Jacques Tati

Jacques Tati. Ou Monsieur Hulot?

Foi dos últimos artigos que escrevi no Expresso antes de ir para a SIC. Fevereiro de 1992. Passaram 29 anos e Jacques Tati, morto e enterrado, já não é sequer um ilustre desconhecido. E eu estou a pensar que já me teria esquecido também, se não fosse essa noite, em Luanda, no cinema Império, em que, bouleversant, ele me apareceu em Playtime, filme prodígio de fina observação e nonsense. A noite era quente e colonial e eu vestia o inesquecível casaco vermelho, que décadas depois Spielberg daria a Christian Bale, herói de O Império do Sol.

A Casa e o Mundo
Manuel S. Fonseca

Donde vem o cómico de Jacques Tati? Da pura observação e dos seus efeitos burlescos? Foi essa, pelo menos, a judiciosa verificação de François Truffaut. Deve ser verdade, portanto. E deve ainda ser mais verdade se lhe acrescentarmos o valor suplementar que o silêncio tem nos seus filmes. Ao excluir da sua esfera de observação os dramas humanos que são os amores, ódios e traições, o cinema de Tati concentrou-se nos gestos mecânicos da vida, em particular na utilização que, dia a dia, os seres humanos fazem do mundo que habitam.

A relação entre o homem e o seu «habitat» talvez seja o grande, se não o único tema, das comédias de Jacques Tati. É o que O Meu Tio confirma e Parade só aparentemente desmente, como poderão ver sentando-se em frente aos televisores, domingo e segunda, respectivamente, no Canal 2 e na RTP1. [Nota para leitores contemporâneos: É extraordinário pensar que nos sentávamos em frente ao televisor! Hoje, não só ninguém sabe o que é um televisor, como já são raros os seres humanos que ainda têm uma vaga ideia do que é alguém sentar-se.] 

O Meu Tio confirma. E porque confirma, aí está um filme em que os locais de acção — a casa futurista dos Arpel e a fábrica Plastac — são protagonistas dessa mesma acção. Aí está, também, um filme em que os acessórios (o peixe-repuxo no jardim, ou o equipamento ultramoderno da cozinha) são cúmplices activos da mecânica dos «gags», lembrando (acidentalmente?) esse prodigioso triunfo da técnica moderna que Buster Keaton cantara já, nos anos 20, em Electric House, e que culminava em magnífica e alucinante catástrofe.

Primeiro filme a cores de Tati, O Meu Tio é um hino (com um lirismo que Keaton nunca se autorizaria) à inaptidão do herói (Monsieur Hulot) para seguir os padrões da vida moderna, ou do que era a vida moderna em 1958, data da produção do filme. Naquele que é, sem dúvida, o seu filme com uma história mais clássica, Tati mostra as tentativas da família de Hulot para lhe arranjarem mulher e trabalho. É esse o pretexto do filme. Mas a forma como Tati desenvolve este esboço sinóptico atesta que o verdadeiro tema é a lenta aproximação e posterior familiarização de Monsieur Hulot com os dois «décors» centrais do filme, a casa e a fábrica.

Parade, último filme de Tati, datado de 1973, parece desmentir tudo isto, mas é só para melhor o confirmar. Sem estar a recorrer às condições externas de produção, que fazem deste filme um caso especial na sua carreira, nem é preciso lupa para se ver que há uma clara alteração de estilo: por uma vez os rostos — e os dramas humanos de que são espelho — dominam os insistentes grandes-planos (também pela primeira vez) do filme.

É um filme de circo e de «clowns». O palhaço, na sua forma convencional, vem contrariar a lógica do cómico anterior de Tati. E a personagem de Monsieur Loyal substitui Monsieur Hulot, o tradicional herói. Paralelamente ao regresso a formas mais convencionais de construção dos «gags» — Parade é um espectáculo com números cómicos desenvolvidos frente a uma plateia — Tati teve oportunidade de experimentar novas formas cinematográficas, com a utilização do vídeo. Conclusão lógica a extrair: a mudança de tecnologia mudou também a relação de Tati com mundo. A obra do cineasta dificilmente poderia ter conclusão mais adequada.

Pintei-a eu!

O perdão segundo Vermeer, ou seja, Henricus van Meegeren

O Marechal do Reich Hermann Goering gostava de ter Cristo na mão. E pergunto em sobressalto: o nazi beijaria com o insurrecto amor de Judas a face desse Cristo ou adormeceria como os sonolentos apóstolos depois de se deitar a seus pés?

Vejam, Cristo não estava sozinho. Acompanhava-o a mulher adúltera. Pintara-os, à mulher de muita paixão e a esse Cristo absolvente e redentor, o talvez católico Vermeer, pintor holandês do século XVII. E pede-me Vermeer que vos apresente um seu compatriota do século XX, Henricus van Meegeren.

Han, como toda a gente lhe chamava, enfrenta o tribunal dos Países Baixos no pós-guerra. Está o nazi Goering em Nuremberga a ser julgado por crimes contra a humanidade, e Han é preso, acusado de conluio com o odioso inimigo e de ter vendido a Goering o tesouro nacional, que seria esse “Cristo e a Adúltera”, do genial Vermeer. E se o anafado marechal alemão é sentenciado com a pena de morte, também Han, por traição à pátria, pode sofrer igual pena.

Han teve educação católica e viveu até em Delft como Vermeer. Contra vontade do pai, que o obrigava a escrever cem vezes frases exaltantes como “sou um inútil e nunca serei nada na vida”, Han queria pintar.

Têm Costa e Marcelo talento para política? Eu juraria que Han o tinha em igual medida e já o vemos começar a carreira de pintor, que a crítica do tempo, toda impressionista e cubista, parecida com a sonsa crítica literária portuguesa destes dias, logo obliterou. Ou, nas mais cruas palavras do próprio, cortaram-lhe as pernas. As pernas, porque as mãos conservou-as Han, ágeis, minuciosas.

No tribunal, Han entra como um velhaco colaboracionista. Dão-lhe a palavra. Ergue o perfil charmoso e fala. E vejam, o acusado que fala, quase sempre sussurra, meigo, e regressa ao passado. Han volta lá atrás, à ferida cruciante com que a crítica de arte modernista o retalhou. Evoca esse dia de trovões e relâmpagos em que jurou vingar-se: “Hei de fazer uma coisa como nunca se viu, que pasme o mundo!”

Com a humildade de quem sabe que vai, com a ignomínia, arrebatar a glória, diz ao tribunal: “Esta tela, “Cristo e a Adúltera” não a pintou Vermeer, pintei-a eu!” Levante a mão quem não sentiu o arrepio e o estremeção daquela sala! Mesmo que fosse por um momento, Jerónimo de Sousa teria deixado de pensar nos interesses e concupiscência do grande capital e André Ventura esqueceria os ciganos.

“Eu aldrabei o nazi Goering”, vai dizendo Han, as suas roupas começando a colorir-se com as tintas do heroísmo. E aldrabou. Aldrabou o monstro de Hitler e aldrabou o mundo inteiro. Forjou obras de Frans Hals, Pieter de Hooch, mas sobretudo de Vermeer: rivalizou com os génios de ouro da pintura holandesa.

Han confessa: a sua obra-prima é “A ceia em Emaús”, com que pôs Vermeer a rimar com Caravaggio. Pintou a tela e envelheceu-a com a resina fenólica que é a base da baquelite. Passou a tela, agora endurecida, por um cilindro, provocando-lhe gretas que a lavagem do quadro em negríssima tinta-da-china encheu. Por portas travessas essa tela chegou aos museus e ao olho de águia e faro de pastor alemão do maior especialista holandês de Vermeer. Em genuflexão, disse: “É a obra-prima do pintor de Delft.”

E o tribunal descobre que uma, duas, três, 50 telas dos maiores pintores holandeses são de Han. Vendeu-as, não todas, pelo que hoje seriam quase 30 milhões de euros.

O nazi Goering, consta, soube que fora alvo do vexatório e descarado ludíbrio. Entretenho-me com a ideia de que, também por isso, mais depressa se suicidou.

Publicado no Jornal de Negócios

A cabeça careca do avô

Esta é a minha primeira foto desde que sou avô. Foi ontem à noite e esta manhã, cabeça lisinha como a de um bebé, aqui estou a fazer a minha primeira vénia ao Carlos, símbolo anarca ao peito, desejando que ele seja livre like a bird, a pensar sempre pela própria cabeça e que goste do mundo, dos seres humanos que se hão de atravessar na vida dele, das coisas e de toda a bicharada, do céu e da terra, dos rios e das montanhas, de um bom vinho, algum champanhe e de umas humildes iscas com elas.

Que leia muito e os deuses o cumulem de felicidades. À minha Rita e ao meu Paulo beijo-os de parabéns.

François Truffaut, o romance


O Verão de 1990 foi quen­tís­simo.
Estava, Leão, quase a fazer anos, em Julho, e ganhava a vida a escre­ver. A crí­tica de cinema cada vez mais me abor­re­cia de morte. Só me ape­te­cia escre­ver res­tos de bio­gra­fias, pági­nas cor-de-rosa que reve­las­sem escân­da­los, amo­res proi­bi­dos. Dei comigo a esca­ra­fun­char na vida de Truf­faut. E o velho “Expresso”, mag­nâ­nimo, deu-me duas pági­nas na revista. Afi­nal, era Verão.

François com Madeleine em Cannes. Ladeados por Léaud e Cocteau

O romance de Truffaut
Manuel S. Fonseca

As expres­sões «o cine­ma de Fran­çois Truf­faut» ou «a vida de Fran­çois Truf­faut» care­cem de sen­tido. O cinema foi a vida dele e Truf­faut, tudo o que viveu (consta que foi muito), viveu-o como pura fic­ção, o que nele quer dizer «como cinema». Em particu­lar, as his­tó­rias de ami­zade e as his­tó­rias de amor que a seguir se evo­cam.

Por exem­plo, na pri­meira longa-metragem, Os 400 Gol­pes, o cine­asta agar­rou num rapazi­nho e fez dele actor, mol­dando-o até o con­ver­ter no seu «alter ego». O rapazi­nho chamava-se Jean-Pierre Léaud e revi­via no ecrã o que fora a ado­les­cên­cia de Truffaut.

Uma ami­zade de ferro

Truf­faut não estava sozi­nho nessa visão român­tica que con­fun­dia bio­gra­fia com cri­a­ção e cinema com vida. Nos «Cahi­ers», Jean-Luc Godard, Eric Roh­mer, Claude Cha­brol, Jac­ques Rivette ti­nham uns pelos outros uma ami­zade que pare­cia de ferro. Por exem­plo, quando Godard fil­mou O Acos­sado – filme-manifesto da «Nou­velle Vague» – na ficha téc­nica o argu­mento foi atri­buído a Truf­faut, e Cha­brol apa­re­cia como con­selheiro téc­nico. Nem tudo era men­tira, embora nada fosse ver­dade. Era uma com­bina de putos rabi­nos para enga­nar o pro­du­tor. Em cima de cinco his­tó­rias tira­das da revista «Detec­tive», Truf­faut escre­vera pelo seu punho: «Podem ser­vir de base a um argu­mento.» A tanto se resu­me, segundo fon­tes fidedig­nas, a sua auto­ria do argu­mento. A asses­so­ria téc­nica de Cha­brol era igual­mente fan­tasma, mas com esses dois nomes Godard sosse­gou o pro­du­tor des­con­fi­ado e já o pro­du­tor pôde sedu­zir um dis­tri­bui­dor que desse o avanço para cobrir o magro orça­mento do filme.

É o tipo de cum­pli­ci­da­des de que a his­tó­ria da «Nou­velle Vague» está cheia. É claro que, com a dis­tân­cia – e já pas­sa­ram mais de 30 anos [agora mais de 60] sobre esses acon­te­ci­men­tos – cai-se na ten­ta­ção da lenda, ape­sar de Roh­mer ter escrito que «nunca dei­xa­ria dizer a nin­guém que os 20 anos tinham sido o mais belo momento da minha vida». Esses anos, lem­bra Roh­mer, «foram, se não tris­tes, pelo menos cin­zen­tos. Quando nos per­gun­ta­vam: ‘De que é que vivem?’ gos­tá­va­mos de res­pon­der: ‘Nós não vive­mos.’ A vida era o ecrã, era o cinema.»

O mesmo vale para as his­tórias amo­ro­sas de cada um. Quando namo­ra­ram ou casa­ram, o cinema teve sem­pre a última pala­vra. A vida amoro­sa de Truf­faut, por exem­plo, vergou-se mais ao sopro da fêmea do que uma cana de bambu. O que nem sequer é inco­e­rente com o que ele pen­sava das mulhe­res: «Ser mulher é já um emprego, do qual Deus é o patrão.»

Truf­faut casou cedo e, di­ziam as más lín­guas, «casou com a filha do seu pior ini­migo». Made­leine era, com efeito, a filha do pro­du­tor Ignace Mor­gens­tern. O cora­ção e o cál­culo pare­cem ter-se mis­tu­rado neste como nou­tros pas­sos da vida de Truf­faut. E a sus­peita aumenta se se sou­ber que, pouco depois, o rea­li­za­dor se envol­veu, numa rela­ção para­lela e dura­doura, com outra mulher, Lili­ane David. Os ini­mi­gos acusaram-no de viver uma situ­a­ção extre­ma­mente esca­brosa; ele achava-a extre­ma­mente pura. Está tudo expli­cado (ou exor­cizado?) num dos seus fil­mes mais ambi­ci­o­sos do começo de car­reira, Jules e Jim, his­tória de um «amor puro» par­tilhado por dois rapa­zes e uma rapa­riga que vivem jun­tos, «como a mais natu­ral das coi­sas», si­tuações «extre­ma­mente es­cabrosas e extre­ma­mente puras».
 

Em A bout de souffle: Liliane com Jean-Paul Belmondo

Um amor clandestino

Foi ime­di­a­ta­mente a seguir ao sucesso obtido em Can­nes, com Os 400 Gol­pes, que Truf­faut conhe­ceu Lili­ane. O casa­mento com Made­leine e o sucesso em Can­nes – fes­ti­val a que não pou­para ata­ques desa­bri­dos enquanto crí­tico – abri­ram a Truf­faut as por­tas que inti­ma­mente sem­pre dese­jara abrir. É pelo menos o que sugere o seu bió­grafo Gil­les Caho­reau: «Rejei­tado, mar­gi­nal du­rante toda a sua infân­cia, ele encon­tra, em adulto, o refú­gio que pro­cu­rara na respei­tabilidade bur­guesa. É o fenó­meno inverso de Godard: Truf­faut tinha vonta­de de entrar no ovo.» A rela­ção com Lili­ane foi uma forma de pre­ser­var, no quarto das tra­sei­ras, a mar­gi­na­li­dade (ou a clan­des­ti­ni­dade) per­dida. O romance come­çou em Saint-Tropez, onde alguém os apre­sentou. Mas não era a primei­ra vez que se viam. «Tinha tido oca­sião de o encon­trar, dias antes, em Can­nes», afir­ma Lili­ane. «Um amigo co­mum apresentou-nos. Pas­sámos um quarto de hora com ele, o tempo de beber um café. Não dis­se­mos qua­se nada, mas passou-se qual­quer coisa, uma breve troca de olha­res.» Não menciona­ram o facto de já se conhece­rem. «Foi como um segredo tácito. Eu achava-o amo­roso e ele tinha, sobre­tudo, aque­le olhar de que nin­guém se esque­cia. Ape­sar de ter os olhos peque­ni­nos…»

Os olha­res, exac­ta­mente como no cinema. E, exacta­mente como no cinema, os car­ros. Truf­faut ado­rava o Fer­rari de Roberto Ros­sel­lini, como vene­rava o 4 CV de André Bazin. Não admira que tenha con­vi­dado Lili­ane a regres­sar a Paris com ele, de carro. Quando che­ga­ram a Paris des­co­bri­ram que, ainda por cima, eram vizi­nhos; daí em diante, «por tudo e por nada, ele saía de sua casa, dizia que ia com­prar o jor­nal… e vinha ter comigo», conta Lili­ane.

Esta é Lili­ane, que foi pri­meiro David e depois Drey­fus. Actriz e realizadora.

Esta­rei eu a suge­rir que Jules e Jim «explica» todo o romance de Truf­faut? Nem tanto ao mar… No cinema, Truf­faut ten­tava con­ver­ter a histó­ria de dois homens e uma mulher que viviam jun­tos toda uma vida, num «filme de amor o mais ‘puro’ pos­sí­vel e isso gra­ças à ino­cên­cia dos três per­so­na­gens, à sua inte­gridade moral, à sua ternu­ra e, sobre­tudo, ao seu pu­dor, gra­ças ainda à forma de ami­zade entre as duas per­so­na­gens mas­cu­li­nas.»

Nem o romance de François-Madeleine-Liliane teve a mesma ino­cên­cia, nem o cine­asta de Jules e Jim dei­xou pas­sar para o seu filme o «sen­ti­mento do impos­tor» que o assal­tava na vida. Truf­faut tinha um medo desgraça­do de ser «apa­nhado»: obri­gou, e é só um exem­plo, Lilia­ne a mudar de casa, para a Rive Gau­che, para evi­tar encon­tros ino­por­tu­nos. Mas não tinha só «medo de ser apa­nhado»; cul­ti­vava esse medo: temendo ser descober­to na rua, man­dava Lili­ane cami­nhar à sua frente, acom­panhada por Jean-Pierre Léaud, que lhes ser­via de pau de cabe­leira, enquanto ele vinha atrás, em geral meio escon­dido por um jor­nal que fin­gia ler… Que Truf­faut cul­tivava este sen­ti­mento de clan­des­ti­ni­dade é tanto mais óbvio quanto sem­pre se recu­sou a acei­tar que a sua aven­tura era conhe­cida e que Made­leine, em par­ti­cu­lar, soube­ra de tudo antes do nascimen­to do seu segundo filho.

Como­vente traição

Truf­faut bem gos­tava que Lili­ane tivesse sido actriz nos seus fil­mes. Mas o pudor reteve-o. Pre­fe­riu metê-la nos fil­mes dos ami­gos. Em O Acos­sado de Godard e em As Boas Mulhe­res de Cha­brol. Quase se arre­pen­de­ria, no caso de Godard, que era «oblí­quo» (disse-o Truf­faut) em his­tó­rias de mulhe­res. Godard convidou-a sem meios-termos a ir para a Suíça fazer esqui. Lili­ane deu-lhe uma nega. Godard insis­tiu: «Mas Truf­faut tam­bém foi para a mon­ta­nha.» «Não é a mesma coisa, res­pon­deu Li­liane, ele foi tra­ba­lhar.» Dégueu­lasse, Go­dard armou-se em persona­gem de qual­quer um dos seus fil­mes: «A ver­dade é que ele já não a ama a si. Ele foi com a Marie Dubois.» E pediu asilo em casa dela por três noi­tes, jurando que não ten­ta­ria tocar-lhe. Ela deixou-o ficar. Quando se foi embora, agar­rou em dois duplos álbuns, um de Mozart, outro de Beetho­ven, rasgou-os ao meio, e deu metade de cada um a Lili­ane. Três dias depois, vol­tou a convidá-la para a Suíça. Lili­ane – por desa­fio, diz ela – aca­bou por ir. Foram de carro como Karina e Bel­mondo no Pier­rot le Fou. «Ele recome­çou a falar de Marie Dubois. Foi chato e sinis­tro durante toda a via­gem.» Na manhã seguinte, Lili­ane estava pelos cabe­los e vol­tou sozi­nha para Paris. Con­tou tudo a Truf­faut, mas era como se não lhe esti­vesse a dizer nada que ele já não sou­besse. Quando um dia, em vio­lenta troca epis­tolar, se zan­ga­ram, Truf­faut não dei­xou de lem­brar a Go­dard: «Eu sabia que tinhas ten­tado sedu­zir Lili­ane di­zendo-lhe: ‘Fran­çois já não te ama, está apai­xo­nado por Marie Dubois que entra no seu filme’ e eu achei isso la­mentável, mas como­vente, sim, por­que não, comoven­te, no limite

O romance de Liliane-François-Madeleine não esta­va feito para aca­bar bem. Como aliás o fim de Jules e Jim ante­ci­pava. E um ano depois de Jules e Jim – filme triste no seu todo e diver­tido nos por­me­no­res – tam­bém o romance de Truf­faut aca­bava, com a separa­ção pro­saica das par­tes. Made­leine par­tiu para Lon­dres, divorciando-se mais tarde. Fran­çois Truf­faut foi para o Japão. Lili­ane Drey­fus casou-se. «Só para o irri­tar» disse ela. E acres­cen­tou: «Fran­çois foi uma grande pai­xão na minha vida. E creio que tam­bém con­tei muito para ele, por­que, ao longo dos anos, con­ser­vou essa espé­cie de ami­zade, fide­li­dade e ciúme a meu res­peito. Era um des­ses homens que ver­dadeiramente nunca conse­guimos dei­xar.» E de quem é que um homem ou uma mulher se hão de sepa­rar se não daque­les que nunca ver­da­dei­ra­mente con­se­guem deixar.

O coração do povo

Prometido é devido. Continua aqui a narrativa que começou na crónica que levava por título Cleópatra.Tudo por causa das pernas de Richard Burton e do incerto período de Liz Taylor.

Liz e Burton: fusão faraónica

Liz Taylor esteve às portas da morte. Redimiu assim a má fama que ganhara por ter sacado o marido à virginal Debbie Reynolds. Não se rouba o marido a uma escoteira, muito menos um mês depois de se ter enterrado, como Liz fizera, o seu. Odiaram-na. Mas a gripe asiática e o coma de Liz, em Londres, interrompendo as filmagens de “Cleópatra”, reinstalaram-na no coração do povo cinéfilo.

O produtor Walter Wanger trouxe Liz e esse infidelíssimo marido para Roma e recomeçou o filme com outro realizador, Joseph L. Mankiewicz. Veio um novo Marco António, Richard Burton, também com a fiel mulher, a que ele sempre voltava, após incursões de “cada tiro seu melro” por cama ou casa alheia. Em “Cleópatra”, não houve marido e mulher que resistissem, Liz e Burton fundiram-se faraonicamente.

No começo, a cabeça de homem de Burton pensou que era mais um furo para o cinturão dos troféus. Entrou na maquilhagem dos homens e ouçam-no: “Gentlemen, I’ve just fucked Elizabeth Taylor in the back of my Cadillac!” No Cadillac, fosse onde fosse, só faziam o que Burton disse. A eléctrica euforia de Liz e Burton foi uma corrente mais tumultuosa do que as cheias do Nilo. Os cônjuges respectivos fugiram de Roma. Ficou o Vaticano que, numa nota pungente e pouco metafísica, se meteu como pôde na cama gulosamente adúltera deles. Apareciam paparazzi na bagageira do Cadillac ou debaixo do leito dos amantes. Era uma cama que, diga-se, dividia a primeira página dos jornais com a crise dos mísseis em Cuba. Via-se que o mundo ainda respeitava o sexo.

O caos voltou a “Cleópatra”. Mankiewicz planificara as filmagens para dispensar Liz quando ela tinha o período, capricho de quem não queria sombras no seu esplendor de imperatriz. Agora – fluídos misteriosos de Cleópatra – a produção reclamava que as filmagens estavam sempre a parar porque Liz tinha a menstruação três ou quatro vezes ao mês.

Era preciso filmar a entrada de Cleópatra em Roma. Wanger contratara seis mil figurantes. Temia-se que os odores do adultério misturados ao enxofre do Vaticano levassem o povo a apupar Liz. Vejam, entram cavalos árabes, bailarinos núbios, dançarinas ebúrneas, quadrigas, arqueiros e flechas, fumos e pós mágicos de mil cores, por fim, num gigantesco trono, Cleópatra vestida de ouro. E os seis mil figurantes gritavam o que Burton já muito gemera: Liz, Liz, Liz. O pecado mora no coração do povo.

Cleópatra

Esta é a primeira parte de duas crónicas sobre Elizabeth Taylor. Com as pernas de Richard Burton à mistura.

O senhor não sabe o meu nome, pois não?

O ciclo menstrual de Elizabeth Taylor é que teve a culpa. Vejamos, Walter Wanger só queria a glória. Saíra da prisão por ter dado uns tiros bem aviados, mas não mortais, ao amante de Joan Bennett que, não fortuitamente, era a sua querida mulher. Antes, fora o produtor que descobrira Valentino, que fizera da Garbo a Rainha Cristina, que em “Stagecoach” juntara dois Johns, um Ford, outro Wayne. Queria fechar a idade de ouro de Hollywood e a sua com um épico: subir o Nilo e ajoelhar-se aos lindos pés de Cleópatra.

Escolheu Elizabeth Taylor. Meio a brincar, ela pediu um milhão de dólares, como só Marlon Brando pedira. Nunca uma mulher ganhara um milhão. Spyrous Skouras, boss da Fox, veterano que falava inglês com três pedras na boca e um véu nos ouvidos, aceitou. No jantar, chamava Cleópatra a Elizabeth. “O senhor não sabe o meu nome, pois não?” E ele, “Mas, Cleópatra…” Ela insistia: “Diga o meu nome. Diga e devolvo-lhe meio milhão do cachet.” “Cleópatra”, balbuciou ele.

Filmou-se. Um ano de rodagem e calamidade e havia uns miseráveis dez minutos de filme, a nevoenta Inglaterra a fingir mal de Egipto, o bafo invernoso de actores, cavalos e camelos a aparecer nas imagens, um realizador despedido. Wanger contratou então o genial Joseph L. Mankiewicz. Ouçam o início de conversa: “Não quero. Por que raio faria um filme que eu nunca iria ver?” Mas aceitou. A massa, kumbu, montes de cheta, três milhões, disse que sim. Levou o filme para Roma, novos cenários, reescrita total do argumento, novos actores.

As pernas de Burton

E chegou Richard Burton, que já tentara assaltar a fortaleza de virtude que era Liz Taylor. Ela lembrava-se, palavras da sua boca, de não ter querido ser mais um furo no cinto do predador. Agora vejam, Burton entra no estúdio de lorica musculata, cíngulo, ombreiras, a túnica, as grevas e já não é Burton. Liz Taylor ainda é Liz Taylor, emprestando a Cleópatra generosos decotes e o que mais relevante deles sobressai – ainda é Liz e tem à sua frente Marco António. Faça-se justiça: nunca Marco António algum teve as pernas que Burton lhe deu. Uma fraqueza de Cleópatra disparou por Liz Taylor abaixo, ou acima, tanto faz, e começou ali o tórrido episódio a que, com a anti bênção do Vaticano, se chamou “le scandale”.

Wanger garantirá já a amarga glória, a tumultuosa catástrofe com que morreu a dourada Hollywood. E a menstruação de Liz? Afinal, e se não se importam, falamos disso amanhã, quando trouxer comigo, de volta, a bela Cleópatra.

Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Greta Garbo: o riso

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses das últimas décadas. Despido de pós-modernismos, com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe.

É lendária a invisibilidade de Greta Garbo. Era, se quisermos, uma anti-Marcelo, que nunca lhe roubará, por mais rouco que um dia esteja, a patética réplica: “I want to be alone.” De tão ausente, quando Garbo aparecia, logo um véu zen amansava a sala. Patrões dos estúdios, tipos de vozeirões tonitruantes, mesmo os nossos CEO das telecomunicações ou de empresas do audiovisual converter-se-iam em modelos de delicadeza e sottovoce, se por engano fossem convidados a vê-la.

Até os méritos de Garbo eram invisíveis. Hollywood demorou cinco anos a descobrir que ela falava. E foi preciso um alemão, Ernst Lubitsch, para descobrir que ela ria. Garbo já mostrara a Lubitsch sorrisos tristes, trocistas, alegres, francos, gentis, mesmo sarcásticos. Contara-lhe até, com divertida ternura, que acompanhara o maestro Leopold Stokowski, um dos seus amores, em digressão a Nova Iorque. Ela esforçava-se por passar despercebida. E ele, a fincar a ponta dos pés na fama, também. Só que, e vejamos o doce sorriso de Garbo, a ele ninguém o reconhecia mesmo, o que lhe provocava uma fúria de primeiro-ministro. Lubitsch adorou a ligeireza narrativa de Garbo e queria-a a fazer “Ninotchka”, o filme de três soviéticos que, controlados por uma vigilante camarada, acabam por se corromper em Paris. Mas saberia ela rir?

Pediu para rir no dia seguinte. E assim foi: “Ernst, estou pronta.” Riu. Era um riso de encher de sol uma manhã de Inverno e, já Lenine tinha morrido, Garbo foi a camarada Ninotchka, a comunista que até os comunistas gostariam de amar.

Em Marilyn tudo era visível. Era tanto o esplendor das formas, que punha uma sala aos gritos, fosse a entrar, fosse a sair. Ainda Marilyn tinha um só pé no estrelato e uma actriz da aristocracia hollywoodiana, Constance Bennett, vê-a a sair de uma daquelas festas de champanhe e vaidade. Todos os olhos se pregaram na ondulação das costas de Marilyn. Bennett, ofendida por tão móvel visibilidade, disse: “Esta putinha tem todo o seu futuro atrás dela.”

Marilyn carregando o seu futuro, segundo Constance Bennett

Na boca, o inimigo

Hitler já a adivinhar a morte, com Estaline na boca

Se fosse a umas transcendentes quatro de manhã, todos compreenderiam. Mas estar, ao prosaico meio-dia, filosoficamente debruçado sobre o conceito de dor é de uma patética desinteligência. Eis a minha piedosa desinteligência, querer saber que dor mais dói.

 Evoco a dor da mãe que perde o jovem filho. Era meio-dia e eu pus-me a imaginar o tumulto do peito materno, a indignada revolta, mesmo os impropérios e a vontade de esfaquear toda a criação, que desmergulham dessa mãe. Quem se atreverá a dirigir-lhe um gesto de apaziguamento, a dizer-lhe um ultrajante “tenha clama”. Essa é a dor épica, a cuja nobreza e horror nos rendemos.

Mas a dor mais indigna, despojada de decoro moral, é a de morrer ao pé dos nossos inimigos. Tive amigos e muitos conhecidos presos em Angola. Torturou-os a DISA, a polícia política que o internacionalismo cubano ou soviético primorosamente treinou. Alguns foram fuzilados. E penso: o torturado que é forçado a entregar a morte ao seu torturador é espoliado do recato e esplendor da sua própria agonia. Roubam-lhe a vida, roubando-lhe o delicado e sábio suspiro da morte.

Dir-me-ão que, em meu benefício, exagero usando exemplos extremos. Calo-me e insisto: morrer ao pé dos nossos inimigos, que coisa terrível!

Não sabemos quem morrerá primeiro, se Donald Trump ou Joe Biden. E já recordo outros dois presidentes da longínqua América, John Adams e Thomas Jefferson. Eram amigos e correligionários. Até Jefferson ser de Adams mais objurgatório que António Costa foi de Passos Coelho. Quando Adams se candidatou a um segundo mandato, Jefferson concorreu contra ele e arrasou-o numa campanha amarga.

Vinte e seis anos depois, o ex-presidente Adams, o único presidente desse tempo que nunca teve escravos, morreu. Foi no dia 4 de Julho de 1826, comemoravam-se os cinquenta anos da Independência americana. E ouçam, ponham o ouvido perto da sua boca exangue. A última palavra que Adams diz, quase um sussurro, não sei se recriminatório, se humedecido por uma gota de saudade, é: “Jefferson”.

Adams morre com o inimigo que lhe roubou uma eleição na boca. Não sabe que, por desatada ironia dos paródicos deuses, Jefferson morrera nesse mesmo dia, quatro horas antes, roubando-lhe a precedência e fazendo dele o morto posterior. E Biden e Trump, morrerão sussurrando o nome um do outro? Morrerão no mesmo dia? Terá Hitler, ao morrer, sussurrado o nome de Estaline? Ter na boca o inimigo é um inconsentido fellatio.

Os velhos políticos ou artistas de génio estão mortos antes de morrer. Sou do tempo do obituário. Muito antes de ele morrer, era comum actualizar-se o obituário de Fidel de Castro. O jornalista podia ir almoçar tranquilo: “Está tudo pronto, Fidel pode morrer à vontade.” Poucos deram tanto e tão longo trabalho à necrologia, como Fidel.

H. G. Wells, de quem tanto devemos ler “A Máquina do Tempo” como “A Guerra dos Mundos”, disse um dia: “Não há paixão no mundo, amor ou ódio, que iguale a paixão de alterar o manuscrito de outra pessoa.” O inimigo que entra na nossa morte altera-nos o mais precioso manuscrito, o da vida. Por lhe impor um personagem indesejável, por roubar ao protagonista a sua última, distinta e rubra palavra. Disse rubra e penso nas bolas de golfe de Rudyard Kipling. Esse escritor pintava de vermelho as bolas de golfe para poder jogar nos dias de neve. É humilhante, ou pelo menos triste, que a nossa morte, roubada pelo inimigo íntimo, não seja uma bola vermelha, distintíssima, a correr pelo manto de neve que é o alucinado fim da vida.

Publicado no Jornal de Negócios