Sonda o meu coração no meio da noite

Já se sabe que eu – sabe Deus porquê – não resisto às iniciativas da Guerra e Paz editores. E esta é uma iniciativa de crowdfunding que visa a publicação de uma recolha de cartas e mensagens de despedida de vítimas do Holocausto aos que lhes eram mais queridos. Um livro que a língua portuguesa e os leitores dela que nós somos, merece conhecer. Ora leiam a mensagem do organizadores:

O Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização – IEAC-GO, está a promover uma campanha de crowdfunding, com o apoio da Guerra e Paz Editores, para a publicação do livro «Sonda o Meu Coração no meio da Noite. Cartas de Despedida e Anotações da Resistência ao Terceiro Reich (1933-1945)». Trata-se de uma antologia de textos de vítimas do holocausto, que inclui cartas de despedida, ano recolhidos por Dietrich Bonhoeffer, Anne Frank, Edith Stein, Kaj Munk.

Para levar a cabo esta edição, o IEAC-GO precisa do seu apoio e do seu contributo. Apoie esta edição, até ao próximo dia 30 de Novembro, com a aquisição antecipada da obra, no valor de 15€, e receba de oferta: «O Principezinho» + um dos três exemplares constantes do flyer abaixo. Para mais informações consulte o site do IEAC-GO, em: https://bit.ly/37SU2f8

Fu Fu, marechal-em-chefe

Fu Fu foi o mais fofo marechal-em-chefe da Força Aérea tailandesa. Fu Fu é o caniche do príncipe Maha Varijalongkorn, hoje por hoje, rei da Tailândia. E neste exemplo, sim, é que o velho PAN, com todo o seu pedigree, devia ter-se lambido.

O príncipe, iludindo a raivosa discriminação e ignominiosa desigualdade que os execráveis humanos dedicam à raça animal, comemorou a promoção castrense do caniche convidando para um jantar de gala a nobreza Tai e os diplomatas acreditados. Fu Fu sentou-se a essa mesa. Veio de negríssimo smoking, luvas brancas nas suas quatro patinhas de marechal-em-chefe, e com a graça que assiste a esses seres que, como dizia a minha avó, “caem em graça, que é bem melhor do que serem engraçados”, passeou-se pela mesa, lambendo pratos e bebericando com delicadeza de todos os copos, a começar pelo do embaixador do ex-imperialismo americano.

Vejam, John Oliver, o paródico protagonista do programa televisivo Last Week Tonight, com aquela intolerável incapacidade de empatia própria do macho americano branco, ridicularizou este evento solene e hierático. A rotunda felicidade do nosso tempo é que este tipo de impunidade acabou. Um documento secreto do serviço militar Tai, profusamente divulgado na Imprensa e afins, que é o que se espera dos documentos secretos, acusa o rasteiro americano de lesa majestade, susceptível, por isso, de 15 anos de prisão e alguns mimos e bónus na cárcere, logo que os militares à ordem de Fu Fu lhe ponham a patinha em cima.

E, se não minto, estou pelo menos a omitir: Fu Fu entretanto morreu. Tombou com a dignidade de um pequeno mas peludo guerreiro. Da Força Aérea Tai, claro, com o céu por limite. O príncipe Maha Varijalongkorn decretou que lhe fosse prestada homenagem e se seguissem os quatro dias de rituais fúnebres budistas – embora a admirável reserva de Fu Fu sobre as suas convicções deixe os biógrafos incertos e perplexos quanto à sua piedade e inclinação metafísica.

Divaguei, mas quem não se perde, enternecido, com Fu Fu? Ora, eu queria era falar do rei Maha Varijalongkorn. Herdou o trono do seu pai, que talvez o tenha arrebatado dando um só tiro de Colt.45 – one shot, à Robert De Niro, em “O Caçador” – ao herdeiro, seu irmão.  Ou não. Talvez tenha sido um acidente, ou talvez o irmão tenha sido assassinado pelos dois criados do palácio que, acusados da matança, tiveram execução limpinha. Do pântano nasce a flor:  Bhumibol, o pai de Maha, guiou a Tailândia à democracia e ganhou o coração e a mente do povo.

Nas ruas de Banguecoque, o povo, em crime de lesa majestade, ergue hoje a sua voz incendiada contra o novo rei. Gritam “Abaixo o feudalismo” com muito mais convicção do que o nosso querido e geriátrico pê cê grita “Abaixo a reacção”.

Maha é um rei lúbrico. Nem é tanto o segundo casamento com uma actriz soft-porno, que depois escorraçou e perseguiu, espalhando no palácio cartazes a chamá-la adúltera, e obrigando-a a refugiar-se no quinto dos infernos que é a América. E nem será só o facto de ter criado o posto de Nobre Concubina Real para a amante, três meses depois de ser coroado e de casar com a rainha. Agora, na pandemia, abandonou a Tailândia, fechando-se num hotel alemão com um harém de 20 concubinas, que são levadas a uma, não se sabe se bem ou mal denominada, sala dos prazeres, para deleite de Sua Majestade. No harém, as concubinas, têm todas o mesmo nome, Sirivajirabhakdi, a mesma roupa, o mesmo corte de cabelo, e uma inescapável patente militar. Da Força Aérea, claro, nostalgia do imortal Fu Fu.

Publicado no Jornal de Negócios

Tenha Prazer: Dê!

Há algum prazer mais genuíno do que o prazer de dar? A Guerra e Paz quer ajudá-lo a sentir esse sabor simples e amoroso. Tenha prazer: dê! Mas não deixe que esse prazer seja prejudicado por não corresponder à pessoa agraciada. Dê e personalize a sua oferta.

A Guerra e Paz abre hoje oficialmente uma campanha com 9 prendas personalizadas – cada uma com três livros e com um homérico desconto. A Guerra e Paz tem prendas em verso, prendas na ponta da língua, prendas transgressoras ou de luxo, mesmo prendas que riem ou prendas que a História dá. Estão em exclusivo, apenas no nosso site.
Ah, quer saber o que é um desconto homérico? Com uma coragem de Aquiles, do custo original de 106,50 € passámos a prenda de luxo para 40€. Por prazer. E três das prendas personalizadas – sempre com três livros cada – custam apenas 20€.

Mas os leitores que querem apenas um livro, têm à sua disposição, aqui, estes 101 livros, com preços a começar nuns liliputianos 6€, de um álbum de Picasso à Tabacaria, que o senhor Pessoa escreveu escondido dentro de Álvaro de Campos.

Ilumine estes tempos sombrios, liberte este Natal vigiado: dê a ler e leia. A Guerra e Paz quer ajudá-lo a sentir o sabor simples e amoroso de dar. Faça-nos o favor de ter prazer: dê!

O romance de Pedro Bidarra

– Conheces o gajo?
– Não.
– Ele diz que só sai em troca de duas gramas.
– Dois.
– Dois?
– Ya. Grama é um nome masculino. Já se pedisses três não havia problema de concordância.
– Ok. E tens três gramas?
– Eu? Estás‑ma estranhar, ó pula. Tenho cara de dealer só porque sou preto?

Vamos ser claros: este livro não é para flores de estufa. Há livros que nos agitam, enervam, excitam ou revoltam. Há livros angustiantes, há livros carregadinhos de emoção e outros epifânicos. Azulejos Pretos agita, enerva, excita, revolta, angustia, emociona e, se não desagua numa epifania, talvez desagúe numa antiepifania.

Sejamos ainda mais claros: Azulejos Pretos é um romance de Pedro Bidarra. Começa assim: «A porta é preta, a retrete é preta, o tampo é preto, o papel higiénico é preto.» Neste cenário, uma casa de banho, está o narrador que vai viver, e os leitores com ele, uma noite de reencontros, de surpresas inóspitas, de acidentes sulfúricos e de memórias revisitadas. Numa Lisboa fora de horas e fora de sítio, entre a arte e a vida, o tempo e a memória, a porta abre-se e, na casa de banho preta, entram e ajoelham-se modelos de vestido preto e justo, poetas, dealers, criativos, gestores, artistas, até um padre. Figuras reais da noite de Lisboa.

Sim, também é um roman à clef, mas a torrente inventiva de Pedro Bidarra oferece às suas personagens doses generosas de um realismo que descarta o circunstancial e lhes dá universalidade. Sendo o romance de um convulso anti-herói, Azulejos Pretos é um fresco cínico, satírico, ácido, mas também escondidamente enternecido das últimas quatro décadas da nossa vida. Contadas e rememoradas numa só noite, numa casa de banho de azulejos pretos.

Voltemos a ser claros, a ver se nos entendemos: este não é um romance do passado, este é um romance que mete os dentes no presente e o morde com uma coloquialidade tempestuosa rara no romance português.

– Falaram de cu?
– Falaram.
– São tão parvas.
– Elas nunca tinham experimentado
– O quê? Cu?
– Não, coca.
– Normalmente cheiram K. Já ninguém cheira coca – disse a Beatriz. Afirmação que contradizia a minha experiência e os dados da Organização Mundial da Saúde e do Observatório da Droga.
– Nunca experimentei – disse‑lhe.
– O quê, cu?
– Não, K.
– E queres?

O anti-herói de Azulejos Pretos bate de cabeça no presente, neste novo mundo em que vivemos, com um cepticismo vagamente nostálgico e desencantado. Dos novos comportamentos, da galeria de novos protagonistas que pululam na cidade, dá-nos um retrato cru e impiedoso, com uma mancha gritante de humanidade. Azulejos Pretos é, para sermos claríssimos, um romance contemporâneo politicamente incorrecto. Muito. Um romance que, como todo o escândalo, anseia pela sobriedade.

Eis o povo de Azulejos Pretos: pulas e blacks, gays e falsos gays, um padre, um polícia e o seu amante, um poeta, o Günther, artista sem obra, «que vive no meio do meio», um assistente de realização, o Dantas, que «tem os cordelinhos todos atados aos dedos», vegans e lésbicas, a heterossexual Madalena, deitada de costas sobre a mesa da sala de jantar.

Este é um romance de cheiro, com o sexo em fundo, o som do «Once in a Lifetime» dos Talking Heads a derramar-se debaixo da porta duma casa de banho. Rigorosamente preta, que o preto nunca cansa. «Estava um tipo todo mamado, fechado na casa de banho.» Terá redenção?

Azulejos Pretos é um romance de Pedro Bidarra, editado pela Guerra e Paz editores, que chega às livrarias no dia 3 de Novembro. Tem 176 páginas, em papel Coral Book 80 gramas, composto em caracteres Sabon Next. Fomos lá roubar estes excertos:

1.– Olha o Camões, coitado, a quantidade de nobres cus que lambeu em éclogas, odes e oitavas, sempre com a esperança que lhe caísse alguma prata. Hoje, claro, lambe‑se o cu dos colegas e, sobretudo, o cu dos mortos.
– O cu dos mortos?! – exclamou o Joel, enojado, provavelmente sentindo o diafragma a reclamar com tanta metáfora escatológica.
– Claro. Haverá cu mais lambido nesta Terra que o do Pessoa e o do Saramago, pelos da prosa, ainda mais que o cu do Camões? São cus platónicos que o poeta lambe para ser lambido ainda em vida.

2. Quando fui para a universidade, a extravagância passou a ser o gay e o negro. Não havia festa que não tivesse um gay abertamente fora do armário, numa época em que os armários eram robustos, de mogno, nogueira ou carvalho e fechados à chave.[…]
Agora foi o padre que saiu do confessionário. O que está bem visto. Afinal, nada há de mais contrastante no meio de tanto gay, agarrado, mentiroso, artista, empresário e putanheiro, de tanta alma à deriva, do que um membro do clero, uma ovelha branca no meio do grande rebanho de ovelhas negras que hoje anima esta festa.

3. Naquela tarde, ajoelhado no altar improvisado na sala de jantar da casa do Chico, intuí o universo, o Yin e o Yang, o nirvana, o sentido da vida, a biologia e todas as religiões. E quando a Madalena, deitada de costas na mesa da sala de jantar, de pernas abertas e joelhos flectidos, sem nunca parar de falar, separou os pequenos lábios com os dedos delicados e nos deixou olhar para dentro da vagina propriamente dita, senti‑me levado num incontrolável fluxo libidinoso e transportado em viagem pelo elíptico canal até ao interstício uterino, onde finalmente explodi em cores e fluidos quentes e húmidos que se misturavam e dispersavam ao som dos Yes.

4. Não há religião ou ideologia que impeça o impulso da violência. Antes pelo contrário, religião e ideologia são mijo, mijo neurolinguístico, e é pelo cheiro a mijo que uma seita distingue a outra; e é por causa do cheiro que uns expoliam, expulsam, matam e maltratam outros que mijam um outro cheiro. O pregador da paz (o velho humanista na versão benigna, antes das fogueiras) acredita que falando o mundo muda, que os ditadores caem com o verbo, que a desigualdade se cura com parágrafos e páginas tantas, mas não é o que nos diz a História. O maior justiceiro, o maior equalizador, o maior repositor da equidistância é o par de estalos e a cabeçada.

5. Queriam dar um cheirinho para experimentar.
– Não façam isso – aconselhei‑as. – Olhem que isso pode ser o princípio de uma interminável espiral de degradação física e psicológica.
– Oh, tio, é só para experimentar – disseram em uníssono, sorrindo bela e impenitentemente.
Pedi‑lhes o BI. Elas riram e disseram que não tinham trazido. Perguntei‑lhes a quantos graus fervia a água e em que ano tinha sido a revolução de Abril.
– 90 °C – respondeu uma.
– Em Maio de 68 – respondeu outra.

Caem mulheres do céu

Adeline Grey

Procura a delicada diferença, a mulher que cai do céu

Amigos, eis por que ando sempre de cara levantada ao firmamento: estou à espera de ver uma mulher descer dos céus. Reparem, a 13 de Maio de 1917, uma Senhora surge, assim, do atónito nada, em cima de uma azinheira. Um mês antes, Lenine faria uma revolução com uma prosaica chegada de comboio a São Petersburgo. Lenine, como qualquer trangalhadanças de calças, chegou numa onda de CO2, uma fumarada ferroviária e operária; já a Senhora, luminosa como o Sol, pairava a metro e meio do intocado solo, o inefável pé aflorando as ecológicas folhas de uma árvore. Eis o que os meus olhos procuram no céu: essa delicada diferença.

Há quanto tempo descem mulheres do Céu? No último ano do século XVIII, uma francesa, Jeanne-Geneviève Garnerin desceu majestosa da celeste abóbada, de uma altura, diga-se, muito superior ao metro e meio da azinheira da Senhora de Fátima. Jeanne-Geneviève mergulhou de 900 metros acima do solo e tocou incólume a cara espantada e parva da terra.

E eu já devia ter dito que ela foi já a primeira mulher a pilotar um balão a hidrogénio. Fora aluna e, por serem as nuvens e o céu propícios, logo mulher de André-Jacques Garnerin, um pioneiro das viagens de balão de ar quente. Quando André-Jacques anunciou que levaria uma mulher na cesta do seu balão, oh, oh, a França logo lhe moveu uma providência cautelar. Essa erecta e aérea proximidade de dois seres sexualmente diferentes tinha implicações morais. Um preclaro juiz estabeleceu, porém, que tendo-as, não eram nem mais, nem menos do que as implicações morais de um homem e uma mulher se montarem juntos numa carruagem.

Mas levantem a cabeça para os céus de França, lá vem Jeanne-Geneviève a descer, uma ampla abóbada de pano enfunada sobre a sua cabeça, fios firmes a segurá-lo à cesta onde ela se mantém, sem alarme, de pé e serena. Saltou, a 12 de Outubro de 1799, de paraquedas de seda antes do paraquedas ter sido inventado. Os Garnerin, marido e mulher, registariam a patente da invenção e a sobrinha, Elisa, seria a primeira paraquedista profissional, herdando de ambos a intrepidez: de França a Espanha, da Itália à Alemanha, vinda do céu, apareceu 39 vezes aos trémulos e sarapantados pastorinhos que todos os humanos eram no começo do século XIX, se é que não os continuamos a ser, dois séculos depois.

E peço que concordem comigo: como é irresistível a atracção dos céus. Menos de um século depois da senhora Garnerin, outra mulher, a americana Mary Breed Hawley Meyers, mais conhecida por Carlotta, a Dama Aeronauta, faz a sua 180.ª viagem de balão e algo corre mal. Destemida, corta todas as amarras e agarra-se às cordas do balão, transformando-o num improvisado paraquedas. Viaja assim 15 quilómetros descendo lentamente até deslizar pela estupefacta terra com os seus sapatos de cetim.

A 4 de Julho de 1888, em Los Angeles, Jenny Rumary Van Tassel, escapou a um detective que trazia a ordem de proibição. Subiu num balão, estabilizou-o a quase dois mil metros, segurou num paraquedas e saltou.  Os primeiros metros são uma vertigem; não é, jurou ela, como uma ave ou um anjo, mas como roçar-se pela sensação de voar. E durante 5 minutos e quinze segundos, assim veio do céu, esta mulher alta, bela, decidida e loira.

Adeline Gray já é outro exemplo. Estavam todos os homens americanos em guerra, em 1942, sem a seda do Japão com que se faziam os paraquedas: era preciso caçar com gato e fez-se o paraquedas de nylon. Adeline ofereceu-se para o primeiro salto real. Veio do céu, muito mais bela do que uma medusa, e caiu, com uma graça de Nureyev, à frente dos narizes de 50 majores e generais americanos, sem lhes pisar os calos.

Levantemos os olhos bem alto: centenas, milhares de mulheres caem, há três séculos, do céu.

Publicado no Jornal de Negócios

Estava morto e roubava

Adam Worth

Que bom será descobrirmos estar vivos depois de termos morrido!

Depois de morto, foi um dos maiores ladrões da História. Foi depois de ter morrido que Adam Worth assaltou bancos e banqueiros, vários donos disto tudo, roubando dinheiro, diamantes e, por essa delicadeza que nos faz ganhar uma alma, mesmo arte.

Não precisam de me torturar, confesso: Adam Worth fazia parte de um escol particular de mortos, estava vivo. A primeira vez que descobriu ter morrido foi numa enfermaria das tropas unionistas na Guerra da Secessão. O seu nome constava da lista dos caídos em combate. Aproveitou e saiu de mansinho. Com outros nomes, e para receber o prémio de recrutamento, voltou a morrer e a alistar-se várias vezes.

Mas vejamos, este paupérrimo judeu alemão desaguou, com cinco anos, no sonho americano, em Massachussets. Depois da tropa, armou uma rede de carteiristas em Nova Iorque e acabou preso em Sing Sing, cantável cárcere de onde se vê o leito do rio Hudson. Adam era homem baixinho, menos velhaco do que bailarino, agilidade que o ajudou a evadir-se. 

Fosse com que nome fosse, e teve vários, tombou numa escrupulosa reflexão filosófica e concluiu: “Não é mais difícil nem mais arriscado roubar um milhão do que um simples dólar!” Com a estrutura lógica de um Kant, nunca mais se desviou desse princípio moral, a que somou o ódio pela violência, que o seu senso e sensibilidade abominava.

E agora olhem para a plácida fachada do Boylston National Bank, em Boston. Os empregados saíram e as imperturbadas portas e janelas estão fechadas e sonolentas. Nada faz adivinhar a agitação que assola os cofres. Adam e o seu cúmplice Charley Bullard, com um carisma mobilizador que nem o velho Lenine, cavaram um túnel e persuadem milhões de notas a segui-los. Rendidas, as notas irão com eles para Londres onde Adam e Charley correm a esconder-se, mudando de nomes e fazendo-se passar por cavalheiros da finança & indústria.

Pode ter-se sorte no dinheiro e no amor? Pode! Os dois cavalheiros entram no faiscante Washington Pub e está Maureen O’Hara ao balcão. Minto, mais bela ainda do que Maureen O’Hara é a irlandesa, toda ruiva, como mais tarde ambos atestam, Kitty Flynn Terry. Apaixonam-se os três e a três viverão juntos tudo o que juntos se vive, mesmo depois de Charles casar com ela, o que, por ser já casado, era bigamia. A paternidade das duas filhas de Kitty reclamam-na os dois.

Adam só trabalha com honestíssimos ladrões. Na sua mansão, no iate, todo o pessoal é cadastrado, competência sem a qual não admite ninguém. A sua mão invisível ataca bancos, milionários, companhias de seguros e o tesouro público. Caça grossa, sempre. E arte: a tela em que o grande pintor Gainsborough retratou a duquesa de Devonshire, roubou-a ao banqueiro que a comprara pelo mais alto preço já pago por uma pintura.

Apertados pelos detectives da inultrapassável Agência Pinkerton, os subversivos Adam, Charley e Kitty vão para Paris, em 1871, dias depois do estertor da Comuna e montam o American Bar, na rua Scribe. Da porta para dentro era tudo ilegal. Ali se juntava a Internacional do gangsterismo. Pinkerton, o detective ele mesmo, também lá veio e acabou, como eu, deslumbrado pelos modos e filosofia de Adam.

De volta a Londres, Charley é descoberto pela primeira mulher e, alcoolizado, morre. Kitty parte para Nova Iorque, em segundo casamento. Por fim, Adam é preso. Kitty, riquíssima, paga a sua defesa e Pinkerton tenta reabilitar o amigo ladrão, devolvendo a tela de Gainsborough e jurando para a posteridade que Adam fora “o mais admirável dos bandidos que a cidade produzira”.

Publicado no Jornal de Negócios

A Alegria Epiléptica

Empire of the Sun

O que é mesmo a alegria? Quem é que já sentiu o arrebatador privilégio da alegria?

É afrodisíaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afrodite. Falo da grande alegria, daquela que já não cabe no corpo, dessa alegria que nos estremece, enche e esvazia os pulmões. A alegria convulsa.

Imaginem um campo de prisioneiros. Jim, um miúdo inglês, cresceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois corrécios americanos. Cresceu entre o desdém e a humilhação dos guardas japoneses.

O campo de prisioneiros já é o deserto de toda alegria. Mas o campo de prisioneiros que sofre o ataque da nossa própria aviação é o pandemónio dos sentimentos, a lágrima de sangue que transborda do cálice. Só o Pai que sabemos tem a crueldade de dar esse cálice a um Filho.

É o que acontece em “Empire of the Sun”, filme de Steven Spielberg. Há um ataque aliado. Um Christian Bale novinho, o actor que dá corpo a Jim, corre eufórico para o telhado meio-destruído de uma das construções do campo de concentração.

Lá em cima, salta, abraça-se a si mesmo, treme de excitação, respira forte para não sufocar e explode num grito e num riso epilépticos. O mundo suspende-se, o movimento quase pára para deixar voar a beleza fantástica de um avião de fogo e morte.

O pindérico inglesinho sobrevivente berra: “P-51 Cadillac of the skies”. Vénus quando era virgem, Deus nosso senhor, a inominável Beleza, não seriam saudados com mais exaltação e exultação. Jimmy salta de costas, salta de frente, enquanto as bombas rebentam com tudo à sua volta. “P-51 Cadillac of the skies”, ó alegria de um catano: o fogo, a morte, a destruição, sabem-lhe a vitória. O avião dos seus sonhos, que os seus dedos quase tocam fisicamente, arrasa o mundo em escombros onde sobrevive. Tudo morre, mas tudo morre para que ele renasça.

A alegria convulsa, epiléptica, é privilégio de criança. Tem de ser inaugural. Lembro-me da minha primeira vez, dos sintomas e do devastador ataque. Conto.

A primeira vez que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oceano Atlântico. De Angola, o meu pai chamava os meus cinco anos e lá iam eles agarrados à saia da minha mãe e a toque de caixa da minha irmã. O pouca-terra, pouca-terra, numa tarde de cerejas vermelhíssimas, trouxera-nos da Beira fria, farta e feia. Em Lisboa, Cais da Rocha, tínhamos entrado no Vera Cruz, então sofisticado transatlântico. Descemos logo ao camarote e quando voltámos a subir – no dia seguinte? –cercava-nos um vasto tapete ondulado, de um azul inútil e livre. Flutuávamos num infinito lençol oscilante: Houdini tinha escondido a terra.

Os pulmões não me cabiam no peito de contentes; em riso e lágrimas até pelos olhos os pulmões me saíam. Dizem que é a plenitude. Gostava de me lembrar melhor, se era igual o azul de céu e mar, se havia vento, quase nenhumas nuvens, e se cantavam sereias ou sonhava já contigo.

A sede de Ingrid Bergman

Ingrid, a sueca

Que idade tem a liberdade de amar? Há mais de meio-século uma mulher amava assim. Libérrima.

Nunca esperou que, de madura, a fruta lhe caísse no colo. Era já actriz na Suécia quando um produtor lendário, David O. Selznick a trouxe para Hollywood.

Pegou de estaca. Os seus melancólicos olhos azuis encheram cinemas. E mesmo que o tempo lhe desvaneça os filmes, a imagem romântica dela em “Casablanca” perdurará enquanto persistir a ideia de cinema. Esse filme que ela e Humphrey Bogart fizeram de costas voltados, beijando-se como quem não se beija, marcou a história do cinema e antecipou – ou será que determinou? – a sua história pessoal. Talvez a biografia de Ingrid seja a prova de que a vida é apenas o inimaginativo artifício que, tímido, imita o big bang da criação artística.

Como em “Casablanca”, esta história da vida dela começou em Paris. A Primavera de 45 assistira à vitória dos aliados. O ar exsudava pólen: o da desbragada natureza e o da gloriosa liberdade. A altíssima sueca viera animar as tropas e regressava num fim de tarde ao Ritz onde dormia. Viu então o fotógrafo de guerra que escondia a nacionalidade húngara debaixo do americaníssimo nome de Robert Capa. Tinha a elegância e a virilidade dos mal-vestidos. Olharam-se e foi o coup de foudre. A Bergman não hesitou: ela não era só a mulher casada e mãe. Como em “Casablanca” a Bergman era capaz de ser, se quisesse, a amante. Quis.

Amou e voltou para o marido como Ilse, em “Casablanca”, voltava para o heróico Lazslo. Mas tal como Ilse, Ingrid Bergman queria amar o amor de Capa. Pediu-lhe que viesse ter com ela à América, pronta a abandonar o médico sueco, pai da sua filha. Incapaz de fazer outra coisa que não fosse imitar a arte, Capa repetiu os passos de Bogart e, play it again, foi ele que não deixou a Bergman divorciar-se. Tal como Bogart, também ele partiu para uma qualquer Brazaville em guerra e continuou a ser o descomprometido fotógrafo que gostava de ser. “Teremos sempre Paris,” ter-lhe-á segredado à despedida.

Hitchcock conhecia a história e, à maneira dele, usou-a na “Janela Indiscreta”. O medo que Jimmy Stewart tem de que o casamento com Grace Kelly lhe roube a liberdade de correr riscos em campos de batalha é o medo chapado que fez Capa fugir da boca e da sede da lindíssima amante.

A sede da Bergman não se extinguiu. Poucos anos depois, quando o público americano via nela a virgindade da Joana d’Arc que acabara de interpretar, filmou “Stromboli” com o italiano Rossellini. É o filme de um vulcão. O mesmo vulcão que arrebatou os dois. Eram ambos casados e ela ficou grávida para escândalo do Senado que a proibiu de voltar à América. Pelo amor do seu amor a Rossellini, abandonou o marido e não viu a filha durante dez anos.

Ingrid Bergman não ia só com muita sede ao pote: era dona do seu pomar e colhia a fruta com as próprias mãos.