A mão de Joyce

Nora Barnacle e James Joyce

A doutora Theresa Tham deu há dias uma mãozinha ao velho sátiro que era James Joyce. E se James Joyce agradecia alguma coisa era uma mãozinha. Mas enquanto vou ali e já volto deixem-me dizer quem é a doutora Tham e onde meteu ela a mão.

Theresa é a directora da saúde pública do Canadá e veio proclamar que neste vale de lágrimas que é a pandemia, a masturbação é a salve-rainha da actividade sexual, a sua mais graciosa oração. É mesmo o único safe sex, garantiu ela, prosaica e redutora, porque, se tivesse veia poética, a senhora directora da saúde desse vasto e erecto Canadá, poderia ter dito que, em boa verdade, a masturbação é o amor que não ousa dizer o seu nome. Porque o seu amor é o próprio eu. O masturbador, como os grandes dribladores, Garrincha ou Messi, encanta-se com a suas fintas, o seu slalom, com a elegância e ritmo dos seus gestos, num caso com os pés, no outro com a mão. Era capaz de jurar: James Joyce foi um Garrincha da masturbação.

E temo que a mão da doutora Tham não tenha o pathos que tanto estimulava o irlandês. Havia uma mãozinha católica a desabotoar as calças do autor de Ulisses. Do púlpito, padres em êxtase espiritual brandiam o fogo dos infernos contra esse pecado da impureza que assassinava corpo e alma, fonte de crimes e nigérrimos infortúnios. Já no Retrato do Artista Quando Jovem, Joyce leva o seu herói Stephen Dedalus, num momento de murcho arrependimento, a confessar-se numa igreja longe de casa, a um padre desconhecido, evitando pôr na mão do padre da sua escola os pecados que a sua ávida mão apertava.

Há um outro aveludado toque e um frémito vaidoso quando se peca contra o reino dos céus, a um passo das chamas sulfúricas do inferno. Joyce pagou mesmo a dura factura que a mole democracia lhe cobrou. No Ulisses, a sua sub-reptícia perversão imaginou outro herói, Leopold Bloom, agarrado à ponta mais ocidental de si mesmo, na praia, em sôfrego êxtase perante as pernas que, sem querer querendo, uma rapariga lhe mostrava, fogo de artificio na noite de Dublin, uma vela romana a ejectar estrelas no céu, e Leopold também. É a primeira explícita descrição literária do enérgico vaivém que exige essa actividade agora considerada segura pela doutora Tham. Logo os tribunais da América, e o puritanismo do mundo anglófilo, o condenaram, deixando o Ulisses, de Joyce, por dez anos à procura da sua Ítaca.

Já fui ali e já voltei e posso dizer-vos: os séculos XVIII e XIX abominaram a masturbação. Médicos e cientistas ameaçaram prevaricadores e prevaricadoras de mão leve e dedo ágil com a cegueira e a loucura. Foi também contra essa ameaça que, em 1904, num húmido jardim de Dublin, Nora Barnacle, futura mulher de Joyce, baixou a mão e a enfiou, formosa e segura, dentro das calças de Joyce, no primeiro encontro que tiveram, prodigalizando e alisando afectos (onde é que já ouvi esta palavra) ao que, no escritor, mais inflada carência ostentava.

“Cavalinho de circo a trote na pista” era como Joyce chamava ao que generosamente a doutora Theresa aconselhou há dias a toda uma nação: e vejamos como a doença de há dois séculos é agora a cura, para alegria de mil milhões de saudáveis mãos. Nas cartas a Nora, Joyce quer que ela lhe conte como se entretém, com que dedo, a que ritmo, e se, como ele, fazia maratonas. Santo padroeiro da masturbação, Joyce foi um dia surpreendido, numa sessão de autógrafos, por um leitor que lhe disse: “Deixe-me apertar a mão que escreveu Ulisses!” O escritor respondeu: “É melhor que não. Tem feito muitas outras coisas.”

Publicado no Jornal de Negócios

2 thoughts on “A mão de Joyce”

  1. A crer na última resposta de Joyce, de duas uma: ou ele não lavava as mãos, ou não cria na virtude da masturbação. Mas também já não podemos perguntar-lhe. Fica assim.

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