Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem

um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura

Agora imaginem esse tempo em que ainda havia revista de viagens. E imaginem que uma dessas revistas tinha um conceito muito eyebrow. Tanto que desatava a entrevistar tipos lamentáveis como eu. Sim, esta é uma entrevista imaginária. Nessa altura eu escrevia num cemitério. Perdão, num blog que se chamava É Tudo Gente Morta. E sim, o blog tinha mesmo um cemitério. Foi nesse cemitério que a jornalista curvilineamente imaginária dessa revista sofisticadamente imaginária me fez a entrevista que me arrisco agora a publicar.

A entrevista

Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
— Fonseca.
Como?
— O nome. É Fonseca, Fon-se-ca. Mas, bora lá, às mais antigas lembranças. Foi aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
— Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.
Associa sempre as viagens a pessoas?
— Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.
Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
— Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi aqueles dois primeiros, não perco a esperança de ver este último.

O humilde Claremont

Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
— Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 35 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comiam lentilhas e um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.
O dinheiro é importante quando se viaja?
— Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever
Escreve?
— Sim. Num cemitério.
Perdão?
— Está perdoada.
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
— A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história. Alargaram os meus horizontes linguísticos: aprendi a dizer testa di cazzo.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
— Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: la signora io non la tocco, foi a desculpa generalizada.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
— Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.
Já perdeu as malas?
— Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.
Ameaças de acidente?
— Em L.A., tive de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque. Acordei num táxi a caminho de Manhattan sentado entre duas frescas jovens de Marshalltown, Iowa. E sim, pensei que o avião tinha caído e já estava no céu,
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
— Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.
Perdão?
— Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. Quero um bloody mary, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.
E nos hotéis?
— Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos, no Sunset Marquis. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal (como é nova, não sei se faz ideia que estranho objecto é esse) à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e comi um gelado com a Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.

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