A gloriosa desolação de não deixar descendentes

Bel­mondo a desa­guar na desar­mada ino­cên­cia de Seberg

Godard está mesmo muito velho. Depois de Manoel de Oli­veira, que junto de Deus deixou de ter idade, nes­tes dias lentos, que cor­rem a conta gotas, Godard é o Matu­sa­lém da his­tó­ria do cinema. Acre­di­tem, é um elo­gio nesta boca de quem cada vez gosta mais dos velhos.

Não sei quando é que Jean-Luc nas­ceu, nem me inte­ressa. Para mim, quando fez “A Bout de Souf­fle” tinha (só podia ter) 20 anos. Em toda a his­tó­ria do cinema era a ter­ceira vez que apa­re­cia um filme que não se pare­cia com nada do que se fize­ra antes. Lem­bro que esses fil­mes de não pedir licença a nada e a nin­guém foram “Birth of a Nation”, de Grif­fith e “Citi­zen Kane”, de Welles.

São fil­mes ame­ri­ca­nos e o de Godard é fran­cês? É engra­çado, “A Bout de Souf­fle”, a um olhar mais cân­dido parece ame­ri­cano. Lembro-me que um moço, que tra­ba­lhou na Cine­ma­teca, quando viu o filme, chamou-lhe “About The Suf­fle”, fosse lá o que isso fosse. Não só não vejo na ame­ri­ca­ni­za­ção do título nenhuma igno­rân­cia, como me parece até a expres­são fiel e ver­da­deira das suas genuí­nas sen­sa­ções de espec­ta­dor, ao ver a mais bogar­ti­ana das inter­pre­ta­ções de Jean-Paul Bel­mondo e ao ver desa­guar na desar­mante, mas bem armada ino­cên­cia de Jean Seberg, a tra­di­ção da inte­li­gen­tís­sima mulher fatal de que Louise Bro­oks foi a mais ful­gu­rante repre­sen­tante. Tudo coi­si­nhas sexu­al­mente americanas.

tudo coi­si­nhas sexu­al­mente americanas

Sendo inau­gu­ral como aque­les dois ante­pas­sa­dos, “A Bout de Souf­fle” de Godard tem uma peculiarida­de: se não se pare­cia com nenhum fil­me ante­rior, a ver­dade é que nenhum filme pos­te­rior se con­se­guiu pare­cer com ele.

“A Bout de Souf­fle” foi um escân­dalo na França de 1959. É um filme insolen­te. Fala direc­ta­mente aos especta­dores e manda os ini­mi­gos da natu­reza a um sítio ini­ma­gi­ná­vel para a eco­lo­gia gras­sante. Pela boca grossa de Bel­mondo. Mas a rudeza ver­bal é o menos: “Allez vous faire fou­tre”, o que em por­tu­guês equi­vale a um ameno “Vão-se foder”, é uma suges­tão que a Europa, afi­nal, tem feito tudo por cumprir.

Há atre­vi­men­tos mai­o­res, que vou já elen­car. Lem­bro que Jean-Luc fez ques­tão, mesmo muita ques­tão, nes­tas coi­sas para­dig­má­ti­cas: a) usou o nega­tivo mais rápido que havia, com a velo­ci­dade de 400 ASA, e com a ajuda do seu opera­dor, Raoul Cou­tard, Go­dard deu-lhe um tra­ta­mento espe­cial, aumentando-lhe a veloci­dade para 800 ASA; b) is­so quer dizer que Godard que­ria fil­mar tudo com as fon­tes de luz natu­ral; c) que­ria, quis e con­se­guiu, coisa que nunca antes ti­nha sido feita num filme de ficção.

Jean-Luc a fazer ques­tão, mesmo muita questão

“A Bout de Souf­fle” tem outras arro­gân­cias mal-criadas que não se redu­zem à téc­nica e às con­sequên­cias da téc­nica. O cinema tinha uma gra­má­tica, mas Godard achou-a insu­fi­ci­ente e insa­tis­fa­tó­ria. In­ventou o “jump-cut” na sua ver­são mais “dura”, pro­cesso que con­siste em mon­tar pla­nos do mesmo actor, no mesmo espaço, mas selec­ci­o­nando ape­nas as “par­tes inte­res­san­tes”. Por causa dessa compres­são no tempo, a Godard, nessa al­tura, até à mãe­zi­nha lhe cha­ma­ram nomes que não eram exac­ta­mente o des­co­nhe­cido nome dela.

Não se jul­gue que a fúria e ran­ger de den­tes sur­gi­ram só pelas ousa­dias de estilo. Obrigando-se, como nas “Pal­mei­ras Bra­vas”, romance de Wil­liam Faulk­ner, a esco­lher entre a dor e o nada, o herói de “A Bout de Souf­fle” es­colhe o “nada” por­que a “dor” é ain­da um com­pro­misso. Caiu mal.

Na al­tura andava tudo com­pro­me­tido. A pala­vra certa nem é com­pro­misso, é enga­ja­mento. Os ope­rá­rios enga­ja­vam, os estu­dan­tes enga­ja­vam, os inte­lec­tu­ais enga­ja­vam. Enga­ja­vam todos menos os heróis de Godard. E quando, ao con­trá­rio do soberbo Bel­mondo, a doce Seberg cede e se com­pro­mete, Godard fá-la comprometer-se com a per­fí­dia – é um anti-engajamento femi­nino, mas quem é que, no seu juízo per­feito, não dese­ja­ria que Jean Seberg anti-engajasse com ele? Ser traído por Jean Seberg será ser traído?

A mim, é o que mais me põe em bra­sa em “A Bout de Souf­fle”. Depois de se per­correr cada cen­tí­me­tro de Jean Seberg, da belís­sima nuca rapada aos lábios, dos mais lin­dos joe­lhos aos seios, só Godard lhe pode­ria pedir que ela – vinda de dois tor­tu­ra­dos fil­mes de Otto Pre­min­ger – fosse ainda cem vezes mais dila­ce­rada do que em “Saint Joan” e mil vezes mais sexu­al­mente triste do que em “Bon­jour Tris­tesse”. Sem as des­cul­pas morais que nes­ses fil­mes Pre­min­ger lhe emprestava.

A luz, rua e ritmo que fize­ram de “A Bout de Souf­fle” um enfant ter­ri­ble, a má-criação gra­ma­ti­cal que faz de “A Bout de Souf­fle” um enfant gâté, o nii­lismo post-faulkneriano que faz de “A Bout de Souf­fle” um exem­plo da sou­ve­rai­neté de l’ homme seul (fran­cesa embora, a expres­são é minha) con­de­na­ram “A Bout de Souf­fle” à glo­ri­osa deso­la­ção de ser um filme sem des­cen­dên­cia. Pode ter havido enfants de la ciné­mathè­que, mas não há, de cer­teza, enfants de Godard. Avi­sem os enga­na­dos que por aí andem: que façam o teste de ADN e vão cha­mar pai a outro.

Publicado na revista “Argumento”, uma preciosidade servida pelo Cine Clube de Viseu

Um palito nos dentes

                         

O obscuro cavaleiro da morte: como o viu Gustave Doré

Quem sou eu para me atrever a não querer morrer? Venham comigo ao camarote do escritor Sherwood Anderson. Torce-se de dores. E no Santa Luzia, o barco de cruzeiro em que viaja com a mulher, já não têm paliativos que lhe valham. Desembarcam-no no Panamá e morre. A autópsia é humilhante: um palito dos dentes, que engoliu sem querer, deu na peritonite que o matou. Eis a pungente contradição: as short-stories de Anderson, o seu romance Many Marriages, influenciaram Faulkner, Fitzgerald, mesmo o não-influenciável Hemingway, mas bastou um ridículo e impertinente palito dos dentes para o matar.

Eu mesmo tenho agora o palito dos dentes entre os lábios. Chegou-me, na forma de covid-19, em Dezembro, antes de se saber que Janeiro seria o mais feroz e desumano dos meses. Lembro Ésquilo, pai do teatro trágico: diz Plínio que o dramaturgo passeava a sua brilhante calvície pela desconfinada natureza. Mas vejam, uma águia cruza os céus, nas garras a tartaruga que quer almoçar. Vê a luzidia careca de Ésquilo, que toma por uma pedra alva, e dispara contra ela a tartaruga que precisa de esmigalhar. A águia regalar-se-á, mas quem tomba, fulminado, é o guerreiro e herói da Maratona, o autor de As Suplicantes, peça que há uns meses uma demente e woke Sorbonne proibiu.

Na covid-19, a águia aparece em voo picado e rouba-nos a respiração. Em menos de 48 horas, peregrino de ambulância em ambulância, da minha cama passei à cama dos cuidados intensivos, não sem deambular em passo de corrida pelo cadeirão das urgências em tumulto do São José e por uma breve cama de enfermaria. Emile Zola morreu assim, há 120 anos, na cama do seu quarto, sem se aperceber que só respirava a doçura mortal do monóxido de carbono que a má chaminé não extraía da lareira acesa.

E ora vejam, aí estou eu numa cama dos cuidados intensivos do Curry Cabral, a cabeça tão calva como a de Ésquilo, os pulmões tão irrespiráveis e falidos como os de Émile Zola, na boca o palito dos dentes de Sherwood Anderson.

Eu julgava já ter visto a morte em dois pesadelos. Álvaro Cunhal disse um dia, e numa idade em que já só se diz a verdade, que lhe viera falar a morte e que a morte era uma senhora de branco. Nos meus sonhos de morte, o meu confessado e irredutível anti-cunhalismo trocou a senhora de branco por figuras goyescas, escuríssimas e assustadoras como um Adamastor.

Mas, acordado, nunca tinha tido a morte em visita. Vista de olhos nos olhos, à luz branquíssima dos cinco dias e cinco noites do quarto de cuidados intensivos, a morte tem a mansidão e humildade que só se encontra em sábios ou monges. Não há nela nada de arrogante, de impositivo. Assiste-lhe uma lógica irreprimível: nem é branca nem é negra, nem sequer tem rosto, ainda menos o esqueleto que Holbein lhe pintou.

A morte é um sussurro, uma conversa. Se a morte nos apontasse um incorpóreo dedo, da ponta do dedo crescer-lhe-ia este conceito: a singela e inescapável interrupção do tempo. Nesse minuto ou hora de conversa, a morte dissipou todos os medos. Se só um imbecil não tem pavor da morte, fui por instantes esse indescritível imbecil.

Sozinho, sem telemóveis, incomunicável, mais isolado do que Crusoé na sua ilha, escutei-lhe o silêncio como quem se encanta com a primeira hipérbole. Atrás de mim, um fio de nostalgia pela minha vida vivida, uma vaga irritação pela indelicadeza de partir sem dizer adeus a ninguém. À minha frente, meio passo diante dos meus olhos, a certeza da eternidade, ou seja, a certeza de um nada indolor. Nada. The end, como num filme.

A morte goyesca

Publicado no Jornal de Negócios

O livro cómico mais sério do ano

Algumas pessoas de direita gostam de fingir que existem contradições entre os princípios do Islão e o feminismo de quarta vaga. Mas, se eles realmente passassem algum tempo no Paquistão ou na Arábia Saudita ou em qualquer outro dos estados islâmicos, perceberiam que as atitudes em relação às mulheres são extremamente progressistas. Para o demonstrar, mais tardar este ano, penso organizar uma Marcha das Galdérias, pelo centro de Carachi.
Titania McGrath

Woke, Um Guia para a Justiça Social é um livro delirante: lê-se com espanto e é impossível não nos fazer soltar uma gargalhada. Escreveu-o Titania McGrath, que a si mesma se define como «poetisa interseccional radical, comprometida com o feminismo, a justiça social e o protesto pacífico armado». Titania assume ser um «ícone millenial na vanguarda do activismo online». Sim, ela detecta o preconceito e o privilégio como um desembestado cão de caça da moralidade e morde sem reservas as canelas da injustiça, das afrontas de género, das humilhações raciais.

Titania McGrath não existe (ou existe e já lá vamos!) e este livro é uma prodigiosa sátira criada por Andrew Doyle, professor, doutorado em poesia renascentista. Doyle escreve sobre temas políticos e, em particular, liberdade de expressão, na revista online spiked! e faz comédia.

A verdade é que Titania McGrath existe. Existem hoje, no nosso mundo, milhares de Titanias, mulheres e homens. E a verdade é que esses e essas Titanias engrossam uma vaga inquisitorial cada vez mais perigosa e impositiva, policiando linguagem e comportamentos, demolindo o passado e infernizando o presente, vergastando com culpas quem não se submeta ao seu pensamento único.

Agarrando em causas razoáveis e justas, com o woke, o «despertar cultural”, os e as Titanias promovem uma «cultura hiperinclusiva» demencial. Manicomial, chamou-lhe o professor João Brás, tradutor da obra.

Sátira brilhante, este livro é profundamente sério e urgente: mostra o absurdo de um movimento que está a corromper causas nobres, parodiando-as de forma absurda, do que os seus militantes não se dão já conta, tomados pelo fanatismo dos iniciados e pelo fogo da purificação com que querem fazer arder livros, filmes, pessoas, enfim, o mundo.

Fazendo-nos rir, recuperando a tradição satírica e polémica de Jonathan Swift, Andrew Doyle escreve um texto para o seu tempo e para a posteridade: este é o retrato por absurdo de um movimento anti-civilizacional fundado em radicalismos excêntricos e imposturas identitárias.

Garanto-vos: é o livro cómico mais sério do ano.

Um estado de espírito

Estou num estado de espírito Jethro Tull. Estou num estado de espírito instrumental, um irreconhecível estado de espírito, batido a sopros de flauta e nostalgia. Estou num estado de espírito de Bach em plena Restinga do Lobito, com saudades vocais da Mitas e do Padre Augusto, do meu brother Rui Alves, dos alunos de quase a minha idade, Tina Leite Velho, Teresa Belo, Fernando e Semedo, o singular puto Quitos, filho de seu pai e depositário de toda a esperança, a Regina Queiroz, as queridas manas Mendonça.

As saudades são nómadas: vão da Restinga para a Ilha, para a minha igrejinha da Senhora do Cabo e dos cursos revolucionários de alfabetização, em Luanda, para os manos cristãos, mano Abílio, mana Faty, Victor Melo, as três Nandas, Cardoso, Dias e Guerra, a Tita, os ainda mais manos Mindo e Cesarito.

A Bach e a flauta, as saudades apertam-me docemente o crânio cada vez mais europeu. As saudades são como uma catedral de silêncio, luz, sombras e contemplação. Páram o tempo, expandem o passado, arrastam-nos para cordilheiras de aromas e sabores que julgávamos perdidos. As saudades que tenho até dos poucos amigos com que me zanguei. Estou num estado de espírito de tempo e silêncio, céus e beijos, voz e quebranto.

Os vidros duplos da nossa inocência

Queda de Ícaro, por Pieter Bruegel, o Velho

No canto inferior direito desta tela (1565), que é, cópia ou original, de Pieter Bruegel, há umas pernas que se agitam e chapinham no mar verdíssimo, numa agitação tão inócua como anónima. São as alvas pernas de Ícaro. Podiam ser as nossas. Tal como Ícaro, batemos as asas para fugir do labirinto e temos (mal seria, se não tivéssemos) a tentação de voar roçando-nos pelo sol.

Um homem, um herói, vem dos céus aos trambolhões e despenha-se nas águas, ali, junto à costa. Nem essa coisa prodigiosa de voar, nem o heroísmo da fuga, nem o splash do corpo que se despedaça nas águas sobressaltam a rotina do lavrador, a do pescador, a da nau que navega orgulhosa e indiferente.

Em 1938, já Hitler cavalgava uma onda de terror, o poeta inglês W.H. Auden escreveu sobre esse abafado silêncio em que se camuflam os mais terríveis acontecimentos. Abafa-os a minuciosa e árdua teia do nosso dia a dia, o hábito de concentrarmos o olhar no nosso jardim ou pátio, o obstinado rigor de cumprirmos as nossas obrigações. Não há, nesta ignorância do sofrimento alheio, nenhum desprezo. São os vidros duplos da nossa inocência que nos fecham num castelo interior, as high windows de que, noutro poema, nos falou Philip Larkin.

E já falei de mais. Talvez hoje tenha tombado um ou mais Ícaros no adjacente oceano das nossas vidas… Da minha ou da tua. E eu só queria que lessem o poema de Auden enquanto olham para a pintura de Bruegel.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

Sobre o sofrimento eles nunca se enganaram,
Os velhos Mestres: que bem compreendem
A sua humana posição: como tudo acontece
Enquanto alguém come ou abre uma janela ou caminha apático;
Como, quando os idosos esperam reverentes e apaixonados
Pelo milagre do nascimento, há sempre
Crianças que não se interessam particularmente, patinando
Num lago no limite da floresta;
Eles nunca esquecem
Que mesmo o mais horrível martírio deve seguir o seu curso
De algum modo numa esquina, num lugar inócuo
Onde os cães prosseguem a sua vida de cães e o torturador de cavalos
Coça a sua inocência atrás de uma árvore.

No Ícaro de Bruegel, por exemplo: todas as coisas viram as costas
Displicentes ao desastre: o homem do arado pode
Ter ouvido o estrépito, o grito desgarrado,
Mas para ele não foi uma queda importante: o sol brilha
Como deve ser nas pernas alvas que se afundam na verde
Água, e o barco sumptuoso e delicado, que deve ter visto
Essa coisa prodigiosa, um rapaz a cair do céu,
Tem um rumo traçado e navega tranquilo.

tradução minha, que foi o que se arranjou.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer’s horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.

A todos os Leitores: Vamos Ler!

62% dos portugueses não lêem um livro por ano. Não lêem, ponto final. Vamos Ler! de Eugénio Lisboa não tem a pretensão de resolver esse problema. Mas vai ajudar.

Há várias razões que explicam a falta de apetência portuguesa pela leitura. Uma delas passa, também, pelas nossas elites literárias, tantas vezes incapazes de seduzir para a leitura os não-iniciados.

Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante é um livro da Guerra e Paz editores que se propõe cativar leitores relutantes e não só. O autor, Eugénio Lisboa, sem peneiras, apesar do seu prestígio e carreira, numa linguagem límpida, mostra como os livros podem ser uma aventura e como devem ser uma aventura de alegria e prazer.

Vamos Ler! é, por isso, um livro que todos nós, os que estamos na prodigiosa cadeia do livro, autores, livreiros, editores temos de saudar. Mas acima de tudo é um livro que os leitores, os mais fugidios e relutantes ou os mais assíduos e entusiastas, vão saudar e louvar. Por ser uma obra que valoriza todos os livros e dá a mão a quem tem dúvidas e está hesitante, guiando-os na visita a 50 livros e 30 autores portugueses.

Este é um livro que promove a leitura e promove os outros livros. Ajudem-nos a divulgá-lo e a defendê-lo. Passe a palavra aos amigos. Visite a sua livraria, vai encontrá-lo com facilidade: tem esta capa simples e directa que é a dos Livros Vermelhos, uma das melhores colecções da Guerra e Paz editores. Boa leitura!

Onde é que esta gente vai buscar as coisas que dizem de mim

O João Bénard arrancou com o ciclo completo da obra do Howard Hawks na Cinemateca e na Gulbenkian. Estávamos em Novembro de 1989, vai fazer 32 anos, e eu lá me ensaiei a escrever esta prosa hagiográfica no extinto Semanário. Foi de homem. Com um olho nas mulheres. De Rosalind Russell e Barbara Stanwick a Angie Dickinson, passando por Lauren Bacall, a mulher hawksiana assusta-me e atrai-me. E corrijo, a inaugural Louise Brooks, de tão morta, já só me atrai.

Hawks e os seus homens: Rio Bravo

Hawks: grupo de homens com mulher
Manuel S. Fonseca

De homem para homem: há alguma coisa mais masculina do que os filmes de Howard Hawks? De Paul Muni e John Wayne, sem esquecer Humphrey Bogart, os heróis do artista mais americano do século parecem a coroa de glória do chauvinismo machista. Não obstante, nenhum outro cineasta tem sido mais defendido pelos críticos homossexuais. Pudera, responde alguém com voz de fadista. O que esta voz não vai ouvir do coro feminista! É com olhar litúrgico que eles vêem os filmes dele. Porque a verdade é que não há nada, em 100 anos de cinema, que se compare com as mulheres que Hawks criou nesses filmes de acção masculina: quase sempre mulheres entre dois homens, obrigadas a lutar como feras para conseguir que um deles sinta por elas o que eles, obstinadamente, parecem partilhar apenas um pelo outro.

A camisa amarela de Angie Dickinson: entre Wayne e Dean Martin

Afinidades electivas no sei de um grupo, os pares masculinos de Hawks — Kirk Douglas e Dewey Martin em Big Sky ou, mais implausível, John Wayne e Montgomery Clift em Red River — originaram deliciosas e bizarras especulações. Quando confrontado com elas, Hawks nunca deixou de abrir a boca de espanto: «Onde é que esta gente vai buscar as coisas que dizem de mim». Mas mesmo Robin Wood, crítico assumidamente gay, não resistiu a ironizar, quando lhe perguntaram se não achava que a amizade masculina em Hawks estava tintada por uma homossexualidade latente: «a goddam silly statement to make».

Com o ciclo, que agora começou, da Cinemateca e da Gulbenkian [mas que grande ciclo que o João Bénard fez, digo eu hoje, derretido em saudades], pode ser que acabem de vez essas asserções «levianas». Ou ainda haverá alguém na sala para lançar um olhar equívoco à celebração da coragem física e aos percursos de iniciação que Hawks traçou ao longo de uma carreira em que tudo o que criou teve sempre como horizonte uma réplica de Red River: «Não trouxemos nada a este mundo e, com toda a certeza, dele nada levamos».

Onde não há perigo não há acção

John Ford, na velhice, tinha alguns ciúmes de Hawks: aos 74 anos parecia que o autor de To Have and Have not tinha 50 e um sucesso imparável junto do «belo sexo». Ford chamava-lhe: «A maldita raposa de Bretwood». Joseph McBride, que levou alguns anos a entrevistá-lo, achava-o parecido com Joe DiMaggio. Ninguém o achava parecido com um artista. Mas, além dos críticos franceses (durante o Ciclo aconselho que tenham à cabeceira o celebérrimo texto de Jacques Rivette, intitulado «Génio de Howard Hawks»), Manny Faber, pintor que foi também um magnífico crítico de cinema, reconheceu o profeta na sua própria terra. Explicou aos americanos que se quisessem saber o que era «o escuro» deviam ver Scarface, matriz patética de todo o cinema de gangsters, cujos retratos no filme (achava Farber) só tinham paralelo com a pintura piedosa de Piero della Francesca, e explicou-lhes também que, em His Girl Friday, se pode ver e ouvir a velocidade pura, correndo-se o risco, tal é a vertigem dos diálogos, de se ouvir sempre a resposta antes da pergunta, tudo dito através de uma acção coreografada, sendo que (disse outra ver Farber) a coreografia é cubista. Asseguro-vos que Farber — ainda melhor pintor do que crítico — sabia do que falava.

Many Farber era mesmo hawksiano: a esta tela chamou ele “painting my budd

E nem é preciso ler Farber — basta qualquer dicionário — para saber que Hawks não falhou sequer um dos grandes géneros do cinema americano, e que, em todos, pelo menos um dos maiores filmes é sempre dele: Scarface para o filme de gangsters, Rio Bravo para o western, Bringing Up Baby para a comédia, Gentlemem Prefer Blondes para o musical, Big Sleep para o filme de detectives, Only Angels Have Wings para o filme de aviação, His Girl Friday para o jornalismo…

ez filmes sobre tudo, mas tinha um segredo: «Faço filmes sobre o que me interessa: podem ser corridas de automóveis, aviões, um drama, uma comédia, mas o melhor drama para mim é o que mostra um homem em perigo. Não há acção onde não há perigo.»

Um rosto pré-Big-Bang

Olhem para a cara de pedra de Buster Keaton. Pode parecer uma cara irresoluta. Ou de uma inexpressiva perplexidade.

Hoje, a idade a roubar-me massa muscular às pernas, que embora curtas já chegaram a ser bonitas, sei e tenho a certeza do que digo: há uma ideia firme no rosto pré-Big-Bang de Buster Keaton. É o rosto de quem não quer ser mais importante do que o mundo em redor. A cara que ri ou a cara que chora irradiam alegria e tristeza iluminando ou escurecendo o mundo, coisas ou pessoas. Não rindo, não chorando, a cara de pedra de Keaton recusa-se a explicar, influenciar ou interferir no movimento, sentimento ou ideia da cara do mundo.

Vêem-se as mais geniais cenas de filmes geniais, como “Steamboat Bill Jr.” ou “Seven Chances”, e a aparente inexpressividade de Keaton obriga o espectador a procurar o sentido, a comicidade alegre ou sofrida, na totalidade da cena, na sua irrepreensível geometria ou na massa apocalíptica em que o mundo dessa cena se transforma.

Nestes anos que me põem à porta da terceira-idade, a solidão inexpressiva de Keaton tem sido uma lição mais útil e inteligível do que a leitura do tão lógico e místico filósofo que é Wittgenstein. Keaton ensina-nos que o mundo organiza o seu sentido sem precisar da nossa explicação ou mesmo da nossa acção. Melhor, ele não ensina, ele aponta, como escreveu esse tal Wittgenstein, sem nunca ter visto, que se saiba, um filme dele.

Keaton é um anti-revolucionário: confia no mundo que existe e no mundo que há-de existir. Não precisa nem quer, por isso, mudá-lo. A confiança dele no Ser e no Devir começou, sabe-se, aos três anos. Os pais meteram-no no número de vaudeville que faziam. Keaton desenvolveu um talento: caía sem se magoar. Buster, o seu nome, queria então dizer trambolhão, e parece que foi o mágico Houdini que lho deu. Nos espectáculos, os pais atiravam-no escada abaixo, vinha a polícia acusá-los de abuso e exploração de trabalho infantil e o miúdo não tinha ossos partidos, nem sequer nódoas negras, tal a confiança com que o corpo dele ia bater nas arestas e obstáculos do mundo.

Fazem-nos falta mais trambolhões. Só temos de aprender a cair. Estaremos no caminho certo quando disserem: “Olha para este desgraçado. Ai, meu Deus!” Era o que Keaton queria que os espectadores dissessem das cenas dele.

Seven Chances, Buster Keaton