Bem-aventurados os que bebem

 

caineotoole

Jesus Cristo, do alto da montanha, desfiou as Bem-aventuranças. Não disse, «bem-aventurados os que bebem», mas recomendaria mais tarde, num momento crítico, diga-se, o pão e o vinho.

Eu, embora antigo, não conheci Jesus Cristo. Conheci, porém, John Huston. Já vinha numa cadeira de rodas, momento crítico portanto, que cada um carrega às costas a cruz que lhe calha ou a cruz que pode. Nesse encontro, garrafinha de oxigénio ao seu lado, John Huston disse e o insatisfeito olhar dele confirmou: «Se, com o que sei hoje, pudesse voltar atrás, mudaria uma coisa na minha vida: teria bebido muito menos whisky e muito mais vinho tinto.»

Eis o que tenho para vos dizer: a lei seca foi um retrocesso civilizacional. Desensinou a beber, se me autorizam o neologismo. O bêbado, boca zurrapada, a transpirar álcool pelos olhos e atrás das orelhas, é um dos maus resultados da lei seca. Não me entendam mal, não troco uma gloriosa bebedeira por uma pipa de moralismo.

Não conheço o actor Michael Caine e só vi Peter O’Toole em pessoa uma vez. Mas, em 1959, eles estavam juntos, em Londres, a representar no Royal Court.  Foram, digamos, jantar depois da peça. Voltavam à cena no dia seguinte, domingo, às 8. Entraram numa tasca de Leicester Square, coisa mal frequentada por malta rija, tipos que hoje, em Lisboa, fariam a felicidade da estiva. Veio a noite e depois o dia. Acordou-os, sabe Deus onde, uma rapariga desconhecida, estavam deitados na mesma cama, vestidos como na noite de sábado, mas muito mais amarrotados. A moça disse: estamos nos arredores de Londres. Não sabiam o que tinham feito e como tinham chegado ali. «É melhor não sabermos», terá respondido Michael Caine. O’Toole olhou para o relógio e viu que eram cinco da tarde. «Cinco da tarde de domingo – disse – ainda chegamos a tempo, a peça é só às 8.» A rapariga interrompeu-o: «Sim, só que hoje já é segunda-feira.»

Há um incógnito, absconso domingo em falta na vida de Caine e O’Toole. Voltaram ao teatro e passaram pela tasca. Na porta ou na montra, não sei bem, estava colado um cartaz: «Entrada interdita a Michael Caine e Peter O’Toole.»

Eis o que tenho para vos dizer, a lei seca foi um retrocesso civilizacional, mas eu prefiro um só copo de Quinta do Vale Meão à bebedeira homérica. O bêbado homérico perde-se dentro de si mesmo. Eu gosto da vida porque me disseram que davam bolos e um dos meus bolos é o degustado copo de duas Tourigas e uma Tinta Roriz. O bêbado é a anti-pessoa, diria o cronista Nelson Rodrigues. E eu digo, a boca que bebe o tinto Chryseia, bebe como quem beija. E é essa boca, esse copo, esse divino licor, que aqui louvo, com a voz de John Huston. Ou com a voz crucificada de Jesus Cristo: «Tomai e bebei todos.»

O Hitler em nós

 Voltei às minhas velhas notas do tempo da Cinemateca e, às ordens e por despacho do Cineclube de Viseu e da revista Argumento, reescrevi um texto que tinha ficado perdido no tempo. Deu-me gozo. Mudei adjectivos, criei subtítulos, redimi alguns parágrafos, acrescentei outros – até Merkel foi para aqui chamada. Pior ainda, revi boa parte do filme. Fiquei com pena de não ter revisto tudo.

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Somos todos marionetas?

Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o apressado e instantâneo Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu ao terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha. São muitas perguntas e eu diria, em três prosaicas linhas, que é o fim de uma trilogia (de que os outros painéis são Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas, que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich.

Um filme em inflação cósmica
Tudo isto, e um fausto de símbolos e bandeiras, sobreposições, alegorias e fantasmas, é Hitler, filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das facetas referidas, contraditórias e até paradoxais, seja insuficiente para designar o que, na sua globalidade, o filme efectivamente é. Hitler, um filme da Alemanha é uma suma em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser a fonte da nossa ansiedade e dos nossos medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Tudo cabe num filme, se o filme, como o universo, for passível de inflação cósmica.

E eis que Hitler vira as costas ao universo para ser só cinema. Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema no cinema: perante um Hitler na tribuna do seu estádio, a uma velocidade de Jesse Owens, desfilam fantasmas, a naïveté de Méliès, a montagem de Eisenstein, a megalomania de Stroheim, a ascética culpa de Lang, a multidão da Riefenstahl, o servilismo funcional de Veit Harlan, o barroco prestidigitador de Orson Welles, o rigorismo de Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos, alguma inocente magia circense, em que Ophüls e Lola Montés estão presente de parte inteira.

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Os cúmplices de Hitler
Lembro-me do que me lembro, diria João Bénard da Costa, e eu lembro-me de ter ido jantar com ele e com Syberberg ao Gambrinus, nesse tempo em que os restaurantes em Portugal não tinham estrelas Michelin e ainda à refeição se falava de Brecht, esse alemão dividido ao meio por um muro. Foi Syberberg que o chamou, a Brecht, à toalha da mesa, e o colou ao seu filme, invocando a distância – a celebrada distanciação brechtiana, aqui carregada em ombros por um negríssimo humor, artifício e marionetas. Deixo Syberberg explicar: «Brecht, por exemplo, em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e recolhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, é muito interessante, porque é como uma encruzilhada de ideias.»

Volto atrás, macaquinho de imitação desse corso-ricorso joyceano que Syberberg está sempre a tirar da manga ou do seu houdinesco chapéu mágico: a ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem (e não se trata, entenda-se, da projecção) entre o espectador e o tema. O que incendeia o filme de Syberberg não é a personagem de um Hitler histórico, assepticamente apresentado. O que é avassalador e nos fere é que nós estamos também no filme e somos nós que retocamos a personagem de Hitler e lhe damos a última demão. A imagem de Hitler que Syberberg quer construir só se revela quando nós a completamos, nela nos reconhecendo, deixando ver – aflitivo espelho, aflitivo reflexo – o Hitler em nós, a escondida herança que ele nos deixou e que infiltra e impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Será legítima, ideológica e politicamente, a colagem de Hitler ao espectador que somos? Será legítima a “acusação épica de cumplicidade”, como lhe chamou Alberto Moravia? Somos ainda herdeiros, ainda mais agora, com este populismo palpitante que, à direita e à esquerda, se levanta em estandartes que se reclamam do povo e da boca do povo? Somos ainda os cúmplices, como nos acusa o céptico Moravia, filiado na nascente cultura da queixa, que o indefectível apreço moraviano pela alienação e pela incomunicabilidade já anunciavam?

Justiça estética
Não consigo, por não saber, responder. Mas se as emoções são uma resposta, ao ver o filme de Syberberg sinto que aquela colagem é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a sua principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia (tantas vezes tintada do sarcasmo), na articulação histórica que segue simultaneamente um princípio de causalidade e um princípio dialéctico (refiro-me à pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas de Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, afinal, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ele ser, num improvável encontro paradoxal de beaux esprits, os de Syberberg, Wagner e Brecht, a maior, e quem sabe se não a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

E ao espectador que fui, das várias vezes que vi o filme, não restam dúvidas, inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências (ou mesmo citações) teatrais, musicais, literárias e, por que não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema.

Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento da personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, chamem-se Hayes ou McCarthy, Hitler, um filme da Alemanha, assombrado pela música de Wagner, é uma obra sobre a ascensão do cinema neste século, sobre a sua essência cósmica, a primordial lux in tenebris, terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

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Syberberg, o realizador.

Questionário de Proust

Foi assim como assim, como quem não quer a coisa, mas submeteram-me ao Questionário de Proust, assim chamado por terem ganho fama as genuínas respostas que o celebrado autor lhe deu. Respondi.

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1.O que é para si a felicidade absoluta?
R- Estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor
2.Qual considera ser o seu maior feito? 
R- É só meio: a minha filha; a outra metade do feito é da minha mulher.
3.Qual a sua maior extravagância? 
R- Ter conseguido atrasar um voo na placa do aeroporto de Nice jurando ao telemóvel que estava mesmo a chegar vindo de Saint Tropez.
4.Que palavra ou frase mais utiliza? 
R- Komé que é, meu kamba?
5.Qual o traço principal do seu carácter? 
R- Uma certa bonomia.
6.O seu pior defeito? 
R- Levar muito a mal quando levo a mal.
7.Qual a sua maior mágoa?
R- Ter desaparecido o bairro colonial de Luanda da minha adolescência. Seria injusto, prenhe de conflitos e descriminação, mas era tão exaltante nas suas misturas de cheiros, de culturas e de ideais.
8.Qual o seu maior sonho? 
R- Conversar um dia com um ressuscitado Joseph Conrad. Ele pode vir com o fato imaculado de Lord Jim.
9.Qual o dia mais feliz da sua vida? 
R- O 10 de Junho de 1977, estava Jorge de Sena a discursar, no Dia de Portugal. Nem era bem o que eu ouvia, era mais a mão que estava na minha mão.
10.Qual a sua máxima preferida? 
R- A da Ordem da Jarreteira: Honni soit qui mal y pense
11.Onde (e como) gostaria de viver? 
R- Vizinho de Paul Gauguin nas ilhas dos Mares do Sul
12.Qual a sua cor preferida? 
R-  Vermelho, rojo, red, rouge, rosso.
13.Qual a sua flor preferida? 
R- Rosas.
14.O animal que mais simpatia lhe merece?
R- Águia. Que liberdade! (faço notar que é o único ponto de exclamação das minhas 30 respostas)
15.Que compositores prefere? 
R- Quase todos, mas agora apetecia-me ouvir Pachelbel. O Canon.
16.Pintores de eleição? 
R- Picasso. É tão simples.
17.Quais são os seus escritores favoritos?
R- Pelo amor dele a outros mil escritores que também amo, Jorge Luis Borges.
18.Quais os poetas da sua eleição? 
R- Larkin e Herberto. Ou talvez Herberto e Larkin. Olhe. Não sei bem.
19.O que mais aprecia nos seus amigos? 
R- A torrencial generosidade de serem meus amigos.
20.Quais são os seus heróis? 
R- O meu pai, pela bondade; a minha mãe, pela inteligência discreta.
21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R- O odioso Ethan, que John Wayne incarna em The Searchers. Por ser uma figura de redenção.
22.Qual a sua personagem histórica favorita?
R- Churchill: não fez revoluções, louvado seja Deus.
23.E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R- Já morreram: o senhor Alberto e o senhor Gil, funcionários da Cinemateca no tempo de João Bénard. Incarnavam a vida como ela era. A pensar neles há um véu de nostalgia que me tapa com pudor os olhos.
24.Que qualidade(s) mais aprecia num homem? 
R- A sensibilidade.
25.E numa mulher? 
R- Um grão de virilidade.
26.Que dom da natureza gostaria de possuir? 
R- O da cíclica reincarnação.
27.Qual é para si a maior virtude? 
R- Uma indolência inteligente e produtiva.
28.Como gostaria de morrer? 
R- Ainda vivo.
29.Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser? 
R- Alguém que gostasse de estar sentado num fim de tarde de Verão a beber um fino gelado e a comer um prato de jinguba.
30.Qual é o seu lema de vida? 
R- Ama e faz o que quiseres.

Da tortura

São Paulo, Prisão de Luanda é um dos livros de mais convulsivo dramatismo que eu já publiquei. O autor, Carlos Taveira, então conhecido por Piri, relata os seus anos de prisão em Luanda, durante o regime ditatorial de Agostinho Neto, marxista-leninista, como do de Salazar se dizia que era fascista.
Deixo-vos o video de apresentação e, em baixo, um excerto. Para que não digam, como se dizia na canção brasileira, que na Página Negra, não se fala , por vezes, de flores.
O livro já está nas livrarias. O autor vem expressamente do Canadá para a apresentação, a cargo do professor Manuel Ennes Ferreia, em Lisboa, na sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglès, no dia 17 de Janeiro, às 18:30.

 

Do livro de Carlos Taveira, São Paulo, Prisão de Luanda

«Bonifácio era um dos guardas da escolta que connosco viajou no avião que nos desembarcou em Luanda. Grande e robusto, calmo, era um ser afável e simples antes da violência se desencadear. Quando estive recluso nas células de isolamento, aparecia com frequência para me acender um cigarro amistoso e comigo trocar duas palavras necessárias. Os presos chamavam-lhe familiarmente Boni e gostavam dele. Infelizmente para os presos, e para ele próprio, Boni foi utilizado como detector de mentiras. Ensinaram-lhe a linguagem da violência, que não lhe era natural. Vi-o em actuação quando o famoso Nito Alves, autor presumível da intentona do 27 de Maio, foi capturado. Para comemorar o acontecimento, resolveram os corajosos oficiais da polícia organizar um espancamento geral dos nitistas. Entravam nas celas, escolhiam à sorte uma ou várias vítimas e agrediam-nas com evidente prazer. Boni fazia parte do grupo. Desfigurado, riso bestial nos lábios, olhos esbugalhados, esbofeteou sonoramente o primeiro que encontrou, atirou outro ao chão, pontapeou, pisou…
Procurava na droga e na bebida a força para executar aquela ilustre missão. Trabalhou como detector de mentiras durante vários meses. Uma bela manhã, encontraram-no rindo-se imbecilmente, quase nu,  no pátio da prisão, lavando-se numa torneira imaginária. Não tinha sido capaz de suportar a pressão imposta pelos seus chefes. Ficou saluquinho, diziam os presos em jargão luandense…
Ao contrário de Boni, Babá* foi um voluntário. Era um dos presos da OCA, recuperados pela DISA, e tornou-se um qualificado detector de mentiras. Tinha-se notabilizado durante o assalto da cadeia pelos golpistas, lutando como preso ao lado da guarnição. Já tinha sido comando do exército português e militar do angolano. Para mostrar um alto grau de envolvimento no processo revolucionário, e para não deixar dúvidas sobre a sinceridade do seu arrependimento, empenhou-se no espancamento dos interrogados com grande convicção.
Uma das suas vítimas descreveu-me a sua técnica de acolhimento: apanhou um pequeno balanço, saltou e despachou um pontapé bem dirigido contra o estômago da vítima. Babá media mais ou menos 1,76 metros e pesava uns 80 quilos, onde não espreitavam gorduras supérfluas. Todas as torturas em que participou, fê-lo conscientemente. Voluntariamente.
Limão, outro detector de mentiras, era um tipo naturalmente violento e brigão. Ouvi-o dizer a um colega, enquanto fumava um cigarro descontraído no pátio da prisão:
– Vou abonar mais uns murros no muadié… para ele falar o resto.
De tanto uso, tinha a mão direita enrolada numa ligadura. Tornara-se amigo de Gustavo Grillo, o mercenário. Limão tinha-o, muito provavelmente, salvado da execução sumária por um soldado nitista. Grillo, reconhecido, dava-lhe lições de caraté. Todavia, o mercenário ficou de cenho franzido quando alguém lhe disse que havia golpes de artes marciais durante os interrogatórios. Limão gostava decididamente do seu trabalho. A alcunha vem da sua imagem de marca: cara sempre zangada e ameaçadora.
Osvaldo Inácio foi um caso à parte. Os antigos presos tinham-me falado dele, porque não se encontrava em São Paulo quando eu lá cheguei. Era recordado com saudades, sendo descrito como o oficial mais humano de toda a segurança. Indivíduo inteligente, levantava o moral aos presos, chegando mesmo a telefonar para casa dos familiares dos detidos para os encorajar e transmitir recados.
– Faz falta – diziam com saudade os antigos.
Um dia, Inácio voltou…
A primeira vez que o vi foi durante uma noite particularmente movimentada, havia um invulgar vaivém de presos para os interrogatórios e de lá para as celas. Voltavam em mau estado. Inácio franqueou a porta de ferro gritando como um possesso, rindo-se como um labrego, provocando os portugueses que encontrou. Os mesmos que tinham sentido saudades do homem. Baloiçava, numa das mãos, a perna de uma cadeira. Quando voltou, horas depois, agitava uns fios eléctricos, à laia de chicote. Rapidamente se tornou o terror dos detidos. Os que eram chamados por ele tremiam antes do interrogatório.
A Tacedo coube essa má sorte. Da barba rala que lhe enchia a cara, ficaram-lhe, quando voltou algumas horas depois, dezenas de feridas com sangue vivo ou coagulado. Tinham-lhe arrancado a barba com um alicate. Contudo, o ar orgulhoso e de desafio do torturado provocou em todos nós uma secreta admiração.
Inácio tinha seguido um curso de segurança em Cuba, durante o tempo em que esteve ausente. Um brasileiro que lá se encontrava detido comentou, depois ter sido posto ao corrente do desaparecido carácter amistoso de Inácio:
– O cara está perdendo o cabaço.
Os que o tinham conhecido nesse tempo não compreendiam como um homem bom podia ter-se transformado naquela besta. Anos depois, houve um pequeno inquérito interno na DISA, numa altura em que os dirigentes angolanos tentavam limpar os salpicos de sangue na máscara posta por cima do rosto. Mesmo que tenha sido um inquérito para inglês ver, alguns detectores de mentiras foram parar às celas de isolamento. Inácio foi um dos escolhidos para bode expiatório. Eu já me encontrava em liberdade, mas alguns dos meus amigos saborearam esses raros momentos e contaram-me. Coitado do homem, ficou meio louco com o isolamento, chorou, lamentou-se…»

Carlos Taveira

Quem dera que Michelle Pfeiffer estivesse morta

Foi esta a minha primeira crónica na coluna a que chamei “o cinema dá o que a vida rouba”. Passaram oito anos. Envelheceu muito? Quem não envelhece é Michelle Pfeiffer, que não se deixa encantar pela ideia de que morrem jovens os que os deuses amam.

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Não é de ódio este desejo. Move-me o amor: aos olhos, às altas maçãs do rosto francês de Michelle Pfeiffer. Insisto: quem me dera que estivesse morta.

Tenho maus pensamentos ao ver o fato de catwoman apertar-lhe os pequenos seios no “Batman Returns”. Como o sonso Daniel Day Lewis, torço olhos românticos às ancas opulentas que os vestidos vitorianos lhe emprestam em “The Age of Innocence”. Entre mim e Michelle há um superavit amoroso e só quero que, trágica, morra.

Em “Chéri”, ao amante que lhe elogia a beleza, responde: “Um bom corpo dura muito tempo”. Mas não dura sempre e o vil insecto dos dias corrompe a melhor carne. Pelas alminhas, não deixem que ela me envelheça.  

Explico-me. Só é Bento XVI quem não pode ser Jesus Cristo. Crucificado e com 33 anos, Cristo mudou o mundo. Passaram 21 séculos e as lágrimas que Maria Madalena chorou por ele ainda não secaram. De Bento XVI, se restar, será uma múmia que um fresco de Michelangelo há-de tapar.

Só é Meryl Streep quem não pode ser  Marilyn. Três anos depois dos 33 e presumindo que só tinha uma maneira de se encontrar com Jesus, Marilyn morreu, ou morreu-se, a barbitúricos. Morrer assim é nascer para a eternidade.  

É por isso que só é Clint Eastwood quem não pode ser James Dean. Jimmy espatifou um Porsche 550 e o corpo jovem num acidente caprichado. Fizera três filmes. O cinema há-de acabar e Nathalie Wood continuará a estremecer por Dean no planetário de “Rebel Without a Cause”. E haverá sempre um tipo de mais de meia idade a elanguescer com a lingerie que Marilyn guarda no frigorífico do Verão nova-iorquino de “Seven Year Itch”.   

Hoje escondemo-nos da morte. Penteamo-nos, inchamos o lábio, rejuvenescemos o periclitante mamilo, e era melhor morrermos. A triste medicina corrige a vida, mas mata o sonho. Só a morte confere as cores do mito, a juventude eterna. Quando confere, a quem confere.

michelle

Pfeiffer tem as formas do mito. Ia invocar-lhe a beleza, mas a beleza é a menor das suas qualidades. Em “Dangerous Liaisons” e “The Age of Innocence”, à ingenuidade carregada de desejo junta a impudica vontade de ser vítima. Em “Russia House”, à câmara, que lhe quer comer a carne, oferece inteligência terna e gentileza emocional. O pingo do sublime cai na perigosa e lábil curva que, olhe-se o seu copo donde se olhe, é a forma geométrica de a descrever em “Fabulous Baker Boys”. Isto sim, são virtudes. Faustianas, gostava eu.

Se Michelle Pfeiffer morresse agora, a doce morte iluminaria a cena em que canta Makin’ Whopee e ficaria mais vermelho o vestido, decotado em cima, decotado em baixo, com que se curva, ajoelha, rasteja e deita no estreito e imenso escândalo do tampo do piano a que se aflige e toca Jeff Bridges.

Pedir a morte de Michelle Pfeiffer é elogio e um pedido de socorro. Não queria que ela, da aparição na forma de lâmina loura em “Scarface” à deliciosa viúva de “Married to the Mob”, fosse menos do que eterna. Mas temo que os nossos dias não transijam e me venham dizer que o mito já não é deste tempo, nem este um tempo de mitos.

michelle_piano

Medicina tradicional

Publiquei este post há 10 anos. Retomo-o agora, sem lhe mudar uma vírgula.

kimbanda

Esta é a mais saudável das imagens que me mandaram nos últimos tempos. Com este meu primo angolano sinto-me em casa e em paz. Pela confiança que a longa lista — e se eu gosto de listas — bem atesta. Pelo desembaraço epistemológico que cruza tradição e modernidade, cirurgia e new age. Pela forma elegante como se salta da prática clínica pura e dura para esse “que-tem-qualque-problema- resolvese” herdeiro optimista do melhor freudianismo.

Mas “Chucha Grande”? Donde virá essa estética opção cirúrgica tão a contrario da galopante indução de silicone que nos avassala?

Fuga informática: Putin mandou-me os microfilmes

Está já nas bancas o Jornal de Negócios. E está lá a estreia da minha coluna, Vidas de perigo, Vidas sem castigo. Na verdade, e como podem ver, é uma página inteirinha, muito bem tratada pelo director André Veríssimo, pela minha editora, Lúcia Crespo, e pelos responsáveis gráficos. Com uma sonora ilustração de José Tiny.

negocios

Ontem, já tinha saído a minha primeira Bica Curta, no CM. O denominador comum é, está bom de ver, o meu chapéu preto.

cm

 

Gosto do meu chapéu

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Hoje, assinei no Correio da Manhã a minha primeira micro-crónica. Servi a minha primeira Bica Curta, aqui. Pus o meu chapéu e apresentei-me em 635 caracteres com espaços, debaixo deste título: Ui, quem é este? Confesso-vos: gostei muito do chapéu.

Amanhã, no Jornal de Negócios, começo outra coluna, Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo. Tenho 3500 caracteres com espaços, o suficiente para correr que nem delinquente a fugir à polícia. Mas, em boa verdade, a primeira crónica é muito mais sentada do que a fugir. Luís XIV, esse rei que, como verão, não era queixinhas, explicará melhor o que quero dizer.