Je t’aime, moi non plus

BB e a Harley Davidson

Trinta e três anos. Brigitte Bardot tinha essa centrífuga idade de Jesus Cristo: quem em seu demente juízo não a quereria, logo, pôr na cruz? E estou também a ver Serge Gainsbourg, umas trombas de meter medo ao susto, que escondiam um derrame de talento capaz de submergir Paris.

Estão os dois em estúdio. Ele escrevera-lhe uma carta. Tinha uma canção e queria que ela a cantasse, para gravarem um disco, artefacto pré-histórico de que talvez ainda haja restos em Lascaux. E olhem comigo a ver se vêem o que eu vejo: uma inquietação eléctrica palpita, viva, no estúdio. BB canta “numa Harley Davidson, não quero saber de ninguém” e olha para Serge como se fosse ele a Harley Davidson. Ele estremece, abriga-se daquele olhar, rosto branco de que o sangue fugiu. Mas ela, de canção cantada, mini-saia fulgurante, botas de couro negras a acariciarem-lhe as pernas, dos dedos dos pés aos joelhos – “poderosa”, resumiria hoje uma adolescente no instagram – convida-o para jantar com um casal amigo.

A que estará o magret de canard a saber a Gainsbourg? A cabeça dele mal teve tempo para essa deambulação melancólica. Um flash incendiado rasga-lhe a cabeça quando a Bardot lhe agarra a mão debaixo da mesa. Escaldam e o vapor de água limpa de cena o casal amigo que, como Pilatos, lava dali as suas mãos. A BB mete Serge num táxi e disparam para uma discoteca. Ele precisa do mais urgente dos copos, absinto talvez. Ela já dança na pista, sozinha. E vai buscá-lo para um slow. Perna a perna, todos os luciferinos fornos da carne entram em combustão e eles movem-se numa demência animal, devagar, tão fogosamente devagar.

É impossível esperar mais. Outro táxi que ela chama e, de táxi em táxi, desembarcam numa estremecida, nocturna, alta cama: em cruz, pregados um ao outro, torturadas coroas de espinhos na cabeça da paixão, consumam. Talvez Paris nunca tivesse consumado assim e ela pediu-lhe a mais bela canção, a canção por onde escoasse aquela madura torrente de tesão feroz, amor, digamos.

Gainsbourg compôs e ela cantou e gravou “Je t’aime, moi non plus”, amor gemido e agudo, de fendas expostas, a doer nos rins. Os ecos chegaram ao marido de BB, anódino milionário, que ameaçou com o divórcio. Logo a BB implora a Serge que esconda a canção. E vai filmar para Espanha, Serge feito Penélope em angustiada espera, até a saber noutros braços. Restam as cinzas de 86 dias de paixão. Consummatum est.

Pode o opróbrio tombar sobre corpos em chamas? Como se olha, hoje, para o amor de 1967? Vejamos, a BB assedia profissionalmente o frágil Serge, tirando partido da fragilidade que é a sua fealdade, e faz dele objecto sexual, comparando-o a uma Harley Davidson. Sempre ela, apoiada por casal amigo, cerca-o, e inicia, sob a mesa, um périplo de abuso físico. Consuma! – tudo em segredo. Explora-lhe, depois, o talento, roubando-lhe uma canção. Por fim, por exigências da sua superior posição social e financeira, sequestra a canção e abandona Serge, que fica a lamber as feridas, exposta vítima sexual e afectiva.

Sendo inescapável concordar-se com a teoria de que não se nasce homem e mulher, mas tornamo-nos, isso sim, homem ou mulher, só podermos concluir que Brigitte Bardot era um homem e Serge Gainsbourg, uma mulher.

Se a ciência freudiana me entrasse, espasmódica, na pobre cabeça, talvez pudesse apimentar o revisionismo do amor de 67, acrescentando um grão de perversão e um pingo de polimorfia, deixando-os cair nos rabos nus de BB e Serge. Prefiro, sou franco, ir outra vez ouvir “Je t’aime, moi non plus”.

Publicado no Jornal de Negócios

A Prenda na Ponta da Língua

para desatar a língua

Está mesmo na ponta da língua e não se lembra que prenda é essa? Aqui está, é esta a prenda gourmet de quem quer degustar a língua portuguesa. Juntámos o livro do ano de 2019, Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, à Gramática para Todos, esse livro inclusivo de um dos nossos mais queridos autores, o linguista Marco Neves, e ao Vocabulário Ortográfico com Prontuário Anexo, em que D’Silvas Filho reconhece inúmeros dislates do AO90 e faz propostas para se começar a limpar a asneira.

São três livros que conjugam prazer e saber. Uma prenda irrecusável: daquelas que desata a língua.

Mudar: de coisa em coisa

Sumbe 1975

Já começo a ter uma ou duas coisas para contar. Vi uma nesga de mundo, saí à rua dois ou três dias. Aconteceram coisas. E houve mesmo coisas que mudaram. Algumas coisas mudaram mesmo muito. Lembro-me de algumas. Hoje trago-vos três dessas coisas que eram de uma certa maneira quando eu nasci e que, hoje, são de outra maneira, para não dizer que são outra coisa. Vamos então, sem maneiras, à coisa.

O regresso triunfal da biografia

Era um género imprestável. Pior, com o triunfo do texto e o apagamento do autor os estudos literários espezinharam o interesse e o valor da biografia – o autor, como o homem ou como Deus, estava morto, e o texto, numa miraculosa autogénese, escrevia-se a si mesmo!

Em História, das ameias dos estudos estruturalistas, levantava-se bem alto o estandarte do sistema – os sistemas de poder, os sistemas sociais, os sistemas económicos, os sistemas de propriedade ou até alimentares. Mencionar a biografia era o retorno do recalcado, o retorno de uma ideia de história vergonhosamente centrada em heróis, reis ou santos.

A longa noite da repressão da biografia acabou. Hoje, a explosão da biografia reintroduz a emoção nos romances e nos poemas – não é indiferente que Shakespeare tenha conhecido o Hamlet do seu contemporâneo Thomas Kyd ou que a abundância de fantasmas, vingança e loucura, que tanto o inspiraram, tenha sido colhida na The Spanish Tragedie or Hironimo is mad again exuberante tragédia do mesmo Kyd, revista por Ben Johnson. E as majestosas biografias como a de Ian Kershaw sobre Hitler, o que Robert Conquest escreveu sobre Estaline, a que Gilbert dedicou a Churchill, a de Salazar por Filipe Ribeiro de Meneses, a de São Luis, que Jacques Le Goff escreveu,  refazem a História, a forma como os nossos olhos tombam sobre a História.

O muro

Tinha acabado de fazer oito anos quando os soviéticos e os alemães do Leste começaram a construir os 155 quilómetros de muro com que transformaram Berlim Ocidental numa ilha encarcerada em cimento. Fui lá nos anos 80, Berlim Ocidental era a esquizofrenia em forma de cidade: uma vida nocturna de uma liberdade e criatividade ímpares na Europa e uma claustrofobia de angústia e chumbo. Do outro lado, a Leste, o medo subliminarmente atravessado pelo fio de sonho da fuga.

A pressão, esforço e impulso de João Paulo II, Thatcher e Reagan, que culminaram no famoso discurso “Mr. Gorbachev, tear down this Wall”, criaram o clima político favorável à mudança. Depois, pelo que hoje podemos ler como uma ironia do destino europeu, os húngaros retiraram as cercas metálicas nas fronteiras com a Áustria e os alemães do Leste vieram desembestados, aproveitando para fugir. O regime comunista alemão fechou ainda tudo o que podia fechar, mas o insustentável peso da repressão empurrou multidões de alemães orientais para os checkpoints e para o muro. Como pica-paus picaram, partiram e destruíram o cimento da vergonha. Foi um mar de liberdade a juntar outra vez a cidade dividida. Maré alta, maré alta.

O colonialismo caiu na lama

A minha infância e adolescência são coloniais. Vivi num mundo admirável de inocência e crueldade. Cedo soube das diferenças sociais, que o factor rácico evidenciava com brutalidade. Era um mundo de contradições – um encontro maravilhoso de culturas na minha cabeça e no meu corpo – um mundo de morte política anunciada. Demorou, desde que cheguei a Luanda, 18 anos. E um dia, com o fim da já penosa ditadura marcelista, capitães e chaimites na rua, a liberdade dos portugueses, no dia 25 de Abril, desencadeou o processo que levou à independência de Angola. O dia 11 de Novembro de 1975 vivi-o no Sumbe, com o povo e as tropas do MPLA, em recuo para Luanda perante a cavalgada da Task Force Zulu sul-africana.

Tudo o que se passou depois é História, uma guerra civil sangrenta, dilaceradas convulsões que levaram a prisões, torturas e mortes como nunca Angola vivera. Mas esse dia, essa ideia arrepiante de ver uma nação nascer e ver a dignidade de um povo ser soberano, esses olhares de plena conquista da sua humanidade que vi em rapazes e raparigas, homens e mulheres angolanos, essas embargadas vozes que agora podiam dizer com adjectiva e substantiva verdade “esta é a minha terra”, essa hora, na noite de Verão angolano de 11 de Novembro, o mar do Sumbe ali à frente, as metralhadoras a dispararem para o ar o seu fogo de artificio – tão lindas, as tracejantes – essa hora guardo-a como o momento encantado em que eu acertei a hora com o relógio da História.

Estas são três coisas que eu vi mudar. Lembro-me de mais umas trinta coisas. São muitas coisas. Mas, talvez volte. Coisa a coisa.

As peúgas de Luis Buñuel

Outros pés descalços. Jovens.

Estava para começar a falar dignamente de Luis Buñuel, mas meterem-se pelo meio dois velhos, lado a lado, em duas camas de hospital. E como ninguém pode ter tudo, um é branco e rico, o outro pobre e negro. Dão pelos nomes de Jack Nicholson e Morgan Freeman. Tudo os separa menos o amor que têm às suas “bucket lists”. Ou seja, querem ainda cumprir alguns desejos antes de morrerem. A personagem de Nicholson, o branco nababo, não quer morrer sem beber uma rotunda chávena de Kopi Luwak, o mais sofisticado café do mundo. E bebe, para desmesurado gozo do velho negro sem cheta a que Freeman empresta o canastro. É que, diz depois Freeman a Nicholson, o toque sublime desse café é serem os seus grãos dados a comer a um pequeno felino, a civeta de palmeira asiática, que os digere e expele a seguir, ou a bem dizer os caga.

Há um incontornável sinal de que se atingiu uma incontornável sapiência, quando se passa a ter gosto em prazeres simples. E é aqui que deixo o agoniado Nicholson e o malvado Freeman, para cair nos braços de outro velho, o peninsular e anarco-blasfemo Luis Buñuel.

Filmava então “Cela s’appelle l’aurore”. Foi um dos três filmes, com “La mort en ce jardin” e “La fièvre monte en El Pao”, que Buñuel filmou digamos que um bocadinho tolhido por algemas ideológicas. Os protagonistas eram Georges Marchal e Lucia Bosè. Eram os dois muito belos e o argumentista Jean Ferry escreveu-lhes três páginas de lírico diálogo amoroso. Buñuel leu e deitou as três folhinhas no lixo. Na cena que ficou no filme, Marchal, um médico de província dedicado como um João Semana, chega a casa morto de cansaço. Na sala, desaperta o cinto, descalça os sapatos de camurça e estica-se, aliviado. Melhor ainda, tira as peúgas e atira-se para cima de um divã, num “oh, santíssima mãe de Deus”. A bela Bosè vem da cozinha e põe na mesa uma terrina de sopa. Chega-se ao divã e dá a Marchal um beijo de entre sala de estar e cozinha. Ele oferece-lhe então uma minúscula tartaruga. Ela dá-lhe outro beijo, agora mais quarto que sala, pondo a tartaruga no chão de pernas para o ar. Nunca saberemos se Marchal chega a comer a sopa ou não. Sabemos que a tartaruga rebola e se põe de pé. É tudo o que precisamos de saber se, como Buñuel, soubermos que não há coisa mais feliz do que o homem descalço.

O humilde fio de xixi

Jules Renard

O escritor francês Jules Renard trocou a universidade pelos cafés literários, pelo teatro, pelos meios jornalísticos: “Sou da velha escola, da escola que não sabe ler.”  Não sabia ler, mas sabia escrever. Ao morcego que agora, após Wuhan, tanto tememos, definiu-o assim: “O morcego que voa com o seu guarda-chuva.” Como chamou “pulga gigante” a um canguru e à vaca, “um tonel com dois cornos”. Escrevendo assim era sobre a morte ou contra a morte que escrevia. Durante 23 anos, de 1887 a 1910, alinhavou em cima da troca de séculos um diário, o seu “Journal”, destinado a publicação póstuma. Foi a forma de negar a morte, renascendo depois dela por obra e graça de uma escrita em que ternura e amargura levam ao colo o gosto pela infelicidade e pela misantropia, bem bebidas as duas no leite da sua história familiar.

Jules, o mais novo de três filhos, viveu entre pai e mãe que não dirigiam a palavra um ao outro. Era ele o intermediário do rancor com que ainda se comunicavam. Levava as mensagens do pai indiferente à mãe e, dessa mãe que nunca o amou, trazia-as ao pai. Mas vejamos, o pai adoece e não tem já esperança de se salvar. Ainda lhe escondem um revólver, temendo que se suicide. Mas logo noutro dia se ouve, em casa, um disparo. Chamam Jules, que arromba a porta do quarto fechado. No chão, está o morto indiscutível, o pai – ainda de mãos quentes, dizem –, e a caçadeira tombada, de que o pai de Jules conseguiu disparar os dois canos com o engenhoso auxílio de uma bengala.

A morte é doméstica ou de rua. Lembro-me sempre e para tudo de Luanda: se há tudo, eu vi tudo em Luanda. Em 1975, a morte veio morar nos bairros da cidade. Entrei num machimbombo na Mutamba, o Bairro Popular como destino. Na paragem seguinte entraram três mortos. Os manifestantes traziam-nos em carretas e quiseram metê-los no corredor do autocarro. Nunca me esquecerei que iam duas freiras no banco da frente. Como personagens de Dali não tinham rosto, mas eram as freiras perfeitas, uma negra, outra branca, e os jovens revolucionários queriam mostrar-lhes o lençol e o aroma da morte. Fugiram como qualquer um de nós fugiria do rosto da guerra de Dali. É verdade que vi o desfile militante de três mortos num machimbombo de Luanda, mas Jules Renard tem nos braços o cadáver do pai suicida: a náusea em toda a sua nudez. Doze anos depois, verá, à superfície da água de um poço, a saia flutuante da mãe afogada. Um miúdo viu-a cair, ou deixar-se cair de costas, no poço fundo. Jules vem a correr e é o primeiro a descer para recolher o cadáver da mãe demente.

Dois cadáveres nos braços, Jules não deixava de ver a sua dor com ironia. “Se soubesse que ia morrer, morria antes”, lemos no seu diário. Amigo de escritores e actores, um dos que mais o divertia era Lucien Guitry, um cómico, pai do dramaturgo e cineasta Sacha Guitry. Um dia, e foi bem antes da mundialização do turismo, alguém perguntou a Lucien se conhecia a Itália. “É que nem de nome”, respondeu Lucien. Exactamente o que Jules Renard quer responder à morte que lhe chega na forma de duplo suicídio.

Celébre e celebrado pelo seu “Poil de Carotte”, romance de um menino ruivo desamado por pai e mãe, é a ironia que tempera o seu rancor, as suas dores, a sua amargura. Doente, não se consegue já levantar de noite e descuida-se na cama, o xixi correndo-lhe ao longo da perna. “Secará nos lençóis, como quando eu era Poil de Carotte”, escreve ele já perto do fim do “Journal”. Gotas, um humilde fio de xixi, leva-nos da infância à morte.

Publicado no Jornal de Negócios

Adélia Riès

Esta Anna Karina, de quem Adélia Riés gostaria

Adélia da Fonseca-Riès vinha sempre, como leitora, e com comentários, animar o velho Escrever é Triste, o blog colectivo que tinha como lema “chatices não”. O gosto lúdico da escrita animava o Escrever é Triste e isso bastava a Adélia Riès. Ou melhor, não bastava: queria que os Tristes publicassem livros e vinha à Guerra e Paz encomendar obras. Devo-lhe ter publicado um poeta americano, Howard Altmann, Quando a Fina Neve Cai, em tradução da Eugénia de Vasconcellos. E que bonita foi a sessão de lançamento, no Palácio de Belmonte, ali ao Castelo, sob os auspícios da Maria e Frédéric Coustols.
A alegria e a generosidade da Adélia foram agora esconder-se entre as nuvens. Fecho os olhos e consigo vê-la. Dou-lhe um último beijo e peço-lhe que volte a ler este texto de escritores e cineastas, duas constantes desse Escrever é Triste que a deliciava.

Jejum e Mar da palha

O cinema só não é uma arte maior como a literatura porque não há cineastas virgens. O cineasta virgem seria uma contradição nos termos. A câmara de filmar é um falo hiperbólico: devassa, despe, acaricia. Bi ou promíscua, a câmara tanto faz estremecer Keira Knightely e Scarlett Johansson como Michael Fassbender.

O cinema nasce convivial e flui numa emulsão, enquanto a literatura, solitária, se derrama e seca sobre o papel. Há uma legião de escritores virgens. Uns morreram virgens por deformidade física, como Giacomo Leopardi. Emily Dickinson por rebeldia. Por orgulho ou preconceito, Jane Austen criou páginas e páginas de virgindade. Sabia do que falava, morreu intocada.

George Bernard Shaw era vegetariano. Dente de Shaw não mordia carne. E mesmo se casou foi só para conferir mistério ao mar de palha que era o seu jejum. Foi uma inglesa que disse: “Se Shaw tivesse comido um bom bife, o que teria sido das mulheres de Londres.”

Lembro que há um português virgem. O poeta que mais vivo está no imaginário colectivo da pátria que é a nossa língua, esse desdobrável Fernando Pessoa, se pinava era só com a cabeça. Disse-o Mário Cesariny e tê-lo-á lamentado Ofélia.

Pelo contrário, todo o cineasta é uma câmara: confunde-se e funde-se com a sua actriz. Orson Welles e Rita Hayworth, Godard e Anna Karina, Bergman com Liv Ullman e etc, Milla Jovovich com Luc Besson e Paul Anderson, Woody Allen com Mia Farrow e Diane Keaton, Isabella Rosssellini com Scorsese e David Lynch.

Volto ao papel. E.M. Forster, o autor de “Howard’s End” e de “Passagem para a Índia”, que o cinema também assaltou, foi virgem até aos 37 e até aos 37 escreveu a sua obra. Logo que descobriu o humpy rump nunca mais escreveu nada de jeito.

E desminto já esta deriva ascética. James Joyce tinha uns meninos 14 anos quando uma jovem mulher da noite o apanhou na fria madrugada de Dublin e, por módica quantia, o guiou nuns consoladores três minutos de vaivém entre a imanência e a transcendência. Deveremos a esse anónimo ventre a desconcertante polissemia de “Ulisses”?

Tolstoi teve a primeira suada batalha aos 16 anos. Quando acabou, meio vestido, a outra metade de si ainda nua, sentou-se ao fundo da cama da mulher a quem pagara e chorou copiosamente. Foram essas copiosas lágrimas que alimentaram o seu “Guerra e Paz”?

Jesus Cristo em Montmartre

Jesus Cristo na cruz, Max Jacob

O poeta Max Jacob estava de cu para o ar quando ganhou a imortalidade. Inclinado, para apanhar um par de pantufas debaixo da cama, ao soerguer-se vê Jesus Cristo na parede do seu sórdido quarto. Com uma túnica de seda amarela, debruada a azuis, Jesus escorria pela parede como uma aguarela. Movia-se, mas não disse uma palavra ao poeta e pintor. Como apareceu, assim se desvaneceu. Foi a 16 de Setembro de 1909, já lá vai mais de um século.

Os 33 crísticos anos do judeu Max Jacob desataram a correr pelas ruas de Montmartre e derraparam à porta da igreja. Agarrou-se ao pároco e contou-lhe a visão, ou cantou-lha, que Max era também músico. O padre, incréu, gentio, olha-o com um cepticismo de ministro das finanças, e nem quando a calvície de Max Jacob se lhe roja aos pés se deixa banhar pela alegria da revelação e da fé. Nega.

Vejamos, o padre conhecia Max Jacob. Vira-o na companhia boémia de Picassos, Apollinaires e Modiglianis, quem sabe se não mesmo, algum dia, a desencaminharem o nosso Amadeo de Souza Cardoso. Um bando frequentador de bistrots e guinguettes, copos, petiscos e bailes, publicanos e marias madalenas. Más companhias? Talvez, mas algum dia Jesus, o Cristo, fez fine bouche a más companhias?

E preciso de arrastar o flash-back ainda lá mais atrás. Nascido na Bretanha, numa família judia laica, o miúdo Max morria de inveja ao ver os meninos católicos em missas e comunhões: tanta fé, tanta santa culpa, tanto arrependimento e absolvição levavam ao êxtase a sua saborosa inclinação homossexual e a culpa que lhe vinha amarrada.

Em Paris, a sua vida celerada juntou a convulsão da noite a um lirismo melancólico e de intensa espiritualidade. Descobre Picasso e dá-lhe guarida no seu quarto, em regime de cama quente: Picasso pinta durante a noite e vem dormir quando Max se levanta para ir trabalhar. Agora, sozinho, neste seu novo quarto, roupas, sapatos, livros, godés, tintas e pincéis espalham o caos sobre mesa, cadeiras e cama; nas paredes estão pintados os signos do zodíaco e irrompem frases num apocalipse pré-graffitiano.

Tenho de ser sincero, se Cristo é o tipo que eu penso, não vejo em que outro quarto pudesse ter aparecido. No fecho parisiense da primeira década do século XX, Cristo, a querer alguma coisa, quereria ser boémio e artista de vanguarda. E eis que Cristo, confundido com a negação e a humilhação que a visão de Max Jacob desencadeou em crentes e ateus, padres, pintores e poetas, insiste.

A 16 de Dezembro de 1914, Max Jacob está sentado numa sala de cinema. As imagens correm na tela e eis que, do nada, Jesus Cristo, tão mudo como o filme, se senta ao seu lado. Veste a mesma túnica branca e rude que usará no Vangelo de Pasolini. Olha, fixo, para Max e logo lhe diz adeus que mais século, menos século vai ter de aturar um mundo de Trumps e Xi Jipings.

Desta vez, acreditam em Max. Meses depois é baptizado. Picasso é o padrinho. E em 1921, Max Jacob entra num mosteiro beneditino, consolando-se na penitência, meditação e beleza.  

Aí o descobrirá um SS a quem mostra a abadia de Notre-Dame-de-Fleury. “Com esse nariz, você é judeu”, acusa-o. Os monges jurarão que ele é católico e bretão, mas a barbárie, obcecada por narizes, triunfa. Prendem-no e vão deportá-lo para Auschwitz. Uma bronco-pneumonia atira-o para a enfermaria de Drancy. Na cama, alucinado, Max Jacob sussurra, “judeu sujo, judeu sujo”, e morre cinco dias antes de partir o comboio para Auschwitz. Morre um judeu boémio, poeta, romancista: a cruz e a estrela amarela por mortalha.

Publicado no Jornal de Negócios

Cinta de ligas e meias de vidro

Tallulah e umas delicadas meias de vidro, tão certo como ser um filme de Hitchcock

“Lifeboat” é um filme à deriva no mar da II Guerra. Filmou-o Hitchcock num bote onde meteu nove vidas sem destino. O caos tomou conta do oceano e no salva-vidas, no início, só está uma mulher madura e bela, cabelo, maquilhagem e jóias irrepreensíveis, casaco de arminho, esplêndidas meias de vidro. Tão certo como ser um filme de Hitchcock, uma delicada cinta de ligas mantém essas meias esticadas para que, sem dobras nem refegos, bem torneiem a bela perna.

A mulher é a mais libertina das actrizes, Tallulah Bankhead, e posso jurar que não traz cuecas. Passado em pleno oceano, Hitchcock filmou “Lifeboat” num tanque do estúdio, a que os actores acediam por uma altíssima escada. Todos os dias os técnicos esperavam que, degrau a degrau, Tallulah ascendesse aos céus, retribuindo com uma salva de palmas a contemplação da edénica intimidade.

Numa lógica de “há moralidade e não come ninguém”, os produtores mandaram Hitchcock cobrir, com o devido manto, a diáfana fantasia. Lá iremos. Tallulah teve, em “Lifeboat”, o seu momento alto no cinema. Embora americana, fora, antes, uma glória do teatro britânico. Já em Londres gostava de representar sem cuecas. Era um Brexit nas salas e o sindicato dos actores teve de regular o que se passava debaixo daquelas saias.

Também a secreta britânica, o MI5, lhe quis escrutinar o frondoso jardim. Descobriu lá, de uma vez, cinco jovens de Eton, colégio que agora formou os dois príncipes britânicos. O rendez-vous foi no selecto Hotel Café de Paris e o espião alega que ela se terá regalado, em prática imorais e antinaturais, com os cinco, como nunca Enid Blyton imaginaria.

O agente do MI5 jurou que numa só noite pararam 100 limusinas à porta do hotel e também a acusou de lésbica. Tallulah, que sempre lamentou não ter chegado a esse impertinente toque de delicadeza com Greta Garbo, foi peremptória: “Jamais me tornaria lésbica, tanta é a falta de humor que têm!”

Hollywood não foi a sua praia. Cukor gabou-lhe as altas maçãs do rosto, mas disse que a morte dela eram os olhos sem vida. Ela queixava-se do trabalho escravo: “Há seis meses que não tenho um affair. Seis meses… Quero um homem.”

Em “Lifeboat”, como Hitchcock queria, foi um prodígio de incongruência. As queixas da falta de cuecas não assustaram o mestre perverso: “Mas a que departamento submeter o assunto? Ao de guarda-roupa, ou ao de maquilhagem e cabelos?”