Um branco par de cuecas

lucky

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em “Lucky”, o mais belo filme de 2017, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa.

Se esperam filosofia, não se prendam, que só vou falar de velhice e da linha de horizonte. Lembram-se do paleio de escola primária sobre conteúdo e forma? Conteúdo e forma fundem-se como um centauro em “Lucky”. O filme é essa coisa, com corpo cavalar e pernas de velhice montadas pela periclitante humanidade de um velho de 90 anos a roçar-se na imortalidade. A velhice de “Lucky” está em tudo, na paisagem do deserto, na indecifrável imobilidade dos cactos, no silêncio das ruas da vilória sem nome, fundada no mesmo ano em que Platão fundou a sua caverna: passam por esta vila do Arizona as mesmas fugazes e iluminadas sombras desse grego inaugural que foi, como sabem, o inventor do cinema.

Numa cena, vemos um branco par de cuecas e alva camisola interior a regar, de mangueira na mão, um jardim. O escanzelado corpo que sustenta cuecas, camisola interior e mangueira é o corpo da velhice. Chapéus e botas, parece um corpo agreste, que hesita entre estar zangado consigo mesmo ou zangado com os outros. Mas à medida que deambula pelas cavernas da vila – a casa de Platão, perdão, de Harry “Lucky” Dean, um café-restaurante bom para fazer palavras-cruzadas, uma vaga mercearia mexicana, um nocturno barzeco onde não se pode fumar –, o que vemos é uma velhice socrática, que interroga e se interroga, com a serenidade e aceitação a que a realidade dos cenários empresta mais graça do que densidade. Assim Platão o queira, hei-de morrer a achar mais graça à graça do que à densidade.

“Lucky” é um filme de alegorias. Uma sobre uma tartaruga; a outra sobre o mais belo dos sorrisos. Tartaruga e sorriso – e é outro centauro – fundem-se no final de um filme em que a linha de horizonte me fez pensar em John Ford, num Ford que o realizador de “Lucky” tivesse ido buscar à imensa nostalgia de um certo filme de Peter Bogdanovich. Tudo velho, velho como o cinema, essa coisa que existe e é linda.

O fósforo fatal

nusrat

Bica Curta servida no CM, 5ª feira, dia 8 de Maio

Não tomarei a bica com Nusrat Jahan Rafi. Ela entrou, 19 anos, no gabinete do reitor da madrassa, a sua escola islâmica. A jovem não adivinhou a tragédia. O reitor atacou-a sexualmente. Nusrat fugiu e queixou-se à polícia. O reitor foi preso, mas a polícia vazou tudo nas redes sociais pondo-a em perigo. Voltou à madrassa e os colegas ulularam para que desistisse da queixa. Recusou. Regaram-na com querosene, acenderam o fósforo fatal e Nusrat ardeu e morreu.

Foi em Abril, no Bangladesh. Com o inaceitável silêncio das mais sonoras plataformas feministas e da esquerda regressiva: o abuso das mulheres por islâmicos é o seu nó cego.

Cortem as alusões intelectuais

dead end
a inocente namorada da adolescência

Nem a mãe gostava dele. Em “Dead End”, um filme de William Wyler, Bogart é um assassino impiedoso. Acompanhado por um dos seus facínoras, regressa ao bairro onde cresceu, na busca nostálgica de um pingo perdido de afecto. Vai ter com a mãe e a mãe diz-lhe, com asco e fel, o que as raras folhas do deserto terão dito aos cascos dos cavalos de Átila. Bogart ainda tenta encontrar a inocente namorada de adolescência – tropeça, porém, num trapo sifilítico, que o trottoir desgastou e atribulou. Ora, embora quase ninguém saiba, nem um gangster é de ferro, e Bogart corre a extinguir o fogo daquela amargura no primeiro bar de porta aberta. Leva a tiracolo o pistoleiro de segunda classe que o ajuda. Pedem dois gins. O barman serve-os, deixa a garrafa, vai a virar-se e volta atrás. Tira detrás da orelha um lápis contabilístico e risca forte e grosso, marcando o nível do gin na garrafa.

O produtor Samuel Goldwyn deu um salto da cadeira. “Isto é para cortar!” Visionava a montagem final do filme com Wyler. O realizador estava já de nervos em franja, tantas as tesouradas com que Sam lhe queria despedaçar o filme. Não admira que tenha desatado aos gritos: “Sam, és maluco, isto é a chave do filme. Estes dois gajos são tão assustadores, que até o barman lhes adivinha a maldade.” Goldwyn não desarmou: “É o tipo de cena que faz fugir o público e eu não ando a deitar dinheiro à rua. É uma alusão intelectual, nenhum espectador decente a vai perceber.” Wyler deixou-se cair no cadeirão e disse, sem saber que antecipava a mesma resignada incompreensão de um Passos Coelho: “Sam, mais límpido não há, até um miúdo de 10 anos compreende isto.”

Mandado pelos deuses de Hollywood, irrompeu na sala o filho de Goldwyn. Já tinha doze anos, mas de pés descalços e Coca-Cola na mão, era como se tivesse dez. Goldwyn exultou: “Anda cá, Sammy, senta-te aqui ao pé de nós e vem ver uma coisa.”

O projeccionista apagou as luzes e passou a cena. Logo Goldwyn: “Então, filho, percebeste tudo?” “Claro, pai, o barman dá-lhes a bebida, vê que os dois homens têm ar de bandidos, desconfia e marca a garrafa para ter a certeza do que eles bebem.” Goldwyn rompeu o silêncio irónico e reprovador da sala com o seu melhor sorriso: “Ah, estes miúdos de hoje, até parece que já nascem ensinados.”

Houve um tempo em que a cena deambulava aqui pelo you tube, Deu-lhe um ar e foi-se. Só mesmo vendo o filme.

Regresso à caverna

pre-historia

Bica Curta bebida no CM, 4ª feira, dia 8 de Maio

A minha geração, entre Maio de 68 e o amor livre hippie, era toda contra a sociedade de consumo. Abaixo, abaixo, vergonha, vergonha. Acabámos a comprar Porsches, um fatinho Armani a tapar-nos as misérias da idade.

Hoje, o planeta está como está e uma frondosa fila de meninas e meninos juram por uma vida saudável num lírico planeta limpo. Fora, gritam, fora este modelo económico e o seu crescimento! Deus, na sua duvidosa bondade, os ouça. Mas conseguirão renunciar às viagens de avião, ao carro, máquina de lavar louça e roupa, banho diário e bica curta? Estão prontos a comer só o que der a horta e a regressar em massa às aldeias?

Vigilância total

telefone

Bica Curta servida no CM, 3ª, 7 de Maio

Vejam bem, no começo do século XX já tudo andava a uma velocidade furiosa. Porém, podia tomar-se a bica no cais e ir a correr apanhar-se o comboio rançoso que partira há minutos. O Ford T de 1910 dava uns vertiginosos 75 km/h. Graham Bell inventou o telefone em 1876: demorou 50 anos a fazer-se a primeira chamada transatlântica, entre Nova Iorque e Londres.

Agora vejam: a internet em 30 anos pôs cinco mil milhões de humanos em contacto permanente. Veloz é sinónimo de instantâneo: ai vai ser tão bom, não foi? Damos beijos na boca à palavra velocidade. Terrível foi a palavra privacidade ter-se convertido num murro no estômago.

Doris Day

day-doris

Desculpa, querida Doris, só vir agora, tão tarde, tomar o último chá contigo. A culpa é de duas vergonhas. A vergonha, a primeira, é a de não ter vindo ter contigo antes, quando aqui estava a tua multidão de devotos, com receio de que me olhassem de lado, por saberem que sou dos que faziam fine bouche, não me reconhecendo como um dos teus: e se não o era antes, menos o posso agora ser. E, agora, segunda vergonha, a vergonha de vir pela calada, com aqueles  intelectuais requebros de ancas que já estás a antecipar, a fingir reconhecer que, diferenças marcadas, havia em ti uma vitalidade feita de confiança física (ah, essa tua confiança no corpo), religiosa (a religião da alegria e do insuportável, por eterno, sorriso) e estética (essa pavorosa confiança no grau zero da espontaneidade, a que tu chamas simplicidade).

Estou agora aqui e tu aí, fechada em silêncio essa voz fresca com que cantavas che sera, sera… Eu sei , eu sei, que a canção te irrita… Vês, só me apetece dizer coisas que tu vais odiar, por serem coisas cheias de suspeita e pé atrás, e faço-te isso a ti, que estiveste sempre de pé à frente, um irrecuável vigor de pernas, transbordante energia de quem vê o mundo como uma boa e feliz linha recta.

Doris

Se eu tivesse sido do teu tempo – e que tempo foi o teu tempo, que de tão limpinho não foi tempo nenhum? – teria bebido copos cínicos com  esse Oscar Levant, actor, pianista, compositor de tão sardónico talento, que fui mesmo ver ao cemitério de Westwood, minha aldeia de Los Angeles, se ainda lá estava a campa em que o enterraram. Ele sim, insuportando (ou desconseguindo de suportar!) esse fulgurante brilho dos teus olhos, a esplêndida brancura dos teus dentes, as tuas saias rodadas a deixar ver a robusta e dourada meia perna, as tuas mamas firmes apontadas a um céu sem nuvens, ele, Oscar Levant,  imor­ta­li­zou-te com a doçura desta frase: “Conheci Doris Day antes dela se tor­nar virgem.”

Sinto a falta

angola
Sinto falta de pessoas como estas. Lembro-me de uma fotografia dos meus pais, ele com um casaco assertoado como este, ela com saia-casaco parecido. Gente de paz

Às vezes, sinto falta de algumas coisas. Ou de algumas pessoas. Ou de algumas velhas sensações.

Sinto a falta
De histórias maravilhosas e verdadeiras sobre mulheres e homens, sobre traições, facas e tangos, cigarros ansiosos e lençóis clandestinos.

Sinto a falta
De pessoas que finjam com gentileza que não lhes interessa compreender o mundo e que acreditem, desinteressadas, num hedonismo cósmico.

Sinto a falta
De um pensamento que não se esgote em depressões taciturnas, em dores de cabeça do tamanho de um comboio, ou na venalidade de chás e bules.

Sinto a falta
De uma academia consciente de que a nossa melhor metafísica é cómica. Só no riso há metafísica.

Apologia da fake-news

 

Orson-Welles-War-of-the-Worlds

Todo o santo ser humano gosta de mentir. A mentira é a verdadeira medida da nossa santidade. Ao mais acabado campeão da verdade sempre diremos, transforme-se o meu amigo num veículo automóvel e meta a verdade no porta-bagagens.

Não digo que a verdade não exista. Num ocasional tribunal, algum desorientado ser humano terá dito uma verdade ou duas. Com tão iniludíveis como penosas consequências. A mão a acariciar a minha Bíblia de veludo, juro: a glória da humanidade está na mentira. Lembrem-se da noite em que Orson Welles relatou a invasão do nosso solitário mundo por furiosos extraterrestres. O frenesim que se apoderou da América: seres humanos a que nenhum sobressalto animaria o baixo-ventre entraram em histerismo emocional, as ruas encheram-se, pilharam-se drogarias, carros afocinharam noutros carros. Eis a alucinação que só a mentira oferece.

Fosse eu um Lobo Antunes, uma risonha Agustina, e cantar-vos-ia o valor seráfico das fake-news. Bem sei que Donald, burlesco anti Quasímodo da Casa Branca, deu mau nome às notícias falsas. Não era assim em 1924. A Inglaterra preparava-se para eleições e o Daily Mail espeta na primeira página com uma carta do camarada Zinoviev, companheiro de Lenine, presidente da Internacional Comunista. Escrevera-a ao secretário-geral do pê cê inglês, um Cunhal de quarta categoria, que Cunhal só há um, o nosso e mais nenhum. Zinoviev explicava ao vermelhusco camarada inglês como devia influenciar e controlar o Partido Trabalhista. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Sua Majestade rasgou as vestes nas ruas de Londres como as futuras femen as rasgam agora em igrejas russas. O apavorado povo foi votar em massa no Partido Conservador entregando-lhe o poder, preparando, quiçá, a farinha com que um dia se faria a papinha do Brexit. Ora, a carta de Zinoviev era mais forjada do que a máscara de santidade de um bispo pedófilo. Falsa como Judas, ou, nas palavras de Estaline, como Trotsky. Mas que verdade podia ter mudado, como esta rematada mentira mudou, o destino do Reino Unido?

A deliciosa mentira provoca arrebatamento e fúria. Em 1956, a América teve uma vertigem. Nas listas dos bestsellers apareceu um romance, “Eu, libertino”, e já adivinhamos o tom sumarento, a trama nudo-terapêutica como conviria ao erótico século XVIII, em que a acção tinha lugar. Na moralíssima Boston, o livro foi mesmo proibido. Reparem, na verdade nem um só exemplar entrara nas livrarias. Talvez por não haver livro nenhum. Talvez por não existir sequer o autor da obra. Um locutor, um ameno Carlos Vaz Marques do tempo, irritado com os bestsellers, inventara esse romance e o seu autor imaginário, aconselhando os ouvintes a pedi-lo nas livrarias. Surpreendido com o fulminante êxito virtual, ele, um amigo e um editor, escreveram depois o livro na prestigiada Ballantine Books.

Confesso: o meu imaginário erótico é escandinavo. O meu bairro de Luanda apontava os incontidos ardores tropicais à libérrima mulher sueca. Ora, Chako Paul é uma cidade sueca habitada só por mulheres: 25 mil. Fundou-a, em 1820, uma viúva rica que odiava os homens. A cidade permaneceu escondida, quase secreta. Anos antes da visita de Marcelo, a notícia atravessou a China. Milhares de homens chineses entupiram o turismo nacional com pedidos de viagens. Desilusão, não há Chako Paul nenhuma. Não haver uma cidade só com 25 mil mulheres é um defeito da realidade que um Fellini sueco faria bem em corrigir. Na consoladora mentira é que meia humanidade encontra a sua realíssima verdade.

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