um trovão, um estampido, um poema fluxo de consciência tão tonitruante como “O Uivo”, de Allen Ginsberg. Tinha havido, por erro informático, um falso alarme de ataque nuclear americano e o poema falava de “o horror / de que tudo acabe / horror / das explosões” e cantava o anúncio do trovão depois de “um relâmpago accionar o disparo / de três misseis americanos dos seus silos” até ao anticlímax de serem só “três foguetões meteorológicos” para estudo do ambiente.

Convertido ou não à beat generation, o segundo-tenente Knauer deixou de bufar, só bufando coisas vagas e inconsequentes. E foi o professor Uwe que o denunciou a ele, escrevendo num relatório que Knauer sugeria que a ideia de revolução social de Marx podia aniquilar a humanidade e isso era sinal da quebra de lealdade do poeta-tenente e da sua rendição ao fatal idealismo. Mesmo num país com 600 mil bufos, a poesia pode ser perigosa.

O cabaret não era da coxa

O delírio ululante, primitivo e humaníssimo do Cabaret Voltaire. Pintou-o Marcel Janco

Ao pé deles, mesmo doze deputados do Chega pareceriam uns meninos de bibe.  Foi há mais de cem anos, a 5 de Fevereiro de 1916, sangrava a Europa, trincheiras pejadas de cadáveres, a infantaria das nações europeias a marchar cega, oferecendo a carne aos canhões na I Grande Guerra. Foi na Suíça, na cidade de Zurique, desmentindo a pascácia ideia de Suíça que Orson Welles popularizaria depois. Nessa noite, inauguraram a sala muito mais do que os 50 que nela caberiam. Chamaram-lhe Cabaret Voltaire, e mesmo eu, que frequentei vários cabarets da coxa, do Lobito, Luanda e Lisboa ao La Chunga em Cannes, nunca lá pus os pés. Nem eu, nem Lenine, e já lá vou.

A noite de 5 de Fevereiro foi alucinada. O Cabaret Voltaire foi o antro do caos, do delírio, da mastodôntica transcendência. O que estava nessa sala do número 1 da Spiegelgasse, na neutra Zurique, era uma manada tresmalhada. Hugo Ball e Emmy Hennings foram o casal fundador. Eram alemães, artistas, trânsfugas da guerra, anarcas, místicos, sonhadores de um sonho já encostado ao turbulento seio do desvario. E vieram romenos, russos, franceses, irlandeses, todos os exilados da Europa, traseiros e tintins a fugir da guerra. É mesmo Hugo Ball que me está a dizer ao ouvido: “A Suíça era então uma gaiola cercada por leões a rugir.”

A guerra não chegava a Zurique. E a turba que se juntou no Cabaret Voltaire, entre a raiva, o desespero e a desmedida e abençoada provocação gratuita, mergulhou essa sala e essa noite no negríssimo magma do inconsciente e na primeiríssima luz do mundo, faiscante e explosiva. É indescritível a potente balbúrdia, o som do tambor, talvez guitarras, gemidos, gritos de récitas em palavras desarticuladas que nunca mais ouvidos humanos escutariam, quase canções, quase dança, o rabo do romeno Tristan Tzara a imitar o ventre de uma bailarina egípcia. Uma embriaguez indefinida e uma emoção tóxica tomaram conta das almas e as almas tomaram conta dos corpos. Peço que os lisboetas da minha geração tenham a delicadeza que não fazer comparações lorpas com o Frágil ou o Lux. Era uma boémia em fogo vivo. Nas paredes havia telas de Kandisnki ou Klee, de Modigliani ou Picasso. Uma tela de Marcel Janco eternizou um fugaz vislumbre desse delírio ululante, primitivo e humaníssimo.

No número 14 dessa rua, ainda o nocturno charivari do Cabaret Voltaire lhe roçava porta e janelas, morava Lenine, o revolucionário russo, de olhos mongóis, fugido ao czar. E o que quero dizer, com licença do presidente Marcelo e mesmo de António Costa, nosso novo senhor absoluto, é que Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine de nome de guerra, nunca pôs os pés no Cabaret Voltaire. Marcelo teria feito uma selfie a dançar com a Emmy, Costa poria o seu seráfico sorriso a contemporizar com as loucas artes – Lenine, não! O espavento das rajadas de soluços, os suspiros eróticos entrecortados com sons lancinantes de máquinas, os roucos mugidos animais eram um excesso que a pacóvia ideia de revolução de Lenine não suportaria. A transgressão do metro e sessenta e cinco de Lenine era secreta e escondida entre paredes: vivia na mesma rua do Cabaret Voltaire com a sua mãe, matriarca que vigiava as outras duas mulheres do filho, a mulher, Nadejda Krupskai, e a amante, a franco-russa Inès Armand.

A alguns metros do caos, da mais exuberante experimentação artística, dessa DADA, que foi antecâmara da beat generation e do punk, Lenine vivia o seu secreto e silencioso ménage à trois. Sem máscaras africanas na parede, sem rugidos excêntricos, porém, consentidíssimo.

Luxo e ademanes

cauda aberta em todo o seu esplendor

As duas pavoas saíram à rua e vieram até à porta de minha casa. Moram ali, nos jardins do palacete da Marquês de Fronteira. O pavão preferiu o muro alto. Quando me pressentiu a fotografá-lo, abriu a cauda. Só vaidade, luxo e um descarado prazer exibicionista. Que inveja!

pavoas em peregrinação pelo Bairro Azul
No seu trono, em remanso imperial

O homem democrata na cama

Angie Dickinson: olhares e requebros

Bem sei, ó horror fatal do nosso tempo, que a mulher e o homem acabaram, o próprio sexo foi extinto, o género é fluído e os genitais são um percalço que atesta a irrelevância da biologia. Mas deixem-me, num acesso ululante de nostalgia, falar de Angie Dickinson. Ela foi no ano pré-histórico de 1959, a mulher. Assim, conceptual, substantiva, absoluta: a mulher. Capaz de tornar quente a Guerra Fria, que agora voltou na forma de úlcera chamada Putin.

Ela foi, insisto, a última mulher hawksiana. Sabe do que falo quem a tenha visto de collants negros, em “Rio Bravo”, numa vilória de western, rodeada de homens com um revólver em cada anca e uma Winchester nos braços. Howard Hawks filmou-lhe o cabelo, o mais belo cabelo cor de champanhe da história do cinema, a boca de absinto, e Angie Dickinson converteu-se num misto de doçura e desejo, misto explosivo com mecha lenta, saboreado em muitas palavras e silêncios, olhares e requebros, mãos e aquelas emotivas e longas pernas.

Angie era mulher, carregada de sexualidade sem pressas, interessada pelo homem, com um propósito pedagógico de o beijar e despir, restituindo-o à sua primeva condição. Com um bizarro requisito, quase constitucional: queria que o homem fosse democrata. Angie adormeceu muitos homens, mas que fosse do conhecimento dela nunca dormiu com um republicano.

E nem sei se vos surpreendo: se ela beijava John Wayne em “Rio Bravo”, não foi a esse gigante republicano que concedeu favores, mas a Frank Sinatra, democrata genuíno. Durante dez anos foram amantes. Sinatra parava o seu Dual-Ghia, automóvel raríssimo, descapotável, que imagino vermelho incandescente e branco imaculado, nas traseiras da casa de Angie. De manhã, os homens da recolha do lixo paravam o camião e Angie ficava encantada a vê-los rabiar à volta do faiscante espadalhão.

O que eu quero dizer é que Angie queria Sinatra na sua cama e não o queria em mais lado nenhum. Já fora casada e casaria, depois, com Burt Bacharach, o compositor da canção viciante que é “Raindrops Keep Falling in My Head”. Em nenhum dos casamentos encontrou a felicidade que teve nas noites fortuitas – e, como Angie cultivava o irónico oxímoro, foram mesmo muitas noites! “Era maravilhoso, quase perfeito”, ouvi eu com estes meus ouvidos, bem melhores do que os meus olhos, dizer à voz rouca de Angie.

E o que ela fez questão de explicar é que não se amavam para casar. Queriam o corpo, a língua, ventre e pernas, o riso, o suor um do outro. E esse desejo intermitente, insustentável e logo apaziguado, durou dez anos. É verdade: na sala de estar de Angie, agora com 90 anos, está um totem de Sinatra em tamanho real. Mas na estante está também uma fotografia, mais discreta, mas inescapável, de John Kennedy, o presidente a que uma bala, em Dallas, no Texas, conferiu a indesejada imortalidade.

Sinatra apresentou-os. É possível, aliás, que tenha sido Sinatra a apresentar a Kennedy todas as mulheres que ele conheceu. Dickinson, com militância vibrante, veio participar na campanha eleitoral e foi a sete estados com o presidente. O que ganharam, John e Angie, nesses sete estados em que a vitória lhe escapou? A fotografia na sala de Angie está muda e calada. Angie sorri, e diz que chegou a escrever cem páginas sobre a relação dos dois. Destruiu-as porque, jura, ninguém acreditaria que não tinha havido nada. Sobre o nada escreveu o esquecível filósofo Jean-Paul Sartre 700 páginas. Estou certo de que seriam bem mais excitantes as desaparecidas cem páginas sobre o nada de Angie Dickinson.

Paula Rego, a pureza mais cruel

As Meninas, velha e nova edição

Hoje, quando o mundo se despede de Paula Rego com uma vénia, não consigo deixar de me lembrar que a minha vida de editor lhe deve muito. Ainda não existia a Guerra e Paz, tinha eu acabado de fundar, com amigos, a Três Sinais editores, uma musa ou um deus – e disso é que já não me lembro – plantou na minha pobre cabeça a ideia de que devia fazer um livro que combinasse a pintura de Paula Rego e a escrita de Agustina. Com uma gentileza serena, Paula Rego, ao telefone, aceitou, prometeu que faria novos slides de mais de uma centena de criações suas e, de Londres, remeteu todos os contactos para Manuel de Brito, seu braço direito na Galeria 111.

Começava aí a aventura de uma das mais belas edições que já fiz, As Meninas. Das Meninas da obra de Paula Rego, escreveu Agustina que «têm o rosto das criadas que andavam pela casa da Ericeira e que tinham duras mãos capazes de assassinarem alguém.» Paula Rego, a artista, tinha essa consciência assassina ou, e em tudo continuo a citar Agustina, a pureza mais cruel. Essa pureza e essa crueldade vão fazer falta ao mundo. Fica a tremenda obra cheia de gritos e medos. Um pequenino livro da Guerra e Paz, As Meninas, é um humilde, mas belíssimo testemunho que eu, seu editor, guardarei como um tesouro.

Cito outra vez Agustina: «Assim passamos e as coisas passam por nós.»

Alforrecas do céu

as alforrecas da minha infância

Voltarei a esta estória as vezes que for preciso. Ninguém pára o prazer da repetição da velhice

Uau. Foi este o clamor de Luanda nesse começo dos anos 60. Da boca da multidão saiu um grito buelo, como em Luanda se dizia, – um grito pasmado, a regurgitar admiração. Nessa manhã de colonialíssimo Verão caíam anjos do céu. Despejava-os o avião a que nós, candengues, chamávamos “barriga de jinguba”.

Já Leonardo Da Vinci desenhara anjos desses. É porventura lenda, mas conto na mesma. Logo no incipiente século IX, em Córdova, um mouro saltou de uma torre, sustentado apenas num manto que se encheu de ar, garantindo-lhe uma queda com pequenos danos. Não se sabe o nome desse mouro, mas eu sei os nomes dos meus amigos, candengues mouros de Luanda, aprendizes de Da Vinci. Esperem por eles: cairão do céu, daqui a mais um parágrafo.

Ora, a minha torrencial sede de justiça obriga-me a dizer a verdade. O primeiro pára-quedista foi francês. Ainda no século XVIII, André-Jacques Garnerin desenhou e fez depois em seda o primeiro pára-quedas que ligou a uma cesta, na qual se montou. Um balão de ar levou-o a mil metros de altura. Aí, a roçar o manto de Deus, Garnerin cortou as amarras que ligavam a cesta ao balão e o enorme pano de seda abriu-se, enchendo-se de um orgulhoso vento. Foi uma descida turbulenta, mas Garnerin aterrou como se, menino ou borracho, alguém lhe tivesse posto a mão por baixo.

Os meus amigos e eu, toda a cidade de Luanda, descobrimos os pára-quedistas dois séculos depois. Chegaram, mandados para Angola e em força pelo professor Salazar, que enjoava a andar de avião e, por isso, jamais se arriscaria à vertigem e a tanto arrebatamento. Em Luanda, arrebatamento patriótico e guerra à parte, o espectáculo de centenas de alforrecas do céu, descendo lá do alto, enxameando o horizonte, fez rir e chorar e incendiou o nosso imaginário de meninos. O Nelinho, Lando e Zé Victor, com os seus sábios oito ou nove anos de vida, voltaram a casa pendurados no sonho. Queriam também ir ao céu e voltar.

Foram a casa das respectivas mães: nesse tempo, em toda a prevenida casa de família havia cordas, rolos de fio, panos, nylon e poliestireno, vulgo plástico. Sonegaram, traficaram e clandestinamente reuniram tudo o que era preciso para, num arroubo artesanal, fazer um pára-quedas.

Reparem, a Vila Alice, bairro desse cometimento que iluminaria a nossa infância, era um pequenino estaleiro. As ruas a ser asfaltadas, cada talhão com novas vivendas em obras. Colorido pára-quedas na mão, Nelinho, Lando e Zé Victor subiram a um prédio em construção. Tinham comido feijão com arroz como se fossem príncipes, tal qual a canção suicida de Chico Buarque. Olharam lá de cima. Cá em baixo, três montes da dourada areia do Bungo, prometiam amaciar qualquer queda. Intrépido, Zé Victor quis ser o primeiro. Onde amarrar o pára-quedas? Ao pescoço, disseram, lógicos, Nelinho e Lando.

Zé Victor assim fez. Atirou-se e as leis da física funcionaram. Plástico e pano encheram-se de ar, as cordas retesaram-se e esganaram o seu alto pescoço de menino. Sufocado, soltando sons guturais de quem se afoga, olhos já fora das órbitas, o meu amigo pairava, majestoso. Nelinho e Lando, solidários e aflitos, desciam pelas obras, a gritar, já vais aterrar, aguenta, respira, já vais aterrar! Tombaram nas escadas, levantaram-se de joelhos em sangue, e chegam, está Zé Victor a aterrar na areia limpa, as cordas a aliviar, o seu pobre peito a enriquecer-se de ar. O sol da Angola ria-se e riam-se os três, inocentes, sem medo do futuro, sem cuidarem dos “andaimes pingentes que a gente tem que cair”. Deus lhes pague.

O maximbas e os seus mortos

Por vezes, a memória insinua-se e fala por mim. Crónica publicada recentemente no “Negócios”. Se tiverem paciência de a ler, leiam-na como reflexão recolhida e íntima, mais do que como declaração política. Isto sou eu a fazer contas comigo mesmo.

Entraram com os seus mortos. E queriam que todo o maximbombo visse os seus mortos. Eu ia também nesse maximbas, acabado de sair da Mutamba. Ia eu e duas freiras, duas irmãzinhas, sei lá se do Sagrado Coração de Jesus, que saíram do autocarro a correr, num assarapantamento tropical. Eram três mortos. Assim como entraram, logo saíram: mortos velozes, cobertos com lençóis, uma ou outra desassombrada mancha de sangue a decorá-los.

Essa era a Luanda do pós-25 de Abril e o problema que estávamos com ele, como na banda se dizia. O 25 de Abril, em 1974, era tudo menos um feriado. Apanhou os meus 20 anos na Biblioteca Nacional de Angola: eu lia, se calhar um livro de linguística, de John Lyons, talvez também um sub-reptício livro do senhor Ulianov. Ao ouvido, o meu amigo Juju disse-me que a rádio sul-africana anunciara um golpe em Portugal.

Ao silêncio sufocado do antigo regime, o 25 de Abril respondia com a sonora explosão das vozes. Em Luanda não se ouviam os clamores, os slogans ou os megafones das manifes de Portugal. Portugal não ouvia também os tiroteios dos dias e das noites de Luanda: day and night, night and day.

O 25 de Abril foi o dia da escolha. Portugal escolheu as vozes. Em Luanda, cada tiro condicionou a escolha. Eu escolhi os tiros. O luandino adolescente que eu era alinhou-se com o MPLA, então um fingido albergue espanhol de todas as ideologias, suposta fábrica do homem novo. No Lobito, os meus solitários 20 anos chocaram com a UNITA. Savimbi, quando vinha, dormia num prédio em frente ao meu, na rua que saía do Terreiro do Pó. Foi nesse prédio que me enfiei, na primeira batalha urbana entre o velho Éme e o Galo Negro, eran las cinco en punto de la tarde. E pensei: “Meu, pô, meti-me no coito do grande Muata. E se os camaradas do éme, zunem as balas práqui? Abre, meu!”

Vou meter a cabecita de fora e, em vez do harmonioso crepitar da aká, vocifera a primeira granada: mergulhei de novo no umbigo de Savimbi. A segunda tentativa foi ridiculamente igual à primeira. À terceira, rastejei em beleza, como tinha aprendido na recruta, na EAMA, a roçar os pneus dos carros. Ainda a tempo de jantar, junto ao porto, na pensão da Rosa, velha senhora que deliciava a minha boca revolucionária com os mais doces sonhos que algum dia comi.

Não a rastejar, mas de avião, fui a Luanda, a mando do ministro da Educação do governo de transição, Jerónimo Wanga. Era, certamente, um homem bom, mas tinha, nesse dia, a missão de me intimidar. A UNITA não apreciava a militância de seis professores do liceu do Lobito. Eu era um deles. Wanga, rodeado de quatro manos do Galo Negro, disse-me, a mim e ao Rui, outro dos profes: “Sei que vocês são do MRPP e só vieram cá fazer merda!” Toma que já levaste, embora o MRPP fosse fake news.

Dissemos-lhe: “Senhor ministro, nós não viemos, já estávamos cá”. Continuou: “O povo já está a ficar fodido convosco. Eu compro-vos as malas e mando-vos para o Puto.” Sorrimos: “Obrigado, não temos nada para levar. Preferimos ficar.”

Eis o 25 de Abril: vozes e escolha em Portugal. Rotundo não à ditadura de Salazar, um Verão quente para dizer também não ao PCP e à extrema-esquerda que, como hoje sabemos, nos teriam afundado na miséria económica e num regime mais repressivo do que o de Salazar. Sabe-o também Angola: sem escolha, a tiro apenas, se a dignidade da independência chegou, cavou-se um caos económico, regressão face à herança colonial, para não falar dos píncaros de repressão que milhares dos melhores angolanos sofreram no corpo e na alma.

O longo braço dos livros de Junho: o passado que assombra o presente

Convido-vos a deixarem-se agarrar pela cintura pelo longo braço dos livros de Junho.

são livros ou são braços?

O Longo Braço do Passado é o grande livro de Junho da Guerra e Paz editores. Cada página desse romance de Rui de Azevedo Teixeira me puxou também para o passado, arrastando-me até à infância em que eu lia livros de devoção como A Vida de Jesus, edição popular de Raul Correia, que este mês publico.

Voltei, à conta d’O Longo Braço do Passado, ao ramo da mangueira, a árvore onde, menino e moço, lia: podia ter lido ali as extraordinárias aventuras de À Espera de Bojangles, de Olivier Bourdeaut, ou o delírio fantástico e assustador de Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft, dois romances exaltantes de Junho, na Guerra e Paz.

O Longo Braço do Passado, história de um português que vai a Angola e mata, é tanto uma viagem no tempo quanto o livrinho científico de Ludovic Orlando, O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, ou como o rigoroso ensaio histórico de João Pedro Marques, Revoltas Escravas. No romance de Rui de Azevedo Teixeira, como nestes ensaios, perpassa a inquietação e a insatisfação de quem não se resigna a ideias tépidas e anestesiantes.

A vida, uma vida a estalar de contradições, uma vida de elegância e violência, com a memória de guerra do oficial comando que foi Rui de Azevedo Teixeira, atravessa O Longo Braço do Passado, como atravessa as Crónicas de Sebastopol, em que Tolstói narra a sua experiência das batalhas da Crimeia. Estão juntos, estes livros, em Junho: acompanha-os Eunice Muñoz: Fotobiografia, obra repleta de fotografias de vida e de palco, belíssima homenagem com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O Longo Braço do Passado, romance que inaugura a colecção Arquipélago, doravante a colecção de romances contemporâneos de língua portuguesa, é um território de sombrias intuições e de vivos e agudos instintos. Foi a esses instintos que recorreu o economista espanhol Fernando Trías de Bes para nos explicar como as emoções mudaram o curso da Humanidade, em Uma História Diferente do Mundo. São outras as emoções que Lisboa despertou em Fernando Machado Antunes, que nos convida à mais lírica e fadista das deambulações em … como que lisboandando, o seu primeiro livro de poesia na Guerra e Paz.

Este é o nosso mês de Junho, com dez novos títulos, a que um romance, O Longo Braço do Passado, oferece um périplo pungente: Paulo de Trava Lobo, o seu herói, leva-nos a Lisboa e ao Porto, a Luanda e ao Lubango, à Bulgária e à Alemanha, numa peregrinação de risco, sexo e morte, que só o amor à literatura resgata. Um grande romance português.

E são estes, um a um, os livros de Junho

Nas livrarias a 14 de Junho

À Espera de Bojangles, Olivier Bourdeaut
Um romance narrado do ponto de vista de uma criança: com euforia e encanto. Os pais vivem com exuberância, música e champanhe cada minuto do dia. Pode a exaltação estilhaçar-se como um cristal?

Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft
Uma das obras-primas de Lovecraft: nos píncaros da loucura, um mergulho no gelo mortal da Antárctica. Um grupo de cientistas descobre uma civilização inumana adormecida. Tensão, horror e morte.

… como que lisboandando, Fernando Machado Antunes
Lisboa visitada pela lírica, pela sintaxe e pelo vocabulário de um poeta que não consegue deixar de ser caluanda. Há versos de fado, há um lirismo musical nesta Lisboa em rima.

Revoltas Escravas, Mistificações e Mal-Entendidos, João Pedro Marques
Foram as revoltas escravas que acabaram com a escravatura? Quando foram bem-sucedidas, será que os escravos triunfantes criaram sociedades não-escravistas? Um livro essencial para o debate sobre a emancipação dos escravos.

O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, Ludovic Orlando
Um grande livro de divulgação científica: o ADN fóssil não só nos ajuda a escrever a História, como pode mesmo reescrevê-la, desfazendo mitos e preconceitos. É essa a grande viagem a que o cientista, seu autor, nos convida.

A Vida de Jesus, texto de Raul Correia, ilustração de Carlos Alberto Santos
Um livro popular que a Guerra e Paz recupera. Uma escrita simples que dá todo o protagonismo aos episódios centrais na vida de Jesus. As ilustrações reforçam a inocência.

Nas livrarias a 28 de Junho

Eunice Muñoz: Fotobiografia, texto de Fátima Morais
Um álbum magnífico: todas as imagens dos momentos mais marcantes da obra de Eunice Muñoz, mas também da sua vida em família. Toda a carreira teatral, cinematográfica e televisiva retratada nesta obra de grande qualidade gráfica, só possível com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Crónicas de Sebastopol, Lev Tolstói
Está aqui, em carne viva, a Guerra da Crimeia, de 1855. Tolstói foi tenente nessa guerra. Relata os acontecimentos cruciais que viveu, desenhando aqui o esqueleto do que vai ser a sua obra-prima, o romance Guerra e Paz. Lida hoje, com a guerra da Ucrânia em fundo, é impressionante.

O Longo Braço do Passado, Rui de Azevedo Teixeira
Um ex-comando português vai dar aulas de literatura numa universidade angolana: começa aqui um périplo atormentado, de amor e violência. Pode haver um crime justo? Um romance português que privilegia a narração dos factos. Por mais crus, por mais brutais que sejam. Um livro poético e duro, belíssimo, que inaugura a colecção Arquipélago.

Uma História Diferente do Mundo, Fernando Trías Bes
Neste livro, o economista e escritor espanhol Fernando Trías Bes mostra-nos como as emoções e os instintos foram a chave para o desenvolvimento da Humanidade: o comércio, o câmbio, os seguros, a moeda são inventos que os humanos criaram para se salvar da violência.