Choram. São quatro mulheres

Choram. São quatro mulheres. Não sabemos o que choram, mas sabemos que choram ali por volta de 1878. Podemos talvez presumir que choram a morte. Cabelos, pose, estatura parecem indicar que são de gerações muito próximas, irmãs, primas quem sabe, ou só amigas. Choram talvez a mãe, o pai.

Chorava-se assim no século XIX. Hoje, podemos chorar as mesmas lágrimas – água e cloreto de sódio, como cantou o poeta – mas não choramos já com esta coreografia tão composta, com esta nobre expressão pública do sofrimento, com estes lenços de linho, que a mão de mãe, a mão agora morta, bordou.

Pum, pum, estás morto

The Man Who Shot Liberty Valance

Que bem que nós sabíamos morrer! Tínhamos aprendido a morrer com os índios, os mexicanos e os bandidos de mil westerns, com os piratas de cem filmes de capa e espada, com os filisteus que Sansão arrasava com a sua força de braços.

Animava-nos a pura metafísica da infância. A vida já era nossa, queríamos era experimentar a morte. Ora, morrer não era só tombar no chão. “Mata-me”, pedíamos, e havia sempre um amigo que alçava o arco e nos atingia com uma flecha ou puxava do coldre um colt prateado e “pum, pum, estás morto”. Morríamos então com a mesma imaginária sabedoria do professor Agostinho da Silva, esse cascadeur filosófico agora esquecido.

Não bastava cair, era preciso cair redondo. Caíamos impregnados do perfume de um verso mexicano do ciclo Nauatle: “Não foi para viver que viemos sobre a terra.” O corpo desabava sobre a areia vermelha do terreiro do velho Amado, mesmo ao pé da Churrasqueira, ou no areal abandonado das traseiras da farmácia Luanda. Mordíamos o pó e rodávamos três vezes, para morrermos de barriga para o ar, um último estremeção das pernas, um esgar de pessoano sofrimento e o derradeiro suspiro. Podíamos morrer rodando quatro vezes e ficando de borco, nariz e lábios enfiados na poeirenta cauda da terra – mas era considerado um exagero, um exercício de overacting como mais tarde a vida em pé nos ensinaria.

Não foi no grande cinema que aprendemos a admirável arte de morrer. Ninguém aprende a morrer com Orson Welles ou o “Citizen Kane” – falta até saber se se aprende a viver. Mas era do esticanço mortal que eu falava. Aprende-se a morrer em filmes humildes, uma pradaria, um cavalo e uma Winchester, aprende-se a morrer com um escravo como Spartacus. Aprende-se a morrer com gangsters: os de Coppola e dos “Padrinhos” aprenderam a morrer com o James Cagney dos “Roaring Twenties”, caído na mantilha de neve que afaga a escadaria de uma igreja.

Roaring Twenties

Quando é que desaprendemos de morrer? Como se tivesse acabado de beber um fragmento de infância, voltei a deixar-me morrer quando a minha filha era pequenina: ensinei-a a pôr dois dedos em pistola e disparar, pum, pum. Tombei (esta é tua, Zé Victor!) como a gazela de Catete atingida na graciosa corrida. Arranquei à minha filha o cristalino e fresco riso. Mas todas as canas do meu corpo estalaram de vida magoada. A dor que é deixar-se um tipo morrer, quando já só está vivo.

Posso fazer xixi?

Faye Dunaway em Chinatown

Andava o norte de Portugal a fritar filhoses para o Natal, enquanto os apaniguados do Doutor Cunhal fritavam latifundiários, ocupando-lhes as herdades, no sul. Foi nestes preparos festivos que “Chinatown” se estreou em Portugal. A 18 de Dezembro de 1974.

Foi para o lado que o país dormiu melhor, desatenção injustíssima, tantas noites sem dormir custou a Roman Polanski e a Faye Dunaway fazer este filme mais noir do que todas as décadas de film noir. Um cheirinho do enredo e logo se percebe que é obra infectada, um vento de corrupção e peste, expostas feridas sexuais, de que um fragor de incesto é a mais dolorosa. Cheira a maldade, ganância e morte, nesta história de suja especulação de terras e águas em Los Angeles. Por cima e por baixo dessas terras secas e águas clandestinas, há uma incivilizada, urgente, arfante sexualidade, a que Faye Dunaway, Jack Nicholson, o velho John Huston, dão rosto e sopro mefítico.

Esse sopro incivilizado e fétido dominou as filmagens. Nicholson resumiu bem as duas distintas facetas do realizador: “É um tipo irritante quando está a filmar e é irritante quando não está a filmar.” Ora, Polanski tomou de ponta Faye Dunaway. Logo no primeiro dia, no teste de maquilhagem, que fez mais pálida a já lindamente pálida face de Faye, o polaco desatou aos berros de “não, não, mais pálido, ainda mais pálido”, despejando-lhe um quilo de pó na cara.

Que motivação a devia guiar, perguntou-lhe Faye, na primeira cena. Polanski respondeu, com exemplar educação: “Diz a merda do texto, o teu salário é a tua motivação.”

Um dia, Faye tentava alisar um cabelo, que lhe entrava na linha do olhar. Polanski foi-se a ela e ao cabelo, puxou-o e arrancou-o. “Motherfucker arrancou-me o cabelo” e foi um terramoto até o produtor obter tréguas.

Estão, num carro, a filmar uma cena em que Nicholson intimida Faye. Ela pára e diz a Polanski que precisa de fazer xixi. Ele recusa. Ela insiste, ele volta a recusar, e vem à janela da viatura corrigir a cena aos gritos. Faye atira-lhe à cara o líquido de um copinho escondido dentro do carro. Polanski, argh!, berra: “A puta atirou-me mijo”. Corre um mito: talvez fosse mijo de Nicholson.

Obra-prima, “Chinatown” prova que a arte não é para meninos. De raiva, lágrimas e outras excreções se faz a lenda da sua criação.

Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem

um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura

Agora imaginem esse tempo em que ainda havia revista de viagens. E imaginem que uma dessas revistas tinha um conceito muito eyebrow. Tanto que desatava a entrevistar tipos lamentáveis como eu. Sim, esta é uma entrevista imaginária. Nessa altura eu escrevia num cemitério. Perdão, num blog que se chamava É Tudo Gente Morta. E sim, o blog tinha mesmo um cemitério. Foi nesse cemitério que a jornalista curvilineamente imaginária dessa revista sofisticadamente imaginária me fez a entrevista que me arrisco agora a publicar.

A entrevista

Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
— Fonseca.
Como?
— O nome. É Fonseca, Fon-se-ca. Mas, bora lá, às mais antigas lembranças. Foi aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
— Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.
Associa sempre as viagens a pessoas?
— Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.
Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
— Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi aqueles dois primeiros, não perco a esperança de ver este último.

O humilde Claremont

Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
— Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 35 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comiam lentilhas e um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.
O dinheiro é importante quando se viaja?
— Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever
Escreve?
— Sim. Num cemitério.
Perdão?
— Está perdoada.
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
— A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história. Alargaram os meus horizontes linguísticos: aprendi a dizer testa di cazzo.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
— Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: la signora io non la tocco, foi a desculpa generalizada.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
— Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.
Já perdeu as malas?
— Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.
Ameaças de acidente?
— Em L.A., tive de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque. Acordei num táxi a caminho de Manhattan sentado entre duas frescas jovens de Marshalltown, Iowa. E sim, pensei que o avião tinha caído e já estava no céu,
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
— Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.
Perdão?
— Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. Quero um bloody mary, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.
E nos hotéis?
— Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos, no Sunset Marquis. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal (como é nova, não sei se faz ideia que estranho objecto é esse) à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e comi um gelado com a Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.

O erecto eu

Henry Miller a mostrar-se a Anais Nin

Se um dia virem alguém na rua ou num jardim a abrir a gabardina e a expor as pendentes miudezas, tenham piedade desse pobre de Cristo, em nome do seu fracasso. Mesmo que seja no jardim da Gulbenkian, só corre o indecoroso e vexatório risco desse exibicionismo de jardim ou parque públicos quem não consegue escrever livros. Ou seja, deambular pelo jardim, desfraldar a gabardina e destapar o murcho escândalo talvez seja um humilhante sucedâneo da literatura. Ou melhor, um sucedâneo do cortejo exibicionista do escritor.

Deixem-me ir buscar a outro jardim, o do esquecimento, um escritor, James Jones. Ninguém se lembra de um livro dele. Ora, quando nos lembramos do sargento Burt Lancaster a beijar a boca de Deborah Kerr, mulher de um capitão, os corpos a rolar, a preto e branco, numa praia do Havai, em “From Here to Eternity”, é desse livro dele que, mesmo que nunca o tenhamos lido, de facto nos lembramos. Tal como o trio de vencidos da vida que eram Frank Sinatra, Dean Martin e Shirley MacLaine, antes de sair da luz e cores pessimistas do realizador Vincente Minnelli, saiu das páginas que Jones escreveu em “Some Came Running”. E até a guerra que Terence Malick filmou, a céus, copas de árvores, cansaço e silêncio, em “Thin Red Line”, foi James Jones quem lha emprestou com esse seu livro de batalha, medo e morte. Os livros de Jones foram êxitos na América e o mundo leu-os, traduzidos por Hollywood, na escura sala de cinema.

Nunca ninguém viu Jones, falecido com pouco mais de 50 anos, a abrir a gabardina no jardim: nunca precisou. Sem dizer a palavra vaidade, era a vaidade de ser escritor que James Jones tinha na língua quando explicou o que o fazia escrever: “A qualidade que faz com que um homem queira ser lido é essencialmente um desejo de auto-exposição – como aqueles tipos que têm a compulsão de tirar cá para fora aquela sua coisa e mostrá-la no meio da rua.”

A vaidade, a vaidade de se mostrar, gabardina aberta e as vergonhas reluzentes, é o motor de toda a escrita. Oscar Wilde converteu essa inclinação exibicionista do escritor numa arte: despia-se em epigramas. Quando lhe perguntaram quais eram os seus cem livros favoritos, Wilde recusou com honestidade fazer tamanha lista: “Não posso, porque eu só escrevi cinco.”

Viajando, não sei se viria já enfiar-se, fugido, em Paris, depois de ter saído da prisão em Inglaterra, Wilde teve de passar pela alfândega. Foi audaz e pôs-se a nu quando perguntado sobre o que tinha a declarar: “Nada, a não ser o meu génio.”

Um escritor gosta de mostrar o que mostra – o seu erecto eu – e quer que lho afaguem. Umberto Eco jurou que essa vontade de sedução e esse lancinante pedido de cumplicidade são a natureza da profissão e da escrita. Bernard Shaw, que aceitou o Nobel da Literatura por amor à Irlanda, mas recusou o dinheiro vil do prémio, quando não o afagavam, achava legítimo o afago onanista: “Por vezes cito-me a mim mesmo. Acrescenta picante à minha conversa.”

Os escritores, Dostoievski com o seu “Crime e Castigo”, o cego Jorge Luis Borges com as suas “Ficciones”, Joseph Conrad com o seu “Lord Jim”, são afinal tipos pervertidos de larga e destapada gabardina, que se mostram de jardim em jardim. Alguém disse que o destemperado Henry Miller, nos seus trópicos de Câncer e de Capricórnio povoados a falos e generosas vulvas, era um exibicionista da alma.

E as mulheres escritoras, o que exibem? A insuspeita e serena Doris Lessing tira-nos as dúvidas: “Não faz mal nenhum repetirmos para nós mesmos tantas vezes quantas se possa: ‘Sem mim, a indústria literária não existiria.’”

Publicado no Jornal de Negócios

Não olhem para o céu

A queda de Ícaro, vista por Marc Chagall: estão todos a olhar para o céu

Olha para o que me deu, trazer hoje aqui uma das minhas Bicas Curtas do CM.

Ícaro volta a cair dos céus aos trambolhões e não mais voará. É essa a vontade da presidente da câmara de Poitiers, em França. Ora vejam: dois aeroclubes em Poitiers ofereciam o baptismo do ar a crianças com deficiências. A senhora presidente, do partido ecologista, cortou os apoios aos aeroclubes. Escreveu, impante: “Os aviões não devem fazer parte dos sonhos das crianças.”

Eis a visão do mundo dos que querem cortar no crescimento: nada de sonhos, nada de dar asas e voar. Olhos no chão, um prato de lentilhas, cortar cerce no imaginário. A lavagem ao cérebro woke, pós-colonial e radical-ecologista anda de peito cheio e ufano.

O púbico encanto de Effie

Effie Gray

Foi então que John Ruskin viu a mulher nua. E nem sei se me viro para Ruskin se para a mulher nua. Hoje, neste brando mundo de ubíqua pornografia, já qualquer impúbere viu a mulher nuíssima. Mas naquele ano de 1848, o europeu, mesmo o inglês John Ruskin, mais facilmente descobria o seio e o ventre da revolução do que a ansiosa carne da mulher nua.

Vejamos, quem abrisse a porta da Europa, em 1848, encontraria o continente em chamas, revolucionários pré-woke a convencer as hordas esfomeadas de proletários que amanhã era o paraíso, o mais tardar, depois de amanhã. Karl Marx tinha 30 anos e redigia, febril e em Londres, o Manifesto Comunista. E foi então que, ali ao lado, com 29 anos, os olhos gentis de Ruskin se abriram, esgazeados, para a mulher nua.

Que olhos eram os olhos azuis de Ruskin? Eram, ofereço-me eu para vos dizer, os olhos de um fino crítico. Podiam ainda não ter visto a mulher nua, mas tinham já visto e lambido toda a pintura de Turner, naufrágios, batalhas, um mar de ondas adamastoras, o céu a arder, o rubro orgasmo de um vulcão.

Os pais de Ruskin, comerciantes de xerez e outros vinhos generosos, tinham-no levado pela mão a Itália. E tenho de me entregar à humilhação de um desmentido: John Ruskin vira, sim, e nua, a reclinadíssima Vénus de Ticiano. Como a mão sub-reptícia dessa Vénus, a distraída mão direita de Ruskin acariciara talvez o despido mármore da estatuária grega. Pois não, e já me redimo: faltava a Ruskin experimentar o tédio da convivência humana.

Mas eis o que falta também a esta crónica, a fulminante irrupção de Euphemia Gray, Effie, como toda a gente lhe chama. Tem 18 anos e hoje é o dia do seu casamento com John Ruskin, que a conhece desde menina e lhe dedicou o único livro infantil que escreveu, O Rei do Rio de Ouro, tinha Effie a infantil doçura dos 12 anos.

Effie tem agora uma beleza siderante, pré-rafaelita, se assim me posso adiantar: vejam a perfeição do nariz, o desenho dos olhos, a tão apetecível boca, os cabelos escoceses e ruivos. No quarto, Effie despe-se. Toda. Tanto como a Vénus que Ruskin vira em Florença. Já os olhos de Ruskin páram, estupefactos, vendo o que nunca tinham visto nesse humaníssimo ponto que é a origem do mundo. Ao contrário da Vénus de Ticiano, Effie ostenta ali o seu orgulhoso arbusto, o delicado monte que a depilada Vénus de Ticiano não tinha. E logo, crê-se, a visão incandescente do tosão de Effie tira ao escritor, crítico de arte, aguarelista, John Ruskin, aquilo sem o qual, por mais que se diga, tudo fica inconsumado.

Ruskin quis ser elegante: “Embora o rosto seja belíssimo, o seu físico não está formado para excitar a paixão. Ao invés, certas circunstâncias do físico dela bloqueiam-na.” Não havendo mais testemunhos dessa noite, resta-nos especular: a invocação de “certas circunstâncias” de Ruskin era só o púbico encanto de Effie, ou também um inaudível eflúvio de maresia, uma gota de equatorial humidade que um tímido dedo aflorou?

À beleza do rosto e do físico, que nem a ponderosa gravidade do posterior belisca – e assim a pintou Thomas Richmond –, Effie juntava uma mais imparável do que salaz vivacidade. Viveu seis anos inconsumada, rodeada de amizades masculinas que Ruskin, por vezes, incentivava. A do pintor pré-rafaelita John Everett Millais foi mais vibrante. Apaixonaram-se. Millais fez oito filhos ao tosão ruivo de Effie, logo que ela e Ruskin anularam o casamento. Neste século XXI depilado e depilatório, o esteta Ruskin, inflexível admirador do corpo glabro, seria um homem feliz.

Publicado no Jornal de Negócios

15 anos de Guerra e Paz

Há 15 anos que eu quase não tenho outra vida. São aqui as minhas manhãs, as minhas tardes, os meus dias. Digo isto e sei que estou a ser injusto com as minhas noites. E não me estou a queixar: também têm sido, sobretudo nos últimos cinco anos, muitas as minhas alegrias. A Guerra e Paz, adolescente, 15 anos, está quase como eu quero. Está linda e, para uma adolescente, já sabe bem o que quer. Ora ouçam-na aí em baixo.

Fundada em 10 de Abril de 2006, com o lema é preciso virar a página, a Guerra e Paz editores é uma editora generalista com um catálogo que privilegia o louvor a um património cultural de matriz universal, a que dá voz a ficção dos Clássicos Guerra e Paz, de Eça a Machado de Assis, de Padre António Vieira a Mark Twain, de Tchernichévski a Oscar Wilde, Stendhal, Flaubert ou Jane Austen.

A cara da Guerra e Paz está bem estampada, também, nestas quatro outras colecções:

– os Livros Brancos, com textos curtos, mas fulgurantes e imortais, como a Apologia de Sócrates ou a Carta do Achamento do Brasil;

– os Livros Negros, reunindo títulos malditos, proibidos, manifestos rebeldes, textos de incontida transgressão ou deliciosamente controversos, sejam ensaios ou ficção;

– os Livros Amarelos, juntando e comparando no mesmo livro textos de autores diferentes: Kipling/Twain, Pessoa/Whitman, João de Patmos/D.H. Lawrence;

– os Livros Vermelhos, com ensaios contemporâneos de história, filosofia ou sociologia, de uma heterodoxia fundada na razão e na ciência contra as novas formas inquisitoriais que põem em causa a tolerância, a diversidade e o universalismo. Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa, é, nessa colecção, a nossa declaração de amor à leitura.

Por um particular afecto do seu editor, a publicação de livros angolanos ganhou relevância, o que faz da Guerra e Paz a mais angolana das editoras portuguesas, culminando com a edição de Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor, monumental antologia da poesia angolana.

O estudo da língua portuguesa é outra das chávenas de chá da editora. Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, converteu-se, em Portugal, na Galiza, e mesmo no Brasil, num clássico instantâneo, e História do Português desde o Big Bang, integrando a história da nossa língua na história da linguagem humana, culmina a série de títulos do linguista Marco Neves na Guerra e Paz.

São várias as parcerias da Guerra e Paz. Da mais antiga, com a Sociedade Portuguesa de Autores, nasceu a colecção …o fio da memória, que preserva, com entrevistas de José Jorge Letria, o património cultural português, em livros de vida e obra de pensadores, artistas plásticos, escritores, músicos e cientistas, como é o caso de Eduardo Lourenço, Urbano Tavares Rodrigues, Lídia Jorge, Cruzeiro Seixas, Carlos Fiolhais, João Abel Manta, Álvaro Cassuto e Graça Morais, entre outros.

Os Livros CMtv, criados em 2019 em parceria com a Cofina, dão corpo a uma colecção de livros práticos e de divulgação, com Almanaques como o de Língua Portuguesa, de História de Portugal, ou a Gramática para Todos e o Dicionário do Calão.

Duas outras parcerias associam a Guerra e Paz à publicação, até 2024, de dois prémios literários: o Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal e o Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras de Língua Portuguesa.

No seu catálogo, a editora conta com várias correspondências de Jorge de Sena, em particular a epistolografia com Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, João Gaspar Simões e João Sarmento Pimentel.

A Guerra e Paz acolhe autores portugueses contemporâneos, novos ou mais reconhecidos. Na poesia, Eugénia de Vasconcellos, João Moita, André Osório ou Américo Brás Carlos, por exemplo. No romance, José Jorge Letria, Luís Osório, Pedro Bidarra, Dulce Garcia, João Céu e Silva, André Fontes, Carlos Taveira e António Panarra, entre outros.

No catálogo de autores internacionais, destacam-se, na ficção, obras de Sade, Boris Vian, Robert Graves, Jean d’Ormesson e Delmore Schwartz, e, nos ensaios sociológicos, políticos ou filosóficos, os títulos de Raymond Aron, Winston Churchill, Roger Scruton, Paul Johnson, John Gray e do Prémio Nobel da Economia Jean Tirole. De edição recente, obras controversas, como Woke e Teorias Cínicas, vieram reforçam o posicionamento contra o relativismo das imposições identitárias e de género assumido pela editora.

Na colecção Três Sinais, de livros de arte & luxo, destacam-se, em edições de capa dura, obras de Paula Rego e Agustina, de Fernando Pessoa e Camões, de Vasco Graça-Moura e José Saramago, de Eduardo Prado Coelho, bem como a edição especial do Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, com ilustrações de Mariana Viana, e as edições com capa ou caixa de madeira dedicadas a Fernando Pessoa, com fotografias de Pedro Norton.

Esta é a Guerra e Paz, editora que se alinha do lado da ciência e da razão, do universalismo e da tolerância, e que procura, numa parte relevante das suas edições, reinventar o livro, criando formatos inovadores e cruzando materiais por vezes improváveis, como madeira, pano, papel de jornal, fotografias ou pintura nas suas edições. Com um grafismo ousado, que não teme a ruptura dos modelos tradicionais, algumas edições recorrem a processos artesanais, da colagem ao laser, passando pela impressão directa em madeira e pela pintura à mão das faces do miolo dos livros.

Pensamento e beleza, porque é preciso virar a página.