Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Toda a gente sabe. Até um miúdo de 15 anos. Vamos supor que a mãe ou o pai lhe dizem isso, que vão morrer um dia destes. O miúdo ou a miúda, com um inflexão condescendente, logo dizem que sim, que todos vamos morrer um dia. E deixa lá isso, pai.
Mas isso, e deixa lá isso, pai, não é ainda saber. É só pura lógica. Saber sem saber.
Até que um dia se sabe.
Eu hoje sei. O que sei já não é isso, não é que vamos todos morrer um dia, está claro. O que agora eu sei é que eu mesmo – não os outros – vou morrer.
Eu não ia morrer. Morreram-me pai e mãe, o João Bénard, o Pedro Bandeira Freire e o Escudeiro, a Dulce e o Dinis Machado, a Mitas, o Alface, o meu Manel Cintra Ferreira, o Rui Santana Brito.
São muitas razões para eu ter começado a alimentar dúvidas e, ainda assim, eu não ia morrer. Dentro das minhas preocupações, planos, objectivos, nada, nenhum deles tropeçava na esquelética morte ceifeira.
Que filosofia me pôs com dono? Wittgenstein, nos “Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia”, disse: “Crê o cão que o seu dono está à porta, ou sabe-o?” O itálico é de Wittgenstein. Ou de algum dos seus alunos, a que uma inflexão da voz do filósofo causou um arrepio, arrepio que logo traduziu nesse terrível itálico.
Eu, sem nenhum arrepio, sei quem está à porta e ladro.
Dizem que os leitores portugueses não apreciam a ironia. Ou até que às vezes a ironia lhes passa ao lado. Podia dizer que não acredito, mas prefiro fazer a prova. Com uma lista conservadora.
Paulette Godard tisnada por Chaplin
A boa moral
Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”
A apetecível costureira
Em “Man Hunt”, filme de Fritz Lang sobre um caçador inglês que queria matar Hitler, a heroína fazia o trotoir, se a expressão ainda diz alguma coisa. Os censores mostraram a Lang o cartão vermelho. “Tivemos de lhe pôr uma máquina de costura no quarto, para que parecesse uma modista e não uma puta”, queixou-se Fritz. Abençoados censores: a máquina de costura, pedal, tampo e agulhas, conferem ao jogo de ancas da personagem uma duplicidade erótica que jamais a santa puta alcançaria.
Seda e jóias
Já andei de chinelos, calções rotos e flores no cabelo. Ainda hoje estremeço de vergonha a pensar nesses anos hippies – haja Deus que nunca desisti do banho diário. É verdade que Chaplin filmou a tão bonita Paulette Godard tisnada e pobre. Mas ela pisava como uma rainha, por jamais ter esquecido o conselho de De Mille: “Lembra-te que és uma estrela. Nunca atravesses a rua para despejar o lixo, a não ser que vás coberta de seda e jóias.”
O bom gosto
É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atractivos físicos ou os meios materiais para prevaricarem com variedade e ardor – hèlas! Resta-lhes a riqueza da imaginação. Homens e mulheres tiveram em Greta Garbo a amante de sonhos inconfessáveis. O jornalista Alistair Cooke redimiu-os desse pecado: “Ela dava-nos um consolo: já que a nossa imaginação tinha de pecar, ao menos que o fizesse com o mais irrepreensível bom gosto.”
A coerência moral
Há lições morais no imoralíssimo “Design for a Living”, de Lubitsch. Dois homens e uma mulher, lindos, cheios de humor, fazem um acordo de cavalheiros: sexo entre nós, não. Mas há uma noite em que ela, Miriam Hopkins, está sozinha com um deles, Gary Cooper. Acende-se-lhe um fogo nada fátuo e já se revolve, provocadora, no tão bom sofá: “Bem sei que temos um acordo de cavalheiros – sussurra ela –, mas devo confessar que não sou um cavalheiro.” Como compreendo a personagem de Miriam: a coerência moral talvez não seja um valor absoluto.
Escreve-se sempre e só para que uma mulher leia. O livro, prolongamento da mão e justificação do olho, até pode ser uma criação masculina. Se for, é de justiça que se diga ser uma benigna e maravilhosa criação masculina. Foi, acrescente-se também, do tijolo à impressão do senhor Guttenberg, criação de conhecimento e prazer. Também de poder.
Nem sempre, como os correctíssimos e admiráveis sociólogos dirão, a mulher pôde aceder ao livro, marca de poder masculino. Será? Há desmentidos veementes, garanto eu: dois mil anos antes de Cristo, que só escreveu com um pauzinho na areia do deserto, Enheduana, princesa acádia, escreveu os “Hinos Sumérios do Templo”: neles falava com Inanna, a Senhora do Céu, confessando-se, queixando-se e implorando. E a grega Safo, nascida em Lesbos, escreveu 10 mil versos ainda antes de Platão ter escrito uma linha. Chegaram-nos menos de mil, temperados a desejo, risos, corpos e luxúria.
Enheduana e Safo estão longe de ser excepções. Poderia juntar mil nomes de mulheres com poder ou saber. Isabel I, rainha de Inglaterra, lia em inglês, francês, latim, e extasiava-se a traduzir os clássicos. Mas, esquecendo Cleópatra, Catarina da Rússia, Joana d’Arc, as manas Brontë, Jane Austen, Maria I de Inglaterra, mesmo se aceitarmos essa história lamurienta da mulher discriminada, vejamos como, de forma persistente, subtil, a mulher se foi encostando e roçando pelas capas douradas ou de marfim, que encerravam manuscritos e iluminuras, e nas suas folhas descreviam fantasias, sonhos, saber, segredos, tanto pensamento, tanto humaníssimo anseio do corpo. Alguém que conte essa gloriosa história que eu não tenho tempo: bref, o que interessa é que mulher começou a ler.
A mulher, a meu ver, não começou a ler para conquistar poder, muito embora a leitura lhe tenha concedido mais seguro poder do que o poder que se diz que a cama lhe conferiu. A mulher começou a ler por aventura e encantamento. E o livro, agradecido, colou-se à mulher, de tal forma que o amor entre a mulher e o livro, de tão intenso, criou novos géneros literários. O desejo erótico saiu da alcova e veio deitar-se, ducal e principesco, carnal e adúltero, na poesia provençal ou nas nossas cantigas de amigo e de amor. Daí ao romance foi uma vírgula.
As mãos da mulher que lê, os olhos da mulher que lê, criaram a literatura. E volto ao princípio, tanto faz que seja um homem como uma mulher a escrever: escreve-se para que uma mulher leia.
Há uns três ou quatro anos, o escritor Ian Mc Ewan saiu à rua. Ian foi com o filho oferecer livros da sua autoria a todos esses langorosos seres humanos que se refastelavam à hora de almoço nos parques londrinos. Não sei se, dos seus romances, oferecia “Estranha Sedução”, se “O Fardo do Amor”, ou “O Sonhador”. Em dez minutos, trinta pessoas tinham aceitado os oferecidos e beijados livros. Trinta mulheres – forço um bocadinho, talvez tenham sido 29. E não sei se foi ao filho, se à Imprensa, Ian McEwan arriscou um vaticínio: “Se as mulheres deixarem de ler, estamos fritos.”
O que faz a literatura, essa zona utópica de prazer e impoder, são as mulheres que lêem. O homem que lê, com raras excepções, é um homem cansado, que lê utilitariamente. Só a mulher lê o livro pela sua magnífica e sublime inutilidade, a mesma inutilidade e deleite que se empresta e se recebe do amor. A mulher não lê um livro, a mulher lê um corpo. Sempre que vejo a mulher que lê, cheira-me. E cheira a prazer. Poucas coisas há tão aromaticamente indecentes como a mulher que lê.
Anna Karina esconde-se atrás de O Amante, de Duras
O que eu gostava era de ter vindo do cabaret, como vinha Otto Wacker. Chegou com a confiança transbordante que, nesses anos de Weimar, emanava da música, do teatro, do cinema alemães.
Em 1925, Otto deixou o cabaret e estarreceu as artes, expondo 33 novos quadros de Van Gogh. Genuínos, disseram os peritos. Otto usou o talento de palco e, naquela sottovoce que aproxima a boca de qualquer ouvido, contou que eram de um aristocrata cativo na nefanda URSS. Manter o anonimato desse herói, que retirara às bárbaras garras comunistas a grande pintura do Ocidente, era um dever moral. Soubesse-se quem o nobre era e os vermelhos sangravam-lhe a família branca.
Berlim não dormia de olhos nos novos Van Gogh. Pintara-os, sabe-se hoje, o irmão de Otto, talentoso e discreto amante de bastidores e sombras.
A galeria de Paul Cassirer preparava a exposição. Baart de la Faille, o perito, ultimava o catálogo. Na galeria já estavam dezenas das telas de Wacker e, em aberto, o espaço para as últimas quatro. Aí é que foi mesmo o diabo. Mal chegaram, os peritos torceram-se todos. Que intenso odor a falso!
Num fósforo, levaram Otto a julgamento – esqueçam lá isso dos mega-processos. Testemunhou o sobrinho de Van Gogh: nenhum russo comprara quadros aos herdeiros, jurou – e a Van Gogh só um cliente, sabe-se lá se por engano, comprou um em vida. Escaldados, porém resilientes, os compradores da galeria clamavam que os quadros eram verdadeiros e Wacker um benemérito das artes.
De la Faille, o perito, declarou então falsos os 33 novos Van Gogh. Depois, no julgamento, atestou que, dos verdadeiros passados a falsos, cinco dos falsos eram verdadeiros. Outro perito afirmou serem nove autênticos. Um terceiro garantiu que catorze eram mesmo Van Goghs, embora pintados num raro instante de desinspiração.
Científico e com raio-X, Kurt Wehlte provou que as técnicas e os pigmentos não eram do tempo de Van Gogh. Doce ironia, a tela de referência para a perícia científica seria, nos anos 70, considerada falsa.
Deixem-me resumir: a justiça, além de cega, é destituída de sentido de humor e Otto foi condenado a ano e meio de prisão. Vá lá, gozou o final de vida nos celestiais prazeres de Berlim Leste.
Eis um sinal de menoridade do cinema: que pena não se poderem forjar dois falsos Hitchcocks dos anos 50; um Ford tardio com um jovem Clint Eastwood, que só agora tivesse sido descoberto; a desconhecida adaptação mexicana que Buñuel tivesse arrancado à “História de Juliette ou as Prosperidades do Vício”, do Marquês de Sade.
A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas (ah, e a dos rapazes também), nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.
Gosto:
Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.
Do teu decote.
Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.
De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.
Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.
De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.
Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.
De um clássico dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.
Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.
De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.
Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.
De risos e beijos.
Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.
Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.
Se a história do cinema ensina alguma coisa é que vem aí uma década de libidinoso aquecimento. No século do código Hays, passagem dos anos 20 para os 30, tudo era proibido. Mesmo o beijo na boca era só uma lástima de beijo na boca.
Ora, as proibições, tal como os revolucionários, não dormem. Voltaram. Palpita-me, por isso, que vamos viver uma década de libidinosa vigília proibitiva. Antecipo as consequências: toda a proibição dilata os corpos e foi essa imparável expansão humana que, subversiva, inundou Hollywood naqueles anos pudibundos.
Poderá pensar-se que eram só os homens abusadores, pés fincados no danado poder patriarcal. E já vemos o produtor Irving Thalberg, nove da manhã, a tocar à porta da campainha da casa de um argumentista que abre espantado: era a primeira visita e a amante que Thalberg procurava morava na casa ao lado.
Mas o estado de ebulição tanto foi masculino, como feminino. Com excepção de Santa Lilian Gish, também as mulheres eram cometas de cauda em fogo no céu de Hollywood. Até Jeanette McDonald, mais virgem na hora da morte do que quando nasceu, terá amado com clandestino e nuíssimo ardor o seu agente, recusando os avanços do patrão Mayer.
Greta Garbo fez do mundo um saco de gatos. Amou, dormiu e estraçalhou John Gilbert, o Brad Pitt daquele tempo, deixando-o pendurado no dia do casamento. Depois, fugiu seis vezes de “Susan Lenox”, filme com Clark Gable, por se ter apaixonado à primeira vista por Mercedes Acosta: iam nadar nuas juntas e subir montanhas (talvez vestidas), “glorioso deus e deusa – cita a talentosa Acosta – fundidos numa só. Seis semanas pareceram seis minutos”.
Mas Garbo conheceu o realizador Rouben Mamoulian. Foi no assombroso “Queen Christina”, em que Garbo usava calças. Entraram dois pares de calças em pecaminosa combustão. Mamoulian era um desengraçado caixa de óculos (tive uns óculos iguais), mas a Garbo apaixonou-se pela tão tacteante miopia dele. Apeou a amada Acosta e fugiu outras seis semanas com ele.
Elucidativo do escaldante clima moral foi o horror de Louis B. Mayer a entrar num gabinete e ver o argumentista Ben Hecht a ditar diálogos de um guião a uma assistente em estado natural, se exceptuarmos o verniz nas unhas das mãos e dos pés. Toda a proibição sufoca. Que podem os corpos fazer se não tirar a roupa?
Quem frequenta salas de cinema é suspeito. Exige-se-lhe que responda, com cara de Buster Keaton, a este questionário slapstick quase à la Proust.
Texasville, Bogdanovich
Filme para uma bela sessão de, digamos, marmelada no cinema Se é para estar de olhos abertos, mãos e dedos perscrutantes, “Body Heat”, “Sea of Love”, o “Cat People” do velho Tourneur. Se é para atacar às cegas, gemidos e mais do que sussurros, talvez duas cadeiras esmigalhadas, escolha “Transformers”, “Mad Max” ou o ruidoso “This Is Spinal Tap”. Não se desgrace: cuidado com os silêncios em filmes de Straub ou Manoel de Oliveira.
Filme para ver depois de uma valente ruptura conjugal Vai precisar de muita nostalgia e capacidade de se rir de si mesmo. Ponha-se nas mãos de Peter Bogdanovich, sabendo que a coisa só já lá vai com sessão dupla: “Last Picture Show” e “Texasville”.
Filme para ver um ano depois da morte da mãe Deixe-se levar e lavar em lágrimas com o milagre e ressurreição de “A Palavra”, do dinamarquês Dreyer. Só para os de pouca fé é que uma morte é definitiva.
Filme para ver um ano depois da morte do pai Não há pai como o Donald Crisp de “O Vale Era Verde”. É abandonado por todos os filhos, menos um. Todos queremos ser esse humilde menino de sete anos, que pigarreia ao fundo da mesa para que o pai lhe diga: “Sei que estás aí, meu filho”.
Que filme ver depois de sair da prisão Se sai com a sensação de que ainda merecia mais cinco aninhos de pena, “Goodfellas” vai saber-lhe bem. Se sai inocente como entrou, nada o ligando ao BES ou a palmanços de armas em Tancos, console-se com o “In the Name of the Father”. “Pickpocket”, de Bresson, é para ex-presidiários mais metafísicos.
Filme para curar qualquer depressão ou ressaca Toda a gente dirá “Blues Brothers”. A mim o que me resgata do fundo do poço é a velocidade e os dois leopardos de “Bringing Up Baby”; ou os cães e a doce tecnologia da casa de “Mon Oncle”, de Jacques Tati.
Filme para um regresso à infância No “ET” as lágrimas vieram-me de bicicleta, mas o bolo inteiro da infância, curiosidade, alegrias e medos, reencontrei-o no bando de miúdos de “Stand by Me”.
Filme para os meus amigos se juntarem a ver depois do meu funeral “A Matter of Life and Death” na esperança de que haja engano lá em cima e possa ser recambiado cá para baixo.
Este é o primeiro volet de um inquérito cinéfilo. Já não sei é se foi alguém que me inquiriu ou se inventei o inquérito por desfastio.
Mas quem é que não vai ao cinema para matar ou morrer? No cinema abraça-se, beija-se, acaricia-se, come-se. Come-se tudo. O cinema é a cama de toda a virgindade: ali se perde, ali se volta a ganhá-la. Agora que banqueiros, primeiros-ministros, mesmo juízes são interrogados, todo o cinéfilo deve preparar-se para ser arguido e responder a esta lista, batoteiro questionário de Proust, em que serei o primeiro a ser enxovalhado. Comecemos:
Filme com a melhor canção na boca de uma personagem?
O filme é “One From The Heart”, o aeroporto é o de Las Vegas e a boca é de Frederic Forrest. De virilidade encolhida, canta malíssimo, e portanto muito bem, “You’re My Sunshine” à mulher que o deixa e entra no avião com o amante. Também podiam ser sete bocas em luto redentor, as de Meryl Streep, De Niro e outros, a cantar “God Bless America”, no final de “Deer Hunter”, filme que dá bom nome ao patriotismo.
Filme com a canção mais bem ligada à trama?
O “Casablanca” sufocaria sem o oxigénio de “As Time Goes By”. Mas isso é para quem só queira as doces mariquices de Deus. Se querem ter na espinha um arrepio do Diabo, ouçam o “Time Is On My Side”, no “Fallen” de 1998. O medo, o mal, a possessão demoníaca de Elias Koteas são tão arrebatadores que só apetece dizer “shit lá para o paraíso”.
Filme para ver antes de perder a virgindade?
Pondo logo de lado a megalomania de “Boogie Nights”, que o tamanho aqui complica, e em vez de escolher o óbvio “Summer of ’42”, se procura um lírico estremecimento e supremo êxtase, veja o italiano “Stromboli”, fusão de uma mulher, Ingrid Bergman, e de um convulso vulcão. “Monica e o Desejo”, de outro Bergman, Ingmar, prova que a Suécia é bem mais do que o mobiliário, pau e camas do IKEA.
Filme para ver depois de perder a virgindade?
Duas hipóteses. Correu muito mal? Ver o “Alien” pode ser a forma de compensação: vistas as coisas pelos olhos de Sigourney Weaver podia, afinal, ter sido bem pior. Mas se correu tudo entre melosas lágrimas e suspiros mozartianos, corra ao cinema e dance e cante na cadeira o “Singin’ in the Rain”. No caso de ser já jovem intelectual e, naturalmente, antiamericano, que para isso é que é há cursos de filosofia, mobilize-se para ver a bela “Lola”, de Jacques Demy.
Agora, o arguido tem direito a descanso. Vamos para intervalo, amanhã há mais.