Onde é que esta gente vai buscar as coisas que dizem de mim

O João Bénard arrancou com o ciclo completo da obra do Howard Hawks na Cinemateca e na Gulbenkian. Estávamos em Novembro de 1989, vai fazer 32 anos, e eu lá me ensaiei a escrever esta prosa hagiográfica no extinto Semanário. Foi de homem. Com um olho nas mulheres. De Rosalind Russell e Barbara Stanwick a Angie Dickinson, passando por Lauren Bacall, a mulher hawksiana assusta-me e atrai-me. E corrijo, a inaugural Louise Brooks, de tão morta, já só me atrai.

Hawks e os seus homens: Rio Bravo

Hawks: grupo de homens com mulher
Manuel S. Fonseca

De homem para homem: há alguma coisa mais masculina do que os filmes de Howard Hawks? De Paul Muni e John Wayne, sem esquecer Humphrey Bogart, os heróis do artista mais americano do século parecem a coroa de glória do chauvinismo machista. Não obstante, nenhum outro cineasta tem sido mais defendido pelos críticos homossexuais. Pudera, responde alguém com voz de fadista. O que esta voz não vai ouvir do coro feminista! É com olhar litúrgico que eles vêem os filmes dele. Porque a verdade é que não há nada, em 100 anos de cinema, que se compare com as mulheres que Hawks criou nesses filmes de acção masculina: quase sempre mulheres entre dois homens, obrigadas a lutar como feras para conseguir que um deles sinta por elas o que eles, obstinadamente, parecem partilhar apenas um pelo outro.

A camisa amarela de Angie Dickinson: entre Wayne e Dean Martin

Afinidades electivas no sei de um grupo, os pares masculinos de Hawks — Kirk Douglas e Dewey Martin em Big Sky ou, mais implausível, John Wayne e Montgomery Clift em Red River — originaram deliciosas e bizarras especulações. Quando confrontado com elas, Hawks nunca deixou de abrir a boca de espanto: «Onde é que esta gente vai buscar as coisas que dizem de mim». Mas mesmo Robin Wood, crítico assumidamente gay, não resistiu a ironizar, quando lhe perguntaram se não achava que a amizade masculina em Hawks estava tintada por uma homossexualidade latente: «a goddam silly statement to make».

Com o ciclo, que agora começou, da Cinemateca e da Gulbenkian [mas que grande ciclo que o João Bénard fez, digo eu hoje, derretido em saudades], pode ser que acabem de vez essas asserções «levianas». Ou ainda haverá alguém na sala para lançar um olhar equívoco à celebração da coragem física e aos percursos de iniciação que Hawks traçou ao longo de uma carreira em que tudo o que criou teve sempre como horizonte uma réplica de Red River: «Não trouxemos nada a este mundo e, com toda a certeza, dele nada levamos».

Onde não há perigo não há acção

John Ford, na velhice, tinha alguns ciúmes de Hawks: aos 74 anos parecia que o autor de To Have and Have not tinha 50 e um sucesso imparável junto do «belo sexo». Ford chamava-lhe: «A maldita raposa de Bretwood». Joseph McBride, que levou alguns anos a entrevistá-lo, achava-o parecido com Joe DiMaggio. Ninguém o achava parecido com um artista. Mas, além dos críticos franceses (durante o Ciclo aconselho que tenham à cabeceira o celebérrimo texto de Jacques Rivette, intitulado «Génio de Howard Hawks»), Manny Faber, pintor que foi também um magnífico crítico de cinema, reconheceu o profeta na sua própria terra. Explicou aos americanos que se quisessem saber o que era «o escuro» deviam ver Scarface, matriz patética de todo o cinema de gangsters, cujos retratos no filme (achava Farber) só tinham paralelo com a pintura piedosa de Piero della Francesca, e explicou-lhes também que, em His Girl Friday, se pode ver e ouvir a velocidade pura, correndo-se o risco, tal é a vertigem dos diálogos, de se ouvir sempre a resposta antes da pergunta, tudo dito através de uma acção coreografada, sendo que (disse outra ver Farber) a coreografia é cubista. Asseguro-vos que Farber — ainda melhor pintor do que crítico — sabia do que falava.

Many Farber era mesmo hawksiano: a esta tela chamou ele “painting my budd

E nem é preciso ler Farber — basta qualquer dicionário — para saber que Hawks não falhou sequer um dos grandes géneros do cinema americano, e que, em todos, pelo menos um dos maiores filmes é sempre dele: Scarface para o filme de gangsters, Rio Bravo para o western, Bringing Up Baby para a comédia, Gentlemem Prefer Blondes para o musical, Big Sleep para o filme de detectives, Only Angels Have Wings para o filme de aviação, His Girl Friday para o jornalismo…

ez filmes sobre tudo, mas tinha um segredo: «Faço filmes sobre o que me interessa: podem ser corridas de automóveis, aviões, um drama, uma comédia, mas o melhor drama para mim é o que mostra um homem em perigo. Não há acção onde não há perigo.»

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