Já sabem como eu sou influenciável. Basta a Guerra e Paz editores falar para eu ser logo eco.
A História está na moda! Para ser revisitada, revista ou até cancelada. Há quem queira partir estátuas, há quem “racize” ou “identitarize”, se nos permitem estes neologismos, cada capítulo do passado e há quem queira impor leituras de pensamento único.
Por todas estas razões, criámos a nossa Feira do Livro da História de Portugal. São dezasseis livros pluralíssimos. Lúdicos ou pedagógicos, como o Almanaque da História de Portugal e o História de Portugal, Perguntas e Respostas. Há livros que tocam sem censuras, com frontalidade e até dramatismo temas em ferida como o Declarações de Guerra, o Escravatura ou o Combates pela Verdade, Portugal e os Escravos.
Convido os leitores que gostam de associar temas históricos à criatividade literária, a ler, da grande Agustina, o Fama e Segredo da História de Portugal, um hino à narrativa capaz de nos restituir a dimensão humana das grandes personagens da nossa História.
Exaltante é também o Heróis de Portugal, como é invulgar perspectiva “what if” que o angolano Jonuel Gonçalves dedicou, em E Se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?, a esse momento em que o destino de Angola poderia ter caminhado num sentido que teria evitado a Guerra Colonial. Dessa Guerra, fala-nos também um capitão de Abril, Rodrigo Sousa e Castro, em Capitão de Abril, Capitão de Novembro.
São dezasseis livros, que incluem até a História de Portugal em Disparates, relato bem humorado de desatinos e despautérios que acontecem nas nossas aulas, que mais nos dão a medida de como é necessário o reencontro das novas gerações com a História de Portugal e com o nosso passado, seja o melhor ou o pior desse passado.
Ponha a História de Portugal em sua casa. Aproveite descontos que chegam, nalguns casos, aos 50%. São estes os livros.
Os filmes só amam os livros quando os amam com segredo e reserva. Não me venham falar do “Clube dos Poetas Mortos”, execrável exibição circense do acto e do prazer da leitura. Confesso que tenho uma aversão parecida às sessões de leitura de poesia. Lido em público, com a compungida voz de quem tem as cuecas apertadas, o poema mais sublime aperta o nariz constrangido. O poema, na minha visão misantropa, tem aversão à plateia. Em voz alta, o poema pede para ser lido de boca a ouvido, numa intimidade que se torna ridícula se for descoberta.
Um pequeno filme onde se vê o amor da leitura é o “Finding Forrester”, de Gus Van Saint. Sean Connery é um escritor que, como J. D. Salinger, ficou cativo da própria obra, do único livro que escreveu. Para a sua caverna monástica, Connery arrasta o talento de um miúdo que, cheio de medo, quer fechar o bico a esse talento. À volta desse miúdo, o meio onde nasceu, os colegas e a escola onde o louvam pelo bom basquetebol que ele joga, tudo e todos querem que ele se envergonhe da horrível pulsão que tem para a escrita, da sua escabrosa fruição da leitura. É preciso um Sean Connery clandestino, bicho recôndito, para o trazer de volta e de vez ao vale de sombras, mistérios e absoluta tristeza da escrita.
splendor in the grass, glory of the flower
A leitura e a escrita são, hoje, vítimas da intifada de um paradigma de muita pressa, alegria parva e tecnologia instantânea. Há dias em que o cinema sim, o cinema ama a leitura. Eis o que queria dizer: foi no cinema, essa fulgurante vibração do século XX que rasteja exangue pelo século XXI, que vi resgatar a leitura. Tremente e sexualmente resgatada na perturbação da voz de Natalie Wood quando lê, num filme de Elia Kazan, a ode de Wordsworth que canta a fugidia memória de uma infantil e inocente explosão de Maio – esplendor na relva, glória na flor – que não voltará a aflorar os nossos sentidos.
A literatura é aventura, é fuga, tiro, queda e má vida. Veja-se “Pierrot le fou” e ouça-se Jean-Paul Belmondo. Na banheira, lê um livro de bolso de Élie Faure. Vemos e ouvimos que lê para a filha que talvez nem 6 anos tenha. Ouçam-no: “Velásquez é o pintor da noite, dos grandes espaços e do silêncio”. Isto sim, é a paixão da educação. Pormenor não despiciendo: Belmondo lê na banheira e fuma, cigarro ao canto da boca. Um vício nunca vem só.
Y a des jours comme ça, on rencontre que des abrutis. Alors on commence à se regarder dans une glace et à douter de soi…
A maior parte das coisas que, se tiverem homérica e triste paciência, se podem ler abaixo, escrevi-as há mais de 36 anos. Mudei muito. Tanto que continuo a subscrever as mesmas exactas coisas. A questão é: mesmo que uma pessoa diga as mesmas coisa, será que está a pensar as mesmas coisas?
Jamais je ne t’ai dit que je t’aimerai toujours ô mon amour
Para os europeus — conversa para a qual os portugueses não eram tidos nem achados à época — “Pedro o Louco” é um filme dos anos 60. A Portugal, o filme chegou na década seguinte, e mesmo assim chegou muito antes do seu tempo, porque o país, ao arrepio do calendário, só nos anos 70 é que começou a ter dilemas e contradições dos anos 50. Ainda me lembro que a reposição do filme nos anos 80 (pela mão da René Gagnon, a que os cinéfilos muito devem) foi de suprema utilidade: serviu para acerto do calendário. Finalmente Portugal elevava-se aos píncaros do aborrecimento e do cinismo que tinham obrigado Pierrot, aliás Ferdinand, à fuga para a frente, poética ou trágico-cómica, que o levava a desertar a família, mulher e filhos, pela calada de uma certa noite.
Quoi ? — L’Eternité. C’est la mer allée Avec le soleil.
Tenho a sensibilidade da pata do hipopótamo que pisa o nenúfar do lago, bem sei. Mas então, se não for trágico-cómico, que outra coisa se pode chamar a um herói que foge à civilização, convencido que é o novo Robinson Crusoe, julgando que Anna Karina é a sua Sexta-Feira, e se mata, mais distraído do que desencantado, quando vê que nunca mais é sábado?
O herói é trágico-cómico e o lirismo de “Pedro o Louco” — se lirismo se pode chamar à obstinação com que Jean-Luc Godard filma a natureza com panorâmicas e a morte em planos fixos — não tem nada que ver com o lirismo loiro e de olhos azuis do “Woodstock” dos anos 60 em que ambos foram filmados. “Pedro o Louco” é, evidentemente, um filme de rimas: “em imagens curtas e longas, em sons fortes e débeis”, como escreveu o seu autor, procura rimar homem com mulher e cinema com vida. São ambos emblemas dos anos 60, sim. Mas ao contrário de “Woodstock”, a rebelião de Pierrot não pode ser associada à contra-cultura dominante. Os mentores de Ferdinand (alter ego de Godard se fosse legítimo dizer-se que para o filme ele mete, seja prego, seja estopa) são Velasquez, Rimbaud, Goya, Llorca e, por fim, o cinema negro americano. Há ainda, vagamente, a memória do homónimo gangster francês, cuja crónica sangrenta fez correr tinta na França da II Grande Guerra.
“Pedro o Louco” pode resumir-se como se fazia com os filmes clássicos americanos. É mesmo o último filme clássico americano, pese embora a fraternidade, igualdade e liberdade da sua Eastmancolor. E é por isso, como no cinema clássico americano, o filme de uma mulher que sabe exactamente o que quer e de um homem que só sabe que a quer a ela. Conta, como qualquer filme negro, a aventura de um casal. Podia chamar-se “You Only Live Once”. Bastava que Godard se chamasse Fritz e acreditasse que um filme deve ter um princípio, meio e fim. Um dia ele disse que acreditava, e acrescentou: “Mas não necessariamente por essa ordem. ”
FERDINAND. Pourquoi t’as l’air triste? MARIANNE Parce que tu me parles avec des mots et moi, je te regarde avec des sentiments. FERDINAND. Avec toi, on peut pas avoir de conversation. T’as jamais d’idées, toujours des sentiments. MARIANNE Mais c’est pas vrai! Y a des idées dans les sentiments.
Ainda me lembro de ter pensado, nesses anos 80, que a colorida imprensa cinematográfica lisboeta da época havia de escrever que “Pierrot” era a adaptação de um romance de Lionel White, “estilo Lolita”; e que o sangue de Pierrot não era sangue, era apenas vermelho; e que a trama esssencial do filme já estava em “O Acossado”. E escreveu. Tudo verdades. Mas para que serve a verdade se nos faz corar de vergonha? O que é preciso é falar da liberdade impossível, perseguida por Belmondo com a mesma vontade, o mesmo impulso com que, “quando queremos uma mulher, nada nos importa e corremos a acordá-la a meio da noite”.
“Pierrot” é a vida do último par romântico. Obrigou o cinema a uma liberdade que lhe era estranha. Ficou-nos de emenda. Ensina-nos que, para tratar a vida, o cinema precisa primeiro de vivê-la. A vida, só a vida. Isso que, como fatias, está entre as pessoas: sons, cores, espaços.
Tendre et cruel / Réel et surréel / Terrifiant et marrant / Nocturne et diurne Solite et insolite / Beau comme tout Pierrot le fou
Entrevistei Anjelica Huston para o Expresso. Ou foi em Paris ou foi em San Sebastian, já não me lembro. Levei comigo o Guillermo Vilela, fotógrafo argentino e parisiense, que os deuses já convocaram. Já não tenho nenhuma das fotografias que ele lhe fez. Foi em Abril de 1992, vai fazer 29 anos, e ela era uma mulher grande.
Anjelica em The Grifters: you should see my gun
O orgulho da família Huston
Há boas razões para Deus não fazer nunca a primeira vontade às pessoas. Imaginem, por exemplo, que Ele tinha dito amen ao primeiro e fervoroso pedido que Anjelica Huston lhe fez: nesse caso, em vez da cara larga, de traços fortes, olhos como lagos, grossíssimos lábios sobre os quais se levanta o rochedo do nariz— olhem para a imagem acima e digam-me se minto — teríamos hoje, em cima do imenso corpo da filha de John Huston, um rosto a meio caminho entre a irrepreensível brancura de Grace Kelly e o «look» de Cinderela de Audrey Hepburn. Poderia até dar-se o caso da graça concedida ter dado à luz um anjo. Nem por isso a nossa pena teria sido menor: é que a grandeza de Anjelica Huston tem a sua primeira fonte nessa suposta imperfeição do físico com a qual a artista quando jovem entrou em furioso conflito.
Deus foi surdo. Ainda bem. Como, de resto, ela reconhece: «Continuo a saber que não sou particularmente bonita, mas agora sinto-me confortável com o meu aspecto. Primeiro, porque não tenho alternativa. Segundo, porque embora nunca esteja completamente encantada, por vezes há uma certa luz do dia com que me sinto muito bem». A frase, ouvi-a da boca de Anjelica Huston, mas não me espantaria nada que Morticia Addams a repetisse.
Morticia Addams é um ser bizarro, como o são todos os seres que habitam A Família Addams, o filme com que Barry Sonnenfeld se estreou na realização. Morticia passa o tempo a ter irresistíveis impulsos para o humor negro. Foi assim que o pai, o «cartoonista» Charles Addams, a deu à luz, juntamente com o resto da família, numa banda desenhada que foi culto no mundo anglo-saxónico (havia uma colecção desses livrinhos na casa de banho irlandesa da família Huston, recorda a actriz), culto ampliado pela série de televisão, criada nos anos 60. Não admira que tenham convidado Anjelica para dar corpo à personagem. «É uma personagem de comédia, mas também de morbidez e morte. Não me pergunte porquê, a verdade é que me sinto atraída por este tipo de coisas», confessa Anjelica Huston.
Morticia e Anjelica têm mais semelhanças entre elas do que a esmagadora maioria das cidades geminadas. Ambas são parte integrante de um clã — os fictícios e perversos Addams de Charles e os reais, francos e honestos Huston que o John de Sierra Madre legou à posteridade. Ambas aparentam ser imunes ao juízo que os respectivos comportamentos desencadeiam (ou recebem-nos pelo menos com assinalável bonomia). Apesar dessas semelhanças, Anjelica Huston garante ter demorado a compreender a personagem: «Foi muito difícil decidir qualquer coisa antes de usar pela primeira vez o guarda-roupa dela; ora, o guarda-roupa foi a última coisa da produção a ficar pronta. Logo que me meti nos vestidos pretos compridos dela, compreendi que a aparente alucinação de Morticia — por exemplo, dizer aos filhos para se matarem um ao outro — é uma despistagem da sua bondade natural.»
Ao dar por adquirida a bondade natural da excêntrica Morticia, Anjelica Huston está a explicar, e nem é bem por portas travessas, a razão pela qual o conceito que, mais sinteticamente, define a sua incarnação daquela personagem é oorgulho. Durante toda a Família Addams, Anjelica Huston ostenta um ar de desafio. Não será uma novidade numa carreira onde se somam títulos como A Honra dos Padrinhos, Jardins de Pedra, Gente de Dublin/The Dead e Anatomia do Golpe/The Grifters. A novidade talvez esteja na desdramatização com que Anjelica Huston trabalha o orgulho e essa suave arrogância que empresta a Morticia. Foi o que eu pensei em voz alta, para ser imediatamente desmentido pela actriz: «Embora se ocupe de horror e morte, a Honra dos Padrinhos é também uma comédia. Sempre achei que era preciso incorporar um bom bocado de comédia nas nossas tragédias para que as pudéssemos levar a sério. Na vida há sempre comédia na tragédia e vice-versa.»
Daddy’s girl: Anjelica e John Huston
Tomei e embrulhei, sem, todavia, deixar de me sentir autorizado a invocar o nome do pai, John Huston, firmemente convencido que, desta vez, não seria em vão. Para Anjelica, com efeito, a imagem de John Huston é uma espécie de grande meta moral e artística: «O meu pai vivia a uma escala grandiosa, à qual normalmente as pessoas não conseguem sobreviver. Foi um aventureiro à sua própria custa. Hoje — é uma questão de geração — ninguém vai, de uma forma tão orgulhosa, à procura de aventura e de realização. Era um verdadeiro explorador. Uma vez, num jantar, as pessoas começaram a interrogar-se sobre qual era a coisa mais importante da vida. Umas disseram “amor”, outras “dinheiro”, outras “fama”. O meu pai disse “interesse”. Nunca mais conheci ninguém com a estatura dele.»
Pareceu-me logo que, naquela muralha de coerente devoção, dificilmente se abririam excepções. Não pude, mesmo assim, deixar de terçar armas por uma minha velha dama (cada vez mais vetusta, diga-se), atirando para cima da mesa o nome de um dos realizadores com quem ela trabalhou, Francis Coppola: «É um caso à parte. Tem largueza. Adora cozinhar e rodeia-se de toda a família. Mas é diferente… é um intelectual. Pertence ainda a uma geração com um certo encanto e uma certa classe.» Depois, muito profissional, Anjelica Huston corrigiu-se: «É claro que me sinto muito orgulhosa por ter trabalhado com os realizadores que me dirigiram. Não posso compará-los. Ocasionalmente pode comparar-se o estilo de cada um, mas as diferenças não impedem que sejam todos muito bons realizadores.»
The Grifters
A quem é que estas inocentes palavras não cheiram a crítica às «novas gerações»? Dei-lhe a deixa. Talvez The Grifters seja um filme em que a excessiva estilização atenue o dramatismo a que se pode aspirar quando o efeito de realidade é mais óbvio. Anjelica contou-me logo uma grande história: «É certamente um filme muito estilizado, o que não o impede de estar muito próximo da vida real. Depois de The Grifters, fui a Las Vegas com o meu namorado. De repente, começámos a ouvir gritos horríveis na sala ao lado. Julgámos que alguém estava a ser assassinado. O meu namorado atirou-se à porta e forçou-a a abrir-se. Saiu de lá uma rapariga a andar a quatro, sobre as mãos e os joelhos, com um homem a agarrá-la pelo pescoço como se ela fosse um cão. Uma cena exactamente como a de The Grifters. Juro-lhe que a ficção era menos impressionante do que a realidade.»
Acabou a falar do ofício. Contou que a sua maneira de conceber o trabalho de actor mudara com Peggy Feury, a principal professora de toda uma geração, que vai de Sean Penn a Michelle Pfeiffer. Feury, recentemente falecida, era o Lee Strasberg de Los Angeles, «uma mulher extraordinária, uma irlandesa. Com ela aprendia-se por osmose. Não me lembro de nada específico — umas receita — que Peggy me tenha dado. Sei é que, quando estava a fazer alguma coisa errada, ela aparecia muito suavemente a dizer: ‘Experimenta respirar’.» Anjelica revelou ainda que parte do guarda-roupa que usa nos filmes é dela — consequência do gosto que formou quando foi modelo — e que também foi ideia sua a peruca loura que usa em The Grifters.
As personagens, deixa-as ficar nos filmes. E para cortar simbolicamente relações, queima sempre, no final da rodagem, alguns vestidos e adereços que tenha usado. Com olho de fotógrafo, Guillermo Vilela olhou à volta e fez-lhe notar que os montinhos de notas de dólar, sobre o televisor e sobre a mesa, a desmentiam, fazendo lembrar os tiques da personagem que incarna em The Grifters. «You should see my gun», ripostou ela. Ela, quem? Anjelica Huston ou os restos de Morticia que ainda nela ficaram?
Da boca anti-vício de Anthony Comstock só saíam flores. Com um pé repressivo em cima da classificação de Lineu, para não ter de se referir à origem angiospérmica (ó palavra!) das líricas flores ou à fértil agitação em que androceu e gineceu se roçam no seio de cálice e corola.
Saltemos a infância dele, severa, castíssima, de redondo puritanismo. Já o vemos, em 1863, na Guerra Civil americana, soldado do 17.º de infantaria de Connecticut. Cora a cada palavrão dos camaradas de armas, rasga as vestes a cada lúbrica erupção da descomandada virilidade dos soldados. Entre tiros, fucks e morteiros irrompe no espírito de Comstock uma vocação: a de ser um cruzado contra o palavrão, a obscenidade, o erotismo, qualquer afrontosa ostentação da sexualidade.
Ali vai: caminha por Nova Iorque como se tivesse engolido um Torquemada. Tem menos de 25 anos e, com paciência de monge e tenacidade prussiana, recolhe cada artefacto pornográfico a que possa meter a mão, descobre bordéis, inventaria circuitos de divulgação médica, literária e artística que exponham a anatomia humana, descobrindo-lhe a nudez.
Pouco depois, sei lá se foram cinco anos nesta peregrinação ignóbil, Comstock entra no Congresso. Leva o apocalipse na mão. Folheto a folheto, postais europeus, moradas de casas de passe, Comstock subjuga, em 1873, o Congresso. Comstock mostra, prova e pode muito bem ter dito: “Eis a tabidez e perversão do mundo.” E solta gritos aterradores.
Fulminado pela pureza luciferina de Anthony, o Congresso aprova a lei da “Supressão do Comércio e da Circulação de Literatura Obscena e Artigos de Uso Imoral”. Olhem para o longo nome da lei: que derrame lexical! Juro que não inventei nada, foi assim que votou e falou o Congresso na sua placidez legislativa.
Ao moralíssimo Anthony conferem poderes: põem o menino guloso na loja dos rebuçados. Inspector do Correios, pode agora proibir a circulação do que julgue obsceno: não só a literatura europeia, que os editores têm de publicar deixando em branco certas palavras na tradução, mas mesmo folhetos médicos sobre o controle da natalidade. Comstock, com os seus gordos bigodes e mãos farfalhudas, pode abrir cartas: manda prender uma mulher que, num surto de lascívia, sussurra num postal ao marido, como se fosse ao ouvido, “meu sacaninha”.
Durante 40 anos, Comstock espalhou o inferno moralista, destruindo milhões de livros, fazendo malhar na prisão a impureza de umas quatro mil pessoas. Provocou suicídios, de que se gabava, e gostava de ter prendido Calouste Gulbenkian, a cuja colecção pertencia então a tela “Manhã de Setembro”, delicado e inclinado nu de mulher que Paul Chabas pintou, e que galeristas americanos impudica e imprudentemente expuseram.
O que queria dizer é que Anthony Comstock está morto e enterrado. Mas mentiria se o dissesse: está morto, mas desenterraram-no! A mesma purulenta monomania puritana, agora de esquerda radical, entorna-se pelas ruas e trepa pelas paredes das nossas casas. Uma horda de novos Torquemadas, inquisidores tirados a papel químico do Anthony de bigodes prussianos, mordem com dentes de raiva e proíbem palavras e símbolos, querem estilhaçar estátuas, querem saber se pecamos em pensamento rememorando sem culpa o passado.
Quem se atreverá a contestar a nobreza de propósitos destes cruzados do novo Homem Novo? E quem se atreverá a não verter lágrimas de remorsos e expiação face a essa vaga que reinventa o passado e nos desperta para um futuro de purificação e celestial harmonia de pensamento único?
Belmondo a desaguar na desarmada inocência de Seberg
Godard está mesmo muito velho. Depois de Manoel de Oliveira, que junto de Deus deixou de ter idade, nestes dias lentos, que correm a conta gotas, Godard é o Matusalém da história do cinema. Acreditem, é um elogio nesta boca de quem cada vez gosta mais dos velhos.
Não sei quando é que Jean-Luc nasceu, nem me interessa. Para mim, quando fez “A Bout de Souffle” tinha (só podia ter) 20 anos. Em toda a história do cinema era a terceira vez que aparecia um filme que não se parecia com nada do que se fizera antes. Lembro que esses filmes de não pedir licença a nada e a ninguém foram “Birth of a Nation”, de Griffith e “Citizen Kane”, de Welles.
São filmes americanos e o de Godard é francês? É engraçado, “A Bout de Souffle”, a um olhar mais cândido parece americano. Lembro-me que um moço, que trabalhou na Cinemateca, quando viu o filme, chamou-lhe “About The Suffle”, fosse lá o que isso fosse. Não só não vejo na americanização do título nenhuma ignorância, como me parece até a expressão fiel e verdadeira das suas genuínas sensações de espectador, ao ver a mais bogartiana das interpretações de Jean-Paul Belmondo e ao ver desaguar na desarmante, mas bem armada inocência de Jean Seberg, a tradição da inteligentíssima mulher fatal de que Louise Brooks foi a mais fulgurante representante. Tudo coisinhas sexualmente americanas.
tudo coisinhas sexualmente americanas
Sendo inaugural como aqueles dois antepassados, “A Bout de Souffle” de Godard tem uma peculiaridade: se não se parecia com nenhum filme anterior, a verdade é que nenhum filme posterior se conseguiu parecer com ele.
“A Bout de Souffle” foi um escândalo na França de 1959. É um filme insolente. Fala directamente aos espectadores e manda os inimigos da natureza a um sítio inimaginável para a ecologia grassante. Pela boca grossa de Belmondo. Mas a rudeza verbal é o menos: “Allez vous faire foutre”, o que em português equivale a um ameno “Vão-se foder”, é uma sugestão que a Europa, afinal, tem feito tudo por cumprir.
Há atrevimentos maiores, que vou já elencar. Lembro que Jean-Luc fez questão, mesmo muita questão, nestas coisas paradigmáticas: a) usou o negativo mais rápido que havia, com a velocidade de 400 ASA, e com a ajuda do seu operador, Raoul Coutard, Godard deu-lhe um tratamento especial, aumentando-lhe a velocidade para 800 ASA; b) isso quer dizer que Godard queria filmar tudo com as fontes de luz natural; c) queria, quis e conseguiu, coisa que nunca antes tinha sido feita num filme de ficção.
Jean-Luc a fazer questão, mesmo muita questão
“A Bout de Souffle” tem outras arrogâncias mal-criadas que não se reduzem à técnica e às consequências da técnica. O cinema tinha uma gramática, mas Godard achou-a insuficiente e insatisfatória. Inventou o “jump-cut” na sua versão mais “dura”, processo que consiste em montar planos do mesmo actor, no mesmo espaço, mas seleccionando apenas as “partes interessantes”. Por causa dessa compressão no tempo, a Godard, nessa altura, até à mãezinha lhe chamaram nomes que não eram exactamente o desconhecido nome dela.
Não se julgue que a fúria e ranger de dentes surgiram só pelas ousadias de estilo. Obrigando-se, como nas “Palmeiras Bravas”, romance de William Faulkner, a escolher entre a dor e o nada, o herói de “A Bout de Souffle” escolhe o “nada” porque a “dor” é ainda um compromisso. Caiu mal.
Na altura andava tudo comprometido. A palavra certa nem é compromisso, é engajamento. Os operários engajavam, os estudantes engajavam, os intelectuais engajavam. Engajavam todos menos os heróis de Godard. E quando, ao contrário do soberbo Belmondo, a doce Seberg cede e se compromete, Godard fá-la comprometer-se com a perfídia – é um anti-engajamento feminino, mas quem é que, no seu juízo perfeito, não desejaria que Jean Seberg anti-engajasse com ele? Ser traído por Jean Seberg será ser traído?
A mim, é o que mais me põe em brasa em “A Bout de Souffle”. Depois de se percorrer cada centímetro de Jean Seberg, da belíssima nuca rapada aos lábios, dos mais lindos joelhos aos seios, só Godard lhe poderia pedir que ela – vinda de dois torturados filmes de Otto Preminger – fosse ainda cem vezes mais dilacerada do que em “Saint Joan” e mil vezes mais sexualmente triste do que em “Bonjour Tristesse”. Sem as desculpas morais que nesses filmes Preminger lhe emprestava.
A luz, rua e ritmo que fizeram de “A Bout de Souffle” um enfant terrible, a má-criação gramatical que faz de “A Bout de Souffle” um enfant gâté, o niilismo post-faulkneriano que faz de “A Bout de Souffle” um exemplo da souveraineté de l’ homme seul (francesa embora, a expressão é minha) condenaram “A Bout de Souffle” à gloriosa desolação de ser um filme sem descendência. Pode ter havido enfants de la cinémathèque, mas não há, de certeza, enfants de Godard. Avisem os enganados que por aí andem: que façam o teste de ADN e vão chamar pai a outro.
Publicado na revista “Argumento”, uma preciosidade servida pelo Cine Clube de Viseu
O obscuro cavaleiro da morte: como o viu Gustave Doré
Quem sou eu para me atrever a não querer morrer? Venham comigo ao camarote do escritor Sherwood Anderson. Torce-se de dores. E no Santa Luzia, o barco de cruzeiro em que viaja com a mulher, já não têm paliativos que lhe valham. Desembarcam-no no Panamá e morre. A autópsia é humilhante: um palito dos dentes, que engoliu sem querer, deu na peritonite que o matou. Eis a pungente contradição: as short-stories de Anderson, o seu romance Many Marriages, influenciaram Faulkner, Fitzgerald, mesmo o não-influenciável Hemingway, mas bastou um ridículo e impertinente palito dos dentes para o matar.
Eu mesmo tenho agora o palito dos dentes entre os lábios. Chegou-me, na forma de covid-19, em Dezembro, antes de se saber que Janeiro seria o mais feroz e desumano dos meses. Lembro Ésquilo, pai do teatro trágico: diz Plínio que o dramaturgo passeava a sua brilhante calvície pela desconfinada natureza. Mas vejam, uma águia cruza os céus, nas garras a tartaruga que quer almoçar. Vê a luzidia careca de Ésquilo, que toma por uma pedra alva, e dispara contra ela a tartaruga que precisa de esmigalhar. A águia regalar-se-á, mas quem tomba, fulminado, é o guerreiro e herói da Maratona, o autor de As Suplicantes, peça que há uns meses uma demente e woke Sorbonne proibiu.
Na covid-19, a águia aparece em voo picado e rouba-nos a respiração. Em menos de 48 horas, peregrino de ambulância em ambulância, da minha cama passei à cama dos cuidados intensivos, não sem deambular em passo de corrida pelo cadeirão das urgências em tumulto do São José e por uma breve cama de enfermaria. Emile Zola morreu assim, há 120 anos, na cama do seu quarto, sem se aperceber que só respirava a doçura mortal do monóxido de carbono que a má chaminé não extraía da lareira acesa.
E ora vejam, aí estou eu numa cama dos cuidados intensivos do Curry Cabral, a cabeça tão calva como a de Ésquilo, os pulmões tão irrespiráveis e falidos como os de Émile Zola, na boca o palito dos dentes de Sherwood Anderson.
Eu julgava já ter visto a morte em dois pesadelos. Álvaro Cunhal disse um dia, e numa idade em que já só se diz a verdade, que lhe viera falar a morte e que a morte era uma senhora de branco. Nos meus sonhos de morte, o meu confessado e irredutível anti-cunhalismo trocou a senhora de branco por figuras goyescas, escuríssimas e assustadoras como um Adamastor.
Mas, acordado, nunca tinha tido a morte em visita. Vista de olhos nos olhos, à luz branquíssima dos cinco dias e cinco noites do quarto de cuidados intensivos, a morte tem a mansidão e humildade que só se encontra em sábios ou monges. Não há nela nada de arrogante, de impositivo. Assiste-lhe uma lógica irreprimível: nem é branca nem é negra, nem sequer tem rosto, ainda menos o esqueleto que Holbein lhe pintou.
A morte é um sussurro, uma conversa. Se a morte nos apontasse um incorpóreo dedo, da ponta do dedo crescer-lhe-ia este conceito: a singela e inescapável interrupção do tempo. Nesse minuto ou hora de conversa, a morte dissipou todos os medos. Se só um imbecil não tem pavor da morte, fui por instantes esse indescritível imbecil.
Sozinho, sem telemóveis, incomunicável, mais isolado do que Crusoé na sua ilha, escutei-lhe o silêncio como quem se encanta com a primeira hipérbole. Atrás de mim, um fio de nostalgia pela minha vida vivida, uma vaga irritação pela indelicadeza de partir sem dizer adeus a ninguém. À minha frente, meio passo diante dos meus olhos, a certeza da eternidade, ou seja, a certeza de um nada indolor. Nada. The end, como num filme.
Algumas pessoas de direita gostam de fingir que existem contradições entre os princípios do Islão e o feminismo de quarta vaga. Mas, se eles realmente passassem algum tempo no Paquistão ou na Arábia Saudita ou em qualquer outro dos estados islâmicos, perceberiam que as atitudes em relação às mulheres são extremamente progressistas. Para o demonstrar, mais tardar este ano, penso organizar uma Marcha das Galdérias, pelo centro de Carachi. Titania McGrath
Woke, Um Guia para a Justiça Social é um livro delirante: lê-se com espanto e é impossível não nos fazer soltar uma gargalhada. Escreveu-o Titania McGrath, que a si mesma se define como «poetisa interseccional radical, comprometida com o feminismo, a justiça social e o protesto pacífico armado». Titania assume ser um «ícone millenial na vanguarda do activismo online». Sim, ela detecta o preconceito e o privilégio como um desembestado cão de caça da moralidade e morde sem reservas as canelas da injustiça, das afrontas de género, das humilhações raciais.
Titania McGrath não existe (ou existe e já lá vamos!) e este livro é uma prodigiosa sátira criada por Andrew Doyle, professor, doutorado em poesia renascentista. Doyle escreve sobre temas políticos e, em particular, liberdade de expressão, na revista online spiked! e faz comédia.
A verdade é que Titania McGrath existe. Existem hoje, no nosso mundo, milhares de Titanias, mulheres e homens. E a verdade é que esses e essas Titanias engrossam uma vaga inquisitorial cada vez mais perigosa e impositiva, policiando linguagem e comportamentos, demolindo o passado e infernizando o presente, vergastando com culpas quem não se submeta ao seu pensamento único.
Agarrando em causas razoáveis e justas, com o woke, o «despertar cultural”, os e as Titanias promovem uma «cultura hiperinclusiva» demencial. Manicomial, chamou-lhe o professor João Brás, tradutor da obra.
Sátira brilhante, este livro é profundamente sério e urgente: mostra o absurdo de um movimento que está a corromper causas nobres, parodiando-as de forma absurda, do que os seus militantes não se dão já conta, tomados pelo fanatismo dos iniciados e pelo fogo da purificação com que querem fazer arder livros, filmes, pessoas, enfim, o mundo.
Fazendo-nos rir, recuperando a tradição satírica e polémica de Jonathan Swift, Andrew Doyle escreve um texto para o seu tempo e para a posteridade: este é o retrato por absurdo de um movimento anti-civilizacional fundado em radicalismos excêntricos e imposturas identitárias.