São pretos os azulejos de Pedro Bidarra

Os Azulejos do Pedro

Depois da viva recensão de Manuel Falcão, no Jornal de Negócios, e da boa recensão de António Costa Santos, na Antena 2, que acabava com um sonoro aviso aos leitores – “é pena se não for lido” – hoje, o Expresso inclui Azulejos Pretos nos dez livros a ler e oferecer este Natal.

Leio a última frase da recensão de Luísa Mellid-Franco: “Um romance cáustico e desafiador, que ficará cravado no espírito do mais cético leitor.” Eu, enquanto editor deste romance, Azulejos Pretos, de Pedro Bidarra, confesso: não podia estar mais de acordo!

Não lhe posso dar murros

Kinuyo Tanaka

A nostalgia da mãe. Tal como John Ford, em cuja boca nunca entrou e ainda menos saiu a palavra “nostalgia”, mas que tinha nostalgia de tudo, o japonês Kenji Mizoguchi reclama a nostalgia da mãe.

Mizoguchi foi o realizador de filmes como “A Vida de O’Haru”, “Os Contos da Lua Vaga” e “Os Amantes Crucificados”, a que a minha geração ajoelhou e rezou, mesmo sem saber nada do Japão na maioria dos casos, horda ignorante a que pertenço, e que escutar até às três da matina o cineasta Paulo Rocha, à porta da Cinemateca, a perorar sobre o sensual roçagar de um quimono, não releva.

Mas deixemos a ignorante boca aberta com que lhe vimos os filmes, para ouvirmos Mizoguchi. O pai tinha um negócio e faliu. Correu mal e desatou a beber ou já bebia e correu mal. E se uma falência não é soneto que se cheire, a emenda foi pior. O pai vendeu a irmã de Mizoguchi a uma casa de gueixas, alindado termo étnico que usamos, com acordes de shamisen, para não lhes chamar putas.

Isto sim é o começo de um romance que nunca mais lhe largou a vida e a obra. Afirmava ser um homem violento e os filmes dele estão impregnados de funda tristeza. Há outros filmes carregados de tristeza na história do cinema, mas a tristeza de Mizoguchi é lentíssima, feita de longos planos e movimentos de encenação milimétrica. O perfeccionismo com que cantou essa tristeza, arrancou-o ele a golpes autoritários e murros dados a técnicos e actores. Com uma ressalva: “… mas se é uma actriz, por muito que me zangue, não lhe posso dar murros!”

Todo o autoritarismo gera lealdade e relações apaixonadas, como a de Mizoguchi com Kinuyo Tanaka, actriz de 15 filmes dele, que arrancou os dentes todos para, rameira de baixo coturno, parecer velha e desdentada no final da “Vida de O’Haru”, jurou o já tão falecido Paulo Rocha.

Ninguém sabe se foi a nostalgia da mãe, se o trauma da venda da irmã, mas o fascínio pela mulher vítima, e um certo prazer na contemplação dela vítima, é a cama em que mais vezes se deita o cinema de Mizoguchi. Das camas em que se deitou ele mesmo, sabe-se que levou a mulher à loucura e a meteu num asilo, passando a viver com a irmã mais nova dela. Andaria nisso o fantasma da irmã gueixa?

A nostalgia da mãe confessou-a com esta candura: “Gosto de mulheres gordas. Talvez por a minha mãe ser gorda e ter morrido, era eu ainda jovem. Parece ridículo dizê-lo, prefiro as gordas. Sim, atraem-me muito.”

Onça, leão e loba

Deixem-me, hoje, descambar na beleza. Não me tomem por pretensioso, mas autorizem-me, como se dizia na mestiça Luanda colonial, a ficar buelo, ou seja, espantado, admirado, em estado de pura ingenuidade, a ouvir a voz do actor italiano Vittorio Gassman. Ouçam-no comigo. Sentem-se aqui, ao meu lado, sossegados e rendidos. Ouçam-no ler, no original, o Canto Primeiro da Divina Comédia. Podem, antes ou depois, ler a magnífica, soberba tradução de Vasco Graça Moura, que a Bertrand Editores publicou.

Ouçam Gassman. A meio do caminho da vida, Dante, que é o poeta e o narrador, perdeu-se numa selva escura. Quer subir, talvez à procura da luz, mas cortam-lhe o caminho, três feras ameaçadores, a onça, o leão, a loba. Resgata-o uma figura ténue e antiquíssima, que descobriremos, com Dante, ser o romano Virgílio, autor da Eneida. Tranquiliza o trémulo e inquieto Dante, propondo-se guiá-lo numa viagem ao mais fundo poço do desespero e ao mais alto monte celestial onde flanam as benditas gentes.

A que ressoa a voz de Gassman? Sombras e frouxo lume tremulam nessa voz absolutamente cativa da “parola” de Dante. Ouçam-no e vejam-no circular neste cenário tão parecido ao redondel do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, que João César Monteiro fez cenário de Recordações da Casa Amarela. Eis onde estamos, com Dante e com Vittorio Gassman: às portas da beleza e da loucura, do Inferno e do Paraíso.

Eduardo Lourenço

Eis o livro que deveríamos ler, hoje, na morte de Eduardo Lourenço: a sua entrega, cândida, sem rodeios, nesta livro-entrevista de vida, pensamento e obra.

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção devia ser – e é – um auto-retrato de um dos nossos maiores pensadores. Numa longa entrevista, Eduardo Lourenço fala de si, da sua vida e obra.

Mas, de uma forma irresistível, ao falar de si a José Jorge Letria que o entrevista, Eduardo Lourenço prefere ou acaba por falar sempre de Portugal, esse país «ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico».

Este é um livro essencial para se conhecer Eduardo Lourenço e a mundividência que, com a sua morte, nos abandona. Ninguém nos voltará a pensar assim, com a serenidade estóica de Lourenço, combinando literatura, filosofia, História, psicologia e sociologia. Desse tipo de saber, enciclopédico, desse saber em passeio pelas palavras, Eduardo Lourenço era o último depositário português. Ninguém nos voltará a dar um tão heterodoxo sentido de identidade, combinando cristianismo e marxismo, Shakespeare e Camões, Dante e Fernando Pessoa, saudades e mitologias.

Deixamos aos leitores da Guerra e Paz um excerto. Eis Eduardo Lourenço a falar de Portugal e do fim do Império:

Voltámos à Europa, de onde nunca deveríamos ter saído, mas à qual pertencemos mesmo antes de ter nascido.
Agora estamos envoltos num destino comum, protegidos e desprotegidos ao mesmo tempo. Eu sou muito europeísta, de maneira que ainda confio que o destino europeu nos proteja de uma subalternidade definitiva na História que nos ponha fora da História e que a Europa recupere um pouco o papel que foi o seu durante milénios e que Portugal continue a ser o país miticamente sonhado pelos nossos grandes autores, que é fundamentalmente e será sempre o país de Camões. Um país que, diante de dificuldades que naquela altura pareciam insuperáveis, passe a ser um país ressonhado, reinventado, quase totalmente onírico, aquele que António Vieira imaginou como uma espécie de miniatura, um Portugal império universal do Cristo e depois da Mensagem, que é outra coisa, que é o sonho mais próximo de nós, um país que é uma espécie de Menino Jesus das Nações, como diria Agostinho da Silva.
E esse pequeno país é maior do que ele próprio. Nessa dimensão, quase onírica dele mesmo, fomos um país da inquisição, é que reside a sua originalidade, a sua singularidade. Nós somos um país que empiricamente se espalhou, realmente, no mundo, mas o mais interessante é isso: permanecer. É um país que se dissolveu no mundo. Mas essa famosa dissolução, dita na Mensagem, de facto é a nossa dimensão messiânica, a nossa dimensão poética. Sem essa dimensão, nós ficamos muito mais pequenos do já somos.

Eduardo Lourenço: A História É a Suprema Ficção, retrato de Portugal, é um auto-retrato de Eduardo Lourenço, que se confia às perguntas de José Jorge Letria. Um livro da Guerra e Paz, que só a ajuda e dinâmica de serviço público da Sociedade Portuguesa de Autores tornou possível. A ler agora.

Claude Chabrol

Dos realizadores estrangeiros em visita à Cinemateca, nenhum foi mais extrovertido, empático, nonchalant e bon vivant do que Claude Chabrol, Fui eu o organizador do ciclo e do catálogo e tocou-me, por isso, ser o seu “guia. Mas o Luís de Pina (nas duas fotos) e o João Bénard (na de baixo) eram, é claro, os mestres sábios. Eu seguia-os. Depois desta sessão, fomos beber copos e comer bifes para o Bacchus (acho que se chamava assim), em frente ao Teatro da Trindade

Infelizmente não tenho fotos de outro francês, o Jacques Demy, que era também, no seu estilo mais suave, uma ternura e com quem partilhei aguardentes, quando ainda se podia beber do mesmo copo. Nem tenho fotos do georgiano Paradjanov, com quem jantei, com o Manuel Costa e Silva, director de fotografia e realizador, no velho Paris, na Baixa, o mais “anos 60” dos restaurantes da baixa pombalina, desaparecido há uns bons anos.

Mas ninguém sorria e ria, contente de estar a papar a vida ao segundo, como o feliz Chabrol!

Vamos bater em Dostoievski!

Agora que todos cortamos no açúcar e no sal, eis o que vos quero dizer: a surpresa é a pimenta da vida.

Ia começar por mim, mas logo me deparei com o escândalo de dois escritores. Dostoievski tinha a excitação do espancamento. Os seus romances são vastas e abismais paisagens de injúria e humilhação, em que os actos masoquistas se multiplicam como estrelas no céu. Surpresa: só nos “Irmãos Karamazov” há setenta e cinco cenas – e atrevam-se a desmentir-me, se puderem – em que personagens se aviltam, dobrando-se, ajoelhando-se ou beijando o chão face a outras personagens. Ou seja, sofrem fisicamente e gostam de sofrer, como Dostoievski gostava de ser punido: bastava-lhe até que a castigo físico fosse mimado para ele se excitar.

E falo agora da professora de Jean-Jacques Rousseau, que nunca leu esse Dostoievski ainda por nascer. Descobriu, surpresa e assustada, que o menino Jean-Jacques adorava que ela lhe batesse. Com palmatória? Nas mãos, no filosófico posterior? Ela descobriu, diz-se, tarde de mais: Rousseau ficou adicto, um espancófilo. É ele que há de escrever “Emílio ou a Educação” propondo uma nova pedagogia ao mundo. Nas “Confissões”, o apologista do remorso que é Rousseau, anuncia candidamente que só o espancamento lhe desperta a sexualidade.

E, antes de falar de Alexandre Dumas, cravo-me eu aqui, entre escritores. Peço desculpa, mas não me dobro, ajoelho ou beijo o chão: nem tenho nenhuma confissão a fazer. Lembro-me só de uma das mais misteriosas surpresas da minha vida. Vivia no Lobito, em 1975. Na guerra da independência de Angola, tomei partido e tive de recuar – Mark Twain, com o seu gosto pelo exagero, diria fugir – quando Unita e África de Sul atacaram a cidade. Voltei, meses depois. O meu velho dois cavalitos tinha sido queimado e, no apartamento, por onde passara o caos, sobrevivia, ileso, o meu exemplar do “Pequeno Livro Vermelho”, do abominável Mao Tsé-tung. Há a lenda de que a uma explosão nuclear só as baratas resistem: aquele livrinho era o indemne insecto no meio da sala apocalíptica.

Há quem saiba transformar em doce a amarga surpresa. Alexandre Dumas, o pai, nunca foi um exemplo de fidelidade. Casara-se com Ida Ferrier atraído por um dote que lhe pagou muitas dívidas: Ida foi o seu banco bom. Uma noite de tempestade fê-lo voltar a casa. Encontrou na cama de Ida outro homem, o seu melhor amigo Roger de Beauvoir, padrinho desse casamento. Ainda houve um segundo de paralelepipédica fúria córnea, e quem sabe se Alexandre Dumas não teve até vontade de bater em Dostoievski, mas ouvindo a gelada angústia do vento e da chuva lá fora, Alexandre Dumas deixou que tombasse a pax romana naquele quarto: “Ajeitem-se, por favor, e arranjem espaço para mim!”

E deixem-me contar uma história que, por bem trovata, merecia, não o sendo, que fosse verdadeira. É a história que se conta de todas as actrizes mais mediáticas ou pulposas do que propriamente talentosas. Acreditemos, então, que Pia Zadora representava o “Diário de Anne Frank” num palco nova-iorquino. A peça arrastava-se e a Zadora daria de Anne Frank uma imagem catequista e intragável. Espectadores engoliam punhos para afogar o tédio troiano. No palco, batem à porta, Zadora esconde-se. Logo, à procura da adolescente, entram os faunescos – perdão, ciclópicos – nazis. O mais ultrajado dos espectadores, sem tempo a perder e para evitar surpresas, grita do meio da sala: “Ela está escondida no sótão!”

A verdade não tem graça nenhuma: Pia Zadora nunca representou “O Diário de Anne Frank”. Tem mais graça bater em Dostoievski.

Wim Wenders

Todas as fotos têm uma história. Esta também. O João Lopes e eu éramos ao tempo programadores da Cinemateca e críticos de cinema no Expresso. Fomos entrevistar o Wim Wenders. O Paulo Branco, é claro, tinha-o trazido, e já não sei se foi antes ou depois, filmou com ele em Lisboa. Se bem me lembro almoçámos e conversámos no terraço do Hotel Tivoli e fomos depois andar pelos telhados de Lisboa, mais concretamente pelos do cinema Éden, nos Restauradores. Tinha acabado de ser fechado o cinema, mas ainda, no nosso idealismo, pensávamos que o poderíamos salvar. Nem as asas do desejo de Wenders fizeram o milagre. O Éden tombou e foi Virgin, primeiro, e hotel depois, sabe Deus para quê, que tudo durou bem menos do que as décadas de fitas, tiros e beijos do Éden.
O João e eu aprimorámo-nos com gravatinhas. O Wim Wenders parece saído do nova-iorquina Interview e o Paulo está com um dos mais selectos penteados que algum dia lhe vi, apenas uma traiçoeira fralda a assomar por baixo do pullover.

Cinemateca: três doces sobressaltos

A Cinemateca

No princípio não era só o Verbo. Era o Verbo e era a Lata em que se enrolava, como a coleante víbora do paraíso, o nitrato ou acetato do filme. Naquele tempo, em verdade, verdade vos digo, a Lata era o Pão de que se alimentavam as nossas descuidadas bocas. No princípio, nesse verdadeiro Génesis, que foi o nascimento da Cinemateca Portuguesa – rabinato e papado que me perdoem –, a Lata, a sagrada Lata fazia o papel do Pai Celestial que provê aos biquinhos das aves do céu e faz crescer os lírios do campo. A Lata era o Verbo, a sala de cinema o seu templo.

Lembro-me de ter ouvido, não sei se há dias, se há vinte anos, uma professora com um decote deleuziano a falar da sala de cinema, espaço e tempo e coisa e tal. O decote cerzia a sala toda em rizomas, suspensão e movimento. Deixo-me morrer devagarinho nesse decote desconstrutivista e, já de olhos fechados, recordo três doces sobressaltos épicos da minha pequena vida de programador de cinemateca.

Um espectro que assombra a humanidade

De repente, com a boca a saber-me a madalenas, lembro-me do Grande Auditório da Gulbenkian na noite em que, mil e duzentas pessoas a transbordar das cadeiras, balcão e plateia em overbooking, o João Bénard subiu ao palco para apresentar, em sessão dupla, o Nosferatu de Murnau e o Nosferatu de Herzog.

Era a Cinemateca transplantada para a Gulbenkian e parecia o costume, uma sala contente de o ver e ouvir, à espera de imagens e de movimento. Veio o escuro e veio a avassaladora mudez do filme de Murnau, num tempo em que as cinematecas ainda projectavam filmes mudos sem música. A surpresa do total silêncio para uma plateia sem hábitos desse cinema, sem o hábito dos gestos desmesurados de Max Schreck o mais nosferatu, o mais vampiro que um actor algum dia se deixou filmar, fez a sala tossir, pigarrear.

Normalmente, abafados pela banda sonora, no cinema não nos ouvimos. Ali, a sala ouvia-se: mexer o rabo na cadeira ouvia-se, engolir ouvia-se, bater as pestanas também. E a sala, nervosa de se ouvir, frente a um ecrã de sombras, medo e silêncio, começou a rir-se. Foram os primeiros vinte minutos de cinema mudo mais memoráveis, caóticos e irrespeitosos de que me lembro: até que o filme de Murnau, sinfonia silenciosa, raptou os risos, as gargantas e os catarros, os rabos inquietos e, dos anos 80 em que estavam, levou os espectadores para os anos 20.

Nada se compara à experiência que é o espectáculo de uma sala a render-se a um filme, uma sala a descobrir o sublime em gestos que, sem a confiança da entrega, seriam ridículos, mil e duzentas pessoas desconhecidas, odiosamente diferentes, com o sangue gelado pela nocturna silhueta de um vampiro que só pode ser vencido pela gloriosa luz da aurora. Uma sala e é a humanidade toda junta, irmanada, no canto escuro, esconjurando os mais assombrosos espectros.

Luís de Pina, fotógrafo, e eu, embevecido, a ouvir o Eng. Belmiro de Azevedo

Tinham mães que os amavam

 E saio da Gulbenkian. Chama-me à sala da Cinemateca, Luís de Pina, que por ser dela director era meu director também. Chego e vejo que a calva e resplandecente cabeça de Luis de Pina paira sobre um tormentoso mar punk. Já voltaremos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filosofia social: desiludam-se os proactivos, não cria comoções sociais quem quer e, às vezes, nem quem pode.

O João Bénard concebera um megalómano Ciclo do Cinema Musical. Sonhávamos com plateias a cantar e dançar o Singin’ in the Rain. Entre as obras-primas escolhidas para ovação e aclamação, o João deixou escorregar um filme mais recente, piscadela de olho a uma minoria juvenil, que se vestia de negro e primava pelo brilho metálico.

Era o The Great Rock and Roll Swindle e foi programado para a então única sala da Barata Salgueiro, de uns compostinhos 250 lugares. O que aconteceu foi tudo menos composto. O filme era o dos alucinantes Sex Pistols de que faziam parte o malcriadíssimo e mal-cheiroso Johnny Rotten e o negramente lendário Sid Vicious.

De repente, duas da tarde no arabizante palacete da Cinemateca, da rua emergem vagas também malcriadíssimas e mal-cheirosas. Onda a onda, iam-se acastelando miúdos e miúdas de furiosos cabelos espetados, farpas negras ou de cores néon, mil brincos a rasgar orelhas. Vestiam de negro, um negro que de luto nada tinha.

Comiam pastéis de bacalhau, arroz que a mãe de algum fizera (tinham mães que os amavam, claro), e bebiam litrosas de tinto. Punks. Estávamos, até à rua, inundados de punks. Já tínhamos visto meia-dúzia. Descobríamos que eram um exército e não cabiam no cinema.

A Cinemateca não tinha telhados de vidros, mas eram de vidro as portas da sala. A pressão das botas negras da infantaria punk fez-se sentir. O nosso porteiro teria pouco mais de metro e meio. A ele podia eu gabar-me, mas não muito, da minha altura; voluntariei-me para parlamentar à massa ululante. Observaram-me com curiosidade entomológica: um coro de arrotos e outros flatos fez-me recuar.

Com o seu amável corpanzil de Robert Mitchum, surgiu o Luis de Pina. Olhar e palavras doces, apelou à compreensão ciclónica dos punks portugueses. A um ligeiro movimento de alívio e aparente conciliação seguiram-se ultrajantes manifestações de alegria que compreendiam homéricas cuspidelas e – volto a ver aqui a calva cabeça – uma escura bota a cruzar os ares, visando o meu director. Não sei o que é que eles respiravam, mas os vidros ficaram aflitos e embaciados e o da bilheteira estalou com estrondo. A alegria punk é assim, física, corporal, sem dualismos cartesianos: o corpo é a alma. Chegou a polícia, o sossego do cassetete.

As primeiras imagens do filme mandaram a sala ao chão. O que lá dentro se berrou, lá dentro ficará para sempre, e o triunfo da escatologia que se seguiu teve de ser lavado durante uma semana. Sim, era o público entregar-se, espontâneo, a um filme! Não há doutor nem engenheiro social que invente uma comoção daquelas.

Depois do “Je Vous Salue”, fomos jantar. Mas este é outro jantar: que volta estarei eu a dar ao João Bénard?=

Ave-maria cheia de graça

E volto ao decote deleuziano. Sai dele, como a língua do Espírito Santo, Jean-Luc Godard, exemplo supremo da alta costura francesa. Filmou, da Virgem Maria, uma estranha anunciação. Chamou-lhe Je Vous Sale Marie e não há, no Portugal de 1985, distribuidor que lhe pegue. Pegou-lhe a Cinemateca que o está já a exibir. Entremos na sala.

Entrámos e veja-se: o caldo entornou-se. Um jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: “Gostava que fizessem isso à sua mãe?” Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala.

Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse a exibir o filme. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos. O João foi claro: “Nessas coisas sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos.”

Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou. Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus.

Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, o Grave e o Gigante, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no rendidlhado portão da rua. Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema.

A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma dúbia excitação, misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em ave-marias e salve-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas.

As luzes reacenderam-se iluminando um belo e poético caos. Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que Je Vous Salue Marie era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cineclubistas, com danada nostalgia comunista, apontavam à polícia os insurrectos: “É aquele… e aquele”. Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas bufavam à polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: “Pides.” 

Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: “Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível!” Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriam Roussel no filme apóstata de Godard, repetindo prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?