Uma lista conservadora

Dizem que os leitores portugueses não apreciam a ironia. Ou até que às vezes a ironia lhes passa ao lado. Podia dizer que não acredito, mas prefiro fazer a prova. Com uma lista conservadora.

Paulette Godard tisnada por Chaplin
  1. A boa moral

Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”

  1. A apetecível costureira

Em “Man Hunt”, filme de Fritz Lang sobre um caçador inglês que queria matar Hitler, a heroína fazia o trotoir, se a expressão ainda diz alguma coisa. Os censores mostraram a Lang o cartão vermelho. “Tivemos de lhe pôr uma máquina de costura no quarto, para que parecesse uma modista e não uma puta”, queixou-se Fritz. Abençoados censores: a máquina de costura, pedal, tampo e agulhas, conferem ao jogo de ancas da personagem uma duplicidade erótica que jamais a santa puta alcançaria.

  1. Seda e jóias

Já andei de chinelos, calções rotos e flores no cabelo. Ainda hoje estremeço de vergonha a pensar nesses anos hippies – haja Deus que nunca desisti do banho diário. É verdade que Chaplin filmou a tão bonita Paulette Godard tisnada e pobre. Mas ela pisava como uma rainha, por jamais ter esquecido o conselho de De Mille: “Lembra-te que és uma estrela. Nunca atravesses a rua para despejar o lixo, a não ser que vás coberta de seda e jóias.”

  1. O bom gosto

É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atractivos físicos ou os meios materiais para prevaricarem com variedade e ardor – hèlas! Resta-lhes a riqueza da imaginação. Homens e mulheres tiveram em Greta Garbo a amante de sonhos inconfessáveis. O jornalista Alistair Cooke redimiu-os desse pecado: “Ela dava-nos um consolo: já que a nossa imaginação tinha de pecar, ao menos que o fizesse com o mais irrepreensível bom gosto.

  1. A coerência moral

Há lições morais no imoralíssimo “Design for a Living”, de Lubitsch. Dois homens e uma mulher, lindos, cheios de humor, fazem um acordo de cavalheiros: sexo entre nós, não. Mas há uma noite em que ela, Miriam Hopkins, está sozinha com um deles, Gary Cooper. Acende-se-lhe um fogo nada fátuo e já se revolve, provocadora, no tão bom sofá: “Bem sei que temos um acordo de cavalheiros – sussurra ela –, mas devo confessar que não sou um cavalheiro.” Como compreendo a personagem de Miriam: a coerência moral talvez não seja um valor absoluto.

O cheiro da mulher que lê

Marilyn lê o Ulisses, de Joyce

Escreve-se sempre e só para que uma mulher leia. O livro, prolongamento da mão e justificação do olho, até pode ser uma cri­a­ção mas­cu­lina. Se for, é de justiça que se diga ser uma benigna e maravilhosa cri­a­ção mas­cu­lina. Foi, acrescente-se também, do tijolo à impres­são do senhor Guttenberg, cri­a­ção de conhe­ci­mento e prazer. Também de poder.

Nem sem­pre, como os cor­rec­tís­si­mos e admirá­veis soció­lo­gos dirão, a mulher pôde aceder ao livro, marca de poder mas­cu­lino. Será? Há desmentidos veementes, garanto eu: dois mil anos antes de Cristo, que só escreveu com um pauzinho na areia do deserto, Enheduana, princesa acádia, escreveu os “Hinos Sumérios do Templo”: neles falava com Inanna, a Senhora do Céu, confessando-se, queixando-se e implorando. E a grega Safo, nascida em Lesbos, escreveu 10 mil versos ainda antes de Platão ter escrito uma linha. Chegaram-nos menos de mil, temperados a desejo, risos, corpos e luxúria.

Enheduana e Safo estão longe de ser excepções. Poderia juntar mil nomes de mulheres com poder ou saber. Isabel I, rainha de Inglaterra, lia em inglês, francês, latim, e extasiava-se a traduzir os clássicos. Mas, esquecendo Cleópatra, Catarina da Rússia, Joana d’Arc, as manas Brontë, Jane Austen, Maria I de Inglaterra, mesmo se aceitarmos essa história lamurienta da mulher discriminada, vejamos como, de forma persistente, sub­til, a mulher se foi encostando e roçando pelas capas dou­ra­das ou de mar­fim, que encerravam manuscri­tos e ilumi­nu­ras, e nas suas folhas descreviam fantasias, sonhos, saber, segredos, tanto pensamento, tanto humaníssimo anseio do corpo. Alguém que conte essa glo­ri­osa his­tó­ria que eu não tenho tempo: bref, o que inte­ressa é que mulher come­çou a ler.

A mulher, a meu ver, não come­çou a ler para con­quis­tar poder, muito embora a lei­tura lhe tenha con­ce­dido mais seguro poder do que o poder que se diz que a cama lhe con­fe­riu. A mulher come­çou a ler por aven­tura e encantamento. E o livro, agra­de­cido, colou-se à mulher, de tal forma que o amor entre a mulher e o livro, de tão intenso, criou novos géne­ros literários. O desejo eró­tico saiu da alcova e veio deitar-se, ducal e prin­ci­pesco, car­nal e adúl­tero, na poe­sia pro­ven­çal ou nas nos­sas can­ti­gas de amigo e de amor. Daí ao romance foi uma vírgula.

As mãos da mulher que lê, os olhos da mulher que lê, cri­a­ram a lite­ra­tura. E volto ao princípio, tanto faz que seja um homem como uma mulher a escre­ver: escreve-se para que uma mulher leia.

Há uns três ou quatro anos, o escritor Ian Mc Ewan saiu à rua. Ian foi com o filho ofe­re­cer livros da sua autoria a todos esses langorosos seres humanos que se refas­te­la­vam à hora de almoço nos parques londri­nos. Não sei se, dos seus romances, oferecia “Estranha Sedução”, se “O Fardo do Amor”, ou “O Sonhador”. Em dez minu­tos, trinta pes­soas tinham acei­tado os ofe­re­ci­dos e beijados livros. Trinta mulhe­res – forço um boca­di­nho, tal­vez tenham sido 29.  E não sei se foi ao filho, se à Imprensa, Ian McEwan arris­cou um vati­cí­nio: “Se as mulheres deixarem de ler, esta­mos fritos.”

O que faz a lite­ra­tura, essa zona utó­pica de pra­zer e impo­der, são as mulhe­res que lêem. O homem que lê, com raras excep­ções, é um homem can­sado, que lê uti­li­ta­ri­a­mente. Só a mulher lê o livro pela sua mag­ní­fica e sublime inu­ti­li­dade, a mesma inu­ti­li­dade e deleite que se empresta e se recebe do amor. A mulher não lê um livro, a mulher lê um corpo. Sem­pre que vejo a mulher que lê, cheira-me. E cheira a prazer. Pou­cas coi­sas há tão aro­ma­ti­ca­mente inde­cen­tes como a mulher que lê.

Anna Karina esconde-se atrás de O Amante, de Duras

Publicado no Jornal de Negócios

O intenso odor a falso

Noite estrelada, de Van Gogh

O que eu gostava era de ter vindo do cabaret, como vinha Otto Wac­ker. Chegou com a con­fi­ança trans­bor­dante que, nes­ses anos de Wei­mar, ema­nava da música, do tea­tro, do cinema ale­mães.

Em 1925, Otto dei­xou o caba­ret e estarreceu as artes, expondo 33 novos quadros de Van Gogh. Genuínos, disseram os peritos. Otto usou o talento de palco e, naquela sot­to­voce que aproxima a boca de qualquer ouvido, con­tou que eram de um aris­to­crata cativo na nefanda URSS. Man­ter o ano­ni­mato desse herói, que reti­rara às bár­ba­ras gar­ras comu­nis­tas a grande pin­tura do Oci­dente, era um dever moral. Soubesse-se quem o nobre era e os ver­me­lhos sangravam-lhe a famí­lia branca.

Berlim não dormia de olhos nos novos Van Gogh. Pintara-os, sabe-se hoje, o irmão de Otto, talen­toso e dis­cre­to amante de bastidores e sombras.

A gale­ria de Paul Cas­si­rer pre­pa­rava a expo­si­ção. Baart de la Faille, o perito, ulti­mava o catá­logo. Na gale­ria já esta­vam deze­nas das telas de Wac­ker e, em aberto, o espaço para as últi­mas qua­tro. Aí é que foi mesmo o diabo. Mal che­ga­ram, os peri­tos torceram-se todos. Que intenso odor a falso!

Num fós­foro, levaram Otto a jul­ga­mento – esqueçam lá isso dos mega-processos. Testemunhou o sobri­nho de Van Gogh: nenhum russo com­prara qua­dros aos her­dei­ros, jurou – e a Van Gogh só um cliente, sabe-se lá se por engano, comprou um em vida. Escal­da­dos, porém resi­li­en­tes, os com­pra­do­res da galeria clamavam que os qua­dros eram ver­da­dei­ros e Wac­ker um bene­mé­rito das artes.

De la Faille, o perito, declarou então falsos os 33 novos Van Gogh. Depois, no jul­ga­mento, atestou que, dos ver­da­dei­ros passados a fal­sos, cinco dos fal­sos eram ver­da­dei­ros. Outro perito afir­mou serem nove autên­ti­cos. Um terceiro garantiu que catorze eram mesmo Van Goghs, embora pin­ta­dos num raro instante de desinspiração.

Científico e com raio-X, Kurt Wehlte pro­vou que as téc­ni­cas e os pig­men­tos não eram do tempo de Van Gogh. Doce ironia, a tela de referência para a perí­cia cien­tí­fica seria, nos anos 70, con­si­de­rada falsa.

Deixem-me resumir: a jus­tiça, além de cega, é destituída de sen­tido de humor e Otto foi con­de­nado a ano e meio de pri­são. Vá lá, gozou o final de vida nos celestiais prazeres de Berlim Leste.

Eis um sinal de menoridade do cinema: que pena não se poderem forjar dois falsos Hitchcocks dos anos 50; um Ford tardio com um jovem Clint Eastwood, que só agora tivesse sido descoberto; a desconhecida adaptação mexicana que Buñuel tivesse arrancado à “História de Juliette ou as Prosperidades do Vício”, do Marquês de Sade.

Um irretocável desejo de Primavera

Primavera ou será já Verão?

A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas (ah, e a dos rapazes também), nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

Gosto:

  1. Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.
  1. Do teu decote.
  1. Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.
  1. De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.
  1. Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.
  1. De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.
  1. Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.
  1. De um clássico dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.
  1. Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.
  1. De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.
  1. Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.
  1. De risos e beijos.
  1. Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.
  1. Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.
La Joven, as alvas pernas do desejo

Tirar a roupa

A Garbo

Se a história do cinema ensina alguma coisa é que vem aí uma década de libidinoso aquecimento. No século do código Hays, passagem dos anos 20 para os 30, tudo era proibido. Mesmo o beijo na boca era só uma lástima de beijo na boca.

Ora, as proibições, tal como os revolucionários, não dormem. Voltaram. Palpita-me, por isso, que vamos viver uma década de libidinosa vigília proibitiva. Antecipo as consequências: toda a proibição dilata os corpos e foi essa imparável expansão humana que, subversiva, inundou Hollywood naqueles anos pudibundos.

Poderá pensar-se que eram só os homens abusadores, pés fincados no danado poder patriarcal. E já vemos o produtor Irving Thalberg, nove da manhã, a tocar à porta da campainha da casa de um argumentista que abre espantado: era a primeira visita e a amante que Thalberg procurava morava na casa ao lado.

Mas o estado de ebulição tanto foi masculino, como feminino. Com excepção de Santa Lilian Gish, também as mulheres eram cometas de cauda em fogo no céu de Hollywood. Até Jeanette McDonald, mais virgem na hora da morte do que quando nasceu, terá amado com clandestino e nuíssimo ardor o seu agente, recusando os avanços do patrão Mayer.

Greta Garbo fez do mundo um saco de gatos. Amou, dormiu e estraçalhou John Gilbert, o Brad Pitt daquele tempo, deixando-o pendurado no dia do casamento. Depois, fugiu seis vezes de “Susan Lenox”, filme com Clark Gable, por se ter apaixonado à primeira vista por Mercedes Acosta: iam nadar nuas juntas e subir montanhas (talvez vestidas), “glorioso deus e deusa – cita a talentosa Acosta – fundidos numa só. Seis semanas pareceram seis minutos”.

Mas Garbo conheceu o realizador Rouben Mamoulian. Foi no assombroso “Queen Christina”, em que Garbo usava calças. Entraram dois pares de calças em pecaminosa combustão. Mamoulian era um desengraçado caixa de óculos (tive uns óculos iguais), mas a Garbo apaixonou-se pela tão tacteante miopia dele. Apeou a amada Acosta e fugiu outras seis semanas com ele.

Elucidativo do escaldante clima moral foi o horror de Louis B. Mayer a entrar num gabinete e ver o argumentista Ben Hecht a ditar diálogos de um guião a uma assistente em estado natural, se exceptuarmos o verniz nas unhas das mãos e dos pés. Toda a proibição sufoca. Que podem os corpos fazer se não tirar a roupa?

Filmes, marmelada e um funeral

Quem frequenta salas de cinema é suspeito. Exige-se-lhe que responda, com cara de Buster Keaton, a este questionário slapstick quase à la Proust.

Texasville, Bogdanovich

Filme para uma bela sessão de, digamos, marmelada no cinema
Se é para estar de olhos abertos, mãos e dedos perscrutantes, “Body Heat”, “Sea of Love”, o “Cat People” do velho Tourneur. Se é para atacar às cegas, gemidos e mais do que sussurros, talvez duas cadeiras esmigalhadas, escolha “Transformers”, “Mad Max” ou o ruidoso “This Is Spinal Tap”. Não se desgrace: cuidado com os silêncios em filmes de Straub ou Manoel de Oliveira.    

Filme para ver depois de uma valente ruptura conjugal
Vai precisar de muita nostalgia e capacidade de se rir de si mesmo. Ponha-se nas mãos de Peter Bogdanovich, sabendo que a coisa só já lá vai com sessão dupla: “Last Picture Show” e “Texasville”.

Filme para ver um ano depois da morte da mãe
Deixe-se levar e lavar em lágrimas com o milagre e ressurreição de “A Palavra”, do dinamarquês Dreyer. Só para os de pouca fé é que uma morte é definitiva.

Filme para ver um ano depois da morte do pai
Não há pai como o Donald Crisp de “O Vale Era Verde”. É abandonado por todos os filhos, menos um. Todos queremos ser esse humilde menino de sete anos, que pigarreia ao fundo da mesa para que o pai lhe diga: “Sei que estás aí, meu filho”.

Que filme ver depois de sair da prisão
Se sai com a sensação de que ainda merecia mais cinco aninhos de pena, “Goodfellas” vai saber-lhe bem. Se sai inocente como entrou, nada o ligando ao BES ou a palmanços de armas em Tancos, console-se com o “In the Name of the Father”. “Pickpocket”, de Bresson, é para ex-presidiários mais metafísicos.

Filme para curar qualquer depressão ou ressaca
Toda a gente dirá “Blues Brothers”. A mim o que me resgata do fundo do poço é a velocidade e os dois leopardos de “Bringing Up Baby”; ou os cães e a doce tecnologia da casa de “Mon Oncle”, de Jacques Tati.

Filme para um regresso à infância
No “ET” as lágrimas vieram-me de bicicleta, mas o bolo inteiro da infância, curiosidade, alegrias e medos, reencontrei-o no bando de miúdos de “Stand by Me”.

Filme para os meus amigos se juntarem a ver depois do meu funeral
“A Matter of Life and Death” na esperança de que haja engano lá em cima e possa ser recambiado cá para baixo.

A Palvra, Dreyer

Somos todos arguidos

Este é o primeiro volet de um inquérito cinéfilo. Já não sei é se foi alguém que me inquiriu ou se inventei o inquérito por desfastio.

Mas quem é que não vai ao cinema para matar ou morrer? No cinema abraça-se, beija-se, acaricia-se, come-se. Come-se tudo. O cinema é a cama de toda a virgindade: ali se perde, ali se volta a ganhá-la. Agora que banqueiros, primeiros-ministros, mesmo juízes são interrogados, todo o cinéfilo deve preparar-se para ser arguido e responder a esta lista, batoteiro questionário de Proust, em que serei o primeiro a ser enxovalhado. Comecemos:

Filme com a melhor canção na boca de uma personagem?

O filme é “One From The Heart”, o aeroporto é o de Las Vegas e a boca é de Frederic Forrest. De virilidade encolhida, canta malíssimo, e portanto muito bem, “You’re My Sunshine” à mulher que o deixa e entra no avião com o amante. Também podiam ser sete bocas em luto redentor, as de Meryl Streep, De Niro e outros, a cantar “God Bless America”, no final de “Deer Hunter”, filme que dá bom nome ao patriotismo.

Filme com a canção mais bem ligada à trama?

O “Casablanca” sufocaria sem o oxigénio de “As Time Goes By”. Mas isso é para quem só queira as doces mariquices de Deus. Se querem ter na espinha um arrepio do Diabo, ouçam o “Time Is On My Side”, no “Fallen” de 1998. O medo, o mal, a possessão demoníaca de Elias Koteas são tão arrebatadores que só apetece dizer “shit lá para o paraíso”.

Filme para ver antes de perder a virgindade?

Pondo logo de lado a megalomania de “Boogie Nights”, que o tamanho aqui complica, e em vez de escolher o óbvio “Summer of ’42”, se procura um lírico estremecimento e supremo êxtase, veja o italiano “Stromboli”, fusão de uma mulher, Ingrid Bergman, e de um convulso vulcão. “Monica e o Desejo”, de outro Bergman, Ingmar, prova que a Suécia é bem mais do que o mobiliário, pau e camas do IKEA.

Filme para ver depois de perder a virgindade?

Duas hipóteses. Correu muito mal? Ver o “Alien” pode ser a forma de compensação: vistas as coisas pelos olhos de Sigourney Weaver podia, afinal, ter sido bem pior. Mas se correu tudo entre melosas lágrimas e suspiros mozartianos, corra ao cinema e dance e cante na cadeira o “Singin’ in the Rain”. No caso de ser já jovem intelectual e, naturalmente, antiamericano, que para isso é que é há cursos de filosofia, mobilize-se para ver a bela “Lola”, de Jacques Demy.

Agora, o arguido tem direito a descanso. Vamos para intervalo, amanhã há mais.

Sarita Montiel

Esta apologia de Sara Montiel já tem 29 anos. Publicou-a o velho Expresso, a 21 de Março de 1992, e julgo que foi logo a seguir a uma visita de Sarita a Lisboa, que fez a sala da Cinemateca encher-se até ao tecto.

Cara, decote e voz
Manuel S. Fonseca

TINHA truques. Na Cinemateca, numa das maiores apoteoses com que o público de Lisboa brindou uma estrela convidada, Sara Montiel, 64 anos, muito pouco vestida, e toda em rosa, num estilo que Almodóvar copia em «mui-to-po-bre», contou um dos seus truques favoritos. Filmava com Gary Cooper. A cena era iluminada por um gigantesco projector de arco. Os olhos de Cooper eram só um traço, incapazes de se abrirem, tão violenta era a luz. Sara, pelo contrário, lá estava de olho arregalado. Cooper quis saber como é que ela conseguia. «Tenho um truque», disse ela. «Diz-me qual é», pediu-lhe o galã. «Não é de dizer, é de fazer», explicou ela, levando-o para um canto. Puxou de um frasquinho e deitou umas gotas em cada um dos olhos de Gary Cooper. «Anestésico», segredou Sarita a um Cooper que, durante quatro horas, passou a ter faróis em lugar de olhos.

A carreira de Sara Montiel deve começar a ver-se pelo meio. Os primeiros anos foram anos de chover no molhado, filmando para poder  continuar a levar o pão à boca. de Ti Quiero Para Mi (1944), a sua estreia aos 16 anos de idade, até Pequñeces (1950), nem ela pareceu interessar a câmara, nem os espectadores viram nela, e no que dela se podia ver, motivos para sobressalto.

Essa primeira fase espanhola já estaria esquecida e enterrada, se o caso de popularidade de Sarita não tivesse, explodido, inopinadamente, na fase que se iniciou com El Ultimo Cuplé. Maltratada e mal paga, Sarita Montiel deixou, em 1950, a ingrata, espúria e mesquinha Espanha, procurando emprego e papéis mais adequados no então florescente cinema mexicano. Começou com Necessito Diñero e acabou com Yo no Creo en los Hombres, passando por Cárcel de Mujeres, títulos suficientemente sugestivos para descrever o tipo de ficção populista e as personagens primárias que incarnou.

Foi por esses anos, de 50 a 54, que a sua presença começou a ganhar na tela parte das qualidades eróticas que seriam trampolim para a fama ibérica e latino-americana, qualidades que entretanto pôde exercitar em Hollywood, primeiro no conhecido Vera Cruz, de Robert Aldrich, ao lado de Burt Lencaster e de Gary Cooper, e logo a seguir em Serenade, de Anthony Mann (com quem se casou), e em Run of The Arrow, de Samuel Fuller. O sol da Califórnia foi, todavia, de pouca dura.

Em Espanha lembram-se então dela, convidando-a, em 1957, para um filme que ninguém queria fazer e muito menos alguém queria pagar. O que ninguém adivinhava é que a carreira de Sarita Montiel estava, nesse momento, naquele ponto exacto em que repousa toda a virtude, ou seja, estava a meio. E ainda menos poderiam adivinhar que esse filme, El Ultimo Cuplé, parecendo ser durante a rodagem quase uma humilhação para quem o fazia, se iria converter no maior sucesso popular do cinema espanhol, obrigando a apreciar a nova luz tudo o que Sarita tinha feito para trás e, sobretudo, criando expectativas para tudo o que a actriz iria fazer daí em diante.

 Cara, decote e voz foram os três vértices do sucesso de Sarita, por obra e graça de El Ultimo Cuplé, convertida em avatar do erotismo ibero-americano, para uso de quarentões a cauterizar casamentos no mínimo enfadonhos. La Violetera, Carmen la Ronda, Mi Ultimo Tango e Reina del Cantecler tornaram-na, no final dos anos 50 e no começo da década de 60, objecto de devoção e de peregrinação das classes mais desfavorecidas, nas tintas para os dramas ideológicos ou de acção social que a sociedade espanhola politizada vivia. Hoje, seja como fenómeno «camp», seja por recuperação cinéfila, mais ou menos historicista, Sara, a bela Sara, voltou a despertar as velhas «loucuras de amor». «Esa mujer»!