Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Sei que tenho mais umas fotos com Samuel Fuller, de quem fui também “guia” no ciclo que a Cinemateca lhe dedicou e de cujo catálogo e logística o João Bénard me encarregou. Não sei é onde é que as meti. O ciclo foi uma revelação, com a descoberta de parte significativa, se não a maioria dos seus filmes, para a quase totalidade da cinefilia portuguesa e da douta crítica (moi-même, armado aos cucos, também incluído).
Nessa altura defendi junto do João Bénard que, em boa verdade, os catálogos dedicados a cineastas deviam ser feitos depois do ciclo e não antes, vistos e revistos os filmes e as obras completas. Mas isso são minudências: o que conta é que o Fuller era um tipo felicíssimo e americaníssimo, dessa América de outros tempos pela qual eu me batia aos pulos. Veio cá filmar, com produção executiva do António da Cunha Teles, um filme para esquecer, mas com uma obviamente nuíssima Godiva, a cavalo, filmada numa noite fria, ali entre a Feira da Ladra e São Vicente de Fora. Devo-lhe o mais belo par de lágrimas que já vi no cinema. O par de lágrimas rola pela cara barbuda de um soldado, em Merril’s Marauders, tombado pela exaustão de marchas foçadas, que acorda com um miúdo birmanês sorridente a tentar alimentá-lo, metendo-lhe bagos de arroz pela boca abaixo. A singela humanidade desse gesto, a silenciosa compreensão vital daqueles dois seres humanos é das coisas mais belas e comoventes que já vi. Um dia, em homenagem a este Fuller tão amável e tão americano, tenho de voltar a rever essa cena.
James Allen assaltava a cavalo. Um dos encantos dos caminhos e das estradas americanas do começo do século XIX era o assalto e a dignidade social do roubo. O roubo tinha de ser aspiracional: todo o americano queria ser roubado pelo salteador a cavalo. O vexame era ser roubado pela escória da bandidagem, o salteador apeado.
John A. Fenno sentiu-se roçado por um halo da sofisticação quando, numa encruzilhada de poeira e sol, lhe surgiu o salteador James Allen. A cavalo. Fenno tomou, então, uma decisão que lhe reservaria lugar na História: resistir.
Pouco tempo depois, Allen, o salteador, malhava, pele e ossos, na prisão. Uma tuberculose não o deixou chegar sequer aos 30 anos de idade. Antes de morrer, escreveu as memórias e evocou Fenno, o único e bravo homem que lhe fizera frente num assalto. Mandou que lhe entregassem um exemplar do livro encadernado em pele. A sua.
Das costas de Allen, acabadinho de morrer, foi destacado um vasto pedaço de pele que, no curtume local, se tratou para que parecesse pele de veado. O inocente encadernador fez, depois, o seu trabalho: assaltaram-no pesadelos quando soube que era pele humana. Mas Fenno recebeu o livro. E o livro é, há mais de um século, a coqueluche da biblioteca do Boston Athenaeum.
À prática das encadernações em pele humana chama-se bibliopegia antropodérmica. Há treze encadernações cientificamente atestadas, todas do século XIX e XX, mas há rumores de que, na Revolução Francesa, uma Constituição e uma Declaração dos Direitos do Homem teriam sido encadernadas com a pele aristocrático-reaccionária dos partidários do Ancien Régime. Esses exemplares, um caso de velhaca ironia, estão no Museu Carnavalet, em Paris, no belíssimo Marais, não tendo sido certificada a origem humana da encadernação.
Humaníssima pele, de homem ou mulher branca, é a da encadernação da “Dança da Morte”, livro que reúne crudelíssimas, inclementes e satíricas xilogravuras do pintor renascentista alemão Hans Holbein. A incansável morte arrebata o burguês e o lavrador, o comerciante e a duquesa, abade, abadessas, mesmo o Papa. Essa desapiedada e esquelética morte bailarina pode espetar um lança na barriga ao cavaleiro, arrastar a duquesa da cama, dançar com a dama, levar pela mão a criança. O exemplar guardado na Universidade de Brown foi encadernado, no século XIX, em pele humana, incrustada com marroquim preto e decorada com flechas, cabeças mortas e ossos dos dedos. Tudo isso fechado num elegante estojo de tecido preto.
Na pele de uma fedorenta doninha foi como o capitão Maurice Hamonneau, irreverente bibliófilo, encadernou o seu exemplar do “Mein Kampf”, de Adolf Hitler. Mas vejam, um livro salvara-lhe a vida. Na I Guerra, durante um ataque, tombou baleado. Quando despertou, deu conta que a bala que o devia ter abatido, fora deflectida por um exemplar de “Kim”, o romance de Rudyard Kipling. As últimas 20 páginas de “Kim” pararam a sua dança da morte. Ficou amigo de Kipling e foi viver para Nova-Iorque. Ganhava a vida a encadernar livros com pele de serpente, de elefante ou mesmo pele humana, no caso para um livro sobre doenças de pele.
Eugène Sue, folhetinista e romancista, juntava à sua elegância e sedução, a considerável herança que o pai lhe deixara. Choviam sobre ele amantes, na Paris do meio do século XIX. Uma delas, sentindo-se a dançar com a morte, pediu-lhe uma última homenagem: que lhe usasse a pele para encadernar o próximo livro. Eugène cumpriu: um exemplar do seu “Vignettes: Mystères de Paris” tinha por capa a pele da amada.
E digam agora que a humanidade não traz a literatura na pele.
Depois da viva recensão de Manuel Falcão, no Jornal de Negócios, e da boa recensão de António Costa Santos, na Antena 2, que acabava com um sonoro aviso aos leitores – “é pena se não for lido” – hoje, o Expresso inclui Azulejos Pretos nos dez livros a ler e oferecer este Natal.
Leio a última frase da recensão de Luísa Mellid-Franco: “Um romance cáustico e desafiador, que ficará cravado no espírito do mais cético leitor.” Eu, enquanto editor deste romance, Azulejos Pretos, de Pedro Bidarra, confesso: não podia estar mais de acordo!
A nostalgia da mãe. Tal como John Ford, em cuja boca nunca entrou e ainda menos saiu a palavra “nostalgia”, mas que tinha nostalgia de tudo, o japonês Kenji Mizoguchi reclama a nostalgia da mãe.
Mizoguchi foi o realizador de filmes como “A Vida de O’Haru”, “Os Contos da Lua Vaga” e “Os Amantes Crucificados”, a que a minha geração ajoelhou e rezou, mesmo sem saber nada do Japão na maioria dos casos, horda ignorante a que pertenço, e que escutar até às três da matina o cineasta Paulo Rocha, à porta da Cinemateca, a perorar sobre o sensual roçagar de um quimono, não releva.
Mas deixemos a ignorante boca aberta com que lhe vimos os filmes, para ouvirmos Mizoguchi. O pai tinha um negócio e faliu. Correu mal e desatou a beber ou já bebia e correu mal. E se uma falência não é soneto que se cheire, a emenda foi pior. O pai vendeu a irmã de Mizoguchi a uma casa de gueixas, alindado termo étnico que usamos, com acordes de shamisen, para não lhes chamar putas.
Isto sim é o começo de um romance que nunca mais lhe largou a vida e a obra. Afirmava ser um homem violento e os filmes dele estão impregnados de funda tristeza. Há outros filmes carregados de tristeza na história do cinema, mas a tristeza de Mizoguchi é lentíssima, feita de longos planos e movimentos de encenação milimétrica. O perfeccionismo com que cantou essa tristeza, arrancou-o ele a golpes autoritários e murros dados a técnicos e actores. Com uma ressalva: “… mas se é uma actriz, por muito que me zangue, não lhe posso dar murros!”
Todo o autoritarismo gera lealdade e relações apaixonadas, como a de Mizoguchi com Kinuyo Tanaka, actriz de 15 filmes dele, que arrancou os dentes todos para, rameira de baixo coturno, parecer velha e desdentada no final da “Vida de O’Haru”, jurou o já tão falecido Paulo Rocha.
Ninguém sabe se foi a nostalgia da mãe, se o trauma da venda da irmã, mas o fascínio pela mulher vítima, e um certo prazer na contemplação dela vítima, é a cama em que mais vezes se deita o cinema de Mizoguchi. Das camas em que se deitou ele mesmo, sabe-se que levou a mulher à loucura e a meteu num asilo, passando a viver com a irmã mais nova dela. Andaria nisso o fantasma da irmã gueixa?
A nostalgia da mãe confessou-a com esta candura: “Gosto de mulheres gordas. Talvez por a minha mãe ser gorda e ter morrido, era eu ainda jovem. Parece ridículo dizê-lo, prefiro as gordas. Sim, atraem-me muito.”
Deixem-me, hoje, descambar na beleza. Não me tomem por pretensioso, mas autorizem-me, como se dizia na mestiça Luanda colonial, a ficar buelo, ou seja, espantado, admirado, em estado de pura ingenuidade, a ouvir a voz do actor italiano Vittorio Gassman. Ouçam-no comigo. Sentem-se aqui, ao meu lado, sossegados e rendidos. Ouçam-no ler, no original, o Canto Primeiro da Divina Comédia. Podem, antes ou depois, ler a magnífica, soberba tradução de Vasco Graça Moura, que a Bertrand Editores publicou.
Ouçam Gassman. A meio do caminho da vida, Dante, que é o poeta e o narrador, perdeu-se numa selva escura. Quer subir, talvez à procura da luz, mas cortam-lhe o caminho, três feras ameaçadores, a onça, o leão, a loba. Resgata-o uma figura ténue e antiquíssima, que descobriremos, com Dante, ser o romano Virgílio, autor da Eneida. Tranquiliza o trémulo e inquieto Dante, propondo-se guiá-lo numa viagem ao mais fundo poço do desespero e ao mais alto monte celestial onde flanam as benditas gentes.
A que ressoa a voz de Gassman? Sombras e frouxo lume tremulam nessa voz absolutamente cativa da “parola” de Dante. Ouçam-no e vejam-no circular neste cenário tão parecido ao redondel do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, que João César Monteiro fez cenário de Recordações da Casa Amarela. Eis onde estamos, com Dante e com Vittorio Gassman: às portas da beleza e da loucura, do Inferno e do Paraíso.
Eis o livro que deveríamos ler, hoje, na morte de Eduardo Lourenço: a sua entrega, cândida, sem rodeios, nesta livro-entrevista de vida, pensamento e obra.
Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção devia ser – e é – um auto-retrato de um dos nossos maiores pensadores. Numa longa entrevista, Eduardo Lourenço fala de si, da sua vida e obra.
Mas, de uma forma irresistível, ao falar de si a José Jorge Letria que o entrevista, Eduardo Lourenço prefere ou acaba por falar sempre de Portugal, esse país «ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico».
Este é um livro essencial para se conhecer Eduardo Lourenço e a mundividência que, com a sua morte, nos abandona. Ninguém nos voltará a pensar assim, com a serenidade estóica de Lourenço, combinando literatura, filosofia, História, psicologia e sociologia. Desse tipo de saber, enciclopédico, desse saber em passeio pelas palavras, Eduardo Lourenço era o último depositário português. Ninguém nos voltará a dar um tão heterodoxo sentido de identidade, combinando cristianismo e marxismo, Shakespeare e Camões, Dante e Fernando Pessoa, saudades e mitologias.
Deixamos aos leitores da Guerra e Paz um excerto. Eis Eduardo Lourenço a falar de Portugal e do fim do Império:
“Voltámos à Europa, de onde nunca deveríamos ter saído, mas à qual pertencemos mesmo antes de ter nascido. Agora estamos envoltos num destino comum, protegidos e desprotegidos ao mesmo tempo. Eu sou muito europeísta, de maneira que ainda confio que o destino europeu nos proteja de uma subalternidade definitiva na História que nos ponha fora da História e que a Europa recupere um pouco o papel que foi o seu durante milénios e que Portugal continue a ser o país miticamente sonhado pelos nossos grandes autores, que é fundamentalmente e será sempre o país de Camões. Um país que, diante de dificuldades que naquela altura pareciam insuperáveis, passe a ser um país ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico, aquele que António Vieira imaginou como uma espécie de miniatura, um Portugal império universal do Cristo e depois da Mensagem, que é outra coisa, que é o sonho mais próximo de nós, um país que é uma espécie de Menino Jesus das Nações, como diria Agostinho da Silva. E esse pequeno país é maior do que ele próprio. Nessa dimensão, quase onírica dele mesmo, fomos um país da inquisição, é que reside a sua originalidade, a sua singularidade. Nós somos um país que empiricamente se espalhou, realmente, no mundo, mas o mais interessante é isso: permanecer. É um país que se dissolveu no mundo. Mas essa famosa dissolução, dita na Mensagem, de facto é a nossa dimensão messiânica, a nossa dimensão poética. Sem essa dimensão, nós ficamos muito mais pequenos do já somos.”
Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção, retrato de Portugal, é um auto-retrato de Eduardo Lourenço, que se confia às perguntas de José Jorge Letria. Um livro da Guerra e Paz, que só a ajuda e dinâmica de serviço público da Sociedade Portuguesa de Autores tornou possível. A ler agora.
Dos realizadores estrangeiros em visita à Cinemateca, nenhum foi mais extrovertido, empático, nonchalant e bon vivant do que Claude Chabrol, Fui eu o organizador do ciclo e do catálogo e tocou-me, por isso, ser o seu “guia. Mas o Luís de Pina (nas duas fotos) e o João Bénard (na de baixo) eram, é claro, os mestres sábios. Eu seguia-os. Depois desta sessão, fomos beber copos e comer bifes para o Bacchus (acho que se chamava assim), em frente ao Teatro da Trindade
Infelizmente não tenho fotos de outro francês, o Jacques Demy, que era também, no seu estilo mais suave, uma ternura e com quem partilhei aguardentes, quando ainda se podia beber do mesmo copo. Nem tenho fotos do georgiano Paradjanov, com quem jantei, com o Manuel Costa e Silva, director de fotografia e realizador, no velho Paris, na Baixa, o mais “anos 60” dos restaurantes da baixa pombalina, desaparecido há uns bons anos.
Mas ninguém sorria e ria, contente de estar a papar a vida ao segundo, como o feliz Chabrol!
Agora que todos cortamos no açúcar e no sal, eis o que vos quero dizer: a surpresa é a pimenta da vida.
Ia começar por mim, mas logo me deparei com o escândalo de dois escritores. Dostoievski tinha a excitação do espancamento. Os seus romances são vastas e abismais paisagens de injúria e humilhação, em que os actos masoquistas se multiplicam como estrelas no céu. Surpresa: só nos “Irmãos Karamazov” há setenta e cinco cenas – e atrevam-se a desmentir-me, se puderem – em que personagens se aviltam, dobrando-se, ajoelhando-se ou beijando o chão face a outras personagens. Ou seja, sofrem fisicamente e gostam de sofrer, como Dostoievski gostava de ser punido: bastava-lhe até que a castigo físico fosse mimado para ele se excitar.
E falo agora da professora de Jean-Jacques Rousseau, que nunca leu esse Dostoievski ainda por nascer. Descobriu, surpresa e assustada, que o menino Jean-Jacques adorava que ela lhe batesse. Com palmatória? Nas mãos, no filosófico posterior? Ela descobriu, diz-se, tarde de mais: Rousseau ficou adicto, um espancófilo. É ele que há de escrever “Emílio ou a Educação” propondo uma nova pedagogia ao mundo. Nas “Confissões”, o apologista do remorso que é Rousseau, anuncia candidamente que só o espancamento lhe desperta a sexualidade.
E, antes de falar de Alexandre Dumas, cravo-me eu aqui, entre escritores. Peço desculpa, mas não me dobro, ajoelho ou beijo o chão: nem tenho nenhuma confissão a fazer. Lembro-me só de uma das mais misteriosas surpresas da minha vida. Vivia no Lobito, em 1975. Na guerra da independência de Angola, tomei partido e tive de recuar – Mark Twain, com o seu gosto pelo exagero, diria fugir – quando Unita e África de Sul atacaram a cidade. Voltei, meses depois. O meu velho dois cavalitos tinha sido queimado e, no apartamento, por onde passara o caos, sobrevivia, ileso, o meu exemplar do “Pequeno Livro Vermelho”, do abominável Mao Tsé-tung. Há a lenda de que a uma explosão nuclear só as baratas resistem: aquele livrinho era o indemne insecto no meio da sala apocalíptica.
Há quem saiba transformar em doce a amarga surpresa. Alexandre Dumas, o pai, nunca foi um exemplo de fidelidade. Casara-se com Ida Ferrier atraído por um dote que lhe pagou muitas dívidas: Ida foi o seu banco bom. Uma noite de tempestade fê-lo voltar a casa. Encontrou na cama de Ida outro homem, o seu melhor amigo Roger de Beauvoir, padrinho desse casamento. Ainda houve um segundo de paralelepipédica fúria córnea, e quem sabe se Alexandre Dumas não teve até vontade de bater em Dostoievski, mas ouvindo a gelada angústia do vento e da chuva lá fora, Alexandre Dumas deixou que tombasse a pax romana naquele quarto: “Ajeitem-se, por favor, e arranjem espaço para mim!”
E deixem-me contar uma história que, por bem trovata, merecia, não o sendo, que fosse verdadeira. É a história que se conta de todas as actrizes mais mediáticas ou pulposas do que propriamente talentosas. Acreditemos, então, que Pia Zadora representava o “Diário de Anne Frank” num palco nova-iorquino. A peça arrastava-se e a Zadora daria de Anne Frank uma imagem catequista e intragável. Espectadores engoliam punhos para afogar o tédio troiano. No palco, batem à porta, Zadora esconde-se. Logo, à procura da adolescente, entram os faunescos – perdão, ciclópicos – nazis. O mais ultrajado dos espectadores, sem tempo a perder e para evitar surpresas, grita do meio da sala: “Ela está escondida no sótão!”
A verdade não tem graça nenhuma: Pia Zadora nunca representou “O Diário de Anne Frank”. Tem mais graça bater em Dostoievski.