Dizem que os leitores portugueses não apreciam a ironia. Ou até que às vezes a ironia lhes passa ao lado. Podia dizer que não acredito, mas prefiro fazer a prova. Com uma lista conservadora.

- A boa moral
Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”
- A apetecível costureira
Em “Man Hunt”, filme de Fritz Lang sobre um caçador inglês que queria matar Hitler, a heroína fazia o trotoir, se a expressão ainda diz alguma coisa. Os censores mostraram a Lang o cartão vermelho. “Tivemos de lhe pôr uma máquina de costura no quarto, para que parecesse uma modista e não uma puta”, queixou-se Fritz. Abençoados censores: a máquina de costura, pedal, tampo e agulhas, conferem ao jogo de ancas da personagem uma duplicidade erótica que jamais a santa puta alcançaria.
- Seda e jóias
Já andei de chinelos, calções rotos e flores no cabelo. Ainda hoje estremeço de vergonha a pensar nesses anos hippies – haja Deus que nunca desisti do banho diário. É verdade que Chaplin filmou a tão bonita Paulette Godard tisnada e pobre. Mas ela pisava como uma rainha, por jamais ter esquecido o conselho de De Mille: “Lembra-te que és uma estrela. Nunca atravesses a rua para despejar o lixo, a não ser que vás coberta de seda e jóias.”
- O bom gosto
É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atractivos físicos ou os meios materiais para prevaricarem com variedade e ardor – hèlas! Resta-lhes a riqueza da imaginação. Homens e mulheres tiveram em Greta Garbo a amante de sonhos inconfessáveis. O jornalista Alistair Cooke redimiu-os desse pecado: “Ela dava-nos um consolo: já que a nossa imaginação tinha de pecar, ao menos que o fizesse com o mais irrepreensível bom gosto.”
- A coerência moral
Há lições morais no imoralíssimo “Design for a Living”, de Lubitsch. Dois homens e uma mulher, lindos, cheios de humor, fazem um acordo de cavalheiros: sexo entre nós, não. Mas há uma noite em que ela, Miriam Hopkins, está sozinha com um deles, Gary Cooper. Acende-se-lhe um fogo nada fátuo e já se revolve, provocadora, no tão bom sofá: “Bem sei que temos um acordo de cavalheiros – sussurra ela –, mas devo confessar que não sou um cavalheiro.” Como compreendo a personagem de Miriam: a coerência moral talvez não seja um valor absoluto.
A foto de Paulette Godard está com tudo. E a boa moral de Jean Renoir tem uma lógica irrefutável. Ironias à parte.
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Ser irrefutável era a regra do jogo de Renoir 🙂
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