Churchill, Will Smith e o Charlie Hebdo

Dois dedos de Winston e já falo da mão de Will

Ora vejamos, e gostava que mesmo Will Smith ponderasse nisto: Sir Winston Churchill está sentado na retrete. O seu chefe de gabinete, quem fosse, bate-lhe à porta com tanta urgência como a sentada urgência dele. E, para que ouça bem, grita-lhe que está ao telefone o Lord Keeper of the Privy Seal. Esclareço: esse lorde é o quinto na hierarquia dos grandes oficiais do Reino Unido, um braço ou quase uma mão da rainha. Sentado na sanita, Churchill talvez pense que é um Chris Rock em Hollywood e não resiste: “Digam-lhe que só me consigo ocupar de uma merda de cada vez.”

Anda por aí uma romaria a querer beijar a mão de Will Smith. Eu beijo a boca de Chris Rock. Ou, se ele sair da retrete, a boca de Churchill. E já a boca de Churchill discorre imparável. A bela Viscondessa de Astor, feminista e incansável anti-nazi, abespinhou-se com Churchill e tomba-lhe de bruços a compostura: “Se o senhor fosse meu marido, despejava-lhe veneno no café!” Ao que logo os cem quilos de Churchill ronronam: “Se eu fosse casado consigo, bebia-o.”

Há limites para o humor? Ah, a saúde e coisa e tal, o doente fragilizado e vulnerável, essa hóstia consagrada do nosso tempo é a porta que o humor não deve transpor, a essa porta se esfregando com sonasol lixivia a língua do humorista! Que São Churchill nos ajude: voltemos à suja casa dele. Vieram pedir-lhe que escrevesse uma carta de parabéns pelo 80.º aniversário a Stanley Baldwyn, que fora três vezes primeiro-ministro. Seria um gesto misericordioso. Stanley estava doente e morreria pouco depois. Churchill, esse idiossincrático anti- Will Smith, não hesitou. Disse álacre e rotundo que não: “Não desejo a Stanley nenhum mal, mas teria sido muito melhor que ele nunca tivesse nascido.”

E a religião? Não peçam ao Charlie Hebdo respeitinho e que se ponha com caladas vénias e salamaleques de omissão a Maomé e “às religiões”. Peçam antes a Maomé e “às religiões”, essas às vezes sublimes, às vezes aterradoras criações humanas, que respeitem a liberdade, mesmo a mais irreverente, que é a nossa condição. A capa do Charlie Hebdo com um amargurado Maomé, que não se reconhece nos integristas, e choroso afirma, “Que cruel é ser amado por imbecis!” é um prodígio de tolerância.

E agora que, Charlie Hebdo na mão, Churchill já saiu da casa de banho, voltemos à boca dele. Está no Parlamento britânico e trava-se de razões com Elizabeth Braddock, deputada trabalhista. A senhora Braddock poupava na beleza o que não poupava nas palavras. No fervor da tormenta, não hesita: “Winston, o senhor é um bêbado. E o pior é que é um bêbado repugnante.”  Levantou Churchill uma mão de Will Smith para a senhora Braddock? Responde-lhe antes com a doçura, ternura mesmo, destas palavras: “Minha querida, também a senhora é feia, e pior, é uma feia repulsiva. Só que amanhã eu já estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia e repulsiva.” Pedindo a Will Smith que mantenha a mão quieta, lembro ser de Oscar Wilde a melhor piada sobre órfãos: “Perder um pai pode ser visto como um infortúnio, mas perder os dois já me parece falta de cuidado.” E se Will Smith quer ainda bater a alguém, que bata ao ex-presidente Johnson, branco e macho tóxico, que de outro presidente, Gerald Ford, foi capaz de dizer: “Gerry Ford é tão burro que é incapaz de se peidar e mastigar pastilha elástica ao mesmo tempo.” Talvez Will possa esmurrar Trump: sobre a estrela dele no Walk of Fame alguém pintou uma suástica. Um acto de humor: ninguém sabe se foi um apoiante ou um opositor. Quem dera que tivesse sido Chris Rock.

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