Caia a burra

Esta crónica vem desarvorada do passado. O passado foi há um niquinho de nada, andava tudo de romaria virtual em eleições para não-presidente, que presidente já se sabia quem era e quem depois seria.

Ah, a vontade que tenho de falar do burro. Mas deixem-me antes dizer que André Ventura, o pê-cê João Ferreira e a bloquista Marisa Matias não são animais bíblicos. Bem podem correr a Tora, Evangelhos, Acto dos Apóstolos, que não tropeçam em maldições ou profecias a negar ou oferecer a Terra Prometida na mão lépida de Marisa, na mão coreana de João Ferreira, na mão toda truques de Ventura.

A nossa vida política está cheia de animais? A Bíblia também. No Velho e vingativo Testamento os animais surgem 603 vezes. Com o inteligente burro há 130 histórias: é o animal bíblico por excelência. Expoente desse louvor, com o brilho dos humildes, fiéis e verdadeiros, a que não alinharei asininamente Marisa, Ferreira e Ventura, brilha a burra de Balaão.

O povo de Moisés tinha um pé no ar: baixando-o pousá-lo-ia na Terra Prometida. O rei moabita, Balaque, via que aquela nuvem de seiscentos mil pululantes gafanhotos lhe vinha ocupar as suas terras de leite e mel. Tinha de os impedir. Mas a fama de guerreiros imbatíveis precedia a marcha saltitante do povo judeu. Como sová-los na guerra?

O insidioso Balaque quis enfraquecê-los. Um mágico, Balaão, quimbanda como os de Luanda, era reputado pelas suas inescapáveis maldições. Balaque pediu-lhe que amaldiçoasse os judeus em marcha. Antecipando Ronaldo, ofereceu-lhe igual fortuna em merchandising, off-shores que tomara Salomão.

Não sei se foi em sonhos, ou num daqueles planos picados à Orson Welles que nos restitui à santidade, mas sei que Deus rasgou a celeste abóbada e falou a Balaão: proibiu-o de soltar essa maldição.

Logo voltaram os enviados de Balaque com mil armadilhadas seduções. E de novo, no silêncio da noite, ao ouvido, Deus diz a Balaão: “Se vieram buscar-te, vai e fala com Balaque, mas só lhe dirás o que ouvires que eu te diga.” Ora tenho de lembrar que, como os melhores argumentistas de Hollywood, nunca Deus fala por linhas inequívocas e direitas: uma coisa foi o que disse, outra a que queria.

Partiram. Balaão montado na burra que o imortalizaria. Terão andado como daqui a um comício de Ferreira, Marisa ou Ventura e a burra parou. Estanque, a burra recusou meio passo que fosse. Vara na mão, Balaão vergastou-a uma, três vezes. Gemeu? A burra nem pestanejou. À sua frente, e só os seus olhos de burra o viam, o anjo do Senhor, espada faiscante, estava pronto a matar Balaão, desse ele um passo em frente.

Balaão tenta pequenos desvios e mais duas vezes a burra se recusa a avançar. O bíblico quimbanda, colérico, espanca o animal, que tomba de joelhos como se rezasse. Se vozes de burro não chegam ao céu, é bom que se saiba que vem do céu a voz com que o burro bíblico fala na terra. Deus deu a sua voz, tonitruante, à burra de Balaão que disse: “Porque me bateste três vezes? Não sou a tua burra fiel, a que te leva a todo o lado?”

Mesmo para um mágico, a interpelação foi siderante. “Burra, envergonhaste-me. Por três vezes paraste, humilhando-me ao pé dos ministros do rei! Se tivesse uma espada cortava-te a cabeça.” Só então Deus, que é, como todos sabem, uma mistura do cineasta Dreyer e do escritor Borges, revela ao pasmado Balaão o anjo e a espada crua que o trespassará se der o mais tímido passo.

Falta aos nossos radicais de esquerda e de direita a clarividente burra de Balaão que, fazendo-os tombar três vezes, nos poupe aos seus troca-tintismos e maldições de quimbandas. Talvez assim, radicais em sossego ao pé da burra caída, este povo gafanhoto ficasse mais perto de provar, da Terra Prometida, o leite e o mel.

Publicado há umas boas semanas no Jornal de Negócios. Desculpem, leitores das redes sociais, o atraso

O roubo patriótico

Mona Lisa a levar um banho de multidão

Do roubo é que nasce todo o bem. Entendam-me: não falo do rapinanço, golpada, abafação ou esbulho. Falo do roubo altruísta, do roubo engordado pelo robusto valor calórico dos mais altos ideais.

Vejam o semblante de espanto de Paris ao fim da tarde de 22 de Agosto de 1911. Nessa manhã, um pintor viera ao Louvre para reproduzir a “Mona Lisa”, pondo-se nos sapatinhos de cetim de Leonardo Da Vinci. Estava lá a parede, mas a “Mona Lisa” fora, parece, a banhos. O pintor voltou à tarde: só lá estava a mesma envergonhada parede, quatro pregos inúteis. O museu soube então que a “Mona Lisa” tinha desaparecido.

Roubara-a um italiano, pintor de paredes e pedreiro, vago retratista. Por patriotismo. Vingava a apropriação cultural de que culpava Napoleão, invasor da pátria de Verdi e Berlusconi. Descolonialista avant la lettre, o italiano, se não punha um pé, punha ao menos a mão no privilégio francês e, roubando a “Mona Lisa”, redimia a avassaladora opressão que exsudava do mal lavado imperador corso e dos seus exércitos, herdeiros da astúcia de Asterix e da força bruta de Obélix.

E eis que Paris e o Louvre, com imperial arrogância napoleónica, nem sequer olham para o pequeno italiano. Preferem acusar um poeta, Guillaume Apollinaire, autor do intocável romance “As Onze Mil Vergas”, lembrando eu os mais dados ao artesanato que o termo “verga” é aqui usado num sentido que só de forma muito remota se aplica à cestaria.

Ora, não bastando arrastar um poeta pelo Sena da amargura, logo é também acusado o andaluz Pablo Picasso. E vejam, eu que sou um férreo defensor das límpidas artes, tenho de estar de acordo com as opressivas autoridades: Apollinaire e Picasso roubaram! Um secretário de Apollinaire, aproveitando do Louvre as suas certas facilidades e descuidos, trouxera algumas estatuetas fenícias que dera a Apollinaire e que logo o generoso poeta repartiu com Picasso. Ao lerem a notícia do roubo da “Mona Lisa” no Paris-Journal, coração, cabeça e estômago de Apollinaire e Picasso tiveram a mais anti-artística das convulsões. Ungidos pelo amor às eternas artes, resistiram a afogar as estatuetas no Sena, esse estreito riacho que, pingo a pingo, atravessa Paris. Fizeram entrega anónima no correio do Paris-Journal, pedindo a restituição das estatuetas ao Louvre.

Foi a missão secreta de Apollinaire. Logo o apanharam. A minha militante rectidão moral obriga-me a interromper: esse roubo só trouxe bem ao mundo. Não juro que lhes devamos os arrebatamentos eróticos de Apollinaire, mas devemos às gamadíssimas estatuetas fenícias a fealdade maravilhosa das “Demoiselles d’ Avignon”, a assombrosa geometrização do mundo a que em qualquer tasca de Montmarte se passou a chamar cubismo.

 Mas onde estava a “Mona Lisa”? Abençoado roubo, está já em Itália. E não consigo calar uma certa exaltação metafísica: o Salon Carré do Louvre, onde se pendurava antes a “Mona Lisa”, encheu-se de admiradores, extáticos, contemplativos do lugar agora vazio da tela de Da Vinci. Alguns deixam flores. Mesmo Franz Kafka, que não se imaginaria num museu, veio, qual metamorfose, deleitar-se com essa ausência: a fama e proveito de que hoje goza “Mona Lisa” não se deve a Da Vinci, deve-se a um ladrão, o italiano Vincenzo Peruggia.

Preso ao tentar vender a tela, o militante e descolonizador Vincenzo só laborou num erro, obviamente insignificante face a tão patriótico desígnio: Napoleão nunca roubou a “Mona Lisa”. Foi Da Vinci que a ofereceu a Francisco I, rei dessa França onde viveu os últimos anos. Ora… minudências!

Publicado no Jornal de Negócios

Iscas com elas

Seguindo, com a fidelidade estrita de um Loyola, a receita canónica que Maria de Lourdes Modesto fixou para a posteridade no seu Cozinha Tradicional Portuguesa, estas são as iscas com elas que, confeccionadas e empratadas por este vosso escriba, foram o regalo deste jantar de sábado, porque hoje é sábado e amanhã é domingo.

Uma imagem vale mais do que mil palavras e uma subtil garfada faz estremecer palato e corpo mais do que mil imagens. Não é para me gabar, mas estava bom: as iscas finas, molho não excessivo de sabor intenso, alho e salsa com distribuição à jackson pollock. Sim, estava mesmo muito bom. Eis os limites da democracia (a crer em Tocqueville) e da linguagem (se Wittgenstein for para aqui chamado): nenhum de vós, queridos amigos, o pode negar. Perdoem não vos ter convidado, mas não desconsegui desconfinar-vos.

O cinema de Mário Jorge

É um cinéfilo? Digo isto e é como se não dissesse nada. O que eu deveria dizer é que o cinema, os filmes, as actrizes e os actores circulam intempestivos e obstinados pelas veias de Mário Jorge Torres. A sua forma de deixar o cinema viver dentro dele faz já parte dos comportamentos de uma espécie em extinção.

Conheci Mário Jorge Torres, omnipresente e impertinente, nas sessões da Cinemateca, quando eu era um dos programadores da equipa de João Bénard da Costa. A minha ignorância resvalava no vasto património que se desenhava no seu conhecimento do kitsch, do camp, dos géneros, das teorias, dos autores, das divas ou dos actores, canastrões que fossem. A essa eclética sabedoria, que Mário Jorge Torres, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, levou também para a academia, criando disciplinas de cinema na vetusta Faculdade onde eu desaprendi Filosofia, os amigos, os alunos, os colegas professores decidiram prestar homenagem com este livro de 576 páginas. E convidaram-me também a mim para que escrevesse um texto. Chamei-lhe “Um museu de lágrimas” e abri-o com esta dedicatória:
“A um educativo ménage à trois:
ao Professor Mário Jorge Torres
ao Professor Manuel Cintra Ferreira
ao Professor João Bénard da Costa.”

Que tenha evocado estes nomes, já diz do prazer e da afinidade que me levaram a escrever. Tudo confirmei a ler a entrevista final que os organizadores fizeram ao Mário Jorge. Com candura e gozo, ele abre as torrentes emotivas da infância e adolescência para nos deixar ver como é que os filmes lhe entraram nas veias e como é que as velhas e tantas (ou todas) já extintas salas de cinema, do Royal na Graça, ao Cine Oriente e ao Max-Cine e Chiado Terrasse, foram as suas salas de chuto. Abençoada droga de luzes e sombras que a inclemente abstinência actual nos faz recordar em dor e lágrimas. Museu de lágrimas, digo eu, acrescentando um obrigado ao Mário Jorge Torres.

Sete livros vermelhos

São sete livros vermelhos – a nossa colecção inteira! Sete livros de prosa clara e argumentação frontal: neles se discute África e as ideologias afrocentristas, mas também a China e a sua vocação imperial e ainda a escravatura e as correntes de tráfico que devastaram o continente africano. Esta é a colecção do livro de Bernard-Henri Lévy sobre o coronavírus e sobre o confinamento, como é a colecção de dois dos últimos livros do filósofo Michel Serres, cuja visão optimista do mundo, aos 90 anos nos obriga a sair da cultura da queixa. São livros para quem gosta de pensar e para quem não se deixa vencer pelo preconceito e pelas cartilhas ideológicas.

Podíamos dizer que é uma oportunidade única, esta, a de levar consigo estes sete livros apenas por 50€. Mas é duas vezes mais do que isso. Ora veja.

1. Se já tem algum ou alguns destes livros e só quer os que faltam, escreva para guerraepaz@guerraepaz.pt e resolveremos essa situação. 

2. Se comprar agora a colecção toda, quando publicarmos novos Livros Vermelhos vamos contactá-lo e propor-lhe condições especiais na compra dessas novas edições. E olhe que vêm já aí, a caminho, mais dois livros vermelhos, um dos quais “Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante” oferece uma visão desassombrada dos 50 livros da nossa literatura que um português deve ler com a certeza de lhe oferecerem emoção, alegria, e prazer.

Estes são os seus Livros Vermelhos. Sete livros. 

A SPA gosta das artes, e do livro também

Já vai longa e recomenda-se a relação da Guerra e Paz editores com a Sociedade Portuguesa de Autores. Não é só sermos vizinhos e encontrarmo-nos, nesses tempos que não eram de confinamento, ao café, que pagávamos uns aos outros, fosse o Presidente, José Jorge Letria, fosse a Paula Cunha, o Tozé Brito ou o João David Nunes. Mimos e cortesias de vizinhança. 

E é muito mais do que isso. Por iniciativa e imparável energia de José Jorge Letria passámos da cortesia à acção. A SPA e o seu Presidente desafiaram-nos para uma colecção, o fio da memória, que está quase nos 20 títulos, repositório cultural, histórico, social, literário e artístico de décadas de vida portuguesa, espelhado na vida vida e obra de grandes personalidades como Eduardo Lourenço ou Cruzeiro Seixas, Urbano Tavares Rodrigues ou, em breve, José Pacheco Pereira, livros narrados pela voz dos próprios biografados.

Muitas outras aventuras têm tido lugar, em paralelo. De uma nova edição de A Malta das Trincheiras ao livro dos 90 Anos da SPA, com a participação de 100 dos seus membros e associados. 

Há um traço comum em todas essas obras: o profundo amor que a SPA tem pelos livros. E 90% das obras que envolveram a participação da Guerra & Paz foram ideias e projectos animados pela SPA, quase sempre com a intervenção directa de José Jorge Letria, seja através de entrevista, caso de o fio da memória, seja pela escrita.

A SPA gosta de livros, como o provam estes últimos três livros que agora chegam às livrarias e cujas capas vemos na imagem acima. O património que a SPA já criou, e no qual a Guerra e Paz se honra de participar, merece o nosso rijo aplauso, neste tempo em que o livro vive a angústia do confinamento. Autores, leitores e este editor agradecem: obrigado SPA. 

Nobel para Zineb, já

Agora que a Assembleia Nacional francesa aprovou a «lei do separatismo», proposta por Macron, um passo vital para expor e combater o radicalismo islâmico, mais sentido faz ler Destruir o Fascismo Islâmico, de Zineb El Rhazoui, sobrevivente do ataque terrorista ao Charlie Hebdo. A nomeação para o Prémio Nobel da Paz, que foi anunciado recentemente, é um reconhecimento da batalha corajosa que Zineb assumiu travar em defesa do universalismo e da laicidade. 

Este é um livro de que a Guerra & Paz muito se orgulha. Contra tribalismos e identitarismos, em defesa da liberdade de expressão e de pensamento.

Poesia: forma de dizer a verdade

Se um dia hei-de morrer,
e morrerei,
seja o céu do claro azul
que tanto amei,
nesta terra do Sul

Eugénia de Vasconcellos,
o quotidiano a secar em verso

Os sete livros que estão na imagem acima dão corpo à colecção de poesia da Guerra & Paz. Podem amanhã estar em sua casa e oferecer-lhe sete formas de dizer a verdade, se o poeta é esse «mentiroso que diz sempre a verdade», como assegura Jean Cocteau.

Podia convocar um cortejo de razões para persuadir os meus leitores a comprar esta colecção. Prefiro apontar a dedo (é um vício: disseram-me que tenho os dedos bonitos) à singela condição e missão da poesia – a poesia tem no seu coração e mente um só propósito, proteger a linguagem da degradação e do empobrecimento. O que a poesia quer, na sua contenção ou exaltação, é trabalhar e polir cada palavra para que possamos confiar no seu potencial de encantamento e sonho, lirismo ou epopeia.

Nestes sete livros, o que me atraiu, como editor, foi o amor às palavras e a liberdade com que os seus autores, da Eugénia de Vasconcellos à Ana Paula Jardim, passando pelo Dinu Flamand, João Moita, Tchiangui Cruz e André Osório, lhes entregaram silêncios e explosões, vingança e redenção, corpos e almas. Há uma inquietação e uma surda alegria a correr nas páginas destes sete livros: a da permanente invenção da linguagem, convertendo-a num instrumento que nos permite descobrir novos sentidos para a vida. T. S. Eliot, corrigindo o que Cocteau disse, garantiu, sem o desmentir, que «a poesia não é uma asserção da verdade, mas sim tornar a verdade ainda mais real para nós.»

Estes são setes livros grávidos de realidade e de vida. Peço a quem ainda estremece com o amor, a quem ainda se exalta com o primeiro raio do sol da manhã, a quem ainda se espanta com a violência do mundo, mas também com o milagre da harmonia que por vezes o inunda, que leve, leia e guarde estes sete livros. Tem aqui a mais fiel das companhias.