Por vezes, a memória insinua-se e fala por mim. Crónica publicada recentemente no “Negócios”. Se tiverem paciência de a ler, leiam-na como reflexão recolhida e íntima, mais do que como declaração política. Isto sou eu a fazer contas comigo mesmo.
Entraram com os seus mortos. E queriam que todo o maximbombo visse os seus mortos. Eu ia também nesse maximbas, acabado de sair da Mutamba. Ia eu e duas freiras, duas irmãzinhas, sei lá se do Sagrado Coração de Jesus, que saíram do autocarro a correr, num assarapantamento tropical. Eram três mortos. Assim como entraram, logo saíram: mortos velozes, cobertos com lençóis, uma ou outra desassombrada mancha de sangue a decorá-los.
Essa era a Luanda do pós-25 de Abril e o problema que estávamos com ele, como na banda se dizia. O 25 de Abril, em 1974, era tudo menos um feriado. Apanhou os meus 20 anos na Biblioteca Nacional de Angola: eu lia, se calhar um livro de linguística, de John Lyons, talvez também um sub-reptício livro do senhor Ulianov. Ao ouvido, o meu amigo Juju disse-me que a rádio sul-africana anunciara um golpe em Portugal.
Ao silêncio sufocado do antigo regime, o 25 de Abril respondia com a sonora explosão das vozes. Em Luanda não se ouviam os clamores, os slogans ou os megafones das manifes de Portugal. Portugal não ouvia também os tiroteios dos dias e das noites de Luanda: day and night, night and day.
O 25 de Abril foi o dia da escolha. Portugal escolheu as vozes. Em Luanda, cada tiro condicionou a escolha. Eu escolhi os tiros. O luandino adolescente que eu era alinhou-se com o MPLA, então um fingido albergue espanhol de todas as ideologias, suposta fábrica do homem novo. No Lobito, os meus solitários 20 anos chocaram com a UNITA. Savimbi, quando vinha, dormia num prédio em frente ao meu, na rua que saía do Terreiro do Pó. Foi nesse prédio que me enfiei, na primeira batalha urbana entre o velho Éme e o Galo Negro, eran las cinco en punto de la tarde. E pensei: “Meu, pô, meti-me no coito do grande Muata. E se os camaradas do éme, zunem as balas práqui? Abre, meu!”
Vou meter a cabecita de fora e, em vez do harmonioso crepitar da aká, vocifera a primeira granada: mergulhei de novo no umbigo de Savimbi. A segunda tentativa foi ridiculamente igual à primeira. À terceira, rastejei em beleza, como tinha aprendido na recruta, na EAMA, a roçar os pneus dos carros. Ainda a tempo de jantar, junto ao porto, na pensão da Rosa, velha senhora que deliciava a minha boca revolucionária com os mais doces sonhos que algum dia comi.
Não a rastejar, mas de avião, fui a Luanda, a mando do ministro da Educação do governo de transição, Jerónimo Wanga. Era, certamente, um homem bom, mas tinha, nesse dia, a missão de me intimidar. A UNITA não apreciava a militância de seis professores do liceu do Lobito. Eu era um deles. Wanga, rodeado de quatro manos do Galo Negro, disse-me, a mim e ao Rui, outro dos profes: “Sei que vocês são do MRPP e só vieram cá fazer merda!” Toma que já levaste, embora o MRPP fosse fake news.
Dissemos-lhe: “Senhor ministro, nós não viemos, já estávamos cá”. Continuou: “O povo já está a ficar fodido convosco. Eu compro-vos as malas e mando-vos para o Puto.” Sorrimos: “Obrigado, não temos nada para levar. Preferimos ficar.”
Eis o 25 de Abril: vozes e escolha em Portugal. Rotundo não à ditadura de Salazar, um Verão quente para dizer também não ao PCP e à extrema-esquerda que, como hoje sabemos, nos teriam afundado na miséria económica e num regime mais repressivo do que o de Salazar. Sabe-o também Angola: sem escolha, a tiro apenas, se a dignidade da independência chegou, cavou-se um caos económico, regressão face à herança colonial, para não falar dos píncaros de repressão que milhares dos melhores angolanos sofreram no corpo e na alma.
Convido-vos a deixarem-se agarrar pela cintura pelo longo braço dos livros de Junho.
são livros ou são braços?
O Longo Braço do Passado é o grande livro de Junho da Guerra e Paz editores. Cada página desse romance de Rui de Azevedo Teixeira me puxou também para o passado, arrastando-me até à infância em que eu lia livros de devoção como A Vida de Jesus, edição popular de Raul Correia, que este mês publico.
Voltei, à conta d’O Longo Braço do Passado, ao ramo da mangueira, a árvore onde, menino e moço, lia: podia ter lido ali as extraordinárias aventuras de À Espera de Bojangles, de Olivier Bourdeaut, ou o delírio fantástico e assustador de Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft, dois romances exaltantes de Junho, na Guerra e Paz.
O Longo Braço do Passado, história de um português que vai a Angola e mata, é tanto uma viagem no tempo quanto o livrinho científico de Ludovic Orlando, O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, ou como o rigoroso ensaio histórico de João Pedro Marques, Revoltas Escravas. No romance de Rui de Azevedo Teixeira, como nestes ensaios, perpassa a inquietação e a insatisfação de quem não se resigna a ideias tépidas e anestesiantes.
A vida, uma vida a estalar de contradições, uma vida de elegância e violência, com a memória de guerra do oficial comando que foi Rui de Azevedo Teixeira, atravessa O Longo Braço do Passado, como atravessa as Crónicas de Sebastopol, em que Tolstói narra a sua experiência das batalhas da Crimeia. Estão juntos, estes livros, em Junho: acompanha-os Eunice Muñoz: Fotobiografia, obra repleta de fotografias de vida e de palco, belíssima homenagem com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.
OLongo Braço do Passado, romance que inaugura a colecção Arquipélago, doravante a colecção de romances contemporâneos de língua portuguesa, é um território de sombrias intuições e de vivos e agudos instintos. Foi a esses instintos que recorreu o economista espanhol Fernando Trías de Bes para nos explicar como as emoções mudaram o curso da Humanidade, em Uma História Diferente do Mundo. São outras as emoções que Lisboa despertou em Fernando Machado Antunes, que nos convida à mais lírica e fadista das deambulações em … como que lisboandando, o seu primeiro livro de poesia na Guerra e Paz.
Este é o nosso mês de Junho, com dez novos títulos, a que um romance, O Longo Braço do Passado, oferece um périplo pungente: Paulo de Trava Lobo, o seu herói, leva-nos a Lisboa e ao Porto, a Luanda e ao Lubango, à Bulgária e à Alemanha, numa peregrinação de risco, sexo e morte, que só o amor à literatura resgata. Um grande romance português.
E são estes, um a um, os livros de Junho
Nas livrarias a 14 de Junho
À Espera de Bojangles, Olivier Bourdeaut Um romance narrado do ponto de vista de uma criança: com euforia e encanto. Os pais vivem com exuberância, música e champanhe cada minuto do dia. Pode a exaltação estilhaçar-se como um cristal?
Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft Uma das obras-primas de Lovecraft: nos píncaros da loucura, um mergulho no gelo mortal da Antárctica. Um grupo de cientistas descobre uma civilização inumana adormecida. Tensão, horror e morte.
… como que lisboandando, Fernando Machado Antunes Lisboa visitada pela lírica, pela sintaxe e pelo vocabulário de um poeta que não consegue deixar de ser caluanda. Há versos de fado, há um lirismo musical nesta Lisboa em rima.
Revoltas Escravas, Mistificações e Mal-Entendidos, João Pedro Marques Foram as revoltas escravas que acabaram com a escravatura? Quando foram bem-sucedidas, será que os escravos triunfantes criaram sociedades não-escravistas? Um livro essencial para o debate sobre a emancipação dos escravos.
O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, Ludovic Orlando Um grande livro de divulgação científica: o ADN fóssil não só nos ajuda a escrever a História, como pode mesmo reescrevê-la, desfazendo mitos e preconceitos. É essa a grande viagem a que o cientista, seu autor, nos convida.
A Vida de Jesus, texto de Raul Correia, ilustração de Carlos Alberto Santos Um livro popular que a Guerra e Paz recupera. Uma escrita simples que dá todo o protagonismo aos episódios centrais na vida de Jesus. As ilustrações reforçam a inocência.
Nas livrarias a 28 de Junho
Eunice Muñoz: Fotobiografia, texto de Fátima Morais Um álbum magnífico: todas as imagens dos momentos mais marcantes da obra de Eunice Muñoz, mas também da sua vida em família. Toda a carreira teatral, cinematográfica e televisiva retratada nesta obra de grande qualidade gráfica, só possível com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.
Crónicas de Sebastopol, Lev Tolstói Está aqui, em carne viva, a Guerra da Crimeia, de 1855. Tolstói foi tenente nessa guerra. Relata os acontecimentos cruciais que viveu, desenhando aqui o esqueleto do que vai ser a sua obra-prima, o romance Guerra e Paz. Lida hoje, com a guerra da Ucrânia em fundo, é impressionante.
O Longo Braço do Passado, Rui de Azevedo Teixeira Um ex-comando português vai dar aulas de literatura numa universidade angolana: começa aqui um périplo atormentado, de amor e violência. Pode haver um crime justo? Um romance português que privilegia a narração dos factos. Por mais crus, por mais brutais que sejam. Um livro poético e duro, belíssimo, que inaugura a colecção Arquipélago.
Uma História Diferente do Mundo, Fernando Trías Bes Neste livro, o economista e escritor espanhol Fernando Trías Bes mostra-nos como as emoções e os instintos foram a chave para o desenvolvimento da Humanidade: o comércio, o câmbio, os seguros, a moeda são inventos que os humanos criaram para se salvar da violência.
Estão que nem pãezinhos quentes: chegaram hoje às livrarias
Os Mortos, James Joyce
Uma novela de Dublin. O baile anual das irmãs Morkan, entre Natal e o Ano Novo. Uma noite de evocação e de elegia: emergem e caem graciosamente, como flocos de neve, os vivos e os mortos.
O Esqueleto, Camilo Castelo Branco
Nicolau, homem de 40 anos, casa com a inocente prima de 16. Antes, abandonou a amante francesa, a quem logo volta. Mas talvez Beatriz, a prima, não seja tão inocente como Nicolau pensava. Esse é o adultério. O esqueleto aparece anos depois.
Enfermaria, Ana Paula Jardim
Uma perturbadora viagem poética. Cura e doença, morte e salvação, numa evocação desassombrada de improvável beleza que habita, também, na enfermidade e na dor.
A Decadência da Arte de Mentir, Mark Twain / A Decadência da Mentira, Oscar Wilde
Neste livro, que reúne dois curtos ensaios, Mark Twain e Oscar Wilde fazem o elogio da arte de mentir e da necessidade dessa arte. Um livro irreverente e imaginativo.
Marquês de Pombal, Réu Confesso, Camilo Castelo Branco
Camilo diz-nos quem foi o Marquês de Pombal. «Um homem feroz», garante o autor de O Amor de Perdição. Uma biografia implacável, que faz de Pombal um réu confesso.
Comecei assim este ano de 2022, com vontade de ouvir as mais sinceras e convulsas confissões.
Tinha os dois pés há menos de uma hora em 2022 e vem-me do passado esta ideia: Elia Kazan gostava de confessar. Recordo os mais distraídos pelo fogo de artificio do réveillon: Kazan realizou filmes como East of Eden, Wild River e Streetcar Named Desire. Nem são bem filmes, são monumentos de paixão e criação a roçar o divino. Kazan, com mãos e olhos de Deus, inventou Marlon Brando e James Dean, que Homero, se os conhecesse, teria enfiado na sua Ilíada. Aliás, Kazan nasceu grego, em Constantinopla, a cidade que já fora Bizâncio e hoje é Istambul. Só não sei se o seu gosto pela confissão trágica vem do grego capadócio que era de nascimento ou do convicto americano em que se tornou.
Talvez a confessional Marilyn Monroe tenha alguma culpa. Vejam, vejam: Marilyn está a chorar. É um choro americano de 1951, límpidas lágrimas de uma mulher de 25 anos. Os 43 anos bem casados de Kazan acabaram de a conhecer. Estão no estúdio onde se filma uma fita de terceira categoria, em que Marilyn é actriz de quarta. Riem-se dela. Kazan veio de visita, e escuta-a. Enternece-se e convida-a para jantar. Não sei a que restaurante Kazan a levou, talvez ao Musso & Frank Grill, sei é que a ternura é já incandescente. E tornam-se amantes: Kazan começa a amar em Marilyn o genuíno talento, a candura. O ostensivo e inenarrável corpo de Marilyn exalava uma humanidade que o inspira. Talvez chorem, digo eu, de cada vez que dormem juntos.
Ainda seriam amantes, quando pela primeira vez, o Comité de Actividades Anti-Americanas interroga Kazan, acusando-o de ser comunista? Nesse primeiro interrogatório, Kazan confessa que foi militante comunista dos 23 aos 27 anos: passaram duas décadas e já não o é. E não confessa mais nada.
Terá sido então que Kazan apresentou Marilyn ao seu amigo Arthur Miller e logo assistiu ao tiro e queda que avassalou os dois? Marilyn escreveu no seu diário, a impressão do primeiro olhar para Miller: “Foi como se tivesse chocado de frente contra uma árvore!” Tenho a certeza: ao segundo interrogatório do comité de caça às bruxas, Kazan já não tinha o consolo de Marilyn. À confissão, no segundo interrogatório, juntou uma lista de oito nomes. Denunciou: passou a stool pigeon, a bufo. Essa é inesquecível traição que a América de esquerda jamais perdoou a Kazan, se exceptuarmos o grande Scorsese.
E já eu peço licença para vos falar de outra confissão. Ainda mal tinha assentado o pó desta atroz traição, e já o maravilhoso e convulso Kazan escreve à mulher. Confessa-lhe, em carta vibrante, o que todos os homens gostariam de poder confessar: que dormira com Marilyn – melhor, que a amara. E tal como não pediu desculpa por denunciar os oito camaradas, fez até um filme genial, On the Waterfront, para provar que a denúncia pode ser mandatória, Kazan não pede perdão. Confessa e garante que era impossível não se morrer de amor, tanto ela era, e leio a carta, “desamparada e em atroz sofrimento, sem esperança, com algum valor e sem ser mentirosa, sem crueldade, sem intriga, e com uma história de orfandade que era de morrer a ouvir-se. Era como se nela se tivessem juntado todas as heroínas de Charlie Chaplin.”
Tal como acusaria o comunismo de ser uma violência a tudo o que acreditava, reclama nobreza com Marilyn: “Acho que lhe dei esperança. E ela não era o pote de sexo que se publicita.” Pede à mulher que fique com ele: “Sou um homem de família, e fantástico.” Ela ficou. E eu atrevo-me a dizer, pedindo um terno aceno de concordância de Marilyn, que já não se fazem homens de família assim.
É que nem morto este vosso humilde editor vos mentiria. E começo, assim, com juras de amor, só para vos dizer que o primeiro livro de Maio da Guerra e Paz se chama Os Mortos. Escreveu-o, com mão elegíaca, James Joyce: uma novela que sufoca e enternece. E também não é mentira que o segundo livro do mês se chame Enfermaria, peregrinação de dor e memória da poetisa Ana Paula Jardim: e não é mentira porque só há poesia onde há verdade e verdade é o que povoa de ironia, e não menos transcendência, outra digressão poética, a do último livro de Maio, Revolver, de Sérgio Almeida.
E sim, já eu mentiria se não reconhecesse o toque de macabro que emana (palavra ligeiramente mentirosa) de O Esqueleto de Camilo Castelo Branco: é um dos grandes romances portugueses, e isso é que não é mesmo mentira. E quem à morte chamava uma mentira, negando-a, era o herói de Impressão Indelével, história de Camilo, primeiro livro publicado pela Guerra e Paz, em 2006, e que agora recuperamos, incluindo o verdadeiro e intenso prefácio de João Bénard da Costa. O Esqueleto e Impressão Indelével vestem de camilianas e macabras verdades (ou mentiras?) a colecção Clássicos Guerra e Paz.
Já o livro que se segue é todo e tudo mentira. Meia mentira de Mark Twain e outra meia [mentira] de Oscar Wilde. Se um escreveu A Decadência da Arte de Mentir, ao outro devemos A Decadência da Mentira: estão juntos, mentira contra mentira, num só livro que este vosso escriba apresenta na breve introdução Não Vou Mentir: está de volta a colecção Livros Amarelos.
Chega de mentiras. João Maurício Brás, filósofo e autor, vem inquietar-nos com o seu O Atraso Português, Modo de Ser ou Modo de Estar? Mentiria se dissesse que sei responder a essa pergunta excruciante. O livro sim, sabe!
Quem, a todas as mentiras sobre a língua portuguesa, responde letra a letra, só com verdades, é o linguista Marco Neves, no livro Português de A a Z, Armadilhas e Maravilhas da Língua. Com verdades e graça.
Agora, o que o alemão Jurek Becker nos põe nas mãos e no nosso imaginário é mesmo o triunfo maravilhoso da mentira: escreveu Jakob, o Mentiroso, romance delicado e empolgante sobre a sobrevivência num gueto que os nazis esmagam. É verdade é mais um dos nossos romances de guerra e paz.
Um belíssimo mentiroso, na mais límpida acepção do termo, era Machado de Assis. Num romance, A Mão e a Luva, vamos ver quem, dos três pretendentes da protagonista Guiomar, melhor mente ou diz a verdade. E o que é verdade ou mentira na subtil arte da pintura? Edith Wharton cria um herói incompreendido e convida-nos a segui-lo em Falso Amanhecer, novela que enrique a colecção O Admirável Mundo do Romance.
Duas biografias, essa esplêndida arte de contornar a mentira e dizer muitas verdades, enfloram este mês de Maio da Guerra e Paz editores. A primeira, a biografia de Raúl Caldeira, O Pioneiro da Gestão de Pessoal, acolhem-na a Fundação Amélia de Mello e a Nova SBE na colecção Histórias de Liderança; a segunda, escrita por Camilo Castelo Branco, indefectível romeiro da fantasia e da verdade, expõe os enganos e imposturas da falsa grandeza no seu Marquês de Pombal, Réu Confesso.
Treze livros que, de mentira em mentira, e a crer em Mark Twain e em Oscar Wilde, nos restituem a arte de procurar a verdade, não menos do que toda a verdade.
Na altura andava às voltas com o Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain, e escrevi esta crónica para o meu “Negócios”. Foi em Junho do ano passado. Aqui fica para entretenimento e registo
Seriam de sombrio ouro as torneiras do palácio do rei Leopoldo II dos belgas? Diz-se que eram, sim, de indiscutível ouro, já não sei se as do palácio se as do iate do presidente Mobutu, herdeiro do sombrio Leopoldo em crueldade e horror.
E quem, vendo o porte erecto, o puro e limpo linho da sua longa barba branca, poderia dizer que via o coração de Leopoldo, monarca dos belgas, dono dos milhões de congoleses do Estado Livre ou Independente do Congo? Disse Estado Livre do Congo e estremeço: que desgrenhada e ofensiva ironia foi chamar-se isto ao vasto quintal mesquinho e bárbaro de que Leopoldo foi dono pessoal, como cada um de nós o é de um par de cuecas, umas surradas peúgas.
Arrisco. Talvez o anarquista Gennaro Rubino tinha tido um vislumbre do coração do monarca: viu o que de sevo e impiedoso corria pelas aurículas e ventrículos do rei. Atónito e espaventado, o anarca disparou contra ele três tiros. Nenhum lhe perfurou o coração, nem um pêlo da barba sequer lhe roçou.
Nessa noite de 15 de Novembro de 1902, um teatro inteiro de Bruxelas, patriótico, erguido e teso, cantou loas ao seu rei ileso. Bruxelas era então surda dos dois ouvidos: não escutava as vaias e pateadas com que a Europa já brindava o rei.
Agora olhem para este embarcadiço, regular visitante de Boma, cidade congolesa que, espreguiçando-se, já poria um pé em Angola! Chama-se Edmund Dene Morel, cidadão inglês, um bigode espanador, mas sem barbas que precisem de molho. Ao mundo, Morel relata o chicote, os suplícios, a mortandade que viu.
Volto ao coração de Leopoldo. Sonhou com um império como o holandês ou o português. Tinha um olho no Brasil, e um sobrinho casado com uma filha do imperador D. Pedro II, expansão que a república brasileira gorou. Quis comprar as Filipinas a Espanha. Quem sabe se não terá um dia feito contas a Angola?
Na Conferência de Berlim, Leopoldo fez-se presente e entrou com coração de cordeiro. Do seu colo, como do da nossa rainha Isabel, resvalaram as flores da filantropia. Prometia combater a escravatura árabe que devastava a África Central. Prometia levar ao selvagem coração negro as raízes poderosas desse capim cristão a que chamamos ama o teu próximo como a ti mesmo. Berlim, comovida, deu-lhe um território setenta vezes maior do que a Bélgica, quase duas vezes maior do que Angola. Peço aqui um daqueles silêncios estarrecedores: deram-lhe, a ele, não à Bélgica, como seu reino pessoal, seu quimbo, sua horta, esta imensidão de África.
Mas na Europa ressoa a voz inarredável de Morel. As sociedades comerciais a que Leopoldo entregou o Congo têm um exército privado, a Force Publique, de uma tribo canibal, que serve o terror da alvorada ao pôr do sol. Lançaram um imposto sobre a população, submetida a um regime de trabalhos forçados, que rasa a escravatura. Os congoleses têm de produzir uma cota diária de recolha da borracha, a riqueza que gera a fortuna obscena de Leopoldo. Aos que não cumprem corta-se-lhes uma mão, ou corta-se uma mão aos filhos. As sanzalas são incendiadas, decapitam-se recalcitrantes, empalam-se cabeças: um nevoeiro de terror e nojo flui, espesso, pelo rio Congo. Joseph Conrad romanceou essa névoa em o “Coração das Trevas”, mas foi o incansável combate de Morel, as denúncias dos missionários, que abriram os ouvidos da Europa e, por fim, da Bélgica. Leopoldo, milhões de mortos depois, entregou o Congo à Bélgica e a alguma lei.
Morreu a seguir. No funeral, apuparam o cortejo. Os mesmos que, no dia dos tiros anarquistas, lhe cantaram hossanas no teatro?
E esta é a capa negra do livro que vivamente vos recomendo, em nova tradução.
A culpa é da jornalista Fernanda Cachão. Desafiou-me. Faz boas perguntas. Tentei aguentar-me nas respostas. Foi uma entrevista comemorativa dos 16 anos da Guerra & Paz. Saiu tudo, tudinho, na revista “Domingo”. Ora vejam, leiam e critiquem.
Nenhuma criança sonha ser editor. Como é que foi consigo?
É verdade, a criança e sobretudo o adolescente que eu fui, se sonhou com livros, foi para sonhar com histórias de Adamastores, de cow-boys, de pupilas do senhor reitor ou de astérixes em aldeias gaulesas. Li essas e outras histórias no sólido ramo da minha mangueira, na minha casa, em Luanda, sem perguntar como se faziam os livros ou quem os fazia. Quem teve a culpa de me obrigar a pensar como se faziam livros foi o João Bénard da Costa, quando dirigiu a Cinemateca. Para cada ciclo fazíamos um catálogo e eu era um dos servos da gleba que teve de aprender a escrever e rever textos, a trabalhar com um gráfico, para arrumarmos, página a página, palavras e fotografias e, depois, a ir às gráficas cheirar as tintas e passar a mão pelo papel. E descobri que esse convívio íntimo não só não impedia um grande amor ao livro, como reforçava o prazer e lhe dava sentido.
Aqui há dias, escreveu a propósito do aniversário da sua editora:”Lembro-me que Abril de 2006 foi um mês em que nasceram várias editoras em Portugal. Dessas editoras de Abril de 2006, só a Guerra e Paz editores sobreviveu. Vamos em peregrinação. Deambulando como Ulisses”. O que é que dita a sobrevivência de uma editora em Portugal?
Optimismo, algum bom senso, contas certas e beijos na boca à realidade. Mas não sei se a receita serve a toda a gente. Vivi durante dois anos a guerra civil angolana, tinha então 22 e 23 anos: descobri que mesmo no meio da tormenta, quando todo o mundo que imaginámos se esboroa, se pode ainda ser feliz. Foi esse o meu mestrado de gestão.
Como é que a pandemia e agora a guerra na Europa afectam o negócio dos livros?
A pandemia obrigou os editores a respirar fundo e a reinventar o negócio dos livros. A situação mundial é, hoje, de claro crescimento do livro em papel, atingindo valores superiores aos valores de vendas pré-pandémicos. Isso significa que nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália – ou seja, nos países que lêem – o livro sai como um resistente e um dos recursos preferidos pelos cidadãos para o conhecimento e para o prazer e emoção. O livro tem futuro. Em Portugal, sentimos mais duramente os efeitos: fomos um dos raros países com uma quebra – e grande, de 17% – nas vendas de livros no primeiro ano de pandemia. Mas já recuperámos os níveis de 2019 e estamos em crescimento. Temo que, agora, a inflacção, a quebra de stocks de papel com um brutal aumento, e o aumento dos custos da energia que está a abalar as gráficas possa, pela frágil situação do livro em Portugal, ferir o sector: vai doer. Portugal precisa de uma política do livro e não vai ser o miserabilismo orçamental do Ministério da Cultura que o vai resolver. É preciso que o Primeiro-Ministro fale com a APEL, a associação que representa 97% do sector do livro em Portugal, e se encontre um caminho que faça explodir a literacia e o recurso à leitura. Se não lermos, continuaremos a ser o país estagnado que temos sido, apesar da democracia, ao longo destes 40 anos.
Depois dos e-books fala-se agora muito de audiolivros. Uma moda passageira ou uma oportunidade de negócio?
O audiobook é uma realidade em países que já lêem muito, como a América, Inglaterra e mesmo França. Em Portugal é pura e simplesmente risível: nem é bolha, nem sequer borbulha. Mas queremos estar presentes, a pensar num futuro ainda razoavelmente distante.
A editora tem no catálogo alguns livros para ‘descabelar espíritos penteadinhos’ ou ir contra as modas do pensamento contemporâneo… É o espírito da missão de um editor?
Sim, em particular na nossa colecção de “Livros Vermelhos”, temos a pretensão de oferecer caminhos que nos resgatem de um pensamento único. Dou um exemplo, vamos publicar em breve, um livro de um físico da Universidade de Nova Iorque, que foi secretário na área da energia, no governo de Obama, sobre as questões climatéricas. O livro chama-se “Desconsenso: O que a ciência do clima nos diz, o que não diz e o que isso interessa” e o autor, Steven Koonin, mostra-nos como muita Imprensa e mesmo as vozes dos políticos da ONU, reclamando-se do relatório do IPCC sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), apregoam um apocalipse que, cientificamente, esse relatório não sustenta.
Fomos e estamos a ser ensinados a viver como carneiros?
Diria que há uma infantilização sinistra em curso, para a qual todos contribuímos. Como se tivéssemos todos de pensar de forma uniforme e as nuances, essas maravilhosas formas de recreação e de subtileza, tivessem sido abolidas.
O politicamente correcto, tal qual o praticado hoje em dia, pode ser também uma forma de ditadura?
É decididamente uma forma de pensamento único. Sobre o essencial desse movimento “correctivo” identitarista e de género, pronuncia-se com inteligência o nosso livro “Teorias Cínicas”, demonstrando que esses discursos e teorias prejudicam acima de tudo as comunidades que juram querer servir. E um outro livro, “Woke, um Guia para a Justiça Social” arrasa pelo absurdo a vocação delirante e repressiva do politicamente correcto.
Foi prefaciador dos livros de Hitler, Marx e Mao Tse-Tung. Qual destes autores o deixou menos indisposto?
Fui prefaciador do que chamei três livros malditos – o “Manifesto Comunista”, o “Mein Kampf” e o “Pequeno Livro Vermelho” – livros que, voluntária ou involuntariamente, foram bandeiras usadas em três das maiores tragédias humanas do século XX. É de justiça dizer que Marx e Engels são de uma natureza diferente dos bárbaros Hitler e Mao. Mas é preciso também dizer que não há nenhum resgate possível do ideal comunista: as ideias do “Manifesto” conduzirão sempre a uma sociedade de violência e brutal repressão. É da natureza maniqueísta do “Manifesto”: aí começa a divisão e a legitimação do massacre.
Alguma vez esteve envolvido numa polémica por causa da autoria de uma crónica?
Já estive envolvido em polémicas, sobretudo quando fui director de programas da SIC. E não creio que se resolvam à Will Smith.
Trabalhou na televisão. Vê televisão actualmente?
Sim, pouco, mas vejo. E vejo como hoje muita gente vê televisão. Vejo o que quero e quando quero, uma série toda seguida em duas noites longas, um filme, os jogos do SLB, passeio de telejornal em telejornal.
Há alguma diferença entre as polémicas de agora e as de outras épocas?
Lembro-me que foi célebre uma polémica na televisão americana entre Norman Mailer e Gore Vidal, dois grandes escritores. À saída do debate, a polémica prosseguiu e Mailer estendeu Vidal com um murro. Do chão, Gore Vidal ganhou a polémica com a mais admirável das respostas: “Mais uma vez, Norman, faltaram-te as palavras!”
Qual o melhor filme para se ver, quando se tem dúvidas sobre a acção de Putin sobre a Ucrânia?
Há um filme recente, The Painted Bird, que não passou em Portugal, que dá um retrato da devastação física, emocional e moral que a guerra pode causar. É um filme de um miúdo perdido, escravizado, perdido entre gente hostil: é fisicamente difícil até de ver e é essa dificuldade que nos aproxima da experiência de rasgada dor que é a guerra.
Qual é a importância do cinema na sua vida?
Vivi até aos 19 anos em Angola, sem vir a Portugal. Nunca tinha visto até aí televisão. Isso dá uma ideia da importância que para o meu imaginário tiveram o cinema e os livros. O cinema vivi-o como uma exaltação física. Vi filmes em salas onde se gritava e atiravam, com o maior dos entusiasmos, coisas ao ecrã. Vi, portanto, filmes em estado puro.
E com um livro, o que é que vai melhor?
Um belo copo de vinho tinto: e não estou a descobrir nada de novo, foi a beber um belo copo de tinto italiano que Marlon Brando entregou ao seu filho Al Pacino o império do mal dos Corleones no “Padrinho”, do Francis Copppola.
Por que é que não escreve um romance?
Já escrevi livros. Um sobre a “Revolução de Outubro”, outro sobre a minha relação apaixonada com os terríveis palavrões que usamos nos insultos ou quando estamos em fúria. É um livro deliciado com a força seminal, se assim posso dizer, da palavra, com esse ponto em que a palavra passa a ser uma arma de guerra. Agora um romance? Talvez um dia, para despedida, escreva um livro que seja híbrido o suficiente para ser considerado um romance. E talvez seja esse livro que decide se, a seguir, vou para o céu ou para o inferno.
Ora vejamos, e gostava que mesmo Will Smith ponderasse nisto: Sir Winston Churchill está sentado na retrete. O seu chefe de gabinete, quem fosse, bate-lhe à porta com tanta urgência como a sentada urgência dele. E, para que ouça bem, grita-lhe que está ao telefone o Lord Keeper of the Privy Seal. Esclareço: esse lorde é o quinto na hierarquia dos grandes oficiais do Reino Unido, um braço ou quase uma mão da rainha. Sentado na sanita, Churchill talvez pense que é um Chris Rock em Hollywood e não resiste: “Digam-lhe que só me consigo ocupar de uma merda de cada vez.”
Anda por aí uma romaria a querer beijar a mão de Will Smith. Eu beijo a boca de Chris Rock. Ou, se ele sair da retrete, a boca de Churchill. E já a boca de Churchill discorre imparável. A bela Viscondessa de Astor, feminista e incansável anti-nazi, abespinhou-se com Churchill e tomba-lhe de bruços a compostura: “Se o senhor fosse meu marido, despejava-lhe veneno no café!” Ao que logo os cem quilos de Churchill ronronam: “Se eu fosse casado consigo, bebia-o.”
Há limites para o humor? Ah, a saúde e coisa e tal, o doente fragilizado e vulnerável, essa hóstia consagrada do nosso tempo é a porta que o humor não deve transpor, a essa porta se esfregando com sonasol lixivia a língua do humorista! Que São Churchill nos ajude: voltemos à suja casa dele. Vieram pedir-lhe que escrevesse uma carta de parabéns pelo 80.º aniversário a Stanley Baldwyn, que fora três vezes primeiro-ministro. Seria um gesto misericordioso. Stanley estava doente e morreria pouco depois. Churchill, esse idiossincrático anti- Will Smith, não hesitou. Disse álacre e rotundo que não: “Não desejo a Stanley nenhum mal, mas teria sido muito melhor que ele nunca tivesse nascido.”
E a religião? Não peçam ao Charlie Hebdo respeitinho e que se ponha com caladas vénias e salamaleques de omissão a Maomé e “às religiões”. Peçam antes a Maomé e “às religiões”, essas às vezes sublimes, às vezes aterradoras criações humanas, que respeitem a liberdade, mesmo a mais irreverente, que é a nossa condição. A capa do Charlie Hebdo com um amargurado Maomé, que não se reconhece nos integristas, e choroso afirma, “Que cruel é ser amado por imbecis!” é um prodígio de tolerância.
E agora que, Charlie Hebdo na mão, Churchill já saiu da casa de banho, voltemos à boca dele. Está no Parlamento britânico e trava-se de razões com Elizabeth Braddock, deputada trabalhista. A senhora Braddock poupava na beleza o que não poupava nas palavras. No fervor da tormenta, não hesita: “Winston, o senhor é um bêbado. E o pior é que é um bêbado repugnante.” Levantou Churchill uma mão de Will Smith para a senhora Braddock? Responde-lhe antes com a doçura, ternura mesmo, destas palavras: “Minha querida, também a senhora é feia, e pior, é uma feia repulsiva. Só que amanhã eu já estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia e repulsiva.” Pedindo a Will Smith que mantenha a mão quieta, lembro ser de Oscar Wilde a melhor piada sobre órfãos: “Perder um pai pode ser visto como um infortúnio, mas perder os dois já me parece falta de cuidado.” E se Will Smith quer ainda bater a alguém, que bata ao ex-presidente Johnson, branco e macho tóxico, que de outro presidente, Gerald Ford, foi capaz de dizer: “Gerry Ford é tão burro que é incapaz de se peidar e mastigar pastilha elástica ao mesmo tempo.” Talvez Will possa esmurrar Trump: sobre a estrela dele no Walk of Fame alguém pintou uma suástica. Um acto de humor: ninguém sabe se foi um apoiante ou um opositor. Quem dera que tivesse sido Chris Rock.