O púbico encanto de Effie

Effie Gray

Foi então que John Ruskin viu a mulher nua. E nem sei se me viro para Ruskin se para a mulher nua. Hoje, neste brando mundo de ubíqua pornografia, já qualquer impúbere viu a mulher nuíssima. Mas naquele ano de 1848, o europeu, mesmo o inglês John Ruskin, mais facilmente descobria o seio e o ventre da revolução do que a ansiosa carne da mulher nua.

Vejamos, quem abrisse a porta da Europa, em 1848, encontraria o continente em chamas, revolucionários pré-woke a convencer as hordas esfomeadas de proletários que amanhã era o paraíso, o mais tardar, depois de amanhã. Karl Marx tinha 30 anos e redigia, febril e em Londres, o Manifesto Comunista. E foi então que, ali ao lado, com 29 anos, os olhos gentis de Ruskin se abriram, esgazeados, para a mulher nua.

Que olhos eram os olhos azuis de Ruskin? Eram, ofereço-me eu para vos dizer, os olhos de um fino crítico. Podiam ainda não ter visto a mulher nua, mas tinham já visto e lambido toda a pintura de Turner, naufrágios, batalhas, um mar de ondas adamastoras, o céu a arder, o rubro orgasmo de um vulcão.

Os pais de Ruskin, comerciantes de xerez e outros vinhos generosos, tinham-no levado pela mão a Itália. E tenho de me entregar à humilhação de um desmentido: John Ruskin vira, sim, e nua, a reclinadíssima Vénus de Ticiano. Como a mão sub-reptícia dessa Vénus, a distraída mão direita de Ruskin acariciara talvez o despido mármore da estatuária grega. Pois não, e já me redimo: faltava a Ruskin experimentar o tédio da convivência humana.

Mas eis o que falta também a esta crónica, a fulminante irrupção de Euphemia Gray, Effie, como toda a gente lhe chama. Tem 18 anos e hoje é o dia do seu casamento com John Ruskin, que a conhece desde menina e lhe dedicou o único livro infantil que escreveu, O Rei do Rio de Ouro, tinha Effie a infantil doçura dos 12 anos.

Effie tem agora uma beleza siderante, pré-rafaelita, se assim me posso adiantar: vejam a perfeição do nariz, o desenho dos olhos, a tão apetecível boca, os cabelos escoceses e ruivos. No quarto, Effie despe-se. Toda. Tanto como a Vénus que Ruskin vira em Florença. Já os olhos de Ruskin páram, estupefactos, vendo o que nunca tinham visto nesse humaníssimo ponto que é a origem do mundo. Ao contrário da Vénus de Ticiano, Effie ostenta ali o seu orgulhoso arbusto, o delicado monte que a depilada Vénus de Ticiano não tinha. E logo, crê-se, a visão incandescente do tosão de Effie tira ao escritor, crítico de arte, aguarelista, John Ruskin, aquilo sem o qual, por mais que se diga, tudo fica inconsumado.

Ruskin quis ser elegante: “Embora o rosto seja belíssimo, o seu físico não está formado para excitar a paixão. Ao invés, certas circunstâncias do físico dela bloqueiam-na.” Não havendo mais testemunhos dessa noite, resta-nos especular: a invocação de “certas circunstâncias” de Ruskin era só o púbico encanto de Effie, ou também um inaudível eflúvio de maresia, uma gota de equatorial humidade que um tímido dedo aflorou?

À beleza do rosto e do físico, que nem a ponderosa gravidade do posterior belisca – e assim a pintou Thomas Richmond –, Effie juntava uma mais imparável do que salaz vivacidade. Viveu seis anos inconsumada, rodeada de amizades masculinas que Ruskin, por vezes, incentivava. A do pintor pré-rafaelita John Everett Millais foi mais vibrante. Apaixonaram-se. Millais fez oito filhos ao tosão ruivo de Effie, logo que ela e Ruskin anularam o casamento. Neste século XXI depilado e depilatório, o esteta Ruskin, inflexível admirador do corpo glabro, seria um homem feliz.

Publicado no Jornal de Negócios

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