No nosso corpo

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Têm quatro patas e vão andar dentro de nós. Quem os criou não foi Deus, mas sim os engenheiros das universidades da Pensilvânia e de Cornell. São robots com a espessura de um cabelo, equipados de cérebro e órgãos. Uma espécie de insectos de vidro, revestidos por delicada camada de silício. As quatro patas são de platina e titânio em camadas atómicas. Os engenheiros comandam-nos com raios laser e podem, por exemplo, transportar medicamentos dentro de nós.

O sonho dos filmes de ficção científica dos anos 50 foi realizado: robots tomarão a bica curta dentro de nós. Ou passarão férias em nós como nós as passamos nas Caraíbas.

Bica Curta servida no CM, dia 19 de Março

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Isto não é um prato de búzios

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Não é Magritte quem quer, mas posso jurar-vos: um prato de búzios não é um prato de búzios. Aliás, só houve, em toda a história de humanidade, um prato de búzios. Comi esse prato de búzios em 1971, em Luanda.

Era a primeira vez que comia. Reparem, não é que alguma vez tenha passado fome. Fui alimentado por pais carinhosos que, à confiança, me deixavam sair à noite, desde os 15 anos, com dois amigos mais velhos, o Abílio e o Simão. Eu era a boca que eles levavam, a quem davam um fino gelado no Polana. Tinha é de mastigar um prego no prato, ou uma fatia de pão e presunto aquecidos no voracíssimo Baleizão. Eu era, portanto, alimentado em regime doméstico e em regime ambulatório. E era alimentado graciosamente. Tinha 17 anos e nunca pagara um angolar, cinquenta centavos que fosse, por uma travessa de camarões, uma perna de churrasco, o desfastio de um feijão com óleo de palma polvilhado a farinha de mandioca.

Naqueles tempos de guerra colonial, o Abílio era um refractário, o Simão um comando, isto para dizer as coisas de modo ameno, sem entrar em pormenores. Eles eram os melhores amigos e o que interessa é que me amavam como se eu fosse o maninho mais novo. Íamos de Volkswagen preto, de tasca luandina em tasca luandina. Bebíamos filosóficos copos de cerveja mais gelados do que o Pólo Norte, mais gelados mesmo do que duas páginas de Schopenhauer, se me perdoam a trivialidade.

A entrar eramos eclécticos: tanto entrávamos onde se cantasse o fado, como onde se dançasse um tangível e escrupuloso merengue. Tenho de confessar que uma noite me sentei inesquecivelmente. Jamais alguém se sentou como me sentei, quando me sentei ao lado de Elias diá Kimuezo, o cantor de “Ressurreição”. Se quisesse poderia descrever cada nervura do tampo da cadeira, a textura das calças pretas de terylene, a forma como o meu rabo, sem que eu lhe pudesse dar ordens, se deixou ficar meio suspenso, incapaz de se afundar na inútil cadeira. Elias era a voz, a formidável solidão da canção quimbunda nos ouvidos de um branco. Diá Kimuezo tinha um fino na mão, eu outro; falou comigo e era o mesmo único e indivisível fino que bebíamos às três da manhã, num bar da estrada de Catete.

Mas volto a meter a mão onde tenho de a meter: não gastei um angolar, cinquenta centavos que fosse. O Abílio e o Simão, com uma fraternidade bêbada, pagavam tudo, os bilhetes no estádio dos Coqueiros, a ululante liberdade das praias da Ilha, copos e copos, a educação do infante – a minha.

Aos 17 anos, de bandeira, como se fosse um glorioso ponta de lança, cai-me no pé o emprego absoluto. Das 7 às 13, num hospital, com não sei quantas fisioterapeutas e um salário de brinca na areia. O primeiro que recebi – ó Luanda de um raio – convidei os meus dois irmãos velhos e, do nada, como um big bang, na sofisticada cervejaria Amazonas, nasceu e proliferou o prato de búzios. Paguei. Ah, que bonito o dinheiro cristalino, a moeda tilintante. E era o único prato de búzios da história da humanidade. Nunca mais nenhum me saberá tanto a liberdade, amor e mar.

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A jukebox

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Podem atirar setas ao peito do meu passado. Embebam, se quiserem, a ponta das setas em ironia, mesmo sarcasmo. A gozação esbarra num escudo protector: a banda sonora da minha vida tem canções à prova de bala.

Vi Blade Runner 2049. Não me perguntem se gostei. Sem tirar o rabo da cadeira já me piro muitas vezes dos filmes: passo leve pelas brasas como me ensinou João César Monteiro, cineasta-unicórnio. Mas eis que no meio da pretensão minimal e em cinza do novo Blade Runner aparece o velho Harrison Ford. Acordei eu e acordou toda a gente. Convidou-me para um copo – convidou também o cão dele, nocturno bebedor de whisky – e pôs música. No filme, Ford tem uma jukebox. Tropecei na minha própria inveja, quando ele a pôs a tocar. Na jukebox de Harrison Ford, quando Sinatra começa a cantar One For My Baby com a tristeza de um cachorro órfão, não só o ouvimos, como vemos um holograma dele. Um holograma. Dava uma perna, aquela de que tenho duas, para ter tido este futuro no meu passado.

A jukebox que desperta a minha maior fome nostálgica é de Luanda. Ficava na Ilha de Luanda, num africaníssimo tasco de pescadores, encostado a 1971 e à Igreja de Nossa Senhora do Cabo.

Eu descia a cidade toda para lá chegar ao fim da tarde e ao pé do mar. Na Igreja, éramos um bando de miúdos católicos a roçarem-se pelas asas da Revolução. Vínhamos alfabetizar os pescadores negros, as mulheres deles e os filhos mais velhos. Usávamos o famoso método Paulo Freire, champô pedagógico dois em um: não só ensinava a ler como dedilhava a consciência dos educandos, empurrando-os para o buraco negro a que então chamávamos «o homem novo».

Só não me arrependo, e sei que Deus me perdoa, por causa da velhíssima e decadente jukebox. Chegava uma hora mais cedo para beber cerveja, ouvir a música e o crepuscular ócio do musseque. A minha memória não me trai: a jukebox só tocava duas canções. Tocava Café, Tostao y Colao, maravilhosa rumba, salsa ou jazz (e era isso tudo) criada por Eddie Palmieri e cantada por Ismael Quintana. Ouçam-na. A canção é um lânguido espelho de torpor e preguiça, um ritmo que empresta às ancas uma volúpia de câmara lenta. Aos primeiros acordes já dançamos na imóvel cadeira, mas o que nos levanta é mesmo um trio de trompetes. Junta-se a voz, sax, timbales, congas, bongós e maracas e juro que vi a mágica dança de Cucas e Nocais, num embalo de ilusão e romance.

Tocava a seguir Moliendo Café, rumba do maestro Hugo Blanco. Cantava-a o barítono Nelson Villalba. Ia jurar que na jukebox da Ilha a voz que a cantava era a de Lucho Gatica, tanto puxava a rumba para os lençóis do bolero.

E não sei se invejo a jukebox de Harrison Ford. A minha também tinha, afinal, um holograma. Estou a vê-lo: geladíssima cerveja na mesa, os irónicos pescadores a rir com o miúdo branco, caía lânguida a tarde arrastando fundas sombras. Depois, no letargo da noite, parecia que toda a Ilha de Nossa Senhora do Cabo gemia. Talvez tocasse um vento de futuro nessa jukebox do passado.

A nova burca

 

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O dedinho espetado é coisa que me chateia. Mesmo a segurar a bica curta. Mas vá um pobre de Cristo por onde vá, hoje há dedos espetados por todo o lado. Dedos acusadores esburacam a vida pessoal, o foro íntimo. Usando a “justiça social” como burca, os novos fundamentalistas primeiro reprimem, depois oprimem. O slogan “tudo é político” voltou em modo histérico e infesta o ambiente, a cama, a paisagem étnica.

Tudo é unilateralmente político e se alguém questiona os temas militantes, uma chusma de dedos culpabilizantes arrasa o recalcitrante, arrastando-o pelas amargas ruas da intolerância. A verdade já viveu melhores dias.

Bica Curta publicada no CM em 14 de Março

O CEO e o taco de baseball

Capone

Não me digam, com boca de raiva, que era um gangster, que me obrigam a gritar a clamorosa verdade: era um benemérito. Espanta-me até que André Veríssimo, director do nosso Jornal de Negócios, não tenha já dedicado uma separata ao maior CEO do século XX, Alphonse Gabriel Capone.

Al Capone, como a História com suave intimidade lhe chama, foi o maior CEO e empreendedor dos anos 20 e 30 do passado século, investindo em destilarias, cervejarias, cabarets, apostas de cavalos, pequeninas e grandes casa de jogo, refulgentes casas de prazer. Nasceu em Bro­o­klyn. Numa rixa, uma ponta-e-mola desenhou na bonomia do seu rosto uma lendária cicatriz. À boca pequena, os inimigos chamavam-lhe Scarface.

Ainda as sobrancelhas eram a sua única zona pilosa e já o adolescente Alphonse constituíra uma filantrópica associação de prazer, com jovens meninas, persuadidas a colaborar, por certo com bons modos: terá sido numa rua esconsa de Brooklyn. Um atento investidor do ramo, ciente de que o bom CEO é o CEO que circula, mandou-o para Chicago, confiando-lhe a gestão de uma célebre casa de entretenimento, nesse tempo em que lazer e cultura andavam de mãos e pernas dadas. Em suma, cultivou, com responsabilidade social, o escape físico e metafísico do mercado do jogo, da bebida e do comércio amoroso. O seu management exaltante foi a referência, o benchmark do seu tempo.

Teve a merecida projecção galác­tica de um Cristiano Ronaldo. Em 1929, a par de Einstein e Ghandi, foi o homem do ano. Com um mérito: Capone não foi eleito pelas razões desenxabidas da escolha dos outros dois.

A analogia é tão banal que até me custa usá-la, mas sim, gozou uma popularidade de Marcelo. O povo pobre de Chicago adorava ver a sua risonha cara italiana. Fez Cristo a multiplicação de pães e peixes? O bem-aventurado Al Capone encheu de sopas quentes o mirrado e gélido estômago dos carenciados. Não sei se roubou a ricos para dar aos pobres, mas ai de quem não veja nestas acções redistributivas a premonição do rendimento mínimo garantido, que só o radioso futuro que somos viria a inventar.

Persistente como um Bill Gates, um Steve Jobs, o seu inconformismo herético, tão out of the box, somado à empatia com o povo eleitor, gerou a surda raiva de políticos míopes, longe ainda de sonharem com a glória das PPP, as parcerias público-privadas, hoje berço da nossa felicidade.

O fisco. O raio do fisco, incapaz de ver a tranca no seu olho, viu no de Al Capone um grão de areia: não pagara o IRS. Prenderam-no. Diga-se, na progressiva prisão de Atlanta, trataram-no melhor do que Caifás a Jesus. Tinha alcatifa, um esplêndido rádio para ouvir os folhetins que ungiam a sua alma simples, uma cama de água por causa de incomodativa hérnia. Não eram mordomias: estava ali preso um benemérito. Mas transferem-no para Alcatraz e logo o rude sistema prisional lhe mostra os ferozes caninos: põem-no a trabalhos forçados, pão e água, sem um vislumbre dos redentores ideais de reinserção social de Atlanta.

Bem pode a resistência à mudança e à diferença de um Bourdieu, de um Boaventura Sousa Santos, dizer o contrário: a Capone movia-o um ideal, o de satisfazer a demanda pública. Era um libertário, inimigo do proibicionismo repressivo da Lei Seca. Diz-se terem sido peculiares os seus métodos: afagava a cabeça de traidores a potentes pancadas de taco de baseball, comemorou o dia de São Valentim à metralhadora. Ora, ora… Sei é que, crucificado pela incompreensão, aos 33 anos, como Cristo, se entregou a uma vida de recolhimento, em Alcatraz.

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Hipérbole e oração

aqui falei da Hipérbole, isso (ou aquilo?) a que, para já, só podemos chamar “the thing”. É uma pequena ou grande obra em progresso. Mas já há, nos bastidores, grandes movimentações. O Luís Jerónimo, que também é de filosofia, como eu fui e talvez ainda seja, é um dos autores que anda à volta dessa misteriosa hipérbole. Ofereceu-me este belíssimo texto, oração tão sincera. Faz sentido.

 

Luís Jerónimo
A hipérbole do sentido – uma oração a partir de Finita de Maria Gabriela Llansol

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“Se eu nunca arriscar a razão, nunca saberei. Nunca saberei pensar”

Que eu consiga desconfiar da lógica, desafie a razão ao seu limite e me deixe seduzir pela verdade.

Que a dúvida persiga o que me sustem, que o absurdo me permita compreender melhor, revele o que me faz ser.

Que o saber ocupe o seu lugar, desatine o que vejo e ilumine o meu silêncio.

Que a imaginação me deixe confiar no rumor da beleza, na inquietação da esperança, na graça do mundo.

Que eu faça justiça à madrugada das paixões, à luz dos sentidos, ao abrigo das árvores que me conhecem.

Que eu me deixe enganar pelos livros que me desassossegam, pelos versos que me tomam de assalto, pelas palavras que estão por inventar.

Que sempre escreva como quem regressa.

Que eu me faça sentido.

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LMJ
10 março 2019

Curtes, meu?

canabis

Antes a bica curta do que um charro. A velha canábis bebe água como eu gostaria de beber champanhe. Uma simples planta de marijuana sorve mais de 22 litros por dia. Seja no campo, seja nos jardins domésticos, a marijuana é um desastre ecológico. Um charro, um daqueles “Komé, meu, curtes?”, e já espetámos no ambiente com quilo e meio de dióxido de carbono. Um quilo de marijuana põe mais de quatro toneladas do mesmo veneno na atmosfera. Não é só uma pedrada, é cá uma pegada!

Haja fé, com transformações genéticas, cientistas de Berkeley produziram sofisticados canabinóides da levedura de cerveja. Não sei é se se fuma ou se se bebe.

Bica Curta publicada no CM a 13 de Março

Hipérbole

Ainda está para chegar, e para se saber o que será, “the thing” chamada Hipérbole. Vai existir e vai ser a “cena” que há-de substituir o saudoso Escrever é Triste. Mas já há quem desenhe e escreva, se bem que “the thing” possa até nem vir a ter a forma de escrita.
Pedi muitíssimo por favor à Ana Vidigal, pintora, capaz de criar usando mil artifícios, da ilustração à fotografia e à colagem. Pedi muitíssimo e ela disse-me que sim, que podia publicar a imagem e o texto abaixo, formas que encontrou para glosar o conceito de hipérbole. Para enriquecimento e glória desta Página Negra. Obrigado, Ana Vidigal. 

Hipérbole
Ana Vidigal

Ana Vidigal

“Podemos tirar a menina da hipérbole mas nunca tiramos a hipérbole da menina”
Fotografia digital, 2019