Um grande pontapé na biografia

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Philip Larkin

Tanto quero que se lixe o estruturalmente falecido Roland Barthes, como quero bem que nasçam cravos no nariz aos vigilantes politicamente correctos que não saem de cima, digamos assim dos artistas selvagens a ver se ninguém os f-f-frui.

Andava eu, todo jovem, a passar creme de Paris, linha Vincennes VII, na minha linda forma de me cevar nas artes, quando essa pecaminosa devassidão foi baratinada pela ideia barthesiana de não haver autor. Seria, simplifico eu, a linguagem que redigia o texto e lhe dava sentido, borrifando-se para as intenções do escrevente. E logo, tinto a alastrar em toalha branca, do escritor a coisa se espalhou ao pintor, ao cineasta.

Ora, isto é o mesmo que dar um pontapé no cu ao contexto biográfico. Zanguei-me: acho o pontapé no cu humilhante e eu já era de ameno tu cá, tu lá com o fraterno contexto biográfico.

Bêbado, William Burroughs deu um tiro nos miolos da mulher, a fazer com ela o jogo de maçã e seta de William Tell – é um acto cuja sombra sórdida acompanha cada linha da leitura de “Naked Lunch”. Jean Genet era ladrão. Alfred Hitchcock encostou à lúbrica parede chantagista o louro corpinho de Tippi Heddren. A T.S. Eliot e Virginia Woolf roía-os a acidez do anti-semitismo, e Patricia Highsmith disse, infame, que o Holocausto só era um Semicausto por ter liquidado apenas parte dos judeus.

Esta crápula danação biográfica, ao contrário do insidioso conselho da angélica brigada dos novos censores, não me afasta e até me aproxima das obras de irrecomendáveis criadores. Como o esplêndido Sol a bater no mar oscilante, nas obras cintilam reflexos de perturbação convulsa, às vezes assassina, como a de Caravaggio, ou a da menor romancista policial Anne Perry, que com uma amiga matou a própria mãe.

Nem todos os admiráveis poetas podem, como Tolentino Mendonça, ser convidados para o Vaticano. Se nos atrevemos a frequentar a inquietante caverna do humano, temos também de afrontar a negríssima luz de algumas sublimes, mas terríveis obras de arte. Luz que tanto sai de mãos eucarísticas, como de mentes misóginas, racistas, pedófilas, seja de um Polanski ou da nazi Leni, de Villon, Balthus, Larkin, Woody Allen. A biografia é um purgatório moral. Destemida mistura de céu e inferno, a obra de arte bate com estrondo a porta na cara a toda a moral

A primaveril passarinha

CaineDe pé, vítimas do anonimato, pindéricos da terra. De pé, de pé. Tipos como nós, como eu, nunca teremos na ponta da língua o doce sabor da celebridade e da fama. Bem podemos usar à vontade sapatos de camurça.

E já me embalo a contar a história dos sapatos. Hoje, o actor inglês Michael Caine nem sequer precisa de uma perna às costas para fazer de velho. Mas que novo que ela era nos anos 50! Os americanos raptaram-no, num Rolls-Royce de ouro, e puseram-no num hotel de Sunset Boulevard, em Hollywood. Veio visitá-lo John Wayne, então epítome da celebridade, nesse tempo em que ser actor era mais importante do que ser presidente. E ao conto acrescento um ponto: veio visitá-lo de helicóptero. Queria elogiá-lo. E anunciar que o cinema ia ser para Caine uma terra de leite e mel. E foi.

Wayne queria também dar-lhe um conselho. Ouçam a estranha, rachada e íntima voz de Wayne: “Michael, há dias, num restaurante, fui à casa de banho. Fecho os olhos e começo a aliviar-me. Um tipo ao lado, olha e grita, ‘és o John Wayne, não és?’, volta-se, e ao virar-se para mim, mija-me os sapatos todos. Eram de camurça e fiquei com os pés encharcados. Agora, que vais ser famoso, nunca mais uses sapatos de camurça.”

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Os sapatinhos de Caine

A Michael Caine, tão classe operária que ele era, como o eram Sean Connery, Peter O’Toole e Richard Burton, ninguém lhe mija para os pés. Converteu-se num modelo de elegância, espelho da aristocracia inglesa. Não obstante – se permitem a selecta adversativa – não o vejo, ao contrário de uma legião de meios famosos, aproveitar-se da celebridade, cevando-se no privilégio. Também não quero exagerar e dizer que Caine seja um Luís VIII, fidelíssimo rei de França.

Explico-me. Luís VIII não foi só rei de França. Invadiu a Inglaterra, tomou Londres e foi proclamado soberano, num rotundo e real desmentido que o raio da ilha não pode ser invadida e que ninguém arreia nos saxões. Mas não é do Brexit que estou a falar. Quero é gabar a coragem física, coragem de século treze, de Luís VIII. Veio de Inglaterra e desceu ao sul de França a chacinar cátaros e albigenses. Hereges, enfim. Não estamos, portanto, a falar de um menino, mas de um gaulês rijo, um jogo de braços com a espada que rivalizaria com o jogo de pernas de Platini ou Zidane.

Tinha era uns intestinos de menino, e num tempo em que as pensões ainda não eram a águas correntes, frias e quentes. No regresso, aviados os albigenses, deu a Luís VIII, a meio caminho, uma diarreia que valha-nos Nosso Senhor. Tentaram tudo os físicos de sua alteza. Até que, conselho de John Wayne ou não, alguém alegou que a francamente exagerada continência sexual do soberano era a má razão daquele real e tão tumultuoso esvaziamento rectal. Atacava-lhe os nervos e os nervos, já se sabe, é da nascente à foz.

Os solícitos nobres descobriram uma virgem, para o curar. Lavaram-na, perfumaram-na e meteram-na no leito do agora fétido Luís VIII. Assim a meteram, assim a tiraram. O bravo rei, fiel a Branca de Castela, sua mulher, rainha a quem fez 14 filhos, em 26 anos pontuados pelas estocadas de tantas guerras, recusou com bons modos a nua virgem, negando-se a fazer outonal tão primaveril passarinha. Fiel à rainha e fiel ao mandamento do seu Deus, não cobiçou outra mulher, esvaiu-se e morreu.

A nós, alheios às delícias de vida dos que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, resta-nos ser as figuras pequeninas, escondidas ao fundo da sala, a rirmo-nos, em memórias e crónicas, dos seus sapatos de camurça, da sua escorraçada virgem.

Publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Careca

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Quem é que, naquele tempo, tinha uma cabeça mais lisa e alva do que o deserto do Namibe? Tenho de perguntar ao Abílio e ao Simão, meus mais-velhos dos felicíssimos anos 68 e 69 da Luanda colonial. Talvez o careca fosse o Senhor Pinto, Mr. Magoo da minha remota rua. Sentava-se ao volante do caquéctico e negro Volkswagen e, de fora, só se via a calva elipsóide da sua cabeça. Foi o primeiro carro de condução autónoma que vi circular, deixando atrás de si um alvoroço de gritos, buzinadelas, gente a salvar-se saltando muros: “Abre, muadié!”

O careca não tinha prestígio, é o que, compungido, quero dizer. O careca ou era o velho, nesses tempos pré-viagra em que não se ia novo para velho, ou então o careca era o chorado menino de sua mãe, novíssimo, máquina zero, chamado à tropa para mata-mata, se não morres tu.

Eu tinha um caracol. Tombava displicente sobre o lado direito da testa e acalento a longínqua e meiga ideia de que terá mesmo despertado alguns precoces instintos maternais. Por mais afagos com que o tenha enrolado algum gentil e adolescente indicador, esse saudoso caracol era uma sentinela. Protegia as generosas entradas que prefiguravam a calvície por chegar. A pérfida e vergonhosa calvície.

Uma matinée espatifou essa Weltanschauung. Tanto se dá que tenha sido no Cinema Império, na Casa do Alentejo ou no São Domingos dos padres capuchinhos. Foi na Luanda negra que parecia branca, no começo de uma noite cálida, em que nem sequer se sentia o intestino rumor da obstipada História. Toda a História, sobretudo a que, então e nossa, era tão adolescente, se silencia face à dimensão faraónica de Ramsés II. O filme era “Os Dez Mandamentos” e quando a cabeça de Yul Brynner encheu o ecrã, a glória do close-up arrancou-nos um entusiasmo apopléctico. Não havia só a careca burra e velha. Estava ali, lisinha e em grande plano, a careca inteligente e real, a redonda cabeça perfeita, brilhante espelho de poder e glória. A careca de Yul Brynner, egípcia, glabérrima, sem pêlo ou cotanilho, era soberba obra humana, delicadamente traçada à navalha.

Nessa matinée, nem sei se dava a mão a alguém, o meu displicente caracol encrespou-se. Yul Brynner era o Nietzsche que, morte de Deus capilar, remetia a cabeça à sua irremediável e tentadora solidão primordial.

Onze mil vergas

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Bica Curta bebida no CM, no passado dia 28 de Março

Jogar Dyego de Sousa na selecção deixa enxofrados os puristas do patriotismo, que logo gritam “vai para a tua terra” a quem tenha sotaque ou uma corzinha.

Uma glória das letras francesas foi Guillaume Apollinaire. Mãe polaca, pai italiano, nascido em Roma. Adoptou a França que, primeiro, lhe recusou naturalização. Apollinaire bateu-se na I Guerra e deram-lha a nacionalidade dias antes de ser ferido na cabeça, em combate. Morreu por uma pátria que foi sua só 32 meses. Isto sim, é patriotismo. Tomo a bica a ler “Onze Mil Vergas”, obra erótica dele. Aconselho-a aos patrioteiros. Senão as onze mil vergas, vá lá, levem ao menos uma.

Libertação e atraso

colonialismo

Bica Curta servida no CM, no passado dia 27 de Março

Em 1975, estava eu em Luanda, de bica cheia com o povo que conquistava a independência, libertando-se do jugo colonial.

Fechava-se em Angola o ciclo iniciado nos anos 60, na Argélia, ciclo de um certo modelo revolucionário de libertação dos povos colonizados, com indisfarçável apoio soviético. A Argélia quer agora sair da estagnação, do cemitério assombrado onde se enterrou há 60 anos. Muito se culpou o colonialismo por esse atraso. É preciso dizer, hoje, que o modelo de libertação, mescla de marxismo e Frantz Fanon, foi também, da Argélia a Angola, um passaporte para o desastre. Não tinha um pingo, uma ideia de desenvolvimento.

A bomba atómica

Hitch

Talvez explodisse a uma fulgurantíssima terça-feira. Ou a um domingo, apanhando a família a comer caranguejos, na casinha colonial que tínhamos em pleno musseque Sambizanga. Estava para explodir a bomba atómica que apagaria da face da terra a afrodisíaca insatisfação da humanidade. A bomba atómica foi-me apresentada em 1959, mal comecei a ler. A apocalíptica bomba vadiava nos jornais, mesmo na revistinha “Missões e Missionários”, que por caridade e devoção a minha mãe assinava. Do porto de Luanda, traficado num barco conradiano, o meu pai trazia-me esse baluarte americano que era o “Reader’s Digest”. Nele aprendi a soletrar atomic bomb, antes do exagero optimista de qualquer good morning.

Todos sabemos que a bomba atómica foi inventada por Hitchcock. Havia uma cave repleta de urânio numa improvável casa do Rio de Janeiro, insidioso pretexto hitchcockiano para meter Ingrid Bergman na cama de quem ela não amava, de resto a única forma que Hitchcock supunha ser a de meter uma mulher na cama. O filme, “Notorious”, revelou o segredo da bomba atómica e urdiu o beijo na boca de dois minutos e meio.

Um código de mau hálito proibia no cinema beijos com mais de três segundos. A proibição excitou o anafado espírito de contradição de Hitchcock e eis que ele inventa o longuíssimo beijo pré-adúltero, pondo Cary Grant e Ingrid Bergman a colarem e descolarem as bocas a cada três segundos, num erotismo delicado e sôfrego, servido, sem cortes, em plano sequência. São os mais humedecidos e sussurrados dois minutos e meio da história do cinema.

E não é de sussurros, mas de um épico estrondo que quero falar. Claude Rains é um nazi filho da mãe, casa à força com a democrática beleza de Ingrid Bergman e tem garrafas de urânio escondidas ao pé de báquicos Premier Cru de Bourgogne. Foi antes da fatídica Hiroshima que o filme começou a ser preparado e ninguém sabia o que era esse pó de urânio, a não ser o então omnisciente FBI. Hitchcock esteve para ser preso e, fosse ou não pela mão dos nazis amigos do Claude Rains de “Notorious”, o urânio chegou à impenetrável Cortina de Ferro.

A bomba trouxe um medo absoluto de fim do mundo a um mundo dividido ao meio. Traria depois o riso absoluto de outro filme, “Dr. Strangelove”. Felicidade atómica: nada é mais inspirador do que o medo e o riso.

 

Os meus micróbios

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Parece que não, mas somos nós a pensar. Imagem dos laboratórios Rocky Mountain

Bica Curta bebida no CM, na 3ª feira, dia 26 de Março

Não volto a tomar a bica curta sem antes perguntar aos meus micróbios intestinais. Temos uns cem mil milhões no aparelho digestivo. Dizem que essas bactérias fazem dos intestinos o nosso segundo cérebro, condicionando pensamento e acções. A ciência não jura, mas garante que o intestino é o “grande timoneiro” do nosso equilíbrio e saúde. Temos diferentes perfis microbianos: as bactérias de cada um comem, e gostam, se assim se pode dizer, de coisas diferentes. Por 500 €, um laboratório, o my.microbes.eu, analisa esse perfil.

E se ensinassem Trump, Maduro, Putin, Kim Jong-il a tratar melhor as respectivas bactérias intestinais?

A bailarina adormecida

Se pensam que escrevi agora este artigo, desenganem-se. Publiquei-o no Semanário,  a 18 de Novembro de 1989. A RTP 2 ia exibir Party Girl, filme de Nicholas Ray cuja raison d’être era, da cabeça aos pés, passando pelas pernas, uma mulher, Cyd Charisse. Fora bailarina, Nicholas Ray sabia que ela era uma actriz.

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A bailarina adormecida

As pernas de Cyd Charisse pediam seda. De Gene Kelly a Vicente Minnelli, não houve cineasta que o não soubesse. Em Party Girl, chamado em português, com relativo despropósito, A Rapariga Daquela Noite, Nicholas Ray não o ignora, mas põe-se a pensar noutra coisa, ainda que os espectadores fiquem sempre, de olhos arregalados, a pensar na mesma coisa.

Cyd Charisse nasceu em Singin’ in the Rain. Há outros títulos antes, mas quem é que quer saber deles! Não chovia quando pela primeira vez ela aparecia no filme. Nem sabemos se é bem ela, se é um favor dos deuses aquela perna longuíssima que a câmara de Gene Kelly e Stanley Donen percorre lentamente, em êxtase e reverência. Collants de seda negra a rasgar o vestido verde. Com essa imagem, e como reincarnada Loulou, Charisse dança o «Broadway Ballet». Vamp para o consolo de gangsters. E voltou a ser vamp entre gangsters, ao lado de Fred Astaire noutro famoso bailado («Girl Hunt») de outro famoso filme Bandwagon de Minnelli.

Só falta falar de mais três filmes, para citar os cinco musicais que fizeram dela a única rival de saias de Fred Astaire e Gene Kelly: Brigadoon, It’s Always Fair Weather e Silk Stockings. No primeiro, vinha do fundo do tempo e da lenda, belíssima e irreal como nos contos de fadas. Entrava aos beijos em Fair Wheather e tão depressa punha Gene Kelly K.O., como, de blusa e saia verde (a cor dela), atirava ao tapete um ginásio cheio de pugilistas. Em Silk Stockings, era a mesma «camarada Ninotchka» que Greta Garbo fora para Lubitsch. E onde pela primeira vez na tela se vira Garbo a rir, víamos outra, outra e outra vez Charisse dançar. De meias de seda, que vestia depois de tapar os olhos ao retrato de Lenine.

Em Party Girl, reparem como essas anteriores imagens de Cyd Charisse constituem o fundo da personalidade da sua personagem no filme. Num filme de ouro e púrpura, Charisse foi o que Nick Ray acreditava que ela podia ser: bailarina pelo passado, actriz trágica em cada plano. Chamou-lhe Vicki Gaye, bailarina adormecida, corpo cansado de mulher, sempre a deixar a cair aos pés a pele de um casaco.

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