As peúgas de Luis Buñuel

Outros pés descalços. Jovens.

Estava para começar a falar dignamente de Luis Buñuel, mas meterem-se pelo meio dois velhos, lado a lado, em duas camas de hospital. E como ninguém pode ter tudo, um é branco e rico, o outro pobre e negro. Dão pelos nomes de Jack Nicholson e Morgan Freeman. Tudo os separa menos o amor que têm às suas “bucket lists”. Ou seja, querem ainda cumprir alguns desejos antes de morrerem. A personagem de Nicholson, o branco nababo, não quer morrer sem beber uma rotunda chávena de Kopi Luwak, o mais sofisticado café do mundo. E bebe, para desmesurado gozo do velho negro sem cheta a que Freeman empresta o canastro. É que, diz depois Freeman a Nicholson, o toque sublime desse café é serem os seus grãos dados a comer a um pequeno felino, a civeta de palmeira asiática, que os digere e expele a seguir, ou a bem dizer os caga.

Há um incontornável sinal de que se atingiu uma incontornável sapiência, quando se passa a ter gosto em prazeres simples. E é aqui que deixo o agoniado Nicholson e o malvado Freeman, para cair nos braços de outro velho, o peninsular e anarco-blasfemo Luis Buñuel.

Filmava então “Cela s’appelle l’aurore”. Foi um dos três filmes, com “La mort en ce jardin” e “La fièvre monte en El Pao”, que Buñuel filmou digamos que um bocadinho tolhido por algemas ideológicas. Os protagonistas eram Georges Marchal e Lucia Bosè. Eram os dois muito belos e o argumentista Jean Ferry escreveu-lhes três páginas de lírico diálogo amoroso. Buñuel leu e deitou as três folhinhas no lixo. Na cena que ficou no filme, Marchal, um médico de província dedicado como um João Semana, chega a casa morto de cansaço. Na sala, desaperta o cinto, descalça os sapatos de camurça e estica-se, aliviado. Melhor ainda, tira as peúgas e atira-se para cima de um divã, num “oh, santíssima mãe de Deus”. A bela Bosè vem da cozinha e põe na mesa uma terrina de sopa. Chega-se ao divã e dá a Marchal um beijo de entre sala de estar e cozinha. Ele oferece-lhe então uma minúscula tartaruga. Ela dá-lhe outro beijo, agora mais quarto que sala, pondo a tartaruga no chão de pernas para o ar. Nunca saberemos se Marchal chega a comer a sopa ou não. Sabemos que a tartaruga rebola e se põe de pé. É tudo o que precisamos de saber se, como Buñuel, soubermos que não há coisa mais feliz do que o homem descalço.

O humilde fio de xixi

Jules Renard

O escritor francês Jules Renard trocou a universidade pelos cafés literários, pelo teatro, pelos meios jornalísticos: “Sou da velha escola, da escola que não sabe ler.”  Não sabia ler, mas sabia escrever. Ao morcego que agora, após Wuhan, tanto tememos, definiu-o assim: “O morcego que voa com o seu guarda-chuva.” Como chamou “pulga gigante” a um canguru e à vaca, “um tonel com dois cornos”. Escrevendo assim era sobre a morte ou contra a morte que escrevia. Durante 23 anos, de 1887 a 1910, alinhavou em cima da troca de séculos um diário, o seu “Journal”, destinado a publicação póstuma. Foi a forma de negar a morte, renascendo depois dela por obra e graça de uma escrita em que ternura e amargura levam ao colo o gosto pela infelicidade e pela misantropia, bem bebidas as duas no leite da sua história familiar.

Jules, o mais novo de três filhos, viveu entre pai e mãe que não dirigiam a palavra um ao outro. Era ele o intermediário do rancor com que ainda se comunicavam. Levava as mensagens do pai indiferente à mãe e, dessa mãe que nunca o amou, trazia-as ao pai. Mas vejamos, o pai adoece e não tem já esperança de se salvar. Ainda lhe escondem um revólver, temendo que se suicide. Mas logo noutro dia se ouve, em casa, um disparo. Chamam Jules, que arromba a porta do quarto fechado. No chão, está o morto indiscutível, o pai – ainda de mãos quentes, dizem –, e a caçadeira tombada, de que o pai de Jules conseguiu disparar os dois canos com o engenhoso auxílio de uma bengala.

A morte é doméstica ou de rua. Lembro-me sempre e para tudo de Luanda: se há tudo, eu vi tudo em Luanda. Em 1975, a morte veio morar nos bairros da cidade. Entrei num machimbombo na Mutamba, o Bairro Popular como destino. Na paragem seguinte entraram três mortos. Os manifestantes traziam-nos em carretas e quiseram metê-los no corredor do autocarro. Nunca me esquecerei que iam duas freiras no banco da frente. Como personagens de Dali não tinham rosto, mas eram as freiras perfeitas, uma negra, outra branca, e os jovens revolucionários queriam mostrar-lhes o lençol e o aroma da morte. Fugiram como qualquer um de nós fugiria do rosto da guerra de Dali. É verdade que vi o desfile militante de três mortos num machimbombo de Luanda, mas Jules Renard tem nos braços o cadáver do pai suicida: a náusea em toda a sua nudez. Doze anos depois, verá, à superfície da água de um poço, a saia flutuante da mãe afogada. Um miúdo viu-a cair, ou deixar-se cair de costas, no poço fundo. Jules vem a correr e é o primeiro a descer para recolher o cadáver da mãe demente.

Dois cadáveres nos braços, Jules não deixava de ver a sua dor com ironia. “Se soubesse que ia morrer, morria antes”, lemos no seu diário. Amigo de escritores e actores, um dos que mais o divertia era Lucien Guitry, um cómico, pai do dramaturgo e cineasta Sacha Guitry. Um dia, e foi bem antes da mundialização do turismo, alguém perguntou a Lucien se conhecia a Itália. “É que nem de nome”, respondeu Lucien. Exactamente o que Jules Renard quer responder à morte que lhe chega na forma de duplo suicídio.

Celébre e celebrado pelo seu “Poil de Carotte”, romance de um menino ruivo desamado por pai e mãe, é a ironia que tempera o seu rancor, as suas dores, a sua amargura. Doente, não se consegue já levantar de noite e descuida-se na cama, o xixi correndo-lhe ao longo da perna. “Secará nos lençóis, como quando eu era Poil de Carotte”, escreve ele já perto do fim do “Journal”. Gotas, um humilde fio de xixi, leva-nos da infância à morte.

Publicado no Jornal de Negócios

Adélia Riès

Esta Anna Karina, de quem Adélia Riés gostaria

Adélia da Fonseca-Riès vinha sempre, como leitora, e com comentários, animar o velho Escrever é Triste, o blog colectivo que tinha como lema “chatices não”. O gosto lúdico da escrita animava o Escrever é Triste e isso bastava a Adélia Riès. Ou melhor, não bastava: queria que os Tristes publicassem livros e vinha à Guerra e Paz encomendar obras. Devo-lhe ter publicado um poeta americano, Howard Altmann, Quando a Fina Neve Cai, em tradução da Eugénia de Vasconcellos. E que bonita foi a sessão de lançamento, no Palácio de Belmonte, ali ao Castelo, sob os auspícios da Maria e Frédéric Coustols.
A alegria e a generosidade da Adélia foram agora esconder-se entre as nuvens. Fecho os olhos e consigo vê-la. Dou-lhe um último beijo e peço-lhe que volte a ler este texto de escritores e cineastas, duas constantes desse Escrever é Triste que a deliciava.

Jejum e Mar da palha

O cinema só não é uma arte maior como a literatura porque não há cineastas virgens. O cineasta virgem seria uma contradição nos termos. A câmara de filmar é um falo hiperbólico: devassa, despe, acaricia. Bi ou promíscua, a câmara tanto faz estremecer Keira Knightely e Scarlett Johansson como Michael Fassbender.

O cinema nasce convivial e flui numa emulsão, enquanto a literatura, solitária, se derrama e seca sobre o papel. Há uma legião de escritores virgens. Uns morreram virgens por deformidade física, como Giacomo Leopardi. Emily Dickinson por rebeldia. Por orgulho ou preconceito, Jane Austen criou páginas e páginas de virgindade. Sabia do que falava, morreu intocada.

George Bernard Shaw era vegetariano. Dente de Shaw não mordia carne. E mesmo se casou foi só para conferir mistério ao mar de palha que era o seu jejum. Foi uma inglesa que disse: “Se Shaw tivesse comido um bom bife, o que teria sido das mulheres de Londres.”

Lembro que há um português virgem. O poeta que mais vivo está no imaginário colectivo da pátria que é a nossa língua, esse desdobrável Fernando Pessoa, se pinava era só com a cabeça. Disse-o Mário Cesariny e tê-lo-á lamentado Ofélia.

Pelo contrário, todo o cineasta é uma câmara: confunde-se e funde-se com a sua actriz. Orson Welles e Rita Hayworth, Godard e Anna Karina, Bergman com Liv Ullman e etc, Milla Jovovich com Luc Besson e Paul Anderson, Woody Allen com Mia Farrow e Diane Keaton, Isabella Rosssellini com Scorsese e David Lynch.

Volto ao papel. E.M. Forster, o autor de “Howard’s End” e de “Passagem para a Índia”, que o cinema também assaltou, foi virgem até aos 37 e até aos 37 escreveu a sua obra. Logo que descobriu o humpy rump nunca mais escreveu nada de jeito.

E desminto já esta deriva ascética. James Joyce tinha uns meninos 14 anos quando uma jovem mulher da noite o apanhou na fria madrugada de Dublin e, por módica quantia, o guiou nuns consoladores três minutos de vaivém entre a imanência e a transcendência. Deveremos a esse anónimo ventre a desconcertante polissemia de “Ulisses”?

Tolstoi teve a primeira suada batalha aos 16 anos. Quando acabou, meio vestido, a outra metade de si ainda nua, sentou-se ao fundo da cama da mulher a quem pagara e chorou copiosamente. Foram essas copiosas lágrimas que alimentaram o seu “Guerra e Paz”?

Jesus Cristo em Montmartre

Jesus Cristo na cruz, Max Jacob

O poeta Max Jacob estava de cu para o ar quando ganhou a imortalidade. Inclinado, para apanhar um par de pantufas debaixo da cama, ao soerguer-se vê Jesus Cristo na parede do seu sórdido quarto. Com uma túnica de seda amarela, debruada a azuis, Jesus escorria pela parede como uma aguarela. Movia-se, mas não disse uma palavra ao poeta e pintor. Como apareceu, assim se desvaneceu. Foi a 16 de Setembro de 1909, já lá vai mais de um século.

Os 33 crísticos anos do judeu Max Jacob desataram a correr pelas ruas de Montmartre e derraparam à porta da igreja. Agarrou-se ao pároco e contou-lhe a visão, ou cantou-lha, que Max era também músico. O padre, incréu, gentio, olha-o com um cepticismo de ministro das finanças, e nem quando a calvície de Max Jacob se lhe roja aos pés se deixa banhar pela alegria da revelação e da fé. Nega.

Vejamos, o padre conhecia Max Jacob. Vira-o na companhia boémia de Picassos, Apollinaires e Modiglianis, quem sabe se não mesmo, algum dia, a desencaminharem o nosso Amadeo de Souza Cardoso. Um bando frequentador de bistrots e guinguettes, copos, petiscos e bailes, publicanos e marias madalenas. Más companhias? Talvez, mas algum dia Jesus, o Cristo, fez fine bouche a más companhias?

E preciso de arrastar o flash-back ainda lá mais atrás. Nascido na Bretanha, numa família judia laica, o miúdo Max morria de inveja ao ver os meninos católicos em missas e comunhões: tanta fé, tanta santa culpa, tanto arrependimento e absolvição levavam ao êxtase a sua saborosa inclinação homossexual e a culpa que lhe vinha amarrada.

Em Paris, a sua vida celerada juntou a convulsão da noite a um lirismo melancólico e de intensa espiritualidade. Descobre Picasso e dá-lhe guarida no seu quarto, em regime de cama quente: Picasso pinta durante a noite e vem dormir quando Max se levanta para ir trabalhar. Agora, sozinho, neste seu novo quarto, roupas, sapatos, livros, godés, tintas e pincéis espalham o caos sobre mesa, cadeiras e cama; nas paredes estão pintados os signos do zodíaco e irrompem frases num apocalipse pré-graffitiano.

Tenho de ser sincero, se Cristo é o tipo que eu penso, não vejo em que outro quarto pudesse ter aparecido. No fecho parisiense da primeira década do século XX, Cristo, a querer alguma coisa, quereria ser boémio e artista de vanguarda. E eis que Cristo, confundido com a negação e a humilhação que a visão de Max Jacob desencadeou em crentes e ateus, padres, pintores e poetas, insiste.

A 16 de Dezembro de 1914, Max Jacob está sentado numa sala de cinema. As imagens correm na tela e eis que, do nada, Jesus Cristo, tão mudo como o filme, se senta ao seu lado. Veste a mesma túnica branca e rude que usará no Vangelo de Pasolini. Olha, fixo, para Max e logo lhe diz adeus que mais século, menos século vai ter de aturar um mundo de Trumps e Xi Jipings.

Desta vez, acreditam em Max. Meses depois é baptizado. Picasso é o padrinho. E em 1921, Max Jacob entra num mosteiro beneditino, consolando-se na penitência, meditação e beleza.  

Aí o descobrirá um SS a quem mostra a abadia de Notre-Dame-de-Fleury. “Com esse nariz, você é judeu”, acusa-o. Os monges jurarão que ele é católico e bretão, mas a barbárie, obcecada por narizes, triunfa. Prendem-no e vão deportá-lo para Auschwitz. Uma bronco-pneumonia atira-o para a enfermaria de Drancy. Na cama, alucinado, Max Jacob sussurra, “judeu sujo, judeu sujo”, e morre cinco dias antes de partir o comboio para Auschwitz. Morre um judeu boémio, poeta, romancista: a cruz e a estrela amarela por mortalha.

Publicado no Jornal de Negócios

Cinta de ligas e meias de vidro

Tallulah e umas delicadas meias de vidro, tão certo como ser um filme de Hitchcock

“Lifeboat” é um filme à deriva no mar da II Guerra. Filmou-o Hitchcock num bote onde meteu nove vidas sem destino. O caos tomou conta do oceano e no salva-vidas, no início, só está uma mulher madura e bela, cabelo, maquilhagem e jóias irrepreensíveis, casaco de arminho, esplêndidas meias de vidro. Tão certo como ser um filme de Hitchcock, uma delicada cinta de ligas mantém essas meias esticadas para que, sem dobras nem refegos, bem torneiem a bela perna.

A mulher é a mais libertina das actrizes, Tallulah Bankhead, e posso jurar que não traz cuecas. Passado em pleno oceano, Hitchcock filmou “Lifeboat” num tanque do estúdio, a que os actores acediam por uma altíssima escada. Todos os dias os técnicos esperavam que, degrau a degrau, Tallulah ascendesse aos céus, retribuindo com uma salva de palmas a contemplação da edénica intimidade.

Numa lógica de “há moralidade e não come ninguém”, os produtores mandaram Hitchcock cobrir, com o devido manto, a diáfana fantasia. Lá iremos. Tallulah teve, em “Lifeboat”, o seu momento alto no cinema. Embora americana, fora, antes, uma glória do teatro britânico. Já em Londres gostava de representar sem cuecas. Era um Brexit nas salas e o sindicato dos actores teve de regular o que se passava debaixo daquelas saias.

Também a secreta britânica, o MI5, lhe quis escrutinar o frondoso jardim. Descobriu lá, de uma vez, cinco jovens de Eton, colégio que agora formou os dois príncipes britânicos. O rendez-vous foi no selecto Hotel Café de Paris e o espião alega que ela se terá regalado, em prática imorais e antinaturais, com os cinco, como nunca Enid Blyton imaginaria.

O agente do MI5 jurou que numa só noite pararam 100 limusinas à porta do hotel e também a acusou de lésbica. Tallulah, que sempre lamentou não ter chegado a esse impertinente toque de delicadeza com Greta Garbo, foi peremptória: “Jamais me tornaria lésbica, tanta é a falta de humor que têm!”

Hollywood não foi a sua praia. Cukor gabou-lhe as altas maçãs do rosto, mas disse que a morte dela eram os olhos sem vida. Ela queixava-se do trabalho escravo: “Há seis meses que não tenho um affair. Seis meses… Quero um homem.”

Em “Lifeboat”, como Hitchcock queria, foi um prodígio de incongruência. As queixas da falta de cuecas não assustaram o mestre perverso: “Mas a que departamento submeter o assunto? Ao de guarda-roupa, ou ao de maquilhagem e cabelos?”

É a transgressão que dá sabor à literatura?

Há prendas na Guerra e Paz

A Guerra e Paz editores fala, eu escuto, e faço eco.

Que insonsa seria a literatura sem a transgressão! Experimente e leve esta ousadia para casa. Ou ofereça-a como um desafio.

Juntámos três livros de que gostamos muito na Guerra e Paz. um Livro Amarelo, as três faces do miolo pintadas à mão, com o Cântico dos Cânticos e o Manual de Civilidade para Meninas; um livro com desenhos de João Cutileiro e os poemas do último poeta a ser queimado em público, em Paris, Claude Le Petit; o romance que pôs um fogo de paixão e escândalo no século XX, O Amante de Lady Chatterley.

É uma prenda libertina? Não, é uma prenda que se dá a quem tenha bom gosto e a humanidade plena, a que não falta o desejo e o prazer de amar. Está aqui e a prenda é sua.

A mão de Joyce

Nora Barnacle e James Joyce

A doutora Theresa Tham deu há dias uma mãozinha ao velho sátiro que era James Joyce. E se James Joyce agradecia alguma coisa era uma mãozinha. Mas enquanto vou ali e já volto deixem-me dizer quem é a doutora Tham e onde meteu ela a mão.

Theresa é a directora da saúde pública do Canadá e veio proclamar que neste vale de lágrimas que é a pandemia, a masturbação é a salve-rainha da actividade sexual, a sua mais graciosa oração. É mesmo o único safe sex, garantiu ela, prosaica e redutora, porque, se tivesse veia poética, a senhora directora da saúde desse vasto e erecto Canadá, poderia ter dito que, em boa verdade, a masturbação é o amor que não ousa dizer o seu nome. Porque o seu amor é o próprio eu. O masturbador, como os grandes dribladores, Garrincha ou Messi, encanta-se com a suas fintas, o seu slalom, com a elegância e ritmo dos seus gestos, num caso com os pés, no outro com a mão. Era capaz de jurar: James Joyce foi um Garrincha da masturbação.

E temo que a mão da doutora Tham não tenha o pathos que tanto estimulava o irlandês. Havia uma mãozinha católica a desabotoar as calças do autor de Ulisses. Do púlpito, padres em êxtase espiritual brandiam o fogo dos infernos contra esse pecado da impureza que assassinava corpo e alma, fonte de crimes e nigérrimos infortúnios. Já no Retrato do Artista Quando Jovem, Joyce leva o seu herói Stephen Dedalus, num momento de murcho arrependimento, a confessar-se numa igreja longe de casa, a um padre desconhecido, evitando pôr na mão do padre da sua escola os pecados que a sua ávida mão apertava.

Há um outro aveludado toque e um frémito vaidoso quando se peca contra o reino dos céus, a um passo das chamas sulfúricas do inferno. Joyce pagou mesmo a dura factura que a mole democracia lhe cobrou. No Ulisses, a sua sub-reptícia perversão imaginou outro herói, Leopold Bloom, agarrado à ponta mais ocidental de si mesmo, na praia, em sôfrego êxtase perante as pernas que, sem querer querendo, uma rapariga lhe mostrava, fogo de artificio na noite de Dublin, uma vela romana a ejectar estrelas no céu, e Leopold também. É a primeira explícita descrição literária do enérgico vaivém que exige essa actividade agora considerada segura pela doutora Tham. Logo os tribunais da América, e o puritanismo do mundo anglófilo, o condenaram, deixando o Ulisses, de Joyce, por dez anos à procura da sua Ítaca.

Já fui ali e já voltei e posso dizer-vos: os séculos XVIII e XIX abominaram a masturbação. Médicos e cientistas ameaçaram prevaricadores e prevaricadoras de mão leve e dedo ágil com a cegueira e a loucura. Foi também contra essa ameaça que, em 1904, num húmido jardim de Dublin, Nora Barnacle, futura mulher de Joyce, baixou a mão e a enfiou, formosa e segura, dentro das calças de Joyce, no primeiro encontro que tiveram, prodigalizando e alisando afectos (onde é que já ouvi esta palavra) ao que, no escritor, mais inflada carência ostentava.

“Cavalinho de circo a trote na pista” era como Joyce chamava ao que generosamente a doutora Theresa aconselhou há dias a toda uma nação: e vejamos como a doença de há dois séculos é agora a cura, para alegria de mil milhões de saudáveis mãos. Nas cartas a Nora, Joyce quer que ela lhe conte como se entretém, com que dedo, a que ritmo, e se, como ele, fazia maratonas. Santo padroeiro da masturbação, Joyce foi um dia surpreendido, numa sessão de autógrafos, por um leitor que lhe disse: “Deixe-me apertar a mão que escreveu Ulisses!” O escritor respondeu: “É melhor que não. Tem feito muitas outras coisas.”

Publicado no Jornal de Negócios

Lisboa cheirava a rosas

Joyeuse entrée: Lisboa engalanada para receber o rei Filipe. (Com a devida vénia, do site A.Muse.Arte)

Lis­boa chei­rou bem ao nariz de Filipe II de Espanha. Com­pa­rado com o cheiro da Madrid fétida, mer­dosa até, var­rida pelos ven­tos atlân­ti­cos, Lis­boa chei­rava a rosas nesse dia 25 de Julho de 1581, o dia em que Filipe de Espanha pisou o Ter­reiro do Paço, pisando, por muito que não qui­sesse, o povo de Portugal.

Madrid era então a capi­tal de um reino em que o Sol nunca se punha, o reino de Filipe, filho da por­tu­guesa Isa­bel, filha mais velha do nosso D. Manuel I. Madrid era também um repe­lente cha­vas­cal com­pa­rada com Lis­boa, o maior porto da Europa, que Miguel Cer­van­tes, autor de “Dom Qui­xote”, can­tou assim: “A cidade é a maior da Europa e a de melho­res manei­ras; nela se des­car­re­gam as rique­zas do Ori­ente e daqui se espa­lham para todo o uni­verso. A for­mo­sura das mulhe­res espanta e apai­xona. A galhar­dia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que aos Céus presta santo e gene­ro­sís­simo tributo.”

É desta Lis­boa que o rei espa­nhol fica cativo.  A recep­ção fidalga terá aju­dado. Acla­mado pelas Cor­tes, em Tomar, é sumptuosa a recepção em Lis­boa, que tal­vez qui­sesse ser capi­tal do imenso reino que a tinha engo­lido.

Filipe II de Espa­nha podia ter feito de Lis­boa capi­tal do mundo. A cidade domi­nava os mares. Nela con­ver­giam Oci­dente e Ori­ente e a embo­ca­dura do Tejo pare­cia que­rer sugar a África, as Amé­ri­cas, a remota Ásia.

Que­rendo ser por­tu­guês, Filipe não che­gou a ser tão por­tu­guês assim. Em Lis­boa, mul­ti­cul­tu­ra­lista avant la let­tre, res­pei­tou tra­di­ções: para os car­gos sen­sí­veis só nome­ou por­tu­gue­ses e Filipe impôs que a lín­gua por­tu­guesa fosse a única dos docu­men­tos ofi­ci­ais – nunca ele teria aprovado o famigerado Acordo Orto­grá­fico. Falava um português apren­dido da boca da mãe e de Dona Luísa de Mas­ca­re­nhas, dama de com­pa­nhia dela. Em Lis­boa, foi tão português quanto pode: vestia-se, comia, fazia os horá­rios dos por­tu­gue­ses, o que sig­ni­fica que terá mesmo sacrificado a sua siesta.

Ape­sar das insis­ten­tes pres­sões do pai, o sacro impe­ra­dor Car­los V, Filipe não fez, porém, de Lis­boa a capi­tal do imenso Reino, com o que teria con­so­li­dado a União Ibé­rica e, numa lição ao isolacionista Trump, cri­ado a pla­ta­forma ideal para o comér­cio ame­ri­cano que lhe fortalecesse o Império.

Filipe, neto de Manuel e filho de Isa­bel, não foi por­tu­guês bas­tante para fazer de Lis­boa capi­tal. Agradecemos-lhe: Por­tu­gal vol­ta­ria, por isso, a ser Por­tu­gal e Espa­nha há-de sem­pre con­ti­nuar a sonhar ser a grande Espa­nha, que dei­xou de ser.

Filipe deu a Lis­boa o Paço da Ribeira, a igreja de São Vicente de Fora e pôs no fim do rio a torre do Bugio. Cui­dou dos mor­tos res­ga­tando até o pálido cadá­ver de Dom Sebas­tião, o James Dean português.

Um dia de 1588 jun­tou na boca do Tejo 130 navios espa­nhóis e por­tu­gue­ses, a Grande e Felicíssima Armada, que deve­ria ser inven­cí­vel, esma­gar e pôr de joe­lhos a inglesa Isa­bel, filha de Hen­ri­que VIII e de Anna Bolena, que ao que parece o amava tão apai­xo­na­da­mente que por ele sus­pi­rou em ver­sos que tais: “Gen­til príncipe de Espanha, vem, vem outra vez…”

Deixando-a, a 11 de Feve­reiro de 1583, Filipe não fez de Lis­boa capi­tal, impé­rio de impé­rios; fez de Lis­boa a mor­ta­lha donde saí­ram as velas da morte, as 130 velas que des­truí­das, incendiadas pelo bár­baro cor­sá­rio, afun­da­riam os sonhos ibé­ri­cos em cho­rado fla­menco e ganido fado. Filipe amava tanto Por­tu­gal que ficou com a madeira de uma nau lusa em ruí­nas, a Cinco Cha­gas, e dessa madeira fez o seu cai­xão. Amava Por­tu­gal, era é um amor de morte. Que bem o teria filmado Luis Buñuel.