Doris Day

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Desculpa, querida Doris, só vir agora, tão tarde, tomar o último chá contigo. A culpa é de duas vergonhas. A vergonha, a primeira, é a de não ter vindo ter contigo antes, quando aqui estava a tua multidão de devotos, com receio de que me olhassem de lado, por saberem que sou dos que faziam fine bouche, não me reconhecendo como um dos teus: e se não o era antes, menos o posso agora ser. E, agora, segunda vergonha, a vergonha de vir pela calada, com aqueles  intelectuais requebros de ancas que já estás a antecipar, a fingir reconhecer que, diferenças marcadas, havia em ti uma vitalidade feita de confiança física (ah, essa tua confiança no corpo), religiosa (a religião da alegria e do insuportável, por eterno, sorriso) e estética (essa pavorosa confiança no grau zero da espontaneidade, a que tu chamas simplicidade).

Estou agora aqui e tu aí, fechada em silêncio essa voz fresca com que cantavas che sera, sera… Eu sei , eu sei, que a canção te irrita… Vês, só me apetece dizer coisas que tu vais odiar, por serem coisas cheias de suspeita e pé atrás, e faço-te isso a ti, que estiveste sempre de pé à frente, um irrecuável vigor de pernas, transbordante energia de quem vê o mundo como uma boa e feliz linha recta.

Doris

Se eu tivesse sido do teu tempo – e que tempo foi o teu tempo, que de tão limpinho não foi tempo nenhum? – teria bebido copos cínicos com  esse Oscar Levant, actor, pianista, compositor de tão sardónico talento, que fui mesmo ver ao cemitério de Westwood, minha aldeia de Los Angeles, se ainda lá estava a campa em que o enterraram. Ele sim, insuportando (ou desconseguindo de suportar!) esse fulgurante brilho dos teus olhos, a esplêndida brancura dos teus dentes, as tuas saias rodadas a deixar ver a robusta e dourada meia perna, as tuas mamas firmes apontadas a um céu sem nuvens, ele, Oscar Levant,  imor­ta­li­zou-te com a doçura desta frase: “Conheci Doris Day antes dela se tor­nar virgem.”