Je t’aime, moi non plus

BB e a Harley Davidson

Trinta e três anos. Brigitte Bardot tinha essa centrífuga idade de Jesus Cristo: quem em seu demente juízo não a quereria, logo, pôr na cruz? E estou também a ver Serge Gainsbourg, umas trombas de meter medo ao susto, que escondiam um derrame de talento capaz de submergir Paris.

Estão os dois em estúdio. Ele escrevera-lhe uma carta. Tinha uma canção e queria que ela a cantasse, para gravarem um disco, artefacto pré-histórico de que talvez ainda haja restos em Lascaux. E olhem comigo a ver se vêem o que eu vejo: uma inquietação eléctrica palpita, viva, no estúdio. BB canta “numa Harley Davidson, não quero saber de ninguém” e olha para Serge como se fosse ele a Harley Davidson. Ele estremece, abriga-se daquele olhar, rosto branco de que o sangue fugiu. Mas ela, de canção cantada, mini-saia fulgurante, botas de couro negras a acariciarem-lhe as pernas, dos dedos dos pés aos joelhos – “poderosa”, resumiria hoje uma adolescente no instagram – convida-o para jantar com um casal amigo.

A que estará o magret de canard a saber a Gainsbourg? A cabeça dele mal teve tempo para essa deambulação melancólica. Um flash incendiado rasga-lhe a cabeça quando a Bardot lhe agarra a mão debaixo da mesa. Escaldam e o vapor de água limpa de cena o casal amigo que, como Pilatos, lava dali as suas mãos. A BB mete Serge num táxi e disparam para uma discoteca. Ele precisa do mais urgente dos copos, absinto talvez. Ela já dança na pista, sozinha. E vai buscá-lo para um slow. Perna a perna, todos os luciferinos fornos da carne entram em combustão e eles movem-se numa demência animal, devagar, tão fogosamente devagar.

É impossível esperar mais. Outro táxi que ela chama e, de táxi em táxi, desembarcam numa estremecida, nocturna, alta cama: em cruz, pregados um ao outro, torturadas coroas de espinhos na cabeça da paixão, consumam. Talvez Paris nunca tivesse consumado assim e ela pediu-lhe a mais bela canção, a canção por onde escoasse aquela madura torrente de tesão feroz, amor, digamos.

Gainsbourg compôs e ela cantou e gravou “Je t’aime, moi non plus”, amor gemido e agudo, de fendas expostas, a doer nos rins. Os ecos chegaram ao marido de BB, anódino milionário, que ameaçou com o divórcio. Logo a BB implora a Serge que esconda a canção. E vai filmar para Espanha, Serge feito Penélope em angustiada espera, até a saber noutros braços. Restam as cinzas de 86 dias de paixão. Consummatum est.

Pode o opróbrio tombar sobre corpos em chamas? Como se olha, hoje, para o amor de 1967? Vejamos, a BB assedia profissionalmente o frágil Serge, tirando partido da fragilidade que é a sua fealdade, e faz dele objecto sexual, comparando-o a uma Harley Davidson. Sempre ela, apoiada por casal amigo, cerca-o, e inicia, sob a mesa, um périplo de abuso físico. Consuma! – tudo em segredo. Explora-lhe, depois, o talento, roubando-lhe uma canção. Por fim, por exigências da sua superior posição social e financeira, sequestra a canção e abandona Serge, que fica a lamber as feridas, exposta vítima sexual e afectiva.

Sendo inescapável concordar-se com a teoria de que não se nasce homem e mulher, mas tornamo-nos, isso sim, homem ou mulher, só podermos concluir que Brigitte Bardot era um homem e Serge Gainsbourg, uma mulher.

Se a ciência freudiana me entrasse, espasmódica, na pobre cabeça, talvez pudesse apimentar o revisionismo do amor de 67, acrescentando um grão de perversão e um pingo de polimorfia, deixando-os cair nos rabos nus de BB e Serge. Prefiro, sou franco, ir outra vez ouvir “Je t’aime, moi non plus”.

Publicado no Jornal de Negócios

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