Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Esta é a minha araucária. É minha, por ser a araucária que vem, todos os dias, assomar-se à minha janela e espreitar para dentro de casa. Gosta de ver se estou de chinelos ou descalço, se trago dois pares de peúgas nos dias mais frios. Olha-me com uma ponta de ironia e duas simétricas pontas de ternura. Tudo lhe devolvo em admiração e algum amor: minha querida conífera.
O assassino de Trotsky. Aqui ainda não se sabia quem verdadeiramente era
A utopia tem um imerecidíssimo bom nome. O que, debaixo desse chapéu se fez de hediondo, o que sob a sua sombra se gerou de miséria, atraso, obscurantismo e morte, devia fazer-nos pensar cinco vezes. Mas é o que é: às vezes mais vale cair em graça do que ser engraçado. Veja-se a história de Trotsky: foi quem foi! Passa por ser um pensador.
Foi um heterónimo que espetou a picareta de alpinista na cabeça de Trotsky. Hoje sabemos, mas não se soube durante décadas, que a mão que desferiu o golpe hediondo foi a do catalão Ramon Mercader del Rio. Ao condená-lo, a polícia e os tribunais mexicanos condenaram, primeiro o canadiano Frank Jacson e, a seguir, o belga Jacques Monard.
Que Jacson e Monard fossem o assassino contratado Ramon Mercader, não o soube a polícia, nem o sabia Sylvia Ageloff, a mulher que o amava mais perdidamente do que Ofélia amou Fernando Pessoa a quem, apaixonado pela heteronímia, não se lhe conhece, todavia, inclinação por picadores de gelo ou fidelidades estalinistas.
Fora a mãe, Maria Caridad del Rio, combatente roja na Guerra Civil e amante de um agente do NKVD, a PIDE à séria de Estaline, que recrutara o já militante filho para a gloriosa missão de varrer Trotsky para debaixo do tapete da eternidade. Estaline, a gozar a amenidade que foi o seu pacto com Hitler, pôs em acção três planos distintos para o liquidar.
A 24 de Maio, David Siqueiros, pintor e farol de um mexicanizado realismo estalinista, atacou à metralhadora, com outros sequazes, a casa de Trotsky. Foram encontrados mais de 200 projecteis, mas os tiros de Siqueiros apenas atingiram o pé do neto de 14 anos de Trotsky. Há, claro, sempre um americano que se lixa: Robert Hare, um assistente e guarda costas, foi raptado e assassinado pelo bando de Siqueiros.
A inocência e carência amorosa de outra americana, a nova-iorquina Sylvia Ageloff, abriu as portas ao segundo plano. Era irmã de uma secretária de Trotsky e Mercader lançou-lhe o isco nesse mar de convulsa sensualidade que era Paris em 1939. A terna boca de Sylvia engoliu isco e anzol. Apaixonou-se pelo belga Jacques Monard, heterónimo que Mercader adoptou, falando o francês irrepreensível que a infância parisiense lhe autorizava.
Partilharam tudo, o melancólico sabor da pele, lençóis e uma comum e insuspeita devoção por Trotsky, tão convicta como a dos pastorinhos pela Senhora da azinheira. Sylvia regressou a Nova Iorque. Monard, com a mesma alacre paixão que qualquer ministro tem pela TAP, foi ter com ela. Já tinha uma segunda identidade, o falso passaporte que a PIDE, ai perdão, a NKVD, lhe arranjara. Era agora, um empresário canadiano, Frank Jacson, e era-o, explicou, para mergulhar na clandestinidade que lhe permitia fugir à tropa na Bélgica reaccionária.
Precisa agora, diz ele, de ir à Cidade do México. Como não suporta a ausência de Sylvia, pede que ela o acompanhe. Perfeito: Sylvia quer matar saudades da irmã e ajoelhar-se aos pés de São Trotsky. Recebidos como Romeu e Julieta, têm acesso à casa, ao convívio com os guarda costas americanos. À décima visita, Frank traz um texto revolucionário que quer propor a Trotsky. Estão sós, o velho e míope revolucionário a ler a prosa. Frank tira da gabardina e enfia a picareta no parietal direito de Trotsky, sete centímetros dentro do cérebro. O inumano berro de Trotsky fez acorrer os guarda costas, “Não o matem, tem de contar a história”, ainda disse Trotsky, que morreu um dia depois. Morte afectiva teve a inocente Sylvia, acusada de cumplicidade, e traída pelo que acreditava ser o amor da sua vida.
Se o pintor e pistoleiro David Siqueiros recebeu da URSS o prémio Lenine para a Paz, vinte anos depois, cumprida a pena, Mercader receberia outra nobre condecoração, a de Herói da União Soviética. Diz-se que morreu, dizendo: “Ouço-o sempre. Ouço o grito dele. E sei que ele está à minha espera do lado de lá.”
Esta é daquelas visitas que a Cinemateca roubou a Tróia. Em tempos em que a cinefilia cobria a Terra de leite e mel, houve um festival de cinema em Tróia. Era um festival ocioso, pequenino, cozy e capaz de gerar as mais lendárias amizades. Um dia – quem sabe se não amanhã -, trago uma fotografia! A esses festivais vinha sempre “a vedeta”, Ora, como todos sabem só há no cinema uma vedeta, a vedeta americana. E a vedeta vinha – quase sempre – depois, à Cinemateca.
Neste ano, que eu já não sei qual tenha sido, a vedeta foi Kirk Douglas, pai de Michael, o tipo maduro que, tanto quanto eu sei, mais vezes mostrou o rabinho (assim mesmo, de expostas nádegas) no cinema. Musculada nudez que, como Spartacus, Kirk pai consagrara sob a estrita vigilância de Stanley Kubrick.
Aqui, e já não sei bem porque razão fui eu a guiá-lo, Douglas delicia-se com a exposição de fotos suas. Era simpático, desprendido, com aquela desempoeirada inteligência americana de quem é filho de judeus russos. Belo actor e produtor, um tipo com um impecável sentido de justiça.
Ligaste-me. Eras tu. Tinhas sabido que eu me metera numa trapalhada e num susto covidianos e vinhas pôr-me na linha. Tenho a tua voz aqui: entrou pelo ouvido esquerdo e ficou. Combinámos que íamos jantar: querias discutir as minhas crónicas e contar histórias que dariam sal e pimenta (sabiam sempre a riso, o teu sal e pimenta) a outras histórias.
Eis o que tenho a dizer: não acredito na notícia da tua morte. Como se tu pudesses morrer! E tenho, entradinha pelo ouvido esquerdo, há cinco dias, a tua voz guardada na minha mente, a tua tão linda, charmosa voz. O resto são ficções, fantasias, labirínticos sonhos borgesianos. Como se tu, Carlos, pudesses morrer.
Cantarás sempre – dentro das nossas cabeças, como escrevi, numa das minhas bicas curtas, que leste e de que tanto gostaste, e agora recordo:
Carlos do Carmo vinha, fim de semana, à sua casa na Caparica. Eu, colega de Filosofia da querida Judite, sua mulher, chegado de dois anos de independência em Angola, andava por ali com a tão bela Antónia. E ele, grande como Brel e Sinatra, abria-nos a casa. Bebíamos a bica curta, o filho às voltas, de triciclo. É inútil louvar a sublime voz do Carlos. Dizem-me que vai cantar o último concerto. Mentira. Conheço-lhe a inacabável generosidade, a sedução dos olhos, discurso e corpo. A voz dele, igual à sua humanidade, é torrencial e imparável. Como no poema de Rimbaud, a voz do Carlos, mar que o sol abraça e leva, respira eternidade.
Um percalço tirou-me do mês de Dezembro. Quase 25 dias desse mês de 2020, que agora acaba, não foram meus. Ou, se me quiser confessar ao mais secreto dos vossos ouvidos, nunca tantos dias de um mês tinham sido tão obsessiva e defensivamente meus. Foi, chamemos-lhe um percalço. Por bem mais dramáticos e perigosos percalços passam todos os dias os meus e nossos irmãos humanos. Volto. Com esperança em 2021. Com esperança na ciência, na inteligência, na elegância, nessa fusão carnal e espiritual que nos une. Ou que nos separa quando nos deve separar. Sejam bem vindos a 2021
A Cama de Salazar e de Cunhal
Mestres do confinamento, Cunhal e Salazar seriam peixes gordos nas águas turvas desta pandemia. É o que penso, depois de pousar na mesinha de cabeceira o “Três Retratos”, de António Barreto. Contra e ao lado do mundo cerrado e policiado que eles, Cunhal e Salazar, ruminavam nos seus sonhos secos, houve um outro mundo.
Ao bom povo deste planeta pandémico, que enche a boca com a visão sanitária de um mundo rigorosamente vigiado, a que Cunhal e Salazar não fariam fine bouche, eu lembro que houve outro mundo, feliz e húmido. Era um mundo de muitas gerações, entre elas a minha. Dou-lhe um nome: mundo de Roger Vadim. Habitavam-no seres mitológicos a que a História deu o nome de Brigitte Bardot e Jane Fonda.
O segredo da felicidade está em como tudo começa. Da primeira vez que Vadim amou a nua e adolescente Bardot, ela quis saber se já era mulher. “És 25%!” À segunda, e à repetida pergunta, o ofegante Vadim, disse-lhe: “Já és 75%”. À terceira, consumado o que consumado tinha de ser, bastou a Vadim acenar com a cabeça para que a linda BB viesse à varanda de um quartinho de St. Germain de Prés e proclamasse a toda a margem esquerda do Sena: “Já sou mulher, já sou mulher”. St. Germain, desconfinado e livre, aplaudiu e gritou ao ver à varanda a incauta Bardot deliciosamente nua.
Jane Fonda veio filmar a Paris. Estremeceu nela um vulcão quando conheceu Roger Vadim. Filmava e soube que ele estava no café ao lado. Correu pelo estúdio, batido por uma chuva de 1963, e entrou desabrida na cafetaria. Sentou-se à mesa dele. Eis o que Vadim viu: o mesmo seio ofegante que faz uma das melhores páginas de um romance de velhice de Philip Roth. Vadim seguiu o seio arfante. Na cama, durante duas semanas, aconteceu ao fálico Vadim uma coisa que designarei com termo roubado ao calão brasileiro: Vadim broxou. Mas Jane, filha de Henry, com aquela persistência que depois dedicaria ao Vietnam, não desistiu. E eis que o relâmpago primordial se reacende e ergue em Vadim: durante dois dias e duas noites trocaram sem cessar vírus, bactérias, gotículas e aerossóis num sumptuário comércio kamasútrico.
Se ainda sei o que quero dizer, eis o que tenho a dizer: não havia máscaras e havia festas. Vadim e Fonda viveram em Paris, Roma e Los Angeles. Nas festas juntaram mais gente do que numa feira do livro: Marlon Brando, Gore Vidal, Sharon Tate, Simone Signoret ou Norman Mailer, mesmo Andy Warhol. Eram cem ou mais: juntava-os a conversa, a alegria, a orgíaca troca de fluídos, algum ácido e muitíssima droga.
O mundo puritano que se insinua, rastejante, por baixo das portas fechadas, é o mundo que rejeita o estrangeiro, a desconhecida. Era outro o mundo de Vadim. Um dia, com Bardot, recolheram a namorada abandonada de um amigo deles. Mal a conheciam, a não ser que se chamava Ursula Andress. Logo Vadim a meteu na cama da Bardot. Mas a amada pouco inclinada a triângulos, só quis conversar. Ele sentado num cadeirão e elas numa nudez de meninas, a rir e a dizer tolices que tomara as Confissões de Santo Agostinho.
Jane Fonda, sim. Um dia Vadim trouxe uma call girl ruiva, de alta voltagem, recomendada por Madame Claude, senhora do melhor bordel de Paris. Jane confessou: “Atirei-me ao ménage à trois com a competência e o entusiasmo da actriz que sou.”
Aos pandémicos convertidos e militantes lembro que já houve um mundo de liberdade. E que a liberdade só o é plenamente se também for trivial e lúdica. Demonstra-o António Barreto: essa liberdade não é cama em que se deitassem Salazar ou Cunhal.
Outro ciclo de um então incontornável cineasta foi o que, na Cinemateca, dedicámos ao suíço Alain Tanner. Eram tempos de cidade branca. Alain trouxe com ele uma das suas actrizes favoritas, Myriam Mézières. Eu consegui pô-los a olhar para o alto.
Há no palacete da Cinemateca uma inscrição em árabe, que o director da Cinemateca do Egipto (ou de Marrocos?) em visita, me disse ser o começo da primeira sura do Corão: “Em nome de Deus, Clemente, Misericordioso, todos os louvores são para Deus, o Senhor de todos os Mundos.” É isso o que lhes estou a dizer e eles a gostar de ouvir.
Depois, Tanner, que hoje tem 91 anos, assinou o livro de honra, e Myriam beijou-o deixando numa página a indelével marca do batom dos seus lábios: um beijo perfeito. Na sessão que se seguiu, Myriam, que agora tem 71 anos, fez um número extraordinário: não me lembro se uma esparregata, se um flic-flac, pondo em delírio a sala esgotada que os veio ver. O mundo já teve dias divertidos. E há de voltar a tê-los.
Ainda o rabo de Salazar não se sentara em cadeira de São Bento e já Graham Greene tinha um revólver. Há cem anos, Greene trazia no peito adolescente a desmesurada depressão que o fazia beijar as maminhas do tédio e a púbis do desespero. O rabo de Salazar era de Salazar, mas o revólver de Greene era do irmão. Descobrira-o numa gaveta e fez dele amante ou refrigério. Relação amorosa perversa: Greene traía o amor fraterno, esfregando-se no revólver roubado.
Desamado pelos colegas de escola, bipolar ou só deprimido, Greene tirava o revólver do bolso e, num arroubo romântico, encostava o cano à têmpora. Tinha antes metido uma só bala e rodado o cilíndrico tambor de cinco munições, entregando o seu destino às mãos do acaso. Não fechem os olhos e vejam: o dedo de Greene tira a tensão do gatilho e agora aperta-o sem dó à espera do tiro. Ouve-se o clique seco da câmara sem bala.
Greene lavava a adolescência nesta roleta russa, jogo de casino místico. Ouçam-no: “Lembro-me de ser tocado por um prodigioso sentido de júbilo, como se um carnaval de luzes incendiasse de repente uma ramelosa viela escura. Pulava-me o coração na sua gaiola, e a vida parecia conter uma girândola de infinitas possibilidades…”
Contraponho com a minha biografia de rodapé: tinha 21 anos quando fui senhor e dono da minha primeira e única pistola, uma Star. Já tivera duas metralhadoras, uma G3 e uma Vigneron, e eis o que digo: a metralhadora é a anti-arma, impessoal, uma apoteose da logística e do colectivo. Só a singela pistola é pessoal e intransmissível. Rodei a Star em cima da mesa, levei-a a jantar e em viagens de circo e breu, mas, ainda inconhecedor da roleta russa, nunca lhe prestei essa surda paixão que despejava adrenalina na cabeça, coração e estômago de Greene. Num obscuro fio de rua de Oxford, atrás das negras árvores do Inverno inglês, o subreptício Greene enfiava o cano frio do revólver no ouvido latejante e disparava. Sobrevivente, inspeccionava depois o tambor para descobrir às vezes que a única e singela bala estava na câmara que seria agora a da posição de fogo.
De roleta em roleta, Greene confessa que foi passando da paixão cósmica à reles concupiscência e, no Natal de 1923, o rabo de Salazar ainda em Coimbra ou a uma lareira de Santa Comba Dão, o futuro espião do MI6 e autor de “O Terceiro Homem” e “O Poder e a Glória” despediu-se desta espasmódica forma de amor: uma droga de cano gélido e melancólico clique em ruas vadias. Nunca mais.
Exceptuando a mão de Greene, a trémula mão do escritor não foi feita para a pistola. Olhem para a mão do falso comunista Maximo Gorki, que se andou a roçar por Lenine, mais do que qualquer escritor nacionalista português por Salazar, e depois, tendo querido ser a consciência moral de Estaline, acabou a branquear torturas, campo de concentração e trabalhos forçados, vomitando esta frase suicida: “…a bem sucedida reabilitação dos antigos inimigos do proletariado.” Sim, quisera matar-se aos 19. Pôs a pistola pusilânime encostada ao coração e disparou. Bailarina incerta, pistola sobre o alvo, essa mão de Gorki falhou o nebuloso coração e mandou a bala alojar-se-lhe no pulmão!
Mão bêbada era a de William Burroughs: a replicar a lenda de William Tell, disparou sobre um copo na cabeça de Joan Vollmer, musa da beat generation, falhando o copo e matando a musa. Firme como a de Greene era a mão de Hemingway: sem devaneios lúdicos, disse adeus às armas disparando uma espingarda Boss de dois canos. Na sua boca, inescapável beijo de pólvora e aço.
Quantas vidas tem Tom Zé? Vamos lá, Tom Zé já tinha vida quando a família, moradora em Irará, na Baía, ganhou um qualquer Euromilhões brasileiro. Foi logo outra vida. A terceira foi a descoberta do violão e da música. Nos anos 60, saído da escola de música, impressentido intelectual escondido num físico débil, Tom Zé foi uma figura de proa do tropicalismo, ombro com ombro com Caetano, Gil e essa tal Gal ou também Betânia.
Fosse por ser quem é, flor que de vez em quando não se cheire, apagaram-no da história e não sei em quantas vidas já vamos. Chamaram-lhe o Trotsky do tropicalismo, mas como ninguém lhe deu com a picareta, David Byrne ressuscitou-o, muitos anos depois, já Tom Zé ia nuns cadavéricos 50 anos. Levou-o, ou à música dele para Nova Iorque. E deu outra vida a Tom Zé: em 1998, o New York Times elegeu o álbum dele desse ano como um dos dez melhores do ano.
Mas eu só queria que ouvissem a delícia que é Se o Caso é Chorar prodigiosa canção sentimental e totalmente assentimental.
E queria ainda mais que ouvissem esse maravilhoso exercício de desconstrução, feito com esses duros materiais que são a inteligência e a ironia. Ouçam e considerem que é já prendinha de Natal.