O humilde fio de xixi

Jules Renard

O escritor francês Jules Renard trocou a universidade pelos cafés literários, pelo teatro, pelos meios jornalísticos: “Sou da velha escola, da escola que não sabe ler.”  Não sabia ler, mas sabia escrever. Ao morcego que agora, após Wuhan, tanto tememos, definiu-o assim: “O morcego que voa com o seu guarda-chuva.” Como chamou “pulga gigante” a um canguru e à vaca, “um tonel com dois cornos”. Escrevendo assim era sobre a morte ou contra a morte que escrevia. Durante 23 anos, de 1887 a 1910, alinhavou em cima da troca de séculos um diário, o seu “Journal”, destinado a publicação póstuma. Foi a forma de negar a morte, renascendo depois dela por obra e graça de uma escrita em que ternura e amargura levam ao colo o gosto pela infelicidade e pela misantropia, bem bebidas as duas no leite da sua história familiar.

Jules, o mais novo de três filhos, viveu entre pai e mãe que não dirigiam a palavra um ao outro. Era ele o intermediário do rancor com que ainda se comunicavam. Levava as mensagens do pai indiferente à mãe e, dessa mãe que nunca o amou, trazia-as ao pai. Mas vejamos, o pai adoece e não tem já esperança de se salvar. Ainda lhe escondem um revólver, temendo que se suicide. Mas logo noutro dia se ouve, em casa, um disparo. Chamam Jules, que arromba a porta do quarto fechado. No chão, está o morto indiscutível, o pai – ainda de mãos quentes, dizem –, e a caçadeira tombada, de que o pai de Jules conseguiu disparar os dois canos com o engenhoso auxílio de uma bengala.

A morte é doméstica ou de rua. Lembro-me sempre e para tudo de Luanda: se há tudo, eu vi tudo em Luanda. Em 1975, a morte veio morar nos bairros da cidade. Entrei num machimbombo na Mutamba, o Bairro Popular como destino. Na paragem seguinte entraram três mortos. Os manifestantes traziam-nos em carretas e quiseram metê-los no corredor do autocarro. Nunca me esquecerei que iam duas freiras no banco da frente. Como personagens de Dali não tinham rosto, mas eram as freiras perfeitas, uma negra, outra branca, e os jovens revolucionários queriam mostrar-lhes o lençol e o aroma da morte. Fugiram como qualquer um de nós fugiria do rosto da guerra de Dali. É verdade que vi o desfile militante de três mortos num machimbombo de Luanda, mas Jules Renard tem nos braços o cadáver do pai suicida: a náusea em toda a sua nudez. Doze anos depois, verá, à superfície da água de um poço, a saia flutuante da mãe afogada. Um miúdo viu-a cair, ou deixar-se cair de costas, no poço fundo. Jules vem a correr e é o primeiro a descer para recolher o cadáver da mãe demente.

Dois cadáveres nos braços, Jules não deixava de ver a sua dor com ironia. “Se soubesse que ia morrer, morria antes”, lemos no seu diário. Amigo de escritores e actores, um dos que mais o divertia era Lucien Guitry, um cómico, pai do dramaturgo e cineasta Sacha Guitry. Um dia, e foi bem antes da mundialização do turismo, alguém perguntou a Lucien se conhecia a Itália. “É que nem de nome”, respondeu Lucien. Exactamente o que Jules Renard quer responder à morte que lhe chega na forma de duplo suicídio.

Celébre e celebrado pelo seu “Poil de Carotte”, romance de um menino ruivo desamado por pai e mãe, é a ironia que tempera o seu rancor, as suas dores, a sua amargura. Doente, não se consegue já levantar de noite e descuida-se na cama, o xixi correndo-lhe ao longo da perna. “Secará nos lençóis, como quando eu era Poil de Carotte”, escreve ele já perto do fim do “Journal”. Gotas, um humilde fio de xixi, leva-nos da infância à morte.

Publicado no Jornal de Negócios

6 thoughts on “O humilde fio de xixi”

  1. “Quando François Renard, ignorando o conselho do filho para tomar um clister, pegou numa caçadeira, usou uma bengala para acionar os dois canos e produzir um ‘ponto escuro acima da cintura, como um pequeno fogo apagado’, Jules escreveu: ‘Não me censuro por não o ter amado mais. Censuro-me por não o ter compreendido'” (Julian Barnes, in Nada a Temer)

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