O peito adolescente

Ainda o rabo de Salazar não se sentara em cadeira de São Bento e já Graham Greene tinha um revólver. Há cem anos, Greene trazia no peito adolescente a desmesurada depressão que o fazia beijar as maminhas do tédio e a púbis do desespero. O rabo de Salazar era de Salazar, mas o revólver de Greene era do irmão. Descobrira-o numa gaveta e fez dele amante ou refrigério. Relação amorosa perversa: Greene traía o amor fraterno, esfregando-se no revólver roubado.

Desamado pelos colegas de escola, bipolar ou só deprimido, Greene tirava o revólver do bolso e, num arroubo romântico, encostava o cano à têmpora. Tinha antes metido uma só bala e rodado o cilíndrico tambor de cinco munições, entregando o seu destino às mãos do acaso. Não fechem os olhos e vejam: o dedo de Greene tira a tensão do gatilho e agora aperta-o sem dó à espera do tiro. Ouve-se o clique seco da câmara sem bala.

Greene lavava a adolescência nesta roleta russa, jogo de casino místico. Ouçam-no: “Lembro-me de ser tocado por um prodigioso sentido de júbilo, como se um carnaval de luzes incendiasse de repente uma ramelosa viela escura. Pulava-me o coração na sua gaiola, e a vida parecia conter uma girândola de infinitas possibilidades…”

Contraponho com a minha biografia de rodapé: tinha 21 anos quando fui senhor e dono da minha primeira e única pistola, uma Star. Já tivera duas metralhadoras, uma G3 e uma Vigneron, e eis o que digo: a metralhadora é a anti-arma, impessoal, uma apoteose da logística e do colectivo. Só a singela pistola é pessoal e intransmissível. Rodei a Star em cima da mesa, levei-a a jantar e em viagens de circo e breu, mas, ainda inconhecedor da roleta russa, nunca lhe prestei essa surda paixão que despejava adrenalina na cabeça, coração e estômago de Greene. Num obscuro fio de rua de Oxford, atrás das negras árvores do Inverno inglês, o subreptício Greene enfiava o cano frio do revólver no ouvido latejante e disparava. Sobrevivente, inspeccionava depois o tambor para descobrir às vezes que a única e singela bala estava na câmara que seria agora a da posição de fogo.

De roleta em roleta, Greene confessa que foi passando da paixão cósmica à reles concupiscência e, no Natal de 1923, o rabo de Salazar ainda em Coimbra ou a uma lareira de Santa Comba Dão, o futuro espião do MI6 e autor de “O Terceiro Homem” e “O Poder e a Glória” despediu-se desta espasmódica forma de amor: uma droga de cano gélido e melancólico clique em ruas vadias. Nunca mais.

Exceptuando a mão de Greene, a trémula mão do escritor não foi feita para a pistola. Olhem para a mão do falso comunista Maximo Gorki, que se andou a roçar por Lenine, mais do que qualquer escritor nacionalista português por Salazar, e depois, tendo querido ser a consciência moral de Estaline, acabou a branquear torturas, campo de concentração e trabalhos forçados, vomitando esta frase suicida: “…a bem sucedida reabilitação dos antigos inimigos do proletariado.” Sim, quisera matar-se aos 19. Pôs a pistola pusilânime encostada ao coração e disparou. Bailarina incerta, pistola sobre o alvo, essa mão de Gorki falhou o nebuloso coração e mandou a bala alojar-se-lhe no pulmão!

Mão bêbada era a de William Burroughs: a replicar a lenda de William Tell, disparou sobre um copo na cabeça de Joan Vollmer, musa da beat generation, falhando o copo e matando a musa. Firme como a de Greene era a mão de Hemingway: sem devaneios lúdicos, disse adeus às armas disparando uma espingarda Boss de dois canos. Na sua boca, inescapável beijo de pólvora e aço.

3 thoughts on “O peito adolescente”

  1. É caso para dizer que a sorte – pouca ou muita, segundo as perspectivas – o acompanhou a vida toda, mesmo com os rodriguinhos do revolver (graças a eles) teve vida longa, aventurosa e produtiva.

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  2. Se a Greenesca bala desconfinava e lhe acertava na cabeça quem estava feito era eu: duas dezenas de livros a menos nas minhas estantes…

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