Fu Fu, marechal-em-chefe

Fu Fu foi o mais fofo marechal-em-chefe da Força Aérea tailandesa. Fu Fu é o caniche do príncipe Maha Varijalongkorn, hoje por hoje, rei da Tailândia. E neste exemplo, sim, é que o velho PAN, com todo o seu pedigree, devia ter-se lambido.

O príncipe, iludindo a raivosa discriminação e ignominiosa desigualdade que os execráveis humanos dedicam à raça animal, comemorou a promoção castrense do caniche convidando para um jantar de gala a nobreza Tai e os diplomatas acreditados. Fu Fu sentou-se a essa mesa. Veio de negríssimo smoking, luvas brancas nas suas quatro patinhas de marechal-em-chefe, e com a graça que assiste a esses seres que, como dizia a minha avó, “caem em graça, que é bem melhor do que serem engraçados”, passeou-se pela mesa, lambendo pratos e bebericando com delicadeza de todos os copos, a começar pelo do embaixador do ex-imperialismo americano.

Vejam, John Oliver, o paródico protagonista do programa televisivo Last Week Tonight, com aquela intolerável incapacidade de empatia própria do macho americano branco, ridicularizou este evento solene e hierático. A rotunda felicidade do nosso tempo é que este tipo de impunidade acabou. Um documento secreto do serviço militar Tai, profusamente divulgado na Imprensa e afins, que é o que se espera dos documentos secretos, acusa o rasteiro americano de lesa majestade, susceptível, por isso, de 15 anos de prisão e alguns mimos e bónus na cárcere, logo que os militares à ordem de Fu Fu lhe ponham a patinha em cima.

E, se não minto, estou pelo menos a omitir: Fu Fu entretanto morreu. Tombou com a dignidade de um pequeno mas peludo guerreiro. Da Força Aérea Tai, claro, com o céu por limite. O príncipe Maha Varijalongkorn decretou que lhe fosse prestada homenagem e se seguissem os quatro dias de rituais fúnebres budistas – embora a admirável reserva de Fu Fu sobre as suas convicções deixe os biógrafos incertos e perplexos quanto à sua piedade e inclinação metafísica.

Divaguei, mas quem não se perde, enternecido, com Fu Fu? Ora, eu queria era falar do rei Maha Varijalongkorn. Herdou o trono do seu pai, que talvez o tenha arrebatado dando um só tiro de Colt.45 – one shot, à Robert De Niro, em “O Caçador” – ao herdeiro, seu irmão.  Ou não. Talvez tenha sido um acidente, ou talvez o irmão tenha sido assassinado pelos dois criados do palácio que, acusados da matança, tiveram execução limpinha. Do pântano nasce a flor:  Bhumibol, o pai de Maha, guiou a Tailândia à democracia e ganhou o coração e a mente do povo.

Nas ruas de Banguecoque, o povo, em crime de lesa majestade, ergue hoje a sua voz incendiada contra o novo rei. Gritam “Abaixo o feudalismo” com muito mais convicção do que o nosso querido e geriátrico pê cê grita “Abaixo a reacção”.

Maha é um rei lúbrico. Nem é tanto o segundo casamento com uma actriz soft-porno, que depois escorraçou e perseguiu, espalhando no palácio cartazes a chamá-la adúltera, e obrigando-a a refugiar-se no quinto dos infernos que é a América. E nem será só o facto de ter criado o posto de Nobre Concubina Real para a amante, três meses depois de ser coroado e de casar com a rainha. Agora, na pandemia, abandonou a Tailândia, fechando-se num hotel alemão com um harém de 20 concubinas, que são levadas a uma, não se sabe se bem ou mal denominada, sala dos prazeres, para deleite de Sua Majestade. No harém, as concubinas, têm todas o mesmo nome, Sirivajirabhakdi, a mesma roupa, o mesmo corte de cabelo, e uma inescapável patente militar. Da Força Aérea, claro, nostalgia do imortal Fu Fu.

Publicado no Jornal de Negócios

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