Um raide literário

Se quiser, e sem quebrar as regras do confinamento, a sua casa pode ser invadida por uma alegre multidão, de Jane Austen a Joseph Conrad e D. H. Lawrence, de Mark Twain a Luís de Camões, de Louisa May Alcott a Herman Melville, Oscar Wilde, Machado de Assis e Flaubert.

Está tudo explicado na imagem acima, mas eu, que sou bem mandado pela Guerra e Paz, repito tudo. Os 41 livros da colecção Clássicos da Guerra & Paz podem ser comprados na totalidade por 300€. É uma promoção – um verdadeiro raide – que dura só 48 horas, até às 23:59 deste domingo.

Eu lembro que estes são livros escritos por autores a quem a humanidade que somos atribui o estatuto de génios. Não preciso de lembrar, porque basta olhar que as capas destes livros: são lindas as capas. E há um bónus. Todos estes livros, ao romance que dá título à obra juntam uma introdução e textos em posfácio que ajudam a enquadrar as obras.

São 41 livros: uma torrente de emoções e de inteligência, de refinamento literário e de empolgamento narrativo. São mais de 41 vidas para juntar à sua vida. Até Wall Street estaria de acordo comigo: leve-os, melhore o seu património!

O chicote de Churchill

Sendo embora Churchill, nesse manso ano de 1909 ainda Churchill não era Churchill. Ninguém, na estação ferroviária de Bristol adivinhava, aliás, o frenético e bárbaro século em que, a comunismo e nazismo, se converteria o século XX. E repito, o ano era manso, manso o comboio, manso o passo que tirou o ministro Churchill da carruagem para o cais, mansa a comitiva municipal que o esperava.

Ora, eis que, na gare de Bristol, a voz do futuro rasga a mansidão de 1909. É uma voz de mulher. É uma voz e um relâmpago: já está em frente a Churchill e, “toma, seu bruto! toma, seu bruto!”, chicoteia-o com a sua indignada força feminina. O chicote apanha o chapéu alto do cavalheiro, roça-lhe a face num beijo mordido, que minutos depois há de ser um indelével vinco rubro na pele pálida e leitosa do jovem ministro.

Já a mulher levanta segunda vez o chicote. Mas já Churchill desperta também da sua letárgica mansidão de 1909, antecipando o homem que há de ser em 1940. Segura o punho da mulher revoltada e torce-o até que ela largue o fino látego. A mulher, chapéu de viúva alegre, juram os jornais da época, ainda grita, só que os atarantados polícias recuperam a sua violada e vexada autoridade e arrastam-na para fora da estação. E peço dez segundos de atenção aos vossos olhos. Vejam: Churchill vai enfiar o chicote no bolso do casaco – já enfiou. Viram?

Descruzam-se as vidas da mulher e de Churchill. Na esquadra, recusa identificar-se, mas depressa a lesta vigilância patriarcal reconhece nela Theresa Garnett, singular militante sufragista. O jovem Winston dirá que ela é só uma “dessas mulheres tontas”, mas no Cronston Hall, onde ele fala nessa noite, uma pedra partirá a vidraça da ampla fachada e dois homens, depois retirados à bruta da sala, cadeiras pelo ar e uma plateia em apupos, far-lhe-ão perguntas que mostram a Churchill que talvez tenha de acertar o relógio pelo relógio do século. Perguntam-lhe: como pode ter mulheres na prisão há seis meses por oposição política? Por que não dá, o governo liberal, o voto às mulheres? 

O que outros séculos tinham insinuado, o século XX exigia: a casa da democracia, se não queria ter telhados de vidro, precisava que nela se sentasse a mulher. Acredito, por isso, que Theresa Garnett, no idealismo exclamativo dos seus 21 anos, quando quis chicotear o intransigente Churchill, tenha gritado, já com a voz a acariciar a posteridade, e como outro jornal relatou, esta frase mais nobre: “Toma, em nome das mulheres inglesas que insultaste!”

Churchill, dir-me-ão se por nobreza ou condescendência, recusa depor acusação: bastou-lhe o gesto simbólico de meter o chicote de Theresa no seu bolso de ministro dos assuntos internos. As autoridades acusam-na de perturbação da ordem pública: um mês de prisão, determina o juiz, ao que Theresa responde com greve de fome.  Não era a primeira vez. Meses antes, comemorava-se o aniversário de Sua Majestade, o rei Eduardo VII, e Theresa infiltrou, com marido e vestido emprestados, uma fina recepção oficial. Logo desatinou num discurso arrebatado até ser, digamos, levada em ombros para o esplêndido olho da rua.

Theresa abandonará a militância activa quando as sufragistas iniciam uma campanha secreta de incêndios e pegam fogo à casa do ministro das finanças, mas estará na frente de combate, em França, na I Guerra, como enfermeira. Será condecorada por galante e distinto serviço no terreno. Esse heroísmo das mulheres, na retaguarda e na frente, foi a passadeira vermelha para a igualdade de voto, que ganharão a seguir.

Publicado no Jornal de Negócios

Uma baleia na Guerra e Paz

O que é o fogo no rabo de um editor? É pôr livros nas mãos dos leitores. Vendê-los, claro, esse verbo proibido e temido no vocabulário português: os livros como os bebés é uma cegonha que os traz no bico. A economia como o sexo, em Portugal, só lá vai de eufemismo: é tudo um bico.

A Guerra e Paz quer vender os seus livros e não pode. Alguém escreveu num despacho a palavra “proibido”. Agarrámos, por isso, nos nossos livros e pusemo-los na boca de uma baleia. Já nos disseram que ficou bonita a baleia – e o vídeo que o Mário Borges fez. Os livros, então, ficaram ao preço de jaquinzinhos: frescos e saborosos.

Azulejos Pretos

É um vício português. Não vou dizer que seja só nosso, até por nada ser já nosso. Mas é também um vício português. É este o vício: temos a nossa cabeça cheia de gavetas e a novidade inclassificável assusta-nos.

Um romance de Pedro Bidarra é uma novidade inclassificável. Não sabemos o que fazer com ele. Sobretudo, ofendidos pela ousadia, sabemos que não o vamos ler. Que desaforo, aparecer-nos, assim, uma novidade inclassificável, quando já trazemos a vida semeada de dúvidas. E se lemos? E se gostamos? E se, depois, os que sabem e sabem muito, nos dizem que é mau e temos de desgostar? Ou vice-versa, que também é um sarilho!

Azulejos Pretos, o romance de Pedro Bidarra, não é, de facto, um livro autorizado, nem recomendado. Não vem com bula. Experimente lê-lo: sem bússola, na noite escura, quando tudo é preto, as memórias, a melancolia, a música, o sarcasmo, o horizonte.

Um doce anseio de pecado

Quase a terminar o ano de 2020, publiquei este livro, Azul de Lisboa, Azur de Lisabona. Mas os verdadeiros editores foram os meus amigo romenos, Iona Bivolaru, Embaixadora da Roménia em Lisboa, e o Daniel e o Gelu, meus amigos do Instituto Cultural. Eles tiveram a ideia de juntar escritores, artistas, diplomatas romenos com vivência de Lisboa, pedindo-lhes um testemunho: que Lisboa viram os olhos deles? Estava tudo a ir muito bem, quando me pregaram um susto: pediram que eu escrevesse também. Desse susto nasceu esta confissão.

Um doce anseio de pecado
Manuel S. Fonseca, editor

Na formatura, nas saídas nocturnas, na carreira de tiro, nas marchas finais, fazia eu a minha recruta de aspirante a oficial, na Escola de Aplicação Militar de Angola, e havia um peso romeno a atafulhar o bolso da farda feijão-verde regular ou a do camuflado. O peso romeno, uns cem gramas, era o livro de um escritor, Mircea Eliade. Entre uivos e explosões corria 1974 e, naqueles tempos de acelerada marxização de Angola e de Portugal, a contrabalançar a minha inclinação maoísta, lia ou devorava-lhe as teses de O Sagrado e o Profano, a Essência das Religiões. A G3 numa mão, Mircea na outra, diria, se quisesse vender de mim a imagem do guerreiro que não sou nem nunca fui, mesmo se algum dia cheguei a pensar que o poder estava na ponta de um fuzil.

Mas se em vez de maoista eu fosse bruxo, teria visto, nesse livro delgado, que ia jurar ser em papel bíblia, um signo. Nesse pé coxinho entre sagrado e profano a que Eliade me obrigava, teria antecipado que a minha vida descambaria nesta via sacra a que se dá o nome de edição. Eterno retorno ou não, seria eu próprio, uns crísticos trinta e três anos depois, editor de Mircea Eliade, publicando-lhe o Diário Português. E penso agora que se o metesse no bolso do velho camuflado iria já em 400 gramas de estranho, exógeno, peso romeno.

Foi António Lobo Antunes quem fez desaguar este adventício peso no estuário de amizade com que hoje alguns escritores, e este Instituto de Cultura Romena, de Lisboa, dos amigos Daniel e Gelu, me agraciam. Numa bélica e estratégica barragem de telefonemas – belíssima, por isso – António e o seu amigo Dinu Flamand agarraram em mim ao colo (não é difícil que não sou pesado), e sentaram-me na contemporaneidade romena. Ao Dinu, publiquei as suas tão evocativas Sombras e Falésias, de que é antecâmara um prefácio de António Lobo Antunes. E logo, por sugestão do Dinu, a Antologia de Poesia Romena Contemporânea, viagem pelos últimos 50 anos com os 27 mais representativos poetas da nação romena. Tudo com assombrosas traduções de Corneliu Popa.

Chego agora a este Azul de Lisboa, de que serei imerecidamente editor, livro em que me sinto deliciosamente perdido. Onde estava esta Lisboa que olhos romenos me revelam? Para meu espanto e vergonha, descubro que até com os pés estes romenos vêem Lisboa, evitando pisá-la, levitando, para descobrirem nas calçadas negras e brancas os desenhos de pássaros e insectos, de naus e ondas do mar.

Os olhos dos romenos são iguais aos olhos do Cervantes que escreveu os Trabajos de Persiles y Sigismunda, no livro terceiro cantando a sublime entrada em Lisboa pelo estuário do Tejo, “terra que ao Céu presta santo e generosíssimo tributo”.

Eu sei bem, tardio habitante desta cidade, a que cheguei já com idade de homem, que em certos dias límpidos de Outono, a luz de Lisboa é a mais bonita luz do mundo. Essa luz deixa-se dormir durante a manhã e, como certas mulheres que prezam o brilho juvenil da sua pele, acorda, esplêndida e ociosa, pelo meio-dia. É uma luz fina, discretamente resplandecente, luz em papel bíblia, deslumbrante e intacta, que cria a ilusão da harmonia do mundo.

Neste Azul de Lisboa, olhos e vozes romenas desdobram-se em vagas de elogios às colinas, rio ou Bairro Alto, fado ou a encalhada Torre de Belém. Bebi, talvez no seio materno, o embaraço perante o elogio – é da minha Lisboa que falam! Torço-me e logo deslizo para a autodepreciação. Mas por mais que deteste os elogios, sei reconhecer o amor. E a Lisboa, a este Tejo que é um mar a fingir de rio, é amor o que os olhos e as vozes dos romenos de Azul de Lisboa confessam, mostram ou cantam. O mesmo amor que cintila nos olhos azuis de António Lobo Antunes quando me conta e reconta o seu fascínio pela Roménia, pelos seus poetas ou, com doce anseio de pecado, pela beleza das suas mulheres. É esse doce anseio de pecado que também este livro, Azul de Lisboa, celebra.

Os lençóis do modernismo

Henry Crowder

Nancy Cunard despia-se de noiva para toda a literatura. Sem os seus lençóis livres e generosos talvez nem tivesse havido modernismo. E digo já nomes, antes mesmo que me torturem: Eliot ou Ezra Pond, mas também Hemingway e Orwell, sem esquecer Louis Aragon, Tristan Tzara, Joyce, Man Ray, William Carlos Williams ou Langston Hughes.

Se foram todos seus amantes?  Ia dar a cândida resposta, não fora ulular-me aos ouvidos a óbvia pergunta: quem era Nancy Cunard?

Era a neta e herdeira do dono da Cunard, a mais majestosa e imperial companhia de navegação, flâmula que erguida e hasteada numa centena de transatlânticos esvoaçou sobre todos águas do mundo, mares ou oceanos. O pai inglês, deitado em sumaúmas de libras, só queria jogar pólo e caçar raposas. A mãe, americana, rendida ao esplendor das artes, dava festas arrebatadoras e classistas em Londres, tendo por amante o escritor George Moore, que foi, como até as pedras da calçada juram, pai espiritual de Nancy.

Nancy casou cedo. Casou-se ao pequeno almoço e ao lanche já estava divorciada. Depois apaixonou-se por Peter Broughton-Adderley. Era capitão do 1.º batalhão dos Scots Guards e, a um mês do armistício, a comandar um assalto às trincheiras inimigas, foi abatido por uma inclemente bala boche. Diz-se que a ironia trágica dessa bala traçou o destino inquieto e insaciável de Nancy.

Mas vejamos e concordemos: esses factos só são factos por causa dos factos que se seguem. Nancy despreza a colossal herança e esfregará os futuros actos no rosto oligárquico do distraído papá e, sobretudo, da atenta mamã.

E vejamos outra vez: Nancy Cunard é ela mesma poeta e escritora, com uma relação leal e verdadeira com a literatura e as artes. Em Veneza, onde está com o amante de já dois anos, o poeta Louis Aragon, conhece um pianista de jazz, Henry Crowder. Nas costas ou à frente de Aragon, que a liberdade de Nancy era holística, deita-se com Crowder, menino paupérrimo nascido na Georgia esclavagista. Aragon quase se suicida em verso num dos eróticos canais de Veneza.

Ora, mais do que Aragon, é a horrorizada mãe que Nancy tem de enfrentar. “Mas a minha filha conhece um negro?” pergunta aos jornais ingleses a mãe ultrajada. Nancy há de acusá-la de ter assistido a um linchamento na América e escreve um panfleto, “O Homem Negro e a Branca Dama dos Barcos”, em que ironiza sobre preconceitos e despedaça tabus rácicos.

Nos sete anos que se seguem, Nancy e Henry Crowder vivem juntos. Na Normandia, ela funda a Hours Press. Ali publica Eliot, Joyce, Beckett, Pond, Hemingway. A Crowder mima-o com um livro, “Henry, Music”, mistura das composições dele e poemas que poetas, como Beckett, escreveram para ele musicar. E com a ajuda de Crowder, arma uma homérica “Negro: an Anthology” com mais de mil páginas, reunindo poesia, contos, arte africana. Vai com Crowder conhecer Harlem e envolve-se no apoio às mães dos Scottsboro Boys, os jovens negros acusados falsamente da violação de duas jovens brancas.

Nancy Cunard, difamada ontem pela reacção, seria (será!) difamada hoje pelos progressistas: ela incarna a abjuração moderna, a apropriação cultural. Mesmo Crowder, nas suas memórias, recrimina-a. Livre como era, dormindo com ele, continuou a dormir com quem queria, talvez mesmo Greta Garbo. Tal como o ateu Aragon, ferido na sua virilidade, Crowder, de rígida moral cristã negra, sofreu com ressentimento essa liberdade. A mulher de lençóis livres e generosos está sempre à frente do seu tempo – de todos os tempos.