As noites líricas da STASI

O que diria Oscar Wilde, que já se abespinhava com a facilidade com que floresciam poetas de todos os canteiros, se soubesse que a STASI, a odiosa polícia política alemã, também cultivava o género?

A STASI obrigava os seus presos a virem reconstituir a própria prisão para registo futuro

Quem sabe se um dia não virá à luz um “Círculo de Poesia Vladimir Putin” ou mesmo um “Círculo Poético Experimental T. S. Eliot do Chega”? O doloroso prazer da poesia penetra até no negrume da mais cerrada noite. Pergunto: querem mais cerrada noite do que as noites da STASI, a PIDE da sombria e extinta República Democrática Alemã? Insisto: se foi longa a noite da PIDE, mais cerrada foi a noite da STASI, que fechou Berlim dentro de um muro e matava quem o quisesse saltar.

Ora, não obstante, a fulminante poesia alastrou pelos corredores e gabinetes, pelas duras cadeiras em que se interrogavam cidadãos prevaricadores, inimigos do bom povo guiado pelo profético Honecker. Logo nos anos 60, e vejam a diferença com a lamentável PIDE, a STASI criou um Círculo de Trabalho de Escrita Checkista, convocando simbolicamente o nome da mais sinistra política soviética, a Checka, fundadora de todas as Pides. Metáfora ou não, os diligentes informadores e agentes, torturadores incluídos, liam poemas em noites líricas, aquecendo o gélido bairro da Adlershof, onde estava sediado o Adamastor que eram as suas instalações.

Mas foi em 1982, e limpem-se a esta toalha os cursos de escrita criativa que por aí pululam, que a STASI mostrou a sua fácies vanguardista. Chamou um poeta, Uwe Berger, e confiou-lhe uma missão: elevar a consciência dos chupa-galhetas da STASI (para não estar sempre a chamar-lhes bufos ou sequazes) aos mais altos píncaros artísticos. Era preciso compreender os subterrâneos da expressão artística e detectar mesmo os mais ténues segundos sentidos, a filigrana subliminar que os intelectuais dessa Alemanha do Leste vertiam em herméticas prosas ou no nonsense de poemas.

Uwe Berger não era bem um poeta. Nem precisava de pertencer ao partido para ser com ele unha e carne unívoca. Era, em muito pior, farinha desse saco, como de algum forma o foi o tão cantado Bertolt Brecht. Adiante! Uwe caprichou e os arquivos da STASI estão hoje repletos de poemas dactilografados revelando o domínio da rima interna, externa e cruzada, de tercetos ou quintilhas, uma ou outra estrofe irregular. O soneto camoniano não foi ignorado e, por amor a Shakespeare, cultivou-se até o pentâmetro iâmbico.

O PIDE Rosa Casaco não tinha um quarto de alma de fotógrafo? Façam o favor de acreditar: descobriram-se vocações na STASI. Uma foi a do bufo Gerd Knauer. Talvez fosse ele um dos bufos de um poeta alemão, Gert Neumann, que a STASI fez vigiar primeiro pela própria mãe, depois pela mulher. E o que quero dizer é que a inspiração poética arrebanhou o bufo Knauer. Apareceu na STASI com um poema de 52 páginas. Título, “O Estrondo”. Era um trovão, um estampido, um poema fluxo de consciência tão tonitruante como “O Uivo”, de Allen Ginsberg. Tinha havido, por erro informático, um falso alarme de ataque nuclear americano e o poema falava de “o horror / de que tudo acabe / horror / das explosões” e cantava o anúncio do trovão depois de “um relâmpago accionar o disparo / de três misseis americanos dos seus silos” até ao anticlímax de serem só “três foguetões meteorológicos” para estudo do ambiente.

Convertido ou não à beat generation, o segundo-tenente Knauer deixou de bufar, só bufando coisas vagas e inconsequentes. E foi o professor Uwe que o denunciou a ele, escrevendo num relatório que Knauer sugeria que a ideia de revolução social de Marx podia aniquilar a humanidade e isso era sinal da quebra de lealdade do poeta-tenente e da sua rendição ao fatal idealismo. Mesmo num país com 600 mil bufos, a poesia pode ser perigosa.

1 thought on “As noites líricas da STASI”

  1. Ah, o bufo. A figura mais querida da nossa História. Agora querem chamá-lo whistleblower, americanices, quando temos uma palavra com tanta tradição, tão tradicional como o nosso Fado. Os agentes da PIDE eram poucos, mas bufos eram, potencialmente, toda a população.

    A PIDE era o divã do psicanalista, antes de Lacan, onde os lusos desforravam neuroses. Quando ela acabou, os lusos sofreram, ainda me lembro desse sofrimento, só se recompuseram quando a PSP restabeleceu as linhas de denúncias nos anos 80. (Antes, os bófias eram muito mal vistos, e as pessoas chamavam os soldados para gerir as desavenças civis, só nos anos 80 é que recuperam o seu poder).

    Era impagável o serviço público prestado pela PIDE. Não gostar do vizinho, e denunciá-lo para lhe causar problemas, (e ainda se ganhava 500 escudos), isto era melhor que remoer o ódio. É sintomático que foi um estrangeiro que veio vasculhar o correio da PIDE para escrever um livro sobre o assunto.

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