You should see my gun

Entrevistei Anjelica Huston para o Expresso. Ou foi em Paris ou foi em San Sebastian, já não me lembro. Levei comigo o Guillermo Vilela, fotógrafo argentino e parisiense, que os deuses já convocaram. Já não tenho nenhuma das fotografias que ele lhe fez. Foi em Abril de 1992, vai fazer 29 anos, e ela era uma mulher grande.

Anjelica em The Grifters: you should see my gun

O orgulho da família Huston

Há boas razões para Deus não fazer nunca a primeira vontade às pessoas. Imaginem, por exemplo, que Ele tinha dito amen ao primeiro e fervoroso pedido que Anjelica Huston lhe fez: nesse caso, em  vez da cara larga, de traços fortes, olhos como lagos, grossíssimos lábios sobre os quais se levanta o rochedo do nariz— olhem para a imagem acima e digam-me se minto — teríamos hoje, em cima do imenso corpo da filha de John Huston, um rosto a meio caminho entre a irrepreensível brancura de Grace Kelly e o «look» de Cinderela de Audrey Hepburn. Poderia até dar-se o caso da graça concedida ter dado à luz um anjo. Nem por isso a nossa pena teria sido menor: é que a grandeza de Anjelica Huston tem a sua primeira fonte nessa suposta imperfeição do físico com a qual a artista quando jovem entrou em furioso conflito.

Deus foi surdo. Ainda bem. Como, de resto, ela reconhece: «Continuo a saber que não sou particularmente bonita, mas agora sinto-me confortável com o meu aspecto. Primeiro, porque não tenho alternativa. Segundo, porque embora nunca esteja completamente encantada, por vezes há uma certa luz do dia com que me sinto muito bem». A frase, ouvi-a da boca de Anjelica Huston, mas não me espantaria nada que Morticia Addams a repetisse.

Morticia Addams é um ser bizarro, como o são todos os seres que habitam A Família Addams, o filme com que Barry Sonnenfeld se estreou na realização. Morticia passa o tempo a ter irresistíveis impulsos para o humor negro. Foi assim que o pai, o «cartoonista» Charles Addams, a deu à luz, juntamente com o resto da família, numa banda desenhada que foi culto no mundo anglo-saxónico (havia uma colecção desses livrinhos na casa de banho irlandesa da família Huston, recorda a actriz), culto ampliado pela série de televisão, criada nos anos 60. Não admira que tenham convidado Anjelica para dar corpo à personagem. «É uma personagem de comédia, mas também de morbidez e morte. Não me pergunte porquê, a verdade é que me sinto atraída por este tipo de coisas», confessa Anjelica Huston.

Morticia e Anjelica têm mais semelhanças entre elas do que a esmagadora maioria das cidades geminadas. Ambas são parte integrante de um clã — os fictícios e perversos Addams de Charles e os reais, francos e honestos Huston que o John de Sierra Madre legou à posteridade. Ambas aparentam ser imunes ao juízo que os respectivos comportamentos desencadeiam (ou recebem-nos pelo menos com assinalável bonomia). Apesar dessas semelhanças, Anjelica Huston garante ter demorado a compreender a personagem: «Foi muito difícil decidir qualquer coisa antes de usar pela primeira vez o guarda-roupa dela; ora, o guarda-roupa foi a última coisa da produção a ficar pronta. Logo que me meti nos vestidos pretos compridos dela, compreendi que a aparente alucinação de Morticia — por exemplo, dizer aos filhos para se matarem um ao outro — é uma despistagem da sua bondade natural.»

Ao dar por adquirida a bondade natural da excêntrica Morticia, Anjelica Huston está a explicar, e nem é bem por portas travessas, a razão pela qual o conceito que, mais sinteticamente, define a sua incarnação daquela personagem é o orgulho. Durante toda a Família Addams, Anjelica Huston ostenta um ar de desafio. Não será uma novidade numa carreira onde se somam títulos como A Honra dos Padrinhos, Jardins de Pedra, Gente de Dublin/The Dead e Anatomia do Golpe/The Grifters. A novidade talvez esteja na desdramatização com que Anjelica Huston trabalha o orgulho e essa suave arrogância que empresta a Morticia. Foi o que eu pensei em voz alta, para ser imediatamente desmentido pela actriz: «Embora se ocupe de horror e morte, a Honra dos Padrinhos é também uma comédia. Sempre achei que era preciso incorporar um bom bocado de comédia nas nossas tragédias para que as pudéssemos levar a sério. Na vida há sempre comédia na tragédia e vice-versa.»

Daddy’s girl: Anjelica e John Huston

Tomei e embrulhei, sem, todavia, deixar de me sentir autorizado a invocar o nome do pai, John Huston, firmemente convencido que, desta vez, não seria em vão. Para Anjelica, com efeito, a imagem de John Huston é uma espécie de grande meta moral e artística: «O meu pai vivia a uma escala grandiosa, à qual normalmente as pessoas não conseguem sobreviver. Foi um aventureiro à sua própria custa. Hoje — é uma questão de geração — ninguém vai, de uma forma tão orgulhosa, à procura de aventura e de realização. Era um verdadeiro explorador. Uma vez, num jantar, as pessoas começaram a interrogar-se sobre qual era a coisa mais importante da vida. Umas disseram “amor”, outras “dinheiro”, outras “fama”. O meu pai disse “interesse”. Nunca mais conheci ninguém com a estatura dele.»

Pareceu-me logo que, naquela muralha de coerente devoção, dificilmente se abririam excepções. Não pude, mesmo assim, deixar de terçar armas por uma minha velha dama (cada vez mais vetusta, diga-se), atirando para cima da mesa o nome de um dos realizadores com quem ela trabalhou, Francis Coppola: «É um caso à parte. Tem largueza. Adora cozinhar e rodeia-se de toda a família. Mas é diferente… é um intelectual. Pertence ainda a uma geração com um certo encanto e uma certa classe.» Depois, muito profissional, Anjelica Huston corrigiu-se: «É claro que me sinto muito orgulhosa por ter trabalhado com os realizadores que me dirigiram. Não posso compará-los. Ocasionalmente pode comparar-se o estilo de cada um, mas as diferenças não impedem que sejam todos muito bons realizadores.»

The Grifters

A quem é que estas inocentes palavras não cheiram a crítica às «novas gerações»? Dei-lhe a deixa. Talvez The Grifters seja um filme em que a excessiva estilização atenue o dramatismo a que se pode aspirar quando o efeito de realidade é mais óbvio. Anjelica contou-me logo uma grande história: «É certamente um filme muito estilizado, o que não o impede de estar muito próximo da vida real. Depois de The Grifters, fui a Las Vegas com o meu namorado. De repente, começámos a ouvir gritos horríveis na sala ao lado. Julgámos que alguém estava a ser assassinado. O meu namorado atirou-se à porta e forçou-a a abrir-se. Saiu de lá uma rapariga a andar a quatro, sobre as mãos e os joelhos, com um homem a agarrá-la pelo pescoço como se ela fosse um cão. Uma cena exactamente como a de The Grifters. Juro-lhe que a ficção era menos impressionante do que a realidade.»

Acabou a falar do ofício. Contou que a sua maneira de conceber o trabalho de actor mudara com Peggy Feury, a principal professora de toda uma geração, que vai de Sean Penn a Michelle Pfeiffer. Feury, recentemente falecida, era o Lee Strasberg de Los Angeles, «uma mulher extraordinária, uma irlandesa. Com ela aprendia-se por osmose. Não me lembro de nada específico — umas receita — que Peggy me tenha dado. Sei é que, quando estava a fazer alguma coisa errada, ela aparecia muito suavemente a dizer: ‘Experimenta respirar’.» Anjelica revelou ainda que parte do guarda-roupa que usa nos filmes é dela — consequência do gosto que formou quando foi modelo — e que também foi ideia sua a peruca loura que usa em The Grifters.

As personagens, deixa-as ficar nos filmes. E para cortar simbolicamente relações, queima sempre, no final da rodagem, alguns vestidos e adereços que tenha usado. Com olho de fotógrafo, Guillermo Vilela olhou à volta e fez-lhe notar que os montinhos de notas de dólar, sobre o televisor e sobre a mesa, a desmentiam, fazendo lembrar os tiques da personagem que incarna em The Grifters. «You should see my gun», ripostou ela. Ela, quem? Anjelica Huston ou os restos de Morticia que ainda nela ficaram?

Orgulho

Engoliram um Torquemada

Matinée de Septembre, Paul Chabas

Da boca anti-vício de Anthony Comstock só saíam flores. Com um pé repressivo em cima da classificação de Lineu, para não ter de se referir à origem angiospérmica (ó palavra!) das líricas flores ou à fértil agitação em que androceu e gineceu se roçam no seio de cálice e corola.

Saltemos a infância dele, severa, castíssima, de redondo puritanismo. Já o vemos, em 1863, na Guerra Civil americana, soldado do 17.º de infantaria de Connecticut. Cora a cada palavrão dos camaradas de armas, rasga as vestes a cada lúbrica erupção da descomandada virilidade dos soldados.  Entre tiros, fucks e morteiros irrompe no espírito de Comstock uma vocação: a de ser um cruzado contra o palavrão, a obscenidade, o erotismo, qualquer afrontosa ostentação da sexualidade.

Ali vai: caminha por Nova Iorque como se tivesse engolido um Torquemada. Tem menos de 25 anos e, com paciência de monge e tenacidade prussiana, recolhe cada artefacto pornográfico a que possa meter a mão, descobre bordéis, inventaria circuitos de divulgação médica, literária e artística que exponham a anatomia humana, descobrindo-lhe a nudez.

Pouco depois, sei lá se foram cinco anos nesta peregrinação ignóbil, Comstock entra no Congresso. Leva o apocalipse na mão. Folheto a folheto, postais europeus, moradas de casas de passe, Comstock subjuga, em 1873, o Congresso. Comstock mostra, prova e pode muito bem ter dito: “Eis a tabidez e perversão do mundo.” E solta gritos aterradores.

Fulminado pela pureza luciferina de Anthony, o Congresso aprova a lei da “Supressão do Comércio e da Circulação de Literatura Obscena e Artigos de Uso Imoral”. Olhem para o longo nome da lei: que derrame lexical! Juro que não inventei nada, foi assim que votou e falou o Congresso na sua placidez legislativa.

Ao moralíssimo Anthony conferem poderes: põem o menino guloso na loja dos rebuçados. Inspector do Correios, pode agora proibir a circulação do que julgue obsceno: não só a literatura europeia, que os editores têm de publicar deixando em branco certas palavras na tradução, mas mesmo folhetos médicos sobre o controle da natalidade. Comstock, com os seus gordos bigodes e mãos farfalhudas, pode abrir cartas: manda prender uma mulher que, num surto de lascívia, sussurra num postal ao marido, como se fosse ao ouvido, “meu sacaninha”.

Durante 40 anos, Comstock espalhou o inferno moralista, destruindo milhões de livros, fazendo malhar na prisão a impureza de umas quatro mil pessoas. Provocou suicídios, de que se gabava, e gostava de ter prendido Calouste Gulbenkian, a cuja colecção pertencia então a tela “Manhã de Setembro”, delicado e inclinado nu de mulher que Paul Chabas pintou, e que galeristas americanos impudica e imprudentemente expuseram.

O que queria dizer é que Anthony Comstock está morto e enterrado. Mas mentiria se o dissesse: está morto, mas desenterraram-no! A mesma purulenta monomania puritana, agora de esquerda radical, entorna-se pelas ruas e trepa pelas paredes das nossas casas. Uma horda de novos Torquemadas, inquisidores tirados a papel químico do Anthony de bigodes prussianos, mordem com dentes de raiva e proíbem palavras e símbolos, querem estilhaçar estátuas, querem saber se pecamos em pensamento rememorando sem culpa o passado.

Quem se atreverá a contestar a nobreza de propósitos destes cruzados do novo Homem Novo? E quem se atreverá a não verter lágrimas de remorsos e expiação face a essa vaga que reinventa o passado e nos desperta para um futuro de purificação e celestial harmonia de pensamento único?

Publicado no Jornal de Negócios

A gloriosa desolação de não deixar descendentes

Bel­mondo a desa­guar na desar­mada ino­cên­cia de Seberg

Godard está mesmo muito velho. Depois de Manoel de Oli­veira, que junto de Deus deixou de ter idade, nes­tes dias lentos, que cor­rem a conta gotas, Godard é o Matu­sa­lém da his­tó­ria do cinema. Acre­di­tem, é um elo­gio nesta boca de quem cada vez gosta mais dos velhos.

Não sei quando é que Jean-Luc nas­ceu, nem me inte­ressa. Para mim, quando fez “A Bout de Souf­fle” tinha (só podia ter) 20 anos. Em toda a his­tó­ria do cinema era a ter­ceira vez que apa­re­cia um filme que não se pare­cia com nada do que se fize­ra antes. Lem­bro que esses fil­mes de não pedir licença a nada e a nin­guém foram “Birth of a Nation”, de Grif­fith e “Citi­zen Kane”, de Welles.

São fil­mes ame­ri­ca­nos e o de Godard é fran­cês? É engra­çado, “A Bout de Souf­fle”, a um olhar mais cân­dido parece ame­ri­cano. Lembro-me que um moço, que tra­ba­lhou na Cine­ma­teca, quando viu o filme, chamou-lhe “About The Suf­fle”, fosse lá o que isso fosse. Não só não vejo na ame­ri­ca­ni­za­ção do título nenhuma igno­rân­cia, como me parece até a expres­são fiel e ver­da­deira das suas genuí­nas sen­sa­ções de espec­ta­dor, ao ver a mais bogar­ti­ana das inter­pre­ta­ções de Jean-Paul Bel­mondo e ao ver desa­guar na desar­mante, mas bem armada ino­cên­cia de Jean Seberg, a tra­di­ção da inte­li­gen­tís­sima mulher fatal de que Louise Bro­oks foi a mais ful­gu­rante repre­sen­tante. Tudo coi­si­nhas sexu­al­mente americanas.

tudo coi­si­nhas sexu­al­mente americanas

Sendo inau­gu­ral como aque­les dois ante­pas­sa­dos, “A Bout de Souf­fle” de Godard tem uma peculiarida­de: se não se pare­cia com nenhum fil­me ante­rior, a ver­dade é que nenhum filme pos­te­rior se con­se­guiu pare­cer com ele.

“A Bout de Souf­fle” foi um escân­dalo na França de 1959. É um filme insolen­te. Fala direc­ta­mente aos especta­dores e manda os ini­mi­gos da natu­reza a um sítio ini­ma­gi­ná­vel para a eco­lo­gia gras­sante. Pela boca grossa de Bel­mondo. Mas a rudeza ver­bal é o menos: “Allez vous faire fou­tre”, o que em por­tu­guês equi­vale a um ameno “Vão-se foder”, é uma suges­tão que a Europa, afi­nal, tem feito tudo por cumprir.

Há atre­vi­men­tos mai­o­res, que vou já elen­car. Lem­bro que Jean-Luc fez ques­tão, mesmo muita ques­tão, nes­tas coi­sas para­dig­má­ti­cas: a) usou o nega­tivo mais rápido que havia, com a velo­ci­dade de 400 ASA, e com a ajuda do seu opera­dor, Raoul Cou­tard, Go­dard deu-lhe um tra­ta­mento espe­cial, aumentando-lhe a veloci­dade para 800 ASA; b) is­so quer dizer que Godard que­ria fil­mar tudo com as fon­tes de luz natu­ral; c) que­ria, quis e con­se­guiu, coisa que nunca antes ti­nha sido feita num filme de ficção.

Jean-Luc a fazer ques­tão, mesmo muita questão

“A Bout de Souf­fle” tem outras arro­gân­cias mal-criadas que não se redu­zem à téc­nica e às con­sequên­cias da téc­nica. O cinema tinha uma gra­má­tica, mas Godard achou-a insu­fi­ci­ente e insa­tis­fa­tó­ria. In­ventou o “jump-cut” na sua ver­são mais “dura”, pro­cesso que con­siste em mon­tar pla­nos do mesmo actor, no mesmo espaço, mas selec­ci­o­nando ape­nas as “par­tes inte­res­san­tes”. Por causa dessa compres­são no tempo, a Godard, nessa al­tura, até à mãe­zi­nha lhe cha­ma­ram nomes que não eram exac­ta­mente o des­co­nhe­cido nome dela.

Não se jul­gue que a fúria e ran­ger de den­tes sur­gi­ram só pelas ousa­dias de estilo. Obrigando-se, como nas “Pal­mei­ras Bra­vas”, romance de Wil­liam Faulk­ner, a esco­lher entre a dor e o nada, o herói de “A Bout de Souf­fle” es­colhe o “nada” por­que a “dor” é ain­da um com­pro­misso. Caiu mal.

Na al­tura andava tudo com­pro­me­tido. A pala­vra certa nem é com­pro­misso, é enga­ja­mento. Os ope­rá­rios enga­ja­vam, os estu­dan­tes enga­ja­vam, os inte­lec­tu­ais enga­ja­vam. Enga­ja­vam todos menos os heróis de Godard. E quando, ao con­trá­rio do soberbo Bel­mondo, a doce Seberg cede e se com­pro­mete, Godard fá-la comprometer-se com a per­fí­dia – é um anti-engajamento femi­nino, mas quem é que, no seu juízo per­feito, não dese­ja­ria que Jean Seberg anti-engajasse com ele? Ser traído por Jean Seberg será ser traído?

A mim, é o que mais me põe em bra­sa em “A Bout de Souf­fle”. Depois de se per­correr cada cen­tí­me­tro de Jean Seberg, da belís­sima nuca rapada aos lábios, dos mais lin­dos joe­lhos aos seios, só Godard lhe pode­ria pedir que ela – vinda de dois tor­tu­ra­dos fil­mes de Otto Pre­min­ger – fosse ainda cem vezes mais dila­ce­rada do que em “Saint Joan” e mil vezes mais sexu­al­mente triste do que em “Bon­jour Tris­tesse”. Sem as des­cul­pas morais que nes­ses fil­mes Pre­min­ger lhe emprestava.

A luz, rua e ritmo que fize­ram de “A Bout de Souf­fle” um enfant ter­ri­ble, a má-criação gra­ma­ti­cal que faz de “A Bout de Souf­fle” um enfant gâté, o nii­lismo post-faulkneriano que faz de “A Bout de Souf­fle” um exem­plo da sou­ve­rai­neté de l’ homme seul (fran­cesa embora, a expres­são é minha) con­de­na­ram “A Bout de Souf­fle” à glo­ri­osa deso­la­ção de ser um filme sem des­cen­dên­cia. Pode ter havido enfants de la ciné­mathè­que, mas não há, de cer­teza, enfants de Godard. Avi­sem os enga­na­dos que por aí andem: que façam o teste de ADN e vão cha­mar pai a outro.

Publicado na revista “Argumento”, uma preciosidade servida pelo Cine Clube de Viseu

Um palito nos dentes

                         

O obscuro cavaleiro da morte: como o viu Gustave Doré

Quem sou eu para me atrever a não querer morrer? Venham comigo ao camarote do escritor Sherwood Anderson. Torce-se de dores. E no Santa Luzia, o barco de cruzeiro em que viaja com a mulher, já não têm paliativos que lhe valham. Desembarcam-no no Panamá e morre. A autópsia é humilhante: um palito dos dentes, que engoliu sem querer, deu na peritonite que o matou. Eis a pungente contradição: as short-stories de Anderson, o seu romance Many Marriages, influenciaram Faulkner, Fitzgerald, mesmo o não-influenciável Hemingway, mas bastou um ridículo e impertinente palito dos dentes para o matar.

Eu mesmo tenho agora o palito dos dentes entre os lábios. Chegou-me, na forma de covid-19, em Dezembro, antes de se saber que Janeiro seria o mais feroz e desumano dos meses. Lembro Ésquilo, pai do teatro trágico: diz Plínio que o dramaturgo passeava a sua brilhante calvície pela desconfinada natureza. Mas vejam, uma águia cruza os céus, nas garras a tartaruga que quer almoçar. Vê a luzidia careca de Ésquilo, que toma por uma pedra alva, e dispara contra ela a tartaruga que precisa de esmigalhar. A águia regalar-se-á, mas quem tomba, fulminado, é o guerreiro e herói da Maratona, o autor de As Suplicantes, peça que há uns meses uma demente e woke Sorbonne proibiu.

Na covid-19, a águia aparece em voo picado e rouba-nos a respiração. Em menos de 48 horas, peregrino de ambulância em ambulância, da minha cama passei à cama dos cuidados intensivos, não sem deambular em passo de corrida pelo cadeirão das urgências em tumulto do São José e por uma breve cama de enfermaria. Emile Zola morreu assim, há 120 anos, na cama do seu quarto, sem se aperceber que só respirava a doçura mortal do monóxido de carbono que a má chaminé não extraía da lareira acesa.

E ora vejam, aí estou eu numa cama dos cuidados intensivos do Curry Cabral, a cabeça tão calva como a de Ésquilo, os pulmões tão irrespiráveis e falidos como os de Émile Zola, na boca o palito dos dentes de Sherwood Anderson.

Eu julgava já ter visto a morte em dois pesadelos. Álvaro Cunhal disse um dia, e numa idade em que já só se diz a verdade, que lhe viera falar a morte e que a morte era uma senhora de branco. Nos meus sonhos de morte, o meu confessado e irredutível anti-cunhalismo trocou a senhora de branco por figuras goyescas, escuríssimas e assustadoras como um Adamastor.

Mas, acordado, nunca tinha tido a morte em visita. Vista de olhos nos olhos, à luz branquíssima dos cinco dias e cinco noites do quarto de cuidados intensivos, a morte tem a mansidão e humildade que só se encontra em sábios ou monges. Não há nela nada de arrogante, de impositivo. Assiste-lhe uma lógica irreprimível: nem é branca nem é negra, nem sequer tem rosto, ainda menos o esqueleto que Holbein lhe pintou.

A morte é um sussurro, uma conversa. Se a morte nos apontasse um incorpóreo dedo, da ponta do dedo crescer-lhe-ia este conceito: a singela e inescapável interrupção do tempo. Nesse minuto ou hora de conversa, a morte dissipou todos os medos. Se só um imbecil não tem pavor da morte, fui por instantes esse indescritível imbecil.

Sozinho, sem telemóveis, incomunicável, mais isolado do que Crusoé na sua ilha, escutei-lhe o silêncio como quem se encanta com a primeira hipérbole. Atrás de mim, um fio de nostalgia pela minha vida vivida, uma vaga irritação pela indelicadeza de partir sem dizer adeus a ninguém. À minha frente, meio passo diante dos meus olhos, a certeza da eternidade, ou seja, a certeza de um nada indolor. Nada. The end, como num filme.

A morte goyesca

Publicado no Jornal de Negócios

O livro cómico mais sério do ano

Algumas pessoas de direita gostam de fingir que existem contradições entre os princípios do Islão e o feminismo de quarta vaga. Mas, se eles realmente passassem algum tempo no Paquistão ou na Arábia Saudita ou em qualquer outro dos estados islâmicos, perceberiam que as atitudes em relação às mulheres são extremamente progressistas. Para o demonstrar, mais tardar este ano, penso organizar uma Marcha das Galdérias, pelo centro de Carachi.
Titania McGrath

Woke, Um Guia para a Justiça Social é um livro delirante: lê-se com espanto e é impossível não nos fazer soltar uma gargalhada. Escreveu-o Titania McGrath, que a si mesma se define como «poetisa interseccional radical, comprometida com o feminismo, a justiça social e o protesto pacífico armado». Titania assume ser um «ícone millenial na vanguarda do activismo online». Sim, ela detecta o preconceito e o privilégio como um desembestado cão de caça da moralidade e morde sem reservas as canelas da injustiça, das afrontas de género, das humilhações raciais.

Titania McGrath não existe (ou existe e já lá vamos!) e este livro é uma prodigiosa sátira criada por Andrew Doyle, professor, doutorado em poesia renascentista. Doyle escreve sobre temas políticos e, em particular, liberdade de expressão, na revista online spiked! e faz comédia.

A verdade é que Titania McGrath existe. Existem hoje, no nosso mundo, milhares de Titanias, mulheres e homens. E a verdade é que esses e essas Titanias engrossam uma vaga inquisitorial cada vez mais perigosa e impositiva, policiando linguagem e comportamentos, demolindo o passado e infernizando o presente, vergastando com culpas quem não se submeta ao seu pensamento único.

Agarrando em causas razoáveis e justas, com o woke, o «despertar cultural”, os e as Titanias promovem uma «cultura hiperinclusiva» demencial. Manicomial, chamou-lhe o professor João Brás, tradutor da obra.

Sátira brilhante, este livro é profundamente sério e urgente: mostra o absurdo de um movimento que está a corromper causas nobres, parodiando-as de forma absurda, do que os seus militantes não se dão já conta, tomados pelo fanatismo dos iniciados e pelo fogo da purificação com que querem fazer arder livros, filmes, pessoas, enfim, o mundo.

Fazendo-nos rir, recuperando a tradição satírica e polémica de Jonathan Swift, Andrew Doyle escreve um texto para o seu tempo e para a posteridade: este é o retrato por absurdo de um movimento anti-civilizacional fundado em radicalismos excêntricos e imposturas identitárias.

Garanto-vos: é o livro cómico mais sério do ano.

Um estado de espírito

Estou num estado de espírito Jethro Tull. Estou num estado de espírito instrumental, um irreconhecível estado de espírito, batido a sopros de flauta e nostalgia. Estou num estado de espírito de Bach em plena Restinga do Lobito, com saudades vocais da Mitas e do Padre Augusto, do meu brother Rui Alves, dos alunos de quase a minha idade, Tina Leite Velho, Teresa Belo, Fernando e Semedo, o singular puto Quitos, filho de seu pai e depositário de toda a esperança, a Regina Queiroz, as queridas manas Mendonça.

As saudades são nómadas: vão da Restinga para a Ilha, para a minha igrejinha da Senhora do Cabo e dos cursos revolucionários de alfabetização, em Luanda, para os manos cristãos, mano Abílio, mana Faty, Victor Melo, as três Nandas, Cardoso, Dias e Guerra, a Tita, os ainda mais manos Mindo e Cesarito.

A Bach e a flauta, as saudades apertam-me docemente o crânio cada vez mais europeu. As saudades são como uma catedral de silêncio, luz, sombras e contemplação. Páram o tempo, expandem o passado, arrastam-nos para cordilheiras de aromas e sabores que julgávamos perdidos. As saudades que tenho até dos poucos amigos com que me zanguei. Estou num estado de espírito de tempo e silêncio, céus e beijos, voz e quebranto.

Os vidros duplos da nossa inocência

Queda de Ícaro, por Pieter Bruegel, o Velho

No canto inferior direito desta tela (1565), que é, cópia ou original, de Pieter Bruegel, há umas pernas que se agitam e chapinham no mar verdíssimo, numa agitação tão inócua como anónima. São as alvas pernas de Ícaro. Podiam ser as nossas. Tal como Ícaro, batemos as asas para fugir do labirinto e temos (mal seria, se não tivéssemos) a tentação de voar roçando-nos pelo sol.

Um homem, um herói, vem dos céus aos trambolhões e despenha-se nas águas, ali, junto à costa. Nem essa coisa prodigiosa de voar, nem o heroísmo da fuga, nem o splash do corpo que se despedaça nas águas sobressaltam a rotina do lavrador, a do pescador, a da nau que navega orgulhosa e indiferente.

Em 1938, já Hitler cavalgava uma onda de terror, o poeta inglês W.H. Auden escreveu sobre esse abafado silêncio em que se camuflam os mais terríveis acontecimentos. Abafa-os a minuciosa e árdua teia do nosso dia a dia, o hábito de concentrarmos o olhar no nosso jardim ou pátio, o obstinado rigor de cumprirmos as nossas obrigações. Não há, nesta ignorância do sofrimento alheio, nenhum desprezo. São os vidros duplos da nossa inocência que nos fecham num castelo interior, as high windows de que, noutro poema, nos falou Philip Larkin.

E já falei de mais. Talvez hoje tenha tombado um ou mais Ícaros no adjacente oceano das nossas vidas… Da minha ou da tua. E eu só queria que lessem o poema de Auden enquanto olham para a pintura de Bruegel.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

Sobre o sofrimento eles nunca se enganaram,
Os velhos Mestres: que bem compreendem
A sua humana posição: como tudo acontece
Enquanto alguém come ou abre uma janela ou caminha apático;
Como, quando os idosos esperam reverentes e apaixonados
Pelo milagre do nascimento, há sempre
Crianças que não se interessam particularmente, patinando
Num lago no limite da floresta;
Eles nunca esquecem
Que mesmo o mais horrível martírio deve seguir o seu curso
De algum modo numa esquina, num lugar inócuo
Onde os cães prosseguem a sua vida de cães e o torturador de cavalos
Coça a sua inocência atrás de uma árvore.

No Ícaro de Bruegel, por exemplo: todas as coisas viram as costas
Displicentes ao desastre: o homem do arado pode
Ter ouvido o estrépito, o grito desgarrado,
Mas para ele não foi uma queda importante: o sol brilha
Como deve ser nas pernas alvas que se afundam na verde
Água, e o barco sumptuoso e delicado, que deve ter visto
Essa coisa prodigiosa, um rapaz a cair do céu,
Tem um rumo traçado e navega tranquilo.

tradução minha, que foi o que se arranjou.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer’s horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.

A todos os Leitores: Vamos Ler!

62% dos portugueses não lêem um livro por ano. Não lêem, ponto final. Vamos Ler! de Eugénio Lisboa não tem a pretensão de resolver esse problema. Mas vai ajudar.

Há várias razões que explicam a falta de apetência portuguesa pela leitura. Uma delas passa, também, pelas nossas elites literárias, tantas vezes incapazes de seduzir para a leitura os não-iniciados.

Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante é um livro da Guerra e Paz editores que se propõe cativar leitores relutantes e não só. O autor, Eugénio Lisboa, sem peneiras, apesar do seu prestígio e carreira, numa linguagem límpida, mostra como os livros podem ser uma aventura e como devem ser uma aventura de alegria e prazer.

Vamos Ler! é, por isso, um livro que todos nós, os que estamos na prodigiosa cadeia do livro, autores, livreiros, editores temos de saudar. Mas acima de tudo é um livro que os leitores, os mais fugidios e relutantes ou os mais assíduos e entusiastas, vão saudar e louvar. Por ser uma obra que valoriza todos os livros e dá a mão a quem tem dúvidas e está hesitante, guiando-os na visita a 50 livros e 30 autores portugueses.

Este é um livro que promove a leitura e promove os outros livros. Ajudem-nos a divulgá-lo e a defendê-lo. Passe a palavra aos amigos. Visite a sua livraria, vai encontrá-lo com facilidade: tem esta capa simples e directa que é a dos Livros Vermelhos, uma das melhores colecções da Guerra e Paz editores. Boa leitura!